As sacolas de Sofia (parte 3)

Clique na imagem para ler a Parte 1

“Acabei de ver um relâmpago. Não demora a cair uma tempestade. Seja aonde for que você quer chegar, é melhor que se apresse. E me diga: por que você acha que eu troquei as bolas?”

“Eu presumo que o seu cérebro se recusou a considerar um fantasma como algo que faça parte da realidade, mesmo tendo que trabalhar com a hipótese de ter visto um. Ter ‘errado’ a sacola talvez tenha sido uma maneira de manifestar isso.”

“Continue. Até aqui você está indo bem.”

“Pessoas que acreditam em fantasmas, por exemplo. Elas não temem fantasmas o tempo todo, não acha, Sofia?”

“Eu lembro que, quando era pequena, só sentia medo de fantasmas quando acordava de noite, sozinha no meu quarto.”

“Você concorda que esse medo de fantasmas estava vinculado à escuridão da noite?”

“Não acho que alguma vez tenha tido medo de fantasmas à luz do sol…”

“Isso mesmo. É como se o medo de fantasmas só se manifestasse sob determinadas condições. Mas se você passasse a noite acampando numa floresta, e ouvisse um tigre rugir por perto a noite toda, você acha que o medo de ser atacada por um tigre iria embora com a luz do dia?”

“Sem dúvida que não. Mas o que isso significa?”

“Que as crenças das pessoas são condicionadas.”

“E o que isso significa…?”

“Que as pessoas realmente creem em coisas que não sabem se são reais, mas não o tempo todo. A crença só se manifesta sob certas circunstâncias. No mais das vezes, é como se a coisa em que elas acreditam não fizesse mesmo parte do mundo real. Nem mesmo pra elas.”

“Então o medo de fantasmas só dura enquanto dura a condição propícia para que se acredite em fantasmas?”

“Você foi… brilhante! Eu não poderia ter dito isso melhor.”

“Mas se não estivesse um céu escuro, e se eu não estivesse ouvindo trovões de vez em quando, eu também não estaria com medo de ser atingida por um raio. E isso não faz de um raio uma coisa da qual se possa duvidar.”

“Certamente que não. Mas o que você acha que um raio e um tigre têm em comum, que não podem compartilhar com um fantasma?”

“Eu passo essa…”

“Um raio e um tigre são evidentes por si. Você não precisa elevar sua voz para convencer as pessoas de que um tigre é real. Quantas vezes seu professor de física rogou a você para que ‘acreditasse’ na gravidade? Quantas vezes alguém precisaria ir até à sua casa para te alertar do perigo de ser atingida por um raio durante uma tempestade?”

“Entendo… Agora já sei aonde isso vai dar… Quando você começou falando de sacolas, a primeira coisa que me veio à cabeça foi shopping center… Mas, enfim, você acabou nos levando até a porta de uma igreja.”

“Há mais semelhanças entre uma igreja e um shopping center do que você possa imaginar, Sofia.”

 

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21 Respostas

  1. […] As sacolas de Sofia … em As sacolas de Sofia (parte… […]

  2. Barros,

    do ” 1 ” para o ” 3 ” já houve uma melhoria enorme . Parabéns. Como consumidor dos seus textos eu me sinto meio que na obrigação maior ainda de reclamar quando não estão bons do que de elogiar quando estão. Mas isso não é regra pois é frequente minha omissão de comentários. Para desespero e/ou desdém de muitos crentes que aparecem para trollar, leio religiosamente seus textos como orações que rezo contra os demônios da apatia divina.

    KKKKKK ! Que babação de ovo !!!

    Enfim, continue a semear a discórdia e a promover a arte do insulto que tanto faz falta no trato com os dogmas. Muitas pessoas precisam ser lembradas que coisas como livre arbítrio são tão naturais quanto o medo.

  3. Muito obrigado, Fernando. Sinta-se sempre à vontade para expressar suas impressões. Suas críticas serão sempre muito bem-vindas. E, sabendo que você gosta dos meus textos, as críticas desfavoráveis ganham um peso ainda muito maior, e um valor inestimável!

    Estou meio que “testando” esse formato de diálogos, como usavam os antigos filósofos, e posso dizer que é um negócio assombroso, pois o personagem-interlocutor parece que pensa por si, e a gente tem que se virar pra dar as respostas que ele exige. Mas como é a primeira vez que me aventuro nisso, é natural que não fique lá uma obra-prima… rs

    Acho que optei em escrever assim por causa do livro O Mundo de Sofia, que estou lendo pela primeira vez.

    Abraço!

  4. Deus é um ser necessariamente inexistente. No entanto é tão real quanto a idéia de número.

    Estou usando EXISTIR no estrito sentido do que, mesmo sem ser material, como a energia de uma onda eletromagnética, relaciona-se
    com o mundo material causalmente. Tudo que está no espaço e no tempo.

    Porém nada impede que seres de nossa pura fantasia existam em algum lugar de um possível universo, ou