O Evangelho segundo o Criador – Capítulo 2

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Eu sou Deus e sei de tudo.

Sei quantas estrelas existem na Via Láctea e quantas galáxias existem no universo; posso dizer, a qualquer instante, a distância entre o Sol e a Terra com precisão de décimos de milímetro; e se alguém me perguntar qual a raiz cúbica de um número de 80 algarismos, eu já posso dar o resultado assim que se pronunciar o último dígito. Mas se você jogar uma moeda pra cima, eu terei 50% de chances de acertar o resultado, como todo mundo. Sou onisciente; não sou adivinho.

Eu tive aquela ideia de enviar um bode para ser sacrificado e livrar a raça humana de toda a sua culpa por não me obedecer, de modo que eu não precisasse exterminá-la de novo, mas como eu não havia previsto a necessidade de tal estratagema, e como deveria fazer o papel do bode, precisei improvisar e decidir algumas coisas meio que às pressas. Afinal, deveria ir eu mesmo sob forma humana, ou deveria ter um filho com uma mortal, como era um procedimento corrente e bem aceito nas mitologias em voga? E se fosse um filho meu, ele deveria ter todos os meus superpoderes? E se ele se rebelasse contra seu pai, como Lúcifer se rebelou, eu não estaria fudido? Se Lúcifer, sendo só um Querubim, já me causa tantos problemas, que dirá um outro igualzinho a mim!!

Muitas dúvidas e muitas variáveis a se levar em conta. Decidi, então, pelo que fosse mais eficaz e menos arriscado, e tudo pareceu, a princípio, ter se ajustado perfeitamente bem. Foi só depois da coisa começada que eu percebi uns furos que comprometeram muito a minha reputação.

Primeiro que, ao contrário dos deuses gregos, eu não seduzi a minha virgem, a mãe do meu filho mortal. Eu a estuprei, e isso pegou malzão. Segundo, porque o meu filho, que era uma versão light de mim mesmo, acabou se tornando mais chegado a vocês do que eu jamais havia sido e jamais poderei ser, o que me causa sempre umas crises terríveis de ciúme. E terceiro: graças a um pequeno deslize da minha parte, eu quase pus tudo a perder, quando fui pessoalmente à Terra conversar com Jesus, em particular, quando ele estava com 12 anos.

— Pai! Que legal que o Senhor tá aqui! O Senhor nem imagina como eu tô feliz!

— Jesus, meu filho… Também é muito bom vir aqui e vê-lo em carne e osso. Mas eu preciso dizer que o motivo que me levou a fazer isso é algo que você está fazendo e que me desagrada e muito!

— Mas o que pode ser, meu Deus? Eu já entendi a minha missão, já aceitei o meu destino… Quer dizer, eu fraquejo às vezes, quando penso na dor que eu vou sentir, mas eu procuro pensar que é algo como a dor do parto, em que uma fêmea sofre muito por um pequeno período de tempo, mas, depois, a dor vai embora e ela só fica colhendo os frutos da maternidade… Mas, fora isso… Eu não vejo o que possa estar fazendo para lhe desagradar…

— Jesus, eu não lhe dei todos os meus poderes justamente pra você não fazer merda aqui embaixo. Mas mesmo com o pouco que lhe permito fazer, acho que você está exagerando.  Veja… Você não pode se comportar como um adolescente normal, mas também não pode ficar por aí transformando seus colegas de rua em galinha, nem voando por cima das casas… Não é assim que você deve usar os seus poderes! Aliás, ainda não está nem na hora! Agindo assim, as coisas não vão sair como eu planejei…

— Ah, eu já entendi… Me desculpe. Não vou fazer mais isso. Prometo.

— Muito bem… E outra coisa… Seus banhos… 

— O que é que tem… meus banhos…?

— Eles estão… muito demorados pro meu gosto. Jesus, meu filho… Você tá passando tempo demais trancado no banheiro. Isso aqui é o deserto, nem água tem lá!  E você é o Filho de Deus, você não pode… Você não deve… Não é pra você… Entende?…

— Ah, sim… Já saquei… Mas é que eu descobri que posso ver através dos tecidos, se eu quiser… 

— E…?

