A honestidade do ateísmo – 2ª parte

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Na América de hoje, há uma linha que não deve ser cruzada em matéria de religião. Acredite no que você quiser sobre Deus ou deuses e você será, pelo menos, tolerado; mas abandone completamente a crença em divindades e você cometeu um ato racional imperdoável. Você se atreveu a sugerir que o mundo natural é tudo o que existe. Isso não vai funcionar.

Os agnósticos são melhor tolerados porque eles parecem estar dizendo que não estão seguros. É preferível que você esteja certo que há um deus. Estar inseguro é admitir que você está, pelo menos, aberto à possibilidade de haver um, mas estar certo de que não há um deus é ser inatingível. Inflexibilidade em acreditar é bom; em descrer, é péssimo.

Esta é uma estranha hipocrisia da crença: você pode alegar que tem conhecimento quando não tem, e chamar isso de realidade. Mas, então, você pode dizer a alguém, que não tem a mesma crença e faz uma alegação de possuir conhecimento, que essa certeza é uma delusão1.

Uma razão para o ateísmo ser tão mal compreendido pelos religiosos é que assim é que tem que ser. Eles não podem combater a sua lógica e honestidade quando seu significado é propriamente definido, então, eles fazem o ateísmo significar aquilo que eles podem mais confortavelmente atacar. O significado de ateísmo é confundido pelos ateus como resultado de vivermos numa sociedade em que esse termo tem sido tão difamado.

Todos os nossos problemas com essa palavra se resumem na diferença entre crença e conhecimento. Ateísmo não é nada mais, nada menos, que a falta de crença numa divindade. Teísmo é “crença na divindade”. Independente do que quer que alguém acredite ou não, se não acreditar em deuses, é um ateu.

Ateísmo não é uma religião. Ateus gostam de dizer que “se ateísmo é uma religião, a ausência de cabelos nos carecas é apenas uma tintura”, ou “se ateísmo é uma religião, então, não colecionar selos é um hobby”. Isso não quer dizer que ateus não possam ter religião, mas a religião deles seria sem deuses ― e elas seriam escolhas individuais, não algo que fosse compartilhado por todos os ateus.

Alguns ateus veem uma diferença entre ateísmo forte e fraco. Ateus fortes alegam que deuses não existem; ateus fracos apenas não acreditam em alguns deles. Não existe uma real diferença entre esses tipos de pessoas. De qualquer modo, nenhum deles acredita em deuses.

Alguns dizem que ateístas fortes “acreditam” que não exista deus algum. Eu esperaria que eles costumem usar a palavra “acreditar” como um sinônimo de “pensar”, embora não seja a mesma coisa. Acreditar que não existe deus algum é tão delusório quanto acreditar que existe um ― quando se define apropriadamente a palavra “acreditar”. Note a sutil diferença entre acreditar que não existe deus algum e não acreditar que existe um deus.

O ateu forte não é aquele que “acredita” que não existe deus algum. Em vez disso, diferentemente do crente, o ateu forte baseia sua alegação em evidências. Com relação a isso, a diferença básica entre o ateu forte e o fraco é a hesitação do ateu fraco em declarar o óbvio, ou examiná-lo. É aí que reside a honestidade do ateísmo. Não há nenhuma evidência da existência de deuses e há boas evidências de que eles não existem. A posição honesta é admitir isso. Tudo que o ateísmo pede às pessoas é a honestidade de admitir que ninguém sabe ― ninguém ― se existe ou não um deus e, a partir daí, se abster da delusão da crença.

Muitos alegam que a posição de não saber é meramente agnosticismo ― mas eles estão errados. Vamos parar um momento e perceber que as pessoas usam os rótulos do jeito que querem. A outra razão do ateísmo ser tão mal compreendido é que a linguagem é uma coisa fluida. Nós estamos constantemente cortando em pedaços o significado das coisas para usarmos certos rótulos e, infelizmente, esse processo resulta na invenção de mais rótulos ― uns poucos interessantemente perfeitos, outros completamente inúteis, e alguns criando mais confusão num assunto já confuso.

Agnosticismo, por exemplo, na mente do povo, é dúvida, é ficar em cima do muro, não certo se há ou não um deus. No verdadeiro sentido da palavra, como T. H. Huxley cunhou, agnosticismo é uma alegação de falta de conhecimento sobre a existência de deuses. Os Gnósticos da história alegavam direto conhecimento de Deus; Huxley, achando que os ateus alegavam conhecimento de que não havia deus algum, decidiu chamar-se agnóstico: ele alegava não ter nenhum conhecimento da existência de qualquer deus.

Mas Huxley era um ateu, entendesse ele o significado dessa palavra ou não, porque ele não acreditava que havia um deus. Quando ele disse que ateus e crentes “tinham resolvido o problema da existência” ― ateus alegando conhecimento de que Deus não existia e teístas dizendo o contrário ― ele estava errado.

É somente por demanda que o ateísmo requer certeza, ou conhecimento, de que deuses não existem, que uma pessoa teria necessidade de uma palavra que descrevesse a falta de conhecimento sobre a existência de deuses. Na sua origem, ateísmo admite uma falta de crença, enquanto que agnosticismo admite uma falta de conhecimento. Nenhum de nós tem conhecimento de deuses ― os agnósticos são aqueles que admitem isso.

