Orgulho, orgulho meu…

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De que você tem orgulho? Da sua inteligência? Da sua profissão? Do seu país? Da sua coleção de selos? Do seu time? 

Ter orgulho implica em atribuir valores às coisas. Você se orgulhar do seu time de futebol, por exemplo, quer dizer que você atribui valores a ele que considera dignos de exaltação, de louvor, por parte dos demais torcedores — de todos os clubes! Só que os valores que são motivos do “seu” orgulho é você quem escolhe. Seu time do coração pode ser um fiasco, perder uma partida após outra; mas você reconhece que é um grupo que, apesar das dificuldades, continua muito unido e se esforçando por melhores resultados. Os torcedores do time que está em primeiro lugar na tabela do campeonato estariam orgulhosos, também, só que por outros motivos.

Se eu passo em primeiro lugar num concurso público que vai me proporcionar um salário de vinte mil reais, eu teria motivos de sobra para me orgulhar. Mas o último colocado nesse mesmo concurso também teria motivos de orgulho, visto que ele vai ganhar o mesmo que eu, bem como conseguiu suplantar, da mesma forma, uma infinidade de outros concorrentes para ficar com a vaga. Não resta dúvida, entretanto, de que o meu orgulho seria ainda maior do que o dele, porque eu estou considerando uma variável que ele não está: o posicionamento dos classificados. Mas nos dois casos, nós estaríamos nos vangloriando pelos nossos próprios méritos ou condição. Isso é o que significa ter orgulho.

Eu sou ateu, mas não vejo motivos para ter orgulho disso. Orgulho não é a palavra que define a minha satisfação em ser como sou. Não vejo motivos para sentir orgulho por ser ateu, assim como não vejo motivos para sentir orgulho por ser adulto. Também não sentiria orgulho da minha vida confortável, se estivesse visitando uma horda de miseráveis; nem da minha parca intelectualidade, se cercado de analfabetos.

Por que eu deveria sentir orgulho de ser ateu? Se eu fosse gay, por que eu deveria sentir orgulho disso? Se eu fosse negro, por que deveria sentir orgulho de ser negro? Será que um negro deve sentir orgulho de sua raça? De ter, essa raça, sobrevivido a tantas injustiças, perseverado e conquistado, com tanto esforço e à custa de tantas vidas, o direito de não ser discriminado, de não ser visto como um ser humano diferente — e inferior — por conta da cor da sua pele? No momento em que um negro se sente orgulhoso de “sua raça”, ele mesmo está, inadvertidamente, fomentando a discriminação que o oprimiu por tantos séculos.   

Acredito que as pessoas se equivocam quando usam certos conceitos, tentando exprimir o que buscam em defesa de certas causas.

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Continua…

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7 Respostas

  1. Olá Barros.

    Concordo com as afirmações de até então. Como quase sempre, seus textos são muito bem escritos e por isso sou leitor assíduo do blog. Mas enfim, o que você diria da palavra/conceito vergonha? Ela pode ser definida como o contrário de orgulho ou você acha que essa é uma outra falsa simetria ?

  2. Muito bom texto, como sempre. Parabéns.

  3. Muito obrigado, Senhores. Não espero que todo mundo concorde comigo, mas pretendo, com esses textos, só explicar por que não acho conveniente se falar de “orgulho ateu”. Acredito que, para os nossos propósitos, só “Dia do Ateu” já seria o suficiente.

    Fernando, meu nobre, vergonha não é o oposto incondicional de orgulho. É claro que, em certas situações pode ser sim. Por exemplo: se você aparece num vídeo divulgado no JN presenciando uma cena em que alguém está correndo risco de vida e você não fez nada, quando fica evidente que poderia ter tomado uma atitude, sem riscos para você, que salvaria a vida da pessoa, então você sentirá vergonha. O oposto da sua inação, ou seja, se tivesse agido e salvo a pessoa, seria motivo de orgulho.

    No caso dos ateus e gays, que tomei como exemplo, toda a reclusão a que se sujeitaram até os nossos dias não foi devido à vergonha de sua condição, mas por puro “medo” da reação da família, dos amigos e da sociedade.

    Grande abraço.

  4. *Risco de vida – alguns preferem a expressão risco de morte, mas apenas por conta de um fenômeno linguístico chamado “hipercorrecionismo”. Expressões idiomáticas não precisam, necessariamente, fazer sentido. Elas apenas se correlacionam com uma ideia: risco de vida –> risco de perder a vida.

  5. E se considerarmos que “orgulho XXX” já virou expressão idiomática? Aí pode se justificar o uso.

  6. […] – Orgulho, orgulho meu […]

  7. Eu não sei como você pode escrever tão bem, seus artigos são excelentes.
    ____________________________
    http://nascimentoturismo.net

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