— Eu vejo gente nua… 

— Você…  vai…  fuder com tudo se continuar com isso… 

— Mas eu… mas eu… Maria Madalena… e as outras meninas… todas aquelas roupas… e eu vejo… eu posso ver tudo… nelas… e sempre que penso nisso eu fico assim ó…

— Vire essa coisa pra lá, menino!!! Ora, mas dê-se ao respeito!!!

 Me perdoa, Pai… Por favor, me perdoa… Isso tá acontecendo o tempo todo comigo, mas não é culpa minha… Me (glup!) perdoa… 

— Tudo bem… Não precisa chorar… Veja… Eu vou fazer o seguinte. Vou tirar de você esse poder de ver através das roupas das meninas… e vou modificar um pouquinho isso que você está sentindo, entende?

— Não. Tô entendendo esse papo, não… 

— Você vai perder esse interesse pelas fêmeas humanas… Elas são filhas de Eva; são a perdição do homem, não lembra? Com essa pequena alteração que eu vou fazer, você vai perder esse… esse… isso que você está sentindo e vai passar a tratá-las como seres inferiores, que é o que elas são. Daí que você vai poder se concentrar na sua longa e árdua tarefa, porque há muito o que ensinar a esses ignorantes nessas próximas décadas. Eu sei que você está acumulando funções, afinal, você é, ao mesmo tempo, o mensageiro das novas regras e do ultimato, o bode para o sacrifício, e o meu garoto propaganda dessa campanha de marketing que eu bolei, pra ver se consigo ser bajulado como gostaria.

— Nossa, Pai, não vejo a hora de começar!

— Não se preocupe. Você é um bom menino, e nós temos tempo de sobra para treinar suas falas e o melhor modo de transmitir as novas regras e o ultimato. Você só vai precisar aprender a controlar mais o seu CARALHO!!!

— Porra, que susto!!! Que foi isso?!!

— Que porra é essa? Você tá de barba, bigode e cabelo comprido?

— Caraca! É mesmo! Que parada é essa, Pai? Que é que tá acontecendo?

— Ai, Jesus!!!

— O que foi que eu fiz dessa vez??

— Não foi você… É que um dia para mim é como mil anos aqui na Terra… 

— E daí? 

— Nós estamos conversando há 26 minutos! Faz as contas… 

—  No colégio eu só estudo as Escrituras, a lei e os profetas, Pai. Não sei fazer conta.

— Meu filho… Nesses últimos 26 minutos já se passaram 18 anos!

— Puta que pariu! E agora??!!

— Agora corre pra casa que a tua mãe já deve tá morta de preocupada!

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14 Respostas

  1. […] O Evangelho segundo … on O Evangelho segundo o Criador …Cristiano on O Evangelho segundo o Criador …Ton on […]

  2. Muito bom, isso daria um ótimo teatro. Até seria bom. Aqui em Porto Alegre tem um grupo que está se interessando em fazer algo assim. Se eles se adiantarem mesmo vou te recomendar. Abração e obrigado pela tua participação na minha coluna. Os crentes ficam loucos, he he.

  3. Está muito engraçado, parabéns valmidênio, dava para ser escritor de novelas da globobagens, cara você é demais com esses textos.

    ave cesar.

  4. Barros, cadê a minha resposta? Você SABE que Deus não existe ou você ACREDITA que Deus não existe?

    Por favor: seja SUCINTO e OBJETIVO. Nós, cristãos, somos meio bobinhos, ta?

    Os espertos são vocês, e você, em especial, o SENHOR ABSOLUTO DA VERDADE. E todos seus seguidores dizem-lhe AMÉM…

    Isso posto, para você não perder o “xis” da questão: Você SABE que Deus não existe ou você ACREDITA que Deus não existe?

    Amém, Barros, Amém!!!

  5. Barros,
    Amém!

  6. RLCosta, ou você não lê meus comentários, ou finge que não lê. Nos dois casos isso é uma coisa muito deselegante de se fazer. Mas como eu tenho berço, rsrsrs, não vou ser deselegante com você.

    Então, repetindo, terei o maior prazer em te responder, mas, primeiro, para eu saber se vale a pena te responder, para provar que você é um leitor do blog e não apenas mais um troll, você precisa me dizer onde meus argumentos sao toscos e frágeis, que foi como você os qualificou.

