A Teoria do Barro (segunda parte)

<< 1ª Parte

Mutações genéticas não precisam estar obrigatoriamente vinculadas à extinção de uma espécie (ou parte dela), como descrevi no meu texto anterior. O que eu quis ressaltar foi o conceito de “seleção natural”. No meu exemplo extremo, os humanos que sobreviveram foram aqueles que tinham mais resistência aos efeitos danosos das radiações solares: uma parcela ínfima da população, composta pelos descendentes de uma tribo do Saara onde se espalhou uma mutação genética. Aqueles que não estavam perfeitamente adaptados às novas condições foram sendo gradativamente “exterminados”. Isso dá a ilusão de que o próprio meio ambiente está “selecionando” quem é melhor adaptado para viver nele. É esse processo que se denomina seleção natural.   

O exemplo que dei também serve para ilustrar o que se resolveu chamar de “sobrevivência do mais adaptado” (ou do “mais apto”). É, mais ou menos, como a “lei do mais forte”, em que o conceito de “força” deve ser substituído por “adaptação ao meio ambiente”. Na minha estória, os membros da tribo do Saara estavam mais adaptados ao meio do que o resto da humanidade, e por isso não foram extintos. Argumenta-se que essa ideia de “sobrevivência do mais adaptado” não esteja completamente correta, porque mutações genéticas podem trazer vantagens não relacionadas exclusivamente à sobrevivência, mas à reprodução.  

A ilustração clássica é a do pavão, que vi pela primeira vez no livro A Mente Seletiva. Acompanhe o raciocínio. Um pavão nas florestas asiáticas teria muito mais chances de ter uma vida longa se pudesse mais facilmente escapar do seu predador: o tigre. Quanto mais vivesse, mais tempo teria para acasalar e gerar descendentes. Uma cauda curta permitiria que o pavão fugisse do tigre mais eficientemente. Logo, os pavões mais adaptados ao meio deveriam ter caudas curtas. Se houve, no passado, pavões com caudas enormes, vistosas e pesadas, certamente tiveram menos condição de escapar dos tigres; viveram menos; geraram cada vez menos descendentes, e acabaram sendo extintos.

Mas a realidade é bem outra. Os pavões têm cauda longa, vistosa e pesada, que demanda uma quantidade enorme de energia para desenvolver e para manter, e que ainda é um estorvo durante uma fuga de um tigre faminto. E eles não foram extintos. Por quê? Porque embora possivelmente vivendo menos tempo do que pavões que tinham caudas curtas, os pavões com caudas grandes e bonitas conquistavam mais fêmeas, acasalavam com mais frequência, e geravam mais descendentes. Esses descendentes, por sua vez, herdavam dos pais a cauda longa, se machos; ou a preferência por acasalar com pavões de caudas longas, se fêmeas. Isso corresponde exatamente à mutação genética sendo passada adiante. Daí que os pavões de caudas mais curtas podiam até viver mais, só que, em compensação, tiveram menos parceiras sexuais ao longo da vida, deixaram cada vez menos descendentes e, com o passar do tempo, acabaram extintos. Esse é o princípio da “seleção sexual”, pelo qual vantagens reprodutivas são tão importantes para uma espécie quanto as vantagens adaptativas.

Agora que estamos por dentro dos conceitos básicos, já dá para entender o que se pode esperar de um livro cujo título é A Origem das Espécies — por meio da seleção natural, e por que os religiosos têm tanta birra dele.     

 

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6 Respostas

  1. DARWIN DEFINIU A SELEÇÃO SEXUAL como a “luta entre indivíduos de um sexo, geralmente os machos, pela posse do outro sexo”.
    Em 1858, a teoria da evolução por seleção natural foi publicada pelos manuscritos de Darwin e Wallace. Darwin separava os aspectos “sobrevivência” e “reprodução” no processo de seleção natural. Chamou de “Seleção Sexual” o processo de escolha de características morfológicas e comportamentais que levavam ao cruzamento bem sucedido, distinguindo-a da seleção natural. A seleção sexual é responsável, então, pela evolução de características que dão aos organismos vantagens reprodutiva, em contraste com as vantagens de sobrevivência. Assim, pode-se explicar por que alguns traços, como ornamentos coloridos em pássaros ou plumagens coloridas da cauda de pavões, são preferidos pelas fêmeas, apesar de não indicarem nenhuma vantagem adaptativa para a sobrevivência. A seleção natural por si só teria excluído tais características, se não fossem de alguma forma importantes.
    Os traços anatômicos e/ou comportamentais influenciam o sucesso de cruzamentos. Os indivíduos que possuem as características que são interessantes do ponto de vista genético para o outro sexo são escolhidos para a reprodução.
    A cauda dos pavões gerou o interesse de várias culturas, pela sua exuberância de cores e beleza das penas, e justificou a sua criação em cativeiro. Já foram criadas diversas variedades por seleção artificial que apresentam plumagem branca, negra, púrpura, entre outras cores. O maravilhoso jogo de formas e cores é também o resultado de uma seleção sexual e do complexo ritual nupcial dessa espécie de ave.

    O Pavão tem origem na Ásia, principalmente na India, onde (novidade) era considerado sagrado, e ainda é em alguns lugares em que sacerdotes sentem falta de uma bichinha de estimação (por causa da dita fama, escolhem o pavão), mas são bastante corajosos de se meter a ter pavões. E do budismo surgem ensinamentos tais como: embasado na ideia de que o Pavão come plantas e répteis pequenos, mesmo que venenosos, sem se contaminar.

    O Pavão não tem nada de misterioso e sai distribuindo bicadas mesmo em quem chegar perto, inclusive outros pavões machos que quiserem dar um pega com fêmeas que já tem dono, diferente de você que em termos de dividir mulher é camarada.

    Só para lembrar e comparar:
    Uma CATEDRAL medieval era capaz de consumir cem centúrias de homens em sua construção, e jamais foi usada como habitação, ou para qualquer propósito declaradamente útil. NÃO ERA UMA ESPÉCIE DE PAVÃO ARQUITETÔNICA? Se sim, quem era o alvo da propaganda…?

  2. http://www.facebook.com/ateusfortaleza

    Começando a fortalecer o Ateismo em Fortaleza, vamos dar uma curtida lá galera e ajudar a divulgar a RAZÃO.

  3. […] 2ª Parte  –  3ª Parte  –  4ª Parte  –  5 ª Parte  –  Parte final>ª […]

  4. […] 2ª Parte  –  3ª Parte  –  4ª Parte  –  5 ª Parte  –  Parte final>ª […]

  5. Ponto de vista, eventos aleatórios como estes citados ,parecem ser uma seleção racional da mãe natureza, embora na minha opinião; sejam realmente aleatórios; pensei ser um dos únicos à pensar desta forma, ao menos foi isso que o texto até este ponto deu a entender
    No meu ponto de vista.

  6. Ah, desculpem minha ignorância , no decorrer dos próximas partes deste texto percebi que , o próprio livro de Darwin trata o assunto sob esse ponto de vista , não tive o prazer de lê-lo por completo.

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