Pequeno ensaio sobre o Vazio


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—  Tome mais um pouco de chá —  disse a Lebre Maluca a Alice, muito seriamente.

—  Ainda não tomei nada —  Alice respondeu num tom ofendido: — então, não posso tomar mais.

—  Você quer dizer que não pode tomar menos —  disse o Chapeleiro: —  é muito fácil tomar mais do que nada.

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“Nada” é algo absurdamente impensável. É sempre mais fácil haver alguma coisa no lugar. Qualquer coisa. Por mais infinitesimal que seja. Do que apenas nada.

Não podemos conceber o nada absoluto, talvez pelo simples motivo do nada absoluto ser inconcebível. Até o vácuo entre os planetas e entre as galáxias é atravessado constantemente por uma quantidade significativa de coisas. Um fóton, ou a mais elementar das partículas subatômicas que seja, já é alguma coisa. E onde há alguma coisa, por definição, não pode haver “nada”. O “nada” deixa de existir sempre que há alguma coisa nele.

Nossos cérebros não são capazes de lidar com o nada absoluto, daí usarmos de forma equivocada essa noção internalizada. Por exemplo: se você “esvazia” uma caixa de sapatos e alguém, depois, pergunta o que tem na caixa, você tenderá a responder: “nada”. A caixa está vazia? Sim, mas vazia de sapatos, ou de fotografias, ou de cartas de amor. Vazia de coisas que poderiam estar dentro dela e não estão. Essa é a definição de “nada” a que recorremos para vivermos nossas vidas.

Os primeiros árabes que aprenderam a somar, ficaram terrivelmente incomodados com o vazio gerado nas colunas das suas contas quando os resultados mostravam dezenas, ou centenas, ou milhares de grupos de dez completos e, então, criaram o zero: 60, 200, 5000.

Os primeiros de nós que tiveram a sorte de terem saciado suas necessidades mais básicas — estando de barriga cheia, abrigados das intempéries, tendo uma fêmea ao lado, etc. — e começaram a pensar no que estava acontecendo afinal, sentiram-se terrivelmente incomodados em não terem respostas e imaginaram o primeiro deus.

É muito fácil criar uma divindade que responda àquilo para o que você não tem resposta; e que explique o que você não entende. Ou isso, ou o vazio de não saber e de não se ter uma explicação. E é sempre muito mais fácil se ter alguma coisa em vez de não ter nada.

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3 Respostas

  1. Sentimos, Barros, mas quanto ao Nada não é bem assim: o Vácuo Absoluto, de fato, é raro (pouquíssimas regiões espaciasi (isto na escala do 10 elevado lá para os menos 23 adiante pro menos) se constata o Nada, nada mesmo, sem sequer uma linhazinha de frequência, ou de uma indução de uma influência que seja; por incrível que pareça isso foi constatado agora em 2011, pelo mesmo Pensador que até agora os Físicos tutelados não podem dar atenção com medo de serem “destruídos” pelo Sistema Falido. Já devia ter lido Genética Cósmica Sinopse. Contudo, quanto ao “vazio” que qualquer um sente em algum momento da vida, isso é facilmente manipulado por deitões vigaristas que correm rápido a enchê-lo de me*da,mentiras, etc.Propósito, Sentido, da Vida, isso é necessidade abstrata de mentes conscientes. Assim que o ser humano se dá conta de que é um ser estudante, ele esboça uns traçados confortantes nesse “vazio”..

  2. Não sei por que vocês, Hunig, sentiram. Não tive intenção (nem tenho a capacidade para) de afirmar que o Nada não existe, mas, exatamente como escrevi, que ele é absurdamente impensável, no sentido de que sempre é possível haver alguma coisa onde a gente acha que não há nada.

    E interessante você falar nesse Pensador… Seria o Haddammann?

    Eu li uns comentários de uma moça aqui no blog, Shannon Ballanne, que falava muito dele, quase no nível da veneração.

    Eu não vejo com bons olhos qualquer tipo de culto a quem quer que seja, seres reais ou imaginários, mas, se você quiser me dar algumas informações, eu agradeceria…

    E você conhece o site da Shannon? Ela andou comentando aqui pelo blog um tempo, mas sumiu. Fiquei sem saber o que são todas aquelas montagens de imagens coloridas que enfeitam os textos dela. Eu li uns 90% do blog lá e não entendi aquilo. E não há explicação sobre do que as imagens tratam. Apenas referências a elas nos textos, como se elas fossem autoexplicativas, mas não são. Inda mais quando se juntam a elas várias fotos do Haddammann.

  3. […] Pequeno ensaio sobre o Vazio […]

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