TRATADO DAS ILUSÕES – Como não enxergar o óbvio


.

Os primeiros de nós que viram dois grupos de marmanjos se desafiarem a conduzir uma bola através de um campo, sem usar as mãos, certamente acharam a coisa toda de uma tolice sem igual. E quando se analisa o quadro, sem as cores que a nossa sociedade lhe emprestou, é uma idiotice mesmo. Mas aqueles primeiros futebolistas não pensavam assim. Uma, porque, para eles, aquilo tudo fazia sentido, pois, mesmo improvisadamente formuladas, o jogo tinha já suas regras e metas. Outra, porque o exercício coletivo lhes trazia recompensas concretas, como divertimento e condicionamento físico, por exemplo.

Não é difícil de imaginar que mesmo sendo, em essência, uma tolice sem tamanho se ocupar em conduzir uma bola com os pés — ou seja lá com o que fosse — para dentro de um lugar específico no campo do oponente, uma vez que a atividade trazia certos benefícios reais a seus participantes, e era indiscutivelmente prazerosa e contagiante, ela passou a ser apreciada e difundida, ganhando cada vez mais adeptos.

O tempo se encarregou do resto. Regras simples, facilidade de entendimento e execução do jogo, que acabou se estabelecendo na tradição das brincadeiras infantis; idealização de times, surgimento de rivalidades, difusão global, mídia, marketing, campeonatosinteração social, patriotismo. De repente, não eram mais dois grupos de marmanjos inexplicavelmente correndo atrás de uma bola; eram equipes de atletas bem treinados, de várias nações, tentando obter o status de campeã do mundo no mais famoso esporte que existe. De repente, por causa daquela diversão boba, surgiram megaempresas de considerável poder econômico; e celebridades mundiais que ganhavam a vida recebendo fortunas para fazerem o que muitos de seus fãs praticavam como lazer, nos fins de semana; às vezes até pagando pra isso.

Hoje, o futebol, como a quase totalidade dos esportes que começaram do mesmo jeito, não pode mais ser visto como uma brincadeira tola.

E esse mesmo processo se deu com a religião.

O cristão, por exemplo, não consegue mais perceber absurdos evidentemente ridículos como cobras e burras falantes, frutas mágicas, gente voando para o céu… e seres perfeitos, completos e eternos que precisam desesperadamente do nosso amor. Ele agora só tem olhos para a religião, para o sistema que começou assim, mas que é, agora, muito mais do que isso. Ele, hoje, enxerga e considera apenas o status que é pertencer à religião que pertence, que será tão mais imponente e importante quanto mais numerosos e onipresentes forem seus membros, mais conhecidas e influentes suas personalidades, e mais abrangente sua campanha de marketing.

Graças a seus templos, à fama do seu livro sagrado, a suas denominações diversas competindo entre si por fiéis; ao seu apelo social e ao tradicional vínculo com a identidade de um povo; a suas celebridades nacionais e internacionais; graças a uma áurea de autoridade adquirida à custa de muitas vidas e sofrimento dos que lhe embargaram o caminho, ou lhe contestaram as alegações; graças a todo esse significado estrondoso e estonteante que se passou a atribuir à religião, é possível esperar que as pessoas deixem mesmo de enxergá-la pelo que ela realmente é: uma brincadeira tola, uma coleção de rituais bizarros, mitos infantis e superstições idiotas, tudo isso inventado por nós mesmos em tempos pré-históricos, quando ainda éramos todos crianças, e a única coisa que podíamos fazer em relação aos inúmeros “mistérios” que nos cercavam, atiçando nossa curiosidade e nos enchendo de perguntas, era inventar as respostas.

.

 

.

Anúncios

12 Respostas

  1. […] TRATADO DAS ILUSÕES … on TRATADO DAS ILUSÕES –…Felipemescouto@gmail… on DeusILUSÃO.comMarcelo Alves […]

  2. A primeira postagem do meu blog também foi uma comparação de futebol com religião:

    http://opinioesdobandeirinha.blogspot.com/2011/03/introducao.html

    Mas o meu foco foi nas semelhanças de comportamento das pessoas.

  3. Gustavo Milaré, eu vi lá e achei o texto muito bom. Agora entendi o nome do seu blog. E já linkei aqui no meu.

    Só não concordei com isso:

    Porém, é justo dizer que a escolha da religião é a decisão mais importante que uma pessoa pode fazer,

    Religião não é uma questão de escolha.

  4. Gustavo.

    “Porém, é justo dizer que a escolha da religião é a decisão mais importante que uma pessoa pode fazer, ”

    Concordo contigo em gênero, número e grau.

    Uma vez que essa escolha pode definir questões que podem vir a ser eternas.

    Grande verdade a que você disse.

    Fica na Paz.

  5. Pois é.

    Só explicando melhor, ao Gustavo Milaré, a minha “discordância”.

    Eu disse que RELIGIÃO não é uma questão de ESCOLHA porque os casos em que, digamos, alguém “muda” de religião, deixando de ser católico para se converter ao islamismo, por exemplo, são, obviamente, exceções. E, ainda assim, eles estão mudando somente em parte, visto que judaísmo, islamismo, e cristianismo são versões diferentes de uma mesma “crença”, logo, a escolha deles se resume a versões de uma mesma fé.

    E se já é raro um cristão se converter ao islamismo, mais raro ainda seria ele trocar o seu “sistema” de crença, digamos, saindo do catolicismo e se convertendo ao xintoísmo.

    Isso porque cada nova geração já nasce na religião de seus pais, da sua família e da sua sociedade. Religião é tradição. Eu nasci numa família católica, num país católico, fui doutrinado numa religião católica. Não escolhi isso.

    Uma pessoa não pode “escolher” sua religião, do mesmo modo que não pode escolher sua língua-materna.

    E quando alguém sai da Igreja Universal do Reino de Deus e se filia à Igreja Mundial do Poder de Deus, por exemplo, ela não está escolhendo nada além do circo que quer frequentar.

  6. Mais um excelente “Tratado das Ilusões”! Quem é o autor da pintura?

  7. É, Valdêmio Barros, eu concordo, as pessoas em geral não escolhem a própria religião, ela não pensam a respeito do quê devem acreditar ou não. Em vez disso, elas nascem com um determinado conjunto de crenças, crescem e morrem sem parar para conhecer outras crenças ou valores e sem tentar aprender ideias diferentes. É isso o que eu quis dizer na parte do texto de onde você tirou esta frase :)

  8. Melhor dizendo, elas nascem em um determinado conjunto de crenças. Porque ninguém nasce acreditando em alguma coisa.

  9. Gabriel, obrigado. De onde eu copiei a pintura também não tinha a informação do pintor.

  10. Gustavo Milaré, concordamos agora, então. Grande abraço.

    Agora vou dormir porque estou há quase 40 horas acordado!

  11. […] – Como não enxergar o óbvio […]

  12. […]  Parte 6 – Como não enxergar o óbvio […]

Deixe um comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: