O que precisa ser dito sobre deuses (parte 2 de 5)

 <<PARTE 1

Autor: Caio L. Aidar — paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

O Argumento Cosmológico

Todo efeito tem uma causa. Se o Universo existe, então ele teve uma causa, pois não existe efeito sem causa, e ele não poderia ter criado a si mesmo, a partir do nada, pois, nesse caso, ele seria causa e efeito ao mesmo tempo, o que é impossível. Se retrocedermos na cadeia de causas, teremos uma série infinita que precisa ser interrompida, caso contrário nunca teria havido um primeiro efeito e, portanto, não existiríamos. Esta Causa Primeira é Deus; um ser incausado, imóvel, eterno, sustentáculo e criador do Universo em que vivemos. 

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Este argumento apresenta três erros que o tornam totalmente inválido. O primeiro não é tão visível assim, e, para identificá-lo, é necessário um olhar mais treinado. Já os outros dois são simplesmente grosseiros.

Em primeiro lugar, o significado da palavra “causa” foi distorcido para que o argumento parecesse mais confiável. Inicialmente, temos “causa” em uma perspectiva científica, significando de fato “causa e efeito”. Posteriormente, o sentido é radicalmente mudado: agora temos a palavra “causa” significando algo como “[o Universo] vir a existir”.

“Criar” é bem diferente de “construir”. O carpinteiro, que é a causa de uma cadeira, não a criou: ele a construiu a partir de materiais que já existiam. Trata-se, na realidade, de uma falsa analogia entre a natureza do Cosmos e a natureza das “criações” humanas, que talvez revele um pouco do nosso antropocentrismo, afinal, o idealizador do argumento parece erroneamente concluir que tudo aquilo que existe deve ser fruto da ação de uma mente projetista, apenas porque neste pequenino ponto chamado Terra existem mamíferos dotados de alguma inteligência que costumam construir (e não criar) seus próprios utensílios.

Agora, vamos aos erros grosseiros. O próprio Deus, cuja existência está se tentando provar, foge à premissa postulada para se chegar a ele. Em um primeiro momento, afirma-se “todo efeito tem uma causa”. Mais adiante, temos que Deus é “incausado”. Ora, se uma dessas duas premissas for verdadeira, a outra obrigatoriamente deverá ser falsa. O argumento é contraditório e, por isso, inválido. Quando afirmamos que algum deus pode ser “incausado”, abrimos espaço para perguntar por que o próprio Universo não poderia ser incausado, o que é muito mais parcimonioso. Talvez a matéria sempre tenha existido. Hoje, ainda não conseguimos falar seguramente sobre isso.

Vale a pena notar que, mesmo se não tivéssemos identificado estes dois erros, ainda assim não estaria provada a existência de qualquer coisa que possa ser intitulada de deus, pois não há motivos racionais para usar deuses como resposta para o problema da regressão infinita de causas e efeitos. As ciências naturais, na tentativa de explicar o mundo e se aproximar o máximo possível da realidade objetiva, também enfrentam o problema da regressão infinita de causas e efeitos e, talvez, nunca encontremos uma resposta definitiva para essa questão. Talvez nunca conseguiremos dar fim à regressão.

E a terceira falha consiste no absurdo de colocar um ponto final neste complexo problema através da simples criação de um ser que se chama Deus, e alegar que ele é Imóvel, Eterno, Criador do Universo, etc. Por que deveria ser essa a resposta? Simplesmente porque o teísta assim deseja? A resposta é: não deveria. Desejos pessoais reconfortantes não servem como evidências em uma discussão. Ademais, se um argumento inconsistente como esse pudesse ser usado para provar a existência de um deus específico, como o Deus dos cristãos, por exemplo, acabaria, então, podendo provar a existência de qualquer outro deus, inclusive provar a existência de dois deuses rivais, que não podem existir conjuntamente, como o Deus Cristão e o Deus Muçulmano.

Por que não era Baal quem estava lá, antes de tudo? Por que não Mitra? Por que não Odin? Por que não adotamos o politeísmo e imaginamos que vários deuses são a resposta para as incógnitas ainda não decifradas pela ciência? Há um oceano de distância entre as premissas postuladas e a conclusão. O máximo que este raciocínio consegue fazer é voltar a uma incógnita e nomeá-la como Deus, e, como já vimos acontecer antes, em períodos inclusive bem recentes da História, chamar nossa ignorância de Deus costuma sempre ser um erro.

