Voo e Queda (Episódio 1, parte 4)

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O avião de prefixo PT-OSR decolou de Recife para Teresina com os tanques cheios: 1.461 litros de querosene de aviação. No trecho de ida, Recife-Teresina, a aeronave consumiu 676 litros daquele total, sobrando nos tanques 785 litros, o que, em tese, seria suficiente para voar de volta a Recife, com “folga” de 109 litros:

785 (nos tanques) – 676 (consumo de Recife para Teresina) = 109

Ou seja, tudo dando certo, o piloto pousaria em Recife com 109 litros de querosene de sobra, quantidade suficiente para 21 minutos de voo em nível de cruzeiro, quando a aeronave está nivelada em alta altitude. 

Pela legislação aeronáutica internacional, entretanto, aquele avião teria que ter deixado Teresina com, pelo menos, 1.026,7 litros de combustível. Com essa quantidade, a aeronave poderia ter voado até o destino, Recife, e, se necessário, teria conseguido prosseguir para o aeroporto de alternativa, tendo, ainda, combustível extra para voar mais 45 minutos, como margem de segurança.

Mas o piloto não parecia estar preocupado com a segurança, e não abasteceu o avião em Teresina, onde o preço do combustível era 40% maior do que em Recife. Por isso, no ato do preenchimento do seu plano de voo, ele foi obrigado a mentir e informar que a aeronave tinha autonomia para voar durante 4 horas, quando, matematicamente falando, ela poderia se manter no ar por apenas 2 horas e 31 minutos.

Só que essa matemática foi feita admitindo-se o voo nivelado em altas altitudes, onde o ar é rarefeito. Durante as decolagens e pousos, em que o aparelho executa várias manobras abaixo das nuvens, o ar mais compacto exige um consumo bem maior de combustível. Comparativamente, é a mesma razão pela qual seu carro consome mais no tráfego da cidade, onde se usa muito as primeiras marchas para vencer a inércia, do que quando se mantém a uma velocidade constante em quinta marcha numa BR. 

Não se sabe se por ter desconsiderado isso, ou se por puro esquecimento da situação crítica do combustível, o piloto não declarou emergência quando, a 10 minutos do pouso, o controlador de voo o instruiu a fazer um desvio de 3 minutos, afastando-se do aeroporto, por causa de um Boeing de uma empresa comercial que iria pousar à sua frente. 

Ora. Então, você  está pilotando um avião abastecido para voar 2 horas e 31 minutos (matematicamente falando). Como você sabe que já voou por 2 horas e 10 minutos, dá para calcular de cabeça que lhe restam apenas 21 minutos de voo. Mas você sabe, também, que está voando abaixo das nuvens, onde o ar mais denso exige um maior consumo de combustível do que nas altas altitudes, que foi o que se considerou naqueles cálculos. Logo, você conclui que não tem 21 minutos de voo. Talvez tenha só uns 10. Talvez menos.

Aí o que acontece? O controlador te manda voar 3 minutos se afastando do aeroporto, para dar passagem a outra aeronave. Contando com os 3 minutos que você vai ter que voar de volta, lá se vão 6 preciosos minutos dos 10 que você “acha” que tem. 

Numa situação dessas, bastaria que o piloto tivesse transmitido na frequência de rádio da torre de controle algo como:

— MAYDAY! MAYDAY! MAYDAY! Estamos quase sem combustível aqui!

O controlador de voo, também levando em conta a legislação aeronáutica internacional, teria dado prioridade ao pouso do King Air em emergência, tirando da frente qualquer voo que fosse lhe atrasar o pouso. 

Mas o piloto não fez isso. E seu copiloto — que não era habilitado naquele tipo de aeronave, e estava voando ali a convite do piloto, seu amigo, apenas para um treinamento informal — bem… o copiloto não sabia nada a respeito do pouco combustível que restava nos tanques.

Durante as investigações, ele disse que, depois que os alarmes começaram a soar ao mesmo tempo na cabine, ele só veio a conhecer o problema quando o motor esquerdo do King Air parou de funcionar, fazendo a aeronave se inclinar perigosamente para a esquerda, enquanto o piloto gritava em desespero ao seu lado:

— O combustível! O combustível!!!

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3 Respostas

  1. […] EPISÓDIO 1   Parte 2  –  Parte 3  –  Parte 4 […]

  2. Quero logo saber quando é que o piloto vai gritar : me salva meu Deus ! E Deus, vai fazer um cálculo estatístico e por fim decidir a sorte dos desafortunados aviadores .

  3. […] 1:    Parte 2  –  Parte 3  –  Parte 4  –  Parte […]

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