As sacolas de Sofia (parte 1)

“Você acredita, Sofia?”

Ela me olhou nos olhos e esperou. Mas não havia nada mais para acrescentar, e ela demorou quase duas respirações para se convencer disso.

“Em que, especificamente?”, ela perguntou meio que sorrindo.

“Como assim em quê? A pergunta já não é suficientemente clara por si?”.

“Suficientemente clara? Claro que não, se você não me revelar aquilo em que supostamente eu deva ou não acreditar.”

“Isso significa que você não acredita?”

“Não é o que significa.”

“É o que, então?”

“Tudo bem. Vamos tentar de novo. Se você quer saber no que eu acredito, vai ser preciso que especifique exatamente que coisa é essa que é o motivo da sua curiosidade. Só então eu poderei lhe dizer se acredito nela ou não, entendeu?”

“Quer dizer que há coisas nas quais você não acredita?”

“Claro que sim.”

“Então vamos imaginar que você tem duas sacolas. Numa delas eu vou escrever ‘Coisas em que Sofia acredita’, e, na outra, ‘Coisas em que Sofia não acredita’. Assim, depois que eu revelar ‘a coisa’ que é o motivo da minha curiosidade, você irá colocá-la na sacola a que essa coisa pertence, tudo bem?”

“Tá, pode ser. Mas não entendi ainda o que você quer saber afinal.”

“O que eu quero saber, de fato, é o que você acha que eu deveria escrever na… Não, vamos começar logo com isso. Vou revelar algumas das minhas ‘curiosidades’, ok? Deixe-me ver… Já sei: anjos!”

“Anjos… Eu ponho na sacola das coisas em que acredito.”

“Muito bem. Fadas?”

“Na das coisas em que não acredito.”

“Vampiros.”

“Não acredito.”

“Sereias.”

“Não acredito.”

“Deus.”

“Acredito.”

“Bruxas.”

“Não acredito.”

“Fantasmas.”

“Não acredito.”

“Vida após a morte.”

“Acredito.”

“Reencarnação.”

“Não acredito.”

“Paraíso.”

“Acredito.”

“Inferno.”

“Acredito.”

“Maçã.”

“Hein?”

“Você vai colocar maçã na sacola das coisas em que você acredita, ou na sacola das coisas em que você não acredita?”

Sofia olhou pra mim como se não me conhecesse.

“Mas que coisa!”

“A coisa é maçã”, eu repeti só pra fazer graça…

“Sim, eu sei! Não foi exatamente uma pergunta. Eu estou só confusa, porque… Bem, porque eu não colocaria maçã em nenhuma das sacolas.”

“Ora, mas por que não?”

“Porque eu não acredito em maçãs.”

“Então vai colocá-la junto com as coisas em que você não acredita?”

“Você não entendeu. Não posso fazer isso também.”

“Por quê?”

“Eu vou precisar de mais uma sacola aqui, sabe?”

“Eu já desconfiava. E o que eu queria saber desde o começo é exatamente isso: O que você quer que eu escreva nela?”  

Sofia respirou fundo e respondeu:

“Eu não faço a menor ideia.” 

Parte 2   –  Parte 3   –   Parte 4   –   Parte 5   –   Parte final

 

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34 Respostas

  1. Na minha visão,

    Falar de coisas imateriais é falar de nada. Dizer que a alma, os anjos e deus são imateriais é dizer que eles são nadas, ou que não existe deus, nem anjos, nem almas, nem espíritos.
    Fico suficientemente ocupado com as coisas que existem, sem me atormentar com coisas das quais não tenho provas.
    Condeno o sobrenaturalismo de todas as formas. Tudo não passa de abracadabra dos charlatães que se autodenominam sacerdotes das fábulas e lendas de livros ditos sagrados.

    http://livrodeusexiste.blogspot.com.br/2010/05/capitulo-22-espirtismo-o-mortos-se.html

    Sobre Espíritos Com Humor:

    http://desciclopedia.org/wiki/Esp%C3%ADritos_Malignos

    Leitura e livro recomendado:
    O Mundo de Sofia, de Jostein Garder, Ed. Cia. das Letras

  2. Oiced Mocam, eu concordo. Agora eu gostaria de uma ajuda “coletiva”, se possível. Eu já tenho uma ideia do que escrever na sacola. Agora eu gostaria de saber o que outras pessoas escreveriam.

    Se você tem 3 sacolas, uma em que põe as coisas em que acredita, outra em que põe as coisas em que não acredita, que rótulo deverá ter a última sacola, aquela em que você colocaria a maçã?

    Agradeço a quem participar.

  3. Tomando como base a conversa descrita a terceira sacola poderia ter o nome de Realidade.

  4. Eu escreveria na sacola: FODEU, UM BECO SEM SAIDA. kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  5. ”Objetos concretos”.

  6. Se você tem 3 sacolas, uma em que põe as coisas em que acredita, outra em que põe as coisas em que não acredita, que rótulo deverá ter a última sacola, aquela em que você colocaria a maçã?

    Frutas? Rsrsrsrsrsrsrs,,,!

  7. A sacola de maçãs são parte do mundo físico, portanto não deve fazer parte das crenças religiosas. Deus não faz parte do mundo físico, Deus é extra-mundo. Ele é e está além do mundo do tempo e das coisas. Portanto, a resposta é:

    “coisas que pertencem ao mundo físico”.

    Saudações cordiais.

  8. Pra ser sincero não entendi nada ; me pareceu uma estória sem fim!!
    Eu pensei vamos ver a conclusão e nada!!
    O eu sou meio lerdo (o qeu é mais provavel) ou o povo ai ta fazedno com o Barros igual os crentes fazem com a biblia (dão sempre um jeitinho de alguma interpretação) kkkkkkkk

  9. Se você tem 3 sacolas, uma em que põe as coisas em que acredita, outra em que põe as coisas em que não acredita, que rótulo deverá ter a última sacola, aquela em que você colocaria a maçã?

    Coisas que existem, independentemente se acredito nelas ou não. : )

  10. Quem criou tudo o que existe?

  11. Será a terceira sacola, a das coisas com quem tivemos algum contato físico, ou coisas de “comer”, víveres? Coisas que não precisam de crença, ma que posso tocar porque conheço, considerando que a pessoa sabe o que é!

  12. Acho que em homenagem ao Diogo, vulgo D&C e Azetech, que não está mais surrando ateus por aqui em virtude de seu mestrado em letras em Portugal a sacola deveria se chamar “Sacola dos crentes naturalistas”….

    Abraço
    Cristiano

  13. Anônimo, em 18/11/2012 às 20:29 disse:
    Quem criou tudo o que existe?

    Já lhe disse, fui EU.

  14. Muito interessante isso, Barros
    Não dá para ‘acreditar’ numa maçã, pois uma maçã “é”; não depende de exercícios de abstração, não depende de crença ou testemunhos. Mesmo supondo que exista alguém que nunca tenha visto uma maçã, basta que se apresente a esse alguém a dita cuja e o caso está resolvido.
    Também não dá para ‘desacreditar’ da maçã. Sendo concreta, tangível, também é parte de um processo cujo encadeamento pode ser verificado passo a passo.
    Então Sofia tem uma sacola em que põe as coisas em que acredita, tem uma em que põe as coisas em que não acredita e precisa por a maçã numa sacola que deve nomear também, seguindo o mesmo raciocínio. E maçãs não são objeto de crença nem de especulação, elas existem concretamente.
    Eu nomearia a sacola como Coisas Comprováveis.

  15. Acho que vocês estão procurando dar respostas simples para questões muito complexas. Muitos indivíduos, seguidores de uma religião, crença ou eventualmente de uma mistura delas, não são “sensíveis” o sufiente para admitir as falhas de suas crenças, especialmente quando essas esbarram ou rompem as fronteiras do razoável, afinal dogma é dogma. Muito embora nós, ateus, possamos ver uma infinidade de problemas em todas essas abstrações que os crentes tanto cultuam e veneram, eles, os crentes tem uma visão muito mais nebulosa das tais verdades que dizem acreditar. Exemplo disso são as desculpas esfarrapadas que eles tem que dar a todo instante para justificar o que nós chamamos de injustificável. A fé para nós não tem explicação aceitável, para eles, ela é auto-justificada. E ao receber o rótulo de virtude ela se fortalece moralmente, o que é muito significativo.

    Por mais objetiva que a tendência cética seja, todos nós temos momentos de incertezas em que as coisas simplesmente não podem entrar numa terceira ou quarta sacola. O conhecimento objetivo ou mesmo as Ciências tentam nos dar clareza para distinguir o preto do branco mas muito ainda permanece cinza pois assim o é. Certamente não estou sugerindo respostas sobrenaturais; muito pelo contrário. Na ânsia de responder objetivamente questões aparentemente sem sentido e/ou subjetivas corremos grandes riscos de fracassar. Muitas coisas simplesmente não tem nome, limite ou explicação, pelo menos não a todo momento, pelo menos não “naquele” momento .O texto pra mim deixa a entender que a Sofia, embalada pela aparente dicotomia da situação, ficou surpresa com a aparição da maçã pois até então obviamente só se falava de coisas passíveis de crença. Como leitor assíduo do blog, já vi o Barros nos brindar com idéias bem mais elaboradas. Me desculpe mas eu diria que esse texto ficou fraquinho e entre tantos bons, esse não mereceria por exemplo entrar no livro.

    É claro que não se precisa acreditar em tudo pois muito do que temos se revela por si só e por isso mesmo existe a óbvia dispensa da crença. No meu entendimento o complicado e difícil de aceitar ou compreender é que muitos acabam por expandir suas subjetividades sobrenaturais ao mundo real. Ou seja, o Deus que deveria estar somente na mente dos fiéis ou no máximo preso a um livro velho mal escrito, acaba ganhando status de realidade e verdade absoluta. Crentes ou não, vivemos a mesma vida mas alguns tem necessidades próprias.

  16. Chame-se a sacola de Meu Passa-porte Pro Inferno. O que acha?

  17. hehehe, nada como as ameaças dos crentes para alegrar a segunda feira…

    Neide, acho que não vou conseguir dormir de medo hoje com a sua ameaça…

    Sua crença é uma piada…

    Cristiano

  18. A sacola onde colocar a maçã deve ser chamada de SACOLA DE COISAS MATERIAIS. Tudo o que não puder ser colocado dentro dessa sacola pertencerá automaticamente a outra sacola já existente.

  19. “Sacola das coisas que não dependem da minha crença pra existirem!”

  20. Adriana, ela dando o nome que vc escolheu estará implícito que as coisas das outras duas sacolas são imateriais. O que ela não pode de fato saber. Não há como saber que Deus é imaterial. Ou um vampiro é imaterial pois nunca vimos nem tocamos nem um nem outro. Nesses caso ela não pode dar esse título pra sacola pois seria preciso se concluir que as outras sacolas sao compostas de coisas não-materiais. Acho que não podemos deixar dúvida a que cada sacola uma coisa deve ser colocada. Se não tenho como saber se um vampiro é ou não imaterial não posso colocar ele numa sacola de coisas imateriais.

  21. O mesmo se aplicando a Deus. Se ela não tem como saber se Deus é imaterial ou não-matéria não é possível presumir que Deus deve ser colocado numa sacola em que só vai coisas não-materiais. Por isso acho que o meu nome é o mais adequado.

  22. Day, você não precisa se desculpar por nada. Os comentários são mais para quem frequenta o Deusilusão do que para quem escreve nele… rsrs Fique sempre à vontade.

    Fernando, muito obrigado pela crítica. Resolvi escrever essa série em forma de “diálogos” num arremedo dos antigos filósofos, e por causa do livro O Mundo de Sofia, que estou lendo agora. Tinha visto a série norueguesa de 4 episódios (assisti duas vezes), mas sempre quis ler o livro.

    Vou ler em breve os demais comentários.

    Agradeço a quem colaborou até aqui, e espero poder aproveitar alguma opinião dos leitores nos próximos textos.

  23. […] Barros em As sacolas de Sofia (parte… […]

  24. […] As sacolas de Sofia … em As sacolas de Sofia (parte… […]

  25. […] As sacolas de Sofia (parte 1) […]

  26. […] As sacolas de Sofia … em As sacolas de Sofia (parte… […]

  27. […] Leia também o meu plágio: AS  SACOLAS  DE  SOFIA. […]

  28. […] Tá, já entendi. Esse seu jogo tá mais lento do que aquele das sacolas… Mas tudo bem… Vejamos… Porque eu estava com vontade de comer torta alemã com […]

  29. […] Leia também o meu plágio: AS  SACOLAS  DE  SOFIA. […]

  30. eu colocaria todas em uma unica sacola, são todas do mesmo saco…

  31. Eu fico com a resposta de BUFARINHEIRO, ” Realidade”.

  32. […] Parte 1 […]

  33. […] As sacolas de Sofia […]

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