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7 Respostas

  1. Caio, gostei muito dos seus textos e estou ansioso pela sequencia, não costumo comentar apesar de acompanhar sempre o blog, mas gostaria de fazer uma correção justamente por estar lendo sobre o assunto hj cedo: O Deus Judaico/Cristão e o Muçulmano são o mesmo Deus, apenas com interpretações distintas de seus respectivos povos e com profetas e messias diferentes.
    A separação dos povos se dá na descendência de Abraão, onde os filhos Isaque (Judaismo) e Ismael (Islamismo) brigam e cada um acaba formando sua própria nação, mas isso é assunto p/ outro tópico…

  2. Nada como um belo exemplo de berço do cristianismo / deus paz e amor para alegrar nossa manhã…

    Cristiano

  3. Sr. Zagar se eles são o mesmo então este deus tem problemas mentais; porque o que esta escrito no corão é bem diferente da biblia!! a começar que eles não consideram Jesus como deus; é licito fazer violencia em nome de alá e assim por diante.
    Examina e o SR.vai ver qeu não tem nada ver um deus com o outro; apenas os povos vieram de uam mesma familia só isto.

  4. Zagar, no Corão é dito, duas vezes se não me falha memória, que não se pode crer no Deus da bíblia. E aos seguidores da bíblia é expressamente proibido manifestar a crença em outros deuses. Assim sendo, não há como se tratar do mesmo deus.

  5. ADAMANTDOG, nesse caso quem tem problema são os povos, já q o Deus é apenas uma caracterização idealizada por esses povos. sendo prático: se dois irmãos cultuam e idolatram um Deus (o mesmo do seu Pai) e vivem separados e seus descendentes cultuam e idolatram esse mesmo Deus, geração após geração, até q cada grupo crie regras especificas e distintas ainda é o mesmo Deus. Mesmo q sejam indistinguíveis.
    Isso só ocorre pq cada um modifica o Deus p/ caber nas suas necessidades, e com 3000 anos e alguns profetas/messias depois parecem até Deuses diferentes.

  6. Al-lah é o deus árabe. Yahweh é o nome do deus hebreu no Velho Testamento. São interpretações distintas de uma mesma divindade. Alá nunca se mostrou aos homens. Em vez disso, Maomé alega ter recebido a visita do anjo Gabriel, que lhe transmitiu os desejos divinos. Os muçulmanos também rejeitam a idolatria a Jesus. Para eles sómente Alá deve ser idolatrado. Acreditam na vida após a morte e no dia do Juízo Final, mas rejeitam a noção da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo). Jesus e Maomé, ( esse existiu de verdade) foram profetas e analfabetos, mas os muçulmanos rejeitam que Jesus seja o filho de Deus. Para eles o Corão é a palavra de Deus. As três religiões são reveladas – ou seja, seus livros sagrados foram comunicados por Deus aos mortais valendo-se dos serviços de intermediários, os anjos e profetas.

    Já Yahweh preferia “interagir” com a humanidade, raramente empregando intermediários. Quando queria que os homens aprendessem algo, aparecia a eles na forma de um arbusto em chamas, por exemplo, como fez Moisés no deserto para convencê-lo de que deveria pedir ao faraó que libertasse os hebreus do Egito.

    Minha opinião completa, sobre o Islamismo, em:
    http://livrodeusexiste.blogspot.com.br/2010/05/capitulo-23-maome-o-isla-alcorao-e-o.html

    http://livrodeusexiste.blogspot.com.br/2010/05/capitulo-24-democracia-um-desafio-para.html

    Jerusalém se tornou o Centro do Mundo e é a cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Jerusalém é a Torre de Babel atual bocas que oram juntas e separadas e onde Deus coloca bombas nas suas mãos e ao mesmo tempo não consegue detê-los, porque simplesmente não existe ou está zangado à bessa. ..

    http://livrodeusexiste.blogspot.com.br/2010/05/capitulo-25-judaismo-jerusalem-o-centro.html

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