O imbecilionismo (parte 4)

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Até agora não apareceu ninguém para mostrar como estou equivocado nas minhas considerações sobre o discurso do teólogo Rodrigo Silva, na parte 1 dessa série de textos. Mas tenho esperança de que ainda venha alguém me desmascarar, me desmoralizar, mostrando como meu raciocínio é falho, e que Deus é mesmo essa Coca-Cola toda.

O item daquele vídeo a ser rebatido hoje, a argumentação a ser despachada para o quinto dos infernos é a eterna lenga-lenga dos milagres.

Milagres, vírgula, porque não dá para usar plural nesse caso, uma vez que o mesmo Deus que fazia e acontecia no Antigo Testamento, teve sua performance muito diminuída no Novo — em que Jesus Cristo se prestou a exibir apenas algumas mágicas de circo — , e, agora, parece só milagrear no terreno das doenças físicas, porque eu mesmo nunca vi nenhum pastor evangélico dentro de um manicômio curando doentes mentais.

Antes, porém, só um pequeno preâmbulo: no vídeo, por volta dos 08:20, o apresentador do programa Evidências cita o sociólogo Rodney Stard mencionando uma previsão iluminista do fim da religião. Ele rebate que, ao contrário do que esses intelectuais — certamente ateus — achavam, a religião tem “triunfalmente sobrevivido”. Aqui ele usa novamente a mágica argumentativa indispensável do imbecilionismo, já citada no texto anterior. Do mesmo modo que, em um momento, ele argumentou que 95-97% da população mundial acreditava “em algum tipo de divindade”, e, logo depois, quis dar a entender que esse percentual se referia aos que acreditavam em Deus, novamente ele fala de “religião” como sendo a religião cristã apenas. Será que só a religião cristã sobreviveu triunfalmente às previsões iluministas? Será que dá para mencionar que o hinduísmo, por exemplo, uma religião muito mais antiga, com sua infinidade de deuses, também triunfou?

A religião em si, independente dos deuses a que se refira, tem, sim, algo muito tentador para se enraizar na vida pessoal e social da nossa espécie. Como todos os vícios, a dependência gera uma força maior para prender, do que a da razão para libertar. Os iluministas certamente não levaram isso em conta na sua previsão.

Mas prossigamos.

Por volta dos 09:50, o teólogo menciona um estudo de Harvard que concluiu que “a meditação e a fé em Deus melhoram a saúde. Até doenças crônicas de tratamentos químicos fortes como os de câncer podem ter seus efeitos aliviados pelo exercício da fé e da meditação em Deus”

Logo depois ele pergunta (10:20): “Estaria o professor de Harvad falando uma besteira?”. E eu respondo: sim, o professor de Harvard falou uma besteira. Primeiro que ele não está dizendo nada com “podem ter seus efeitos aliviados”. Seria o mesmo que um obstetra olhar para sua paciente e afirmar: “A senhora pode estar grávida”. Segundo: baseado em que ele afirmou que só a crença em Deus tem esses efeitos? Será que os crentes hindus não obtêm a mesma coisa dos seus deuses, assim como os católicos conseguem os mesmos favores dos seus santos? Há muito tempo a medicina já reconhece o chamado efeito placebo como a causa desses milagres. A crença em que algo vai te fazer bem pode te trazer resultados benéficos reais, mesmo que esse algo seja apenas uma pílula de farinha, um deus, ou um santo. Assim como também essa crença pode não ajudar em nada, como divulguei no texto O falso poder da oração. Ou seja, às vezes funciona, às vezes não, do mesmo modo que seria se Deus não existisse.  

Mais à frente, (10:48) o apresentador trata de outra pesquisa em que se constatou que “a frequência religiosa a cultos numa igreja, ainda que seja mensal, reduz em mais de 50% as chances de uma pessoa adquirir doenças do coração, enfisema, cirrose, depressão, tentativa de suicídio, e até alguns tipos de câncer”.

Sobre isso, também já divulguei um texto muito interessante aqui no blog, intitulado Eis o mistério da fé, que vale a pena ser lido: explica por que os iluministas erraram no seu prognóstico do fim da religião. Mas eu queria, antes de terminar por hoje, chamar a atenção para duas questões, relacionadas à última declaração acima.

Perceba que a pesquisa concluiu que aquele percentual de imunidade milagrosa se dá quando o culto é realizado numa igreja, numa clara referência à fé cristã. A intenção aqui é disseminar uma ideia ardilosa: a de que tais fenômenos não ocorrem numa sinagoga, numa mesquita, num templo qualquer de adoradores de outro deus. 

Outra coisa que quase me fez rir: como se faz o cálculo para descobrir que houve uma redução de mais de 50% nas chances de uma pessoa tentar o suicídio? 

Pense a respeito e você vai ter uma noção mais clara de como se processa o imbecilionismo. 

. 


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8 Respostas

  1. O professo de Harvard deve ter feito uma pesquisa celestial.
    Nao sei como uma Universidade aceita um acefalo destes.

  2. “a meditação e a fé em Deus melhoram a saúde. Até doenças crônicas de tratamentos químicos fortes como os de câncer podem ter seus efeitos aliviados pelo exercício da fé e da meditação em Deus”.

    Isso me fez rir muito! Como ele montou o grupo de comparação de pessoas com câncer incrédulas visto que a esmagadora maioria é de crentes?
    E como montar um grupo neutro de controle nesse caso?

  3. Até agora, nenhum crente que mostre onde meus contra-argumentos estão equivocados.

    O interessante é que os crentes que assistiram esse vídeo certamente concordaram com o que o teólogo apresentou. Aí fica muito estranho imaginar que eles não conseguem dizer nada contra alguém que não concorda.

    Alguém diz que x é verdade e você responde “isto está correto”; aí aparece um que diz que esse x é uma mentira e o mesmo crente não tem argumentos pra fazer valer a sua posição inicial.

    É assim mesmo que funciona a fé.

  4. E o cálculo da redução de 50% nas tentativas de suicídio? Kkkkkkk

    Eu acho que foi assim.

    Num culto qualquer, eles entrevistaram digamos mil crentes. Desses mil, dez disseram que haviam tentado suicídio. Noutro dia, eles voltaram a entrevistar mil crentes. Desses, só cinco disseram que haviam tentado suicídio. Logo, redução de 50% no índice de tentativas de suicídio. Mas eu acho que é porque os outro cinco tentaram suicídio de novo e lograram êxito.

  5. Você, claramente, tenta se AUTO-CONVENCER de que Deus é uma ilusão, Barros. Deve ser-lhe muito angustiante lutar contra uma verdade dentro de si

  6. ANÔNIMO,
    Você, claramente, tenta se AUTO-CONVENCER de que Deus ‘NÃO É’ uma ilusão, Anônimo. Deve ser-lhe muito angustiante lutar contra uma verdade dentro de si

  7. […] 2  –  Parte 3  –  Parte 4  –  Parte 5  –  Parte […]

  8. […] 2  –  Parte 3  –  Parte 4  –  Parte 5  –  Parte […]

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