As lições que aprendi com as pedras

Em algum lugar escondido das terríveis páginas do Antigo Testamento, há um versículo em que a divindade hebraica instrui seus crentes a matar a pedradas os que ousarem querer desviar seu povo para adorar outro deus. Suponho que deva haver ordem semelhante para os que não adoram deus algum, pois durante um longo período da nossa História pessoas foram executadas pelo crime de não crer em Deus.

Foi pensando nisso que intitulei de “Pedradas” a seção do blog que lista os comentários mais recentes dos leitores, sinalizando que eu já bem sabia onde estava me metendo, e com quem iria lidar. Mas eis que, depois de algum tempo, eu descobri que as pedras que os crentes jogavam contra o meu ateísmo tiveram o curioso efeito de fortalecê-lo de um jeito e a um ponto que eu jamais teria conseguido isolado na minha solidão. De repente, percebi que aquelas pedras desajeitadamente pavimentaram um caminho que acabou me conduzindo a mim mesmo, quando me tornei a pessoa que eu sempre quis ser, mesmo quando não sabia ao certo que queria ser assim: alguém conformado com seus próprios defeitos, tolerante com os defeitos dos outros; ciente da própria ignorância e vulnerabilidade; encantado com a vida, fascinado pelo mundo, e resignado com seu próprio fim.

Mas se fosse pra contar, eu diria que as pedradas que mais me doeram foram justamente as que eu arremessei contra os outros, não importando aqui se gostava deles ou não, se mereceram ou não, se acertei ou não. Também não importando se foi ou não de caso pensado, como se diz. 

Certa vez, só pra ficar num exemplo, uma moça muito querida me criticou quase que severamente por eu ter falado Charles Darwin com a pronúncia inglesa; principalmente pelo Darwin, com o w se espreguiçando em u. “É como se você quisesse se exibir”, ela disse. Mas eu não estava querendo me exibir, não, Lu. Apenas nunca tinha ouvido antes a pronúncia de sua preferência: Darvin. Além dos livros, onde o nome Darwin vem, obviamente, apenas escrito, eu havia tomado conhecimento da Teoria da Evolução e de seu ícone através de inúmeros vídeos no YouTube. Quase todos eram “palestras de Natal” que Richard Dawkins ministrava — em inglês britânico — para crianças de seu país. E eu me acostumei à pronúncia.

Recebi a crítica em silêncio, sem contar à Lu que nunca tive aulas sobre a Evolução em todos os meus anos de escola pública de subúrbio do século passado. Nem disse que ela foi a primeira pessoa que eu ouvia pronunciar Darwin com o w soando como v. Não tinha certeza se isso iria melhorar ou piorar as coisas. Então fiquei calado. 

E foi essa a primeira lição que eu aprendi com as pedras. Que a gente pode ofender as pessoas de infinitas maneiras, ainda que nossa vontade de não ofender ninguém também seja infinita.

Aqui vão outras tantas pelas quais, de um jeito ou de outro, devo ter pago um preço relativamente alto, mas que faço questão de distribuir de graça.

* Enxergar nos problemas a dimensão que eles realmente têm.

* Entender que todo problema tem uma solução. Quando se está diante de um que não tem solução, a gente deve lembrar de não perder tempo procurando uma, e tentar se conformar do melhor jeito que encontrar, e seguir vivendo o melhor que puder.

* Muitas vezes, quando não conseguimos resolver um problema, o tempo se encarrega de resolvê-lo por nós.

 Trate-se bem de uma gripe, e ela irá embora em sete dias; se você não se cuidar, ela pode durar toda uma semana.

* Grande parte dos nossos problemas são criados por nós mesmos.

* Muitas das nossas frustrações advêm do fato de não nos aceitarmos como somos e, pior ainda, por querermos fazer com que os outros nos vejam como não somos.

* Algumas vezes, não conseguir algo que queríamos muito pode ser um golpe de sorte.