    Se você não conseguir fazer isso, eu vou concluir que você é só mais um crente revoltado por não poder refutar os meus textos e fala pelos cotovelos, na esperança de aparentar para os demais leitores que tem alguma ideia do que está falando, ou que tem alguma ideia do que eu estou falando.

  7. Amém!

  8. […] DEUSILUSÃO em O Evangelho segundo o Criador …DEUSILUSÃO em O Evangelho segundo o Criador …Icarus em O bê-a-bá […]

  9. Muito bom Barros! As histórias religiosas pra nós são apenas piadas mas os bobões crentes insistem em levar a sério.

  10. E ai saracura :-)

    Tudo bem? Quanto tempo…

  11. Tudo bem Icarus. Valeu pela lembrança….abraço

  12. Saracura, rapaz. Grande abraço.

  13. Mais Humor!

    Conta a tradição e a historia (com um pouco de humor do escritor Saramago) que:

    Deus como não tinha nenhum filho no céu, somente anjos e arcanjos, estava precisando de quem o ajudasse aqui na Terra. Há milhares de anos ele vinha sendo Deus dos judeus, gente com a qual ele não estava se dando mal. Estava portanto mais ou menos satisfeito em parte, também com os sacrifícios nos altares. Mas como era um povo pequeníssimo que vivia numa parte diminuta do mundo que criou, ele precisava aumentar a sua influência no mundo e ser um Deus de muito mais gente e queria o mundo todo para si. Achava que além de ser o Deus dos hebreus também poderia ser o Deus dos católicos. Poderia alargar a sua influência e a ser Deus de muito mais gente e alargar o seu poder a mais países e sem limites geográficos, pois a concorrência com outros naquela época ainda era grande.

    Foi aí que ele convocou um assessor especial para ajudá-lo, um filho de carpinteiro de Nazaré, concebido por ele e Maria e que tinha Deus no coração.