Definindo agnosticismo como “declarar não conhecimento da existência de deus ou deuses”, existem agnósticos teístas que admitem não ter nenhum conhecimento da existência de Deus, mas ainda acreditam que ele exista. Existem agnósticos ateus que admitem não terem tal conhecimento e, logicamente, se abstêm de acreditar. Naturalmente existem gnósticos teístas que alegam conhecimento da existência de Deus e acreditam que um existe. Alguém poderia pensar que não deveria haver gnósticos ateus ― aqueles que alegam ter conhecimento da existência de um ou mais deuses, mas se abstêm de acreditar neles ― mas, sem dúvida, eles estão em algum lugar por aí racionalizando sua desconexão diariamente.

1 Delusão: Ilusão afetiva, sensitiva ou intelectual; engano, delírio. (Dic. Houaiss)

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7 Respostas

  1. Olá, faltam mais 3 posts para terminar essa tradução. Semana que vem, vou postar meu texto “Deus, Alice e a Matrix”. Quero contar como foi a primeira e última vez que sorri para Deus.

    Deixei respostas aos comentários passados no próprio comentário. Se alguém que deixou comentário quiser ler minha resposta, basta voltar lá.

  2. legal barros….conte mesmo..isso é de grande importância pra todos nós…existem pessoa que pensam como nós mas têm medo de se expressar pensando estar cometendo um delito.. ou por falta de oportunidade que dê força a elas….este é o momento de se expressar sem medo..
    abração

  3. Nossa Barros, acertou em cheio! Minha mãe mesmo, mais de uma vez, chegou a me pedir como se fosse um favor pessoal A ELA que eu acreditassem em alguma coisa e/ou seguisse alguma religião. Qualquer que fosse, e ela respeitaria. Mas não acreditar em nada? Ah, ela não quer que eu me perca…

    Ah, quanto ao gnóstico ateu, não seria alguém que se diz ciente da não existência de deuses? Acho que nesse caso sim, esses seriam os tais “ateus crentes”
    Devem existir, mas em menor número… nunca conheci ninguém assim, pelo menos.

  4. Texto muito bom mesmo. O que faz com que algumas pessoas tenham mais receios de declarar a descrença absoluta em deuses é, como já diz Dawkins, a coercitividade da religião em contraposição a outros tipos de crenças contrárias a lógica.

    Todos as supostas boas razões para acreditar em deus também podem ser apresentadas para defender a crença em duendes. E todas as de fato boas razões para não se crer em sacís e fadas madrinhas se aplicam ao caso de um deus qualquer.

    O problema é que a crença em fadas madrinhas não tem um aspecto coercitivo: as pessoas não são assassinadas nem torturadas nem escarnecidas nem proibidas de namorar com quem queiram nem apanham dos pais nem são expulsas da escola ou de casa quando declaram não acreditar em duendes, sacis e fadas madrinhas.

    Mas tudo isto pode lhes ocorrer se declaram que não acreditam em deuses… é só por isso que dizer “sou definitivamente ateísta” parece mais difícil do que declarar “sou completamente apapainoelísta”

  5. Pois é, Daniel.
    Tanto que se você falar mal de Jesus para as pessoas aqui no Brasil parece pior do que falar mal de Maomé ou de Buda. Mas se pensarmos bem dá na mesma, afinal foram os três profetas e fundadores de religiões.

  6. Imunes-à-crenças. Sem tirar nem pôr. É o termo suficiente; conclusivo. A-teu sugere forçosamente a suposição do que não existe; daí já faz o serviço para haver o rebu inútil entre enganados e fora de enganações de crenças.
    “Mas você crê em alguma coisa, que a água é azul, por exemplo”. Como é que é? Pra começar a água é incolor (deixe as babaquices de lado que “técnicos” se arremedando de cientistas correm a aparecer falando besteiras).
    E crença obrigatoriamente necessita pelo menos de dois otários em conivência de estupidez ou de “malandragem”.
    Por quê? Porque crença é um aceite de uma “fé” pregada por no mínimo um e acreditada por no mínimo dois; seja a mentira que for, se posta como “fé”, e acreditada, uma vez imposta vira religião.
    Já outra linha de atitude psicológica saudável honesta tem por mínimo uma inferência (que não é fé); que é um indício que faz compor uma premissa.
    Uma premissa é uma expressão com suficiência investigativa,onde estão cotas elementares para o exercício de especulação abalizar ou não. As premissas se juntam formando condições e causas. E quando descrevem um fenômeno, um efeito, tem-se um fato.
    Fatos concatenados levam à composição de uma hipótese, ou conjecturas.
    Hipóteses conformam uma teoria ou teoremas.
    E teorias compilam um aprontamentos reflexivos de eficiência cognitivo-comunicativa: os postulados.
    Resumidamente foi assim que se chegou à Lógica Conjuntural do ESPAÇO; e aos postulados do Pensador Haddammann; e ao modo de a Natureza se comportar e à procedência do Movimento e ao feedback demonstrado das incessantes ações espaciais.
    Aula grátis (dos acervos do Gleam(er)(s) Team).

  7. Bom dia Barros. Foi uma linguagem rápida e metafórica essa frase sua não? “Isso não quer dizer que ateus não possam ter religião, mas a religião deles seria sem deuses ― e elas seriam escolhas individuais, não algo que fosse compartilhado por todos os ateus.”

    Religião sem deuses? Ouço falar que o budismo não é considerado uma religião exatamente porque não possui deuses? Ou estou enganado?

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