* Ser desonesto consigo mesmo é seguramente uma fonte inesgotável de sofrimento.

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11 Respostas

  1. TB gostei muito deste texto; clap clap clap

  2. Hãããã…Day?
    Esse texto, “As Lições que aprendi com a pedras” é do dono do blog, Valmidênio Barros (Barros, espero ter escrito seu nome direito, é meio complicado ele, hein?), por sinal um texto que eu mesma adoraria ter escrito de tão bom que é. Demonstra que o autor é uma pessoa que se ainda não é completamente sensata, compassiva e boa em tudo que importa nessa vida, caminha a passos larguíssimos para sê-lo.
    Sugiro que você seja menos multitarefas, para poder prestar atenção e não cometer tal tipo de gafe e menos escorregadia, pois começa elogiando como pretexto para partir ao ataque.
    O Barros está falando da vivência dele, como você pode ter a pretensão de dizer que ele não foi verdadeiro a respeito de si mesmo?
    Achei graça nisso de ”dependendo da tribo social, viramos coletivo”.
    A menos que uma pessoa consiga o supremo feito de brotar do chão por si mesma, sempre há o coletivo.

    “Desculpe, mas se há algo que jamais irei tolerar, é essa mania que as pessoas apostatadas ou virgens da fé, têm de erradicar versos e isolá-los para seu individual deleite e conspiração”.

    Jamais irei tolerar? A exemplo da Rosaly você também quer usurpar o lugar do seu Deus? Supostamente o livro é dele, os personagens são dele, que você tem a ver com isso?
    Mas vejo que na frase seguinte você demonstra ter um complexo de super deus, ja que o outro psicografou o dele e deixou por aí para interpretação a gosto do freguês e nunca deu as caras para defendê-lo das críticas.
    E como assim, não somos envolvidos? Uai? Então a Bíblia não é o manual de instruções para a humanidade? Mais envolvidos que isso, só dois disso.
    Mas você só quer saber das palavras, as suas e minhas. As suas demonstram contradição e intolerância.
    Como costumo ser muito direta e não suporto hipocrisia, devo dizer que não gostei nada do texto da Day.

  3. Por favor, não se desculpem por não terem gostado do que escrevi. Sonho com o dia em que as pessoas vão detestar tanto meus textos e que vou ganhar tanto dinheiro com eles igual ao Paulo Coelho.

    Brincadeira. Não pretendo ser tão rico…

    Mas, enfim… Se tem outra coisa que aprendi com as pedras foi receber críticas. Uma crítica sempre nos traz de graça uma oportunidade para melhorar. Mesmo que quem critica não esteja assim tão bem intencionado… rsrsss

    Mas fui extremamente sincero quando escrevi que as “pedras” que mais me doeram foram as que eu atirei nos outros.

    Hoje em dia, até no trânsito eu me doutrinei para não responder a buzinadas e xingamentos, mesmo (e principalmente) os mais indevidos e gratuitos.

    E por quê? Porque sigo a Jesus Cristo? Não.

    Me comporto assim porque “revidar” nesses como em tantos outros casos me faz mais mal do que bem; me traz mais prejuízos do que benefícios; me entristece mais do que me alegra; me enfurece mais do que me acalma; me diminui mais do que me engrandece.

    No fundo, é puro egoísmo. Ou, talvez, seja a quintessência do Altruísmo, porque o próximo mais próximo de mim sou eu mesmo.

    Bom fim de semana.

    _____________________________________________________

    “Quando falares, procura fazer com que as tuas palavras sejam melhores do que o teu silêncio.”

  4. Se Deus quiser ele acaba com a vida de vocês e com esse blog, vocês duvidam ?

  5. Day,

    Permita-me apenas que eu coloque uma observação. Queira-me entender eu não quero criar polêmica, mas, no meu entender, não vi arrogância na Shirley em falar! Acho que eu já escrevi coisas piores!