    Mas convencer o filho Jesus, não foi tarefa fácil para cumprir esse papel e a vontade do Pai. E, Ele teve que argumentar muito para convencer esse novo assessor levantar o povo contra Herodes, se proclamar o Rei dos Judeus e expulsar os romanos. Na verdade a moral de Deus estava em baixa perante outros deuses e ele já havia obscurecido a vida de milhões, escravizou nações e havia sacrificado e derramado o sangue de milhares, espalhado a maldade, o ódio e a vingança sem fim na terra. Havia transformado o homem numa eterna vítima e Deus num eterno demônio. No futuro novos pensamentos e pensadores livres baseados em fatos naturais da natureza e científicos , na verdade e razão surgiriam para contestá-lo.
    As pessoas se tornariam mais livres e não acreditariam mais tanto nos meus superpoderes e em superstições e mentiras repetidas mil vezes até serem consideradas verdades.
    Deus argumentou que ele Jesus faria o papel de mártir com uma morte dolorosa na cruz e se possível infame, de vítima, para fazer espalhar uma nova crença e afervorar uma fé, para que a atitude dos crentes se torne mais facilmente sensível, apaixonada e emotiva. E assim se fez o acordo, Jesus seria o Filho de Deus, mas sem antes de Deus prometer a Jesus que ele sempre estaria com ele ou nele mesmo depois de morto. Mesmo que no futuro se esquecessem um pouco do Deus inicial o que era importante, o poder e a glória, deveria ser compartilhado mesmo que fosse depois da morte.
    A partir desse momento o Filho já sabia o que deveria fazer para alcançar os objetivos instruído por seu Pai, que disse a Ele:
    A insatisfação, meu filho, foi posta no coração dos homens pelo Deus que os criou à imagem e semelhança e a necessidade é urgente e em poucos séculos teremos atingido o nosso objetivo. O homem desde que nasce até que morre está sempre disposto a obedecer, mandam no para ali e ele vai, ordenam-lhe que volte para trás, e ele recua, o homem tanto na guerra como na paz é a melhor coisa que podia ter sucedido aos deuses. E você como meu único Filho, com os poderes que lhe darei, inclusive a “cura” de doentes, milagres grandes e pequenos, que irás realizar será a melhor coisa que poderá acontecer para lhe obedecerem e nos seguirem cegamente. Anunciarás aos homens e discípulos, independente de raça, cor, credo ou filosofia, sábio ou ignorante, novo ou velho, poderoso ou miserável, que és o meu filho.
    Te venerarão em templos e altares e receberás todos os benefícios. Lembra-te que o homem é um pecador, o pecado é por assim dizer, tão inseparável do homem quanto o homem se tornou inseparável do pecado. Todos os homens caíram em pecado, nem que fosse só uma vez, tiveram um mau pensamento, infringiram um costume, cometeram um crime menor ou maior, desprezaram quem deles precisou, faltaram aos deveres, renegaram a religião e a Deus. A esses homens e também a teus assessores (João em especial) e seguidores, que vão morrer por nós, não terás que dizer mais de que estiveste comigo, que és meu filho e serás crucificado e a palavra “Arrependei-vos, Arrependei-vos! Todas as tuas palavras serão palavras minhas e todos os que crerem em mim, crerão em você, porque não é possível crer no Pai e não crer no Filho.
    Anunciarás às pessoas um novo tempo de Deus. Recorra a tua imaginação, deixe-as inquietas, duvidosas e leve-as a pensar que a culpa é só delas.
    Conte-lhe histórias, parábolas, exemplos morais já ensinados a outros povos (sumérios) por outros deuses, mesmo que tenhas que distorcer um bocado, não te importes, são ousadias que eles apreciam muito. Principalmente aquelas sobre a “alma” e o futuro que lhes espera depois da morte. Anuncia a todos o fim dos tempos.
    Para os homens que para tudo querem explicações, falsas ou verdadeiras, inventas umas quantas histórias e lendas, a princípio ainda conservando alguma relação com os fatos, depois mais tenuemente, até tudo se transformar em pura fábula. Assim eles serão mais felizes, alegrias falsas (porque nasceram com o pecado original) e viverão na esperança de viverem comigo lá no céu eterno e pacífico eternamente, mas sem antes serem julgados pelo bem e pelo mal que tiverem feito. Quem tiver fé e crer em ti virá a nós. Os outros deuses resistirão e lutarás contra eles por certo.
    Mas Jesus, não te preocupes!
    Vamos providenciar escribas e apóstolos, que nos ajudarão. Esses serão sábios, escreverão a tua biografia com dois olhos, dois ouvidos e duas línguas, uma para a verdade e outra para a mentira.
    Os homens sempre morreram pelos seus deuses, até por falsos e mentirosos deuses, mas eu sou o único e verdadeiro Deus. Muitos morrerão em jejum e também oferecerão o corpo com dor e sangue, penitências, auto-flagelação.
    Os fins justificam os meios, se é vontade de Deus, é causa santa. Milhares de homens e mulheres, entrarão em conventos e mosteiros e ali vão ficar para nos servirem, pelo martírio e pela renúncia, a mim , a ti, de manhã à noite, com vigílias e orações, mesmo tendo eles o mesmo destino morrerão com os nossos nomes na boca e o rosário nas mãos. São os agostinhos, beneditinos, bernardos, carmelitas, cartuxos, capuchinhos, dominicamos, franciscanos, jesuítas e serão muitos. A alma, meu filho, para salvar-se, precisa do sacrifício do corpo. Muitos por acreditar em nós já morrerão antes por renunciarem à vida plena e irão preferir morrer nas Cruzadas e guerras.

    Mas disse Deus a Jesus: não diga aos outros que o Diabo, esteve presente e foi testemunha nessa nossa conversa.
    Esse foi o pacto e contrato de Deus com Jesus, e se não fosse bem cumprido, teria que enviar outros profetas e assessores, talvez mais um para as Arábias (Maomé) e Smith para a América do Norte, [Macedo para o Brasil], talvez um novo Messias para os judeus. Na Ásia, bem lá é um caso mais difícil, os homens já nascem com a verdade dentro de si e amam mais a natureza do que a mim, etc… Na crucificação, ele o filho, que não queria ser pastor de ovelhas, carpinteiro, mas pescador de homens, teria chorado e dito: Oh meu Deus! Por que me abandonastes! Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez!

  14. […] Capítulo 2       Capítulo 3. […]

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