TRATADO DAS ILUSÕES – A perspectiva do engano

Do ponto de vista do indivíduo, uma ilusão não precisa ser, necessariamente, uma ilusão. Ela pode fazer parte da realidade. Basta se ter a doença mental adequada, ou o nível de ignorância requerido. De doenças mentais eu não entendo bulhufas, mas, quando se trata de ignorância, eu sou um especialista.

Ignorar significa “não saber”, e isso já diz tudo sobre aquele que ignora, o ignorante. Todos nós somos ignorantes acerca de quase tudo. Existem pouquíssimas coisas na vida em relação às quais poderíamos dizer, com segurança, “eu sei”, sem que isso fosse, também, uma ilusão.

E a quem chamamos de “sábio”? Àquela pessoa que sabe “tudo”? Ou àquela figura estereotipada do velhinho chinês que dá bons conselhos? Ninguém sabe de tudo, mas esse sábio chinês poderia ser um profundo conhecedor das emoções humanas e da influência que elas exercem na interação entre as pessoas, o que tornaria seus conselhos muito mais úteis e acurados para um casal, do que aqueles que viessem de uma freira virgem dando “aula” num curso de noivos. Só que, fora desse campo do conhecimento, aquele sábio seria apenas uma pessoa “normal”, que sabe tanto quanto qualquer outro sobre tudo o mais. Em outras palavras, mais um ignorante.

A ignorância sobre um determinado fato certamente levará alguém a agir como se conhecesse a verdade sobre ele. Em outros tempos, a verdade estabelecida era a de que o Sol girava ao redor de uma Terra-plana-centro-do-universo; e a primeira alegação de que era a Terra, esférica, que girava em torno do Sol foi recebida com… digamos… uma certa “ira”, visto que isso ia de encontro não só à percepção que as pessoas tinham do mundo à sua volta, como, aparentemente, também contradizia um certo livro muito conceituado à época.

Ora, mas como querer fazer com que uma pessoa não confiasse nos seus próprios sentidos? A verdade a que alguém se apegava, então, era a pura constatação do que os olhos viam, pois, de fato, o Sol parecia girar ao redor da Terra; embora, como já mui matreiramente lembraram outros antes de mim, não pareceria em nada diferente se fosse o contrário. 

Como certas verdades não admitem referencial, uma maneira de tirar isso a limpo seria fazer com que um daqueles irados defensores da Terra-plana-parada pegasse carona com o Super-Homem, e decolasse para muito além da exosfera — tal qual Jesus Cristo fez um dia, sem máscara de oxigênio, sem roupa de proteção contra os raios cósmicos, e exposto ao frio do zero absoluto — , para se posicionar um pouco antes da órbita de Marte, e testemunhar, com seus próprios olhos, um certo globo azul se movendo em volta do Sol, como faziam outros tantos até ali, e dali para mais além.

Verdades não podem ser relativas, nem, suponho eu, relativizadas; mas ilusões, ao contrário, não são nada além disso: uma visão deturpada das coisas, por conta das armadilhas e fraudes que o nosso próprio cérebro nos impõe, dependendo do tamanho da nossa ignorância, da gravidade da nossa doença mental, ou da distância que voamos nas costas do Super-Homem.

Pois aquele um, o do passeio cósmico, sem dúvida poderia se dirigir aos seus contemporâneos, quando regressasse, para comunicar o quanto eles todos estavam errados sobre o que se admitiu, por tanto tempo, ser verdade: 

A Terra não era plana: era esférica. E também não era o centro do universo.

O centro do universo era o Sol.

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3 Respostas

  1. […] TRATADO DAS ILUSÕES – A perspectiva do engano […]

  2. Muito bom o Tratado das Ilusões, parabéns!

  3. […] – A perspectiva do engano […]

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