    Talvez a própria dominação de certas doutrina considera arrogância, muitas vezes apenas falar de certas contradições, tanto de religiões ou deuses. Como exemplo eu também me refiro a deuses como seres imaginários! Realmente, esses deuses só subsistem na mente dos crédulos, num mundo bem particular, próprio, que não têm influência nas nossas mentes!

    Às vezes nossas palavras, no afã de serem ditas, divulgadas, podem soar como algo excêntrico, polêmico, arrogante, mas é apenas uma maneira de soltar o que está dentro! Eu posso ter cometido um erro de querer dizer algo e parecer outra, possivelmente pior!

    Penso que é bom ouvirmos outras impressões, tanto que a política do blog e não ter moderador e permitir qualquer comentário. Peço desculpa e permissão pra colocar essas palavras, porque sou falho também.

    Abraço.

  6. Filho de deus,

    Eu duvido sim! É engaçado essas brincadeiras infantis! Estátua!!! rsrsrs

  7. FILHO DE DEUS, em 16/11/2012 às 14:40 disse:
    “Se Deus quiser ele acaba com a vida de vocês e com esse blog, vocês duvidam ?”

    Claro que sim! Agora eu duvido que ele tenha competência pra provar que existe…

  8. Barros
    Em primeiro lugar, preciso me desculpar; a intenção inicial era comentar este texto, mas li o comentário de Day e me pus a dar pedradas…
    Pessoalmente conheço apenas um ateu e dois ou três agnósticos; a imprecisão fica por conta da indecisão de um deles, ainda temeroso de se afastar por completo de Deus e substituí-lo pelo conceito mais geral que orienta os outros dois.
    O ponto aqui é que esses quatro homens ilustram muito bem o ponto central do seu texto.
    Abandonando a crença no deus judaico-cristão em definitivo ou estando a caminho de fazê-lo, esses caras são bem mais autoconscientes e bem menos autocondescendentes. Têm mais consciência do outro e são mais ponderados, pelo menos até onde pude observar, são conhecimentos relativamente recentes. O que sei é que conversar com eles sempre me deixa uma sensação boa, muito diferente da impressão de opressão que me fica numa conversa com um crente, em que a maioria dos temas pode ser uma espécie de campo minado.
    A frase final no seu texto sintetiza, para mim, um dos significados mais importantes de ser ateu, senão o mais importante.
    Crer em algum ente, seja o Deus dos judeus e dos cristãos, sejam os deuses de outras culturas, faz com que a pessoa seja sempre desonesta consigo mesma e viva num sofrimento que muitas vezes é angustiante de se observar, principalmente quando se trata de pessoas próximas e queridas.
    Ser o único ou única responsável pela própria consciência e pelos próprios atos traz muita responsabilidade, mas também uma sensação de ser livre que um crente, enquanto assim permanecer, jamais poderá experimentar.
    Viver é, como você diz, maravilhoso, e por isso mesmo devemos usufruir da vida com a maior plenitude possível, o que não quer dizer claro que devamos viver na esbórnia, como os crentes afirmam que vivemos.
    É antes exatamente o contrário: seguir um código de ética nos deixa em paz com nós mesmos e por isso é possível viver mais plenamente.

    Bom fim de semana, Barros.

  9. E o pau vai comendo solto rrsss
    as duas são muito inteligentes, espero qeu fiquem deu uma olhada no blog da Day achei muito bom, temas gostosos de se ler.

  10. Meu caro amigo Barros!! Q bom q vc resgatou esta anedota do Darwin, na verdade estava era brincando com vc, e vc acabou levando a sério… =) Se eu criticar uma pessoa q admiro tanto!! É esse meu jeito meio “maluquinho” mesmo, uma hora vc se acostuma! Rs!
    P.S. Obrigada pelas dicas do ipad, se tiver mais, pode mandar!!
    P.P.S.S. Não esqueci do livro! =)

  11. Lu, minha querida, assim que der, eu te procuro. Beijão.

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