TRATADO DAS ILUSÕES – A fé vista de cima

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A ilusão de uma Terra plana estacionária não resistiria a um passeio com o Super-Homem até à distância que nos separa de Marte. De uma perspectiva privilegiada, certos equívocos se desfazem sozinhos, dispensando qualquer conhecimento científico, teoria ou filosofia de contestação.

Tecnicamente falando, qualquer ilusão cuja causa fosse aquela mesma perspectiva limitada da realidade poderia ser eliminada do mesmo jeito, através da contemplação pura e simples, só que de uma distância mais imparcial. Entretanto, ilusões podem, às vezes, ser tão necessárias ao indivíduo, e desempenhar um papel tão fundamental na sua vida, que ele se recusará a se desfazer dela, evitando tomar esse distanciamento, ou até mesmo chegando a concluir que a ilusão seria a provocada por essa visão maximizada das coisas, da perspectiva do Super-Homem. Não é à toa que a religião se esforça tanto para que seus adeptos se sintam tão miseráveis e dependentes, incapazes de voos além da altura dos seus dogmas, justamente para que possam ser aprisionados numa Terra plana e estática, onde a realidade lhes é imposta através de mensagens tolamente codificadas e sem assinatura do remetente.

Dessa visão paroquiana, a crença na existência de Deus se reforça e se estabelece como verdade inquestionável. Ignorando crenças (em outros deuses) tão fortes quanto a sua, e sem levar em conta a mesma fé inabalável que outros tantos iguais demonstram ter em divindades incompatíveis entre si, o religioso cristão segue vivendo a sua vida sem precisar se questionar sobre os outros deuses, seus livros sagrados, seus milagres, seus planos e suas regras.

Se contemplasse das alturas a fé que alega ter, de onde ela seria visualizada como apenas mais uma dentre muitas, o crente em Deus se veria obrigado a considerar como verdadeira apenas uma das seguintes possibilidades:

a) todos os deuses são reais; ou

b) nenhum deus é real.

Isso porque, além da própria vontade de estar certo, nenhum crente de nenhuma religião pode descartar o deus alheio, uma vez que eles todos se revelam da mesma forma, manifestam-se do mesmo modo e são percebidos do mesmo jeito. E é esse o grande inconveniente de apreciar sua própria fé de uma altura maior do que a torre da sua igreja, ou cumeeira da sua boca de culto. Como o Deus bíblico, por definição, teria que ser o único, a opção “a” precisaria ser considerada falsa pelo cristão, e a que sobra o deixaria órfão de um “Criador”.

E, como aquele que voou até próximo de Marte para ter sua ilusão substituída pela verdade de um globo azul errante, o cristão teria também a sua “verdade” atualizada, mas, dessa vez, não haveria nada para pôr no lugar. Como seria esse o resultado de um passeio de Super-Homem, ele prefere, então, a comodidade, a segurança, o conforto e os prazeres de poder continuar preso ao chão, mesmo que seja o chão de uma Terra plana e imóvel, que serve de palco para uma gincana ridícula concebida por um Deus impossível.

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7 Respostas

  1. […] TRATADO DAS ILUSÕES … on TRATADO DAS ILUSÕES –…Jesus Cristo_O on #6 Deus quer a […]

  2. Não vou, aqui, generalizar, ao menos não pretendo … mas tenho uma leve impressão que o ateu (no caso, o Barros), na verdade é um grande medroso: falta-lhe coragem para buscar DENTRO DE SI aquela essência…
    Então, envolto nesse medo – justificável, por sinal – o indivíduo se dá ao trabalho de criar um blog chamando Deus de ilusão…
    O medo do incompreensáivel faz isso~. O cara, por não compreender, chama de ilusão. É mais CÕMODO ficar numa zona de conforto do que olhar-se como parte de uma essência divina: buscar a si mesmo dói…
    Na verdade, o ateu, ainda que de maneira incosnciente, RECONHECE a existência de Deus, mas como falta-lhe CORAGEM para tentar compreendê-lo, FOGE DE SI MESMO…

    “O essencial é invisível aos olhos”

  3. L R COSTA, eu vou pro Inferno e você, para o Céu. O que é que tá te incomodando mesmo?

  4. O deus cristão não se revela, não mostra a cara, não age … Sobra aos seus seguidores a ingrata e inglória tarefa de convencer que os descrentes estão errados. E eis a grande, temível e terrível prova de que os cristãos sempre estiveram certos : sua fé.

  5. Sua visão de céu e inferno, meu caro Barros, é exatamente a minha, por mais pardoxal que seja: somos NÓS que fazemos nosso “céu” ou “inferno”.
    Você se baseia num ponto de vista ULTRAPASSADO, infantil até. Se estudasse um pouquinho só as VARIANTES da fé, não seria tão boba sua argumentação…

  6. […] – A fé vista de cima […]

  7. Aonde está escrito na bíblia que a fé tem variantes?

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