TRATADO DAS ILUSÕES – O compromisso de acreditar


Uma cerimônia religiosa, como um culto evangélico ou uma missa católica, é algo muito próximo do que se passou a chamar de happy hour, aquele encontro com os amigos no barzinho da esquina, após o término do expediente. Como o próprio nome sugere — hora feliz —, as pessoas parecem não se sentir tão contentes assim nas outras 23 horas do dia. A happy hour seria um descanso, ou fuga, da condição predominante do cotidiano de cada um de nós, que também atende pelo nome de realidade.

Sem dúvida, alguém poderá encontrar, numa mesa de bar, pessoas felizes, perfeitamente saudáveis, profissionalmente realizadas, vivendo um relacionamento afetivo estável e prazeroso, sem nenhuma dívida, sem problemas familiares ou pessoais que lhes roube o sono, etc., que estão ali pura e simplesmente para se divertir com os amigos numa conversa despretensiosa e animada; mas não há como acreditar que esses sejam a maioria e, sim, a mais rarefeita e improvável das exceções. 

Mesinhas de bar estão repletas de gente que paga por alguns momentos de fuga da realidade, num ambiente em que possam fingir sem culpa ser o que não são, enquanto procuram pela oportunidade de cumprir a ordem divina que manda nos multiplicarmos. E o fingimento é indispensável porque o sexo oposto, geralmente, não demonstra se sentir muito atraído por pessoas infelizes, endividadas, e emocionalmente mal resolvidas.

Como quase ninguém conseguiria fingir tão bem assim, o jeito é apelar para uma droga legalizada que tem o efeito de embriagar nosso cérebro, e enganar até a nós mesmos, uma vez que faz o tímido esquecer que é tímido, e o feio esquecer que é feio.  Mas dependendo da quantidade ingerida, o álcool pode até alterar muito os reflexos do indivíduo e o seu senso de perigo e de responsabilidade, o que torna muito arriscado o ato de dirigir, por exemplo; como, também, alterar demasiadamente o seu conceito de beleza, o que torna muito arriscado ele acabar por escolher alguém para “se multiplicar” que nem sua mãe, nem Darwin, nem Deus aprovariam.

Um evento religioso segue os mesmos moldes. São happy hours em que os crentes se reúnem para se iludirem, sem culpa, e reforçar a ilusão dos outros, fingindo todos viverem num mundo cujo criador e gerente é um ser supremo que os ama muito, e que tem por eles especial carinho e atenção. Na falta de uma cerveja, eles se embriagam de cânticos e ritos, de sermões e de retórica, de salmos e de evangelhos. Uma ladainha repetida, repetida e repetida a tanto tempo, que os vence e convence pelo cansaço, e acabam eles todos embriagados dessa mentira em que, por força do hábito, se acostumaram a acreditar.

Como durante a semana que passou o mundo pareceu não se importar muito com eles, e como o seu amigo imaginário superpoderoso não se mostrou nem muito útil, nem amável, nem atencioso, eles aproveitam essa hora feliz para se esbaldarem na certeza de que estavam errados quando se sentiram sozinhos, desprotegidos e abandonados pelo seu Deus. É essa certeza fingida que alegra, conforta e contagia. E essa alegria é tão real, esse conforto tão bem-vindo, que eles mal podem esperar para voltar ali, no fim da próxima semana, para sentirem tudo de novo, e suportar mais outros seis dias de realidade.  

O que sobra disso? O vício, a dependência psicológica desse alívio momentâneo propiciado pela companhia agradável de alguns amigos, e pelo uso compartilhado dessas drogas legalizadas, cujo principal efeito (e atrativo) é justamente o de fazer com que as pessoas fujam um pouco de suas próprias vidas, durante umas poucas horas na mesinha de um bar, ou na missa de domingo.

.

 

.

Anúncios

8 Respostas

  1. […]  – O compromisso de acreditar  […]

  2. Barros não sei se vc assistiu mas isto aqui resume tudo:

  3. Na boa, Barros, tá na hora de você selecionar seus melhores textos, revisá-los e publicá-los em um livro. Tu tem talento, cara, não se encontra na internet alguém que esceva como você (relacionado à Deus e ao ateísmo, lógico)! Abraço

  4. Gabriel M., muito obrigado… rsrrsss Eu vou aceitar o conselho e fazer mesmo uma seleção dos meus textos para reunir tudo num volume. Mas acho que só vou ter condição de mandar publicar daqui a uns 5 ou 10 anos… Talvez eu já antecipe agora só a impressão dos meus melhores textos pra encadernar e deixar na mesa de centro da minha sala; na capa preta eu vou mandar gravar em letras vivas: A Bíblia do Barros. kkkKK

  5. ADAMANTDOG, muito “instrutivo” esse vídeo. Vou ver se dá pra colocar ele no blog com algum texto pertinente. Obrigado.

  6. Vermes!

  7. […] – O compromisso de acreditar […]

  8. […]  Parte 7 – O compromisso de acreditar […]

Deixe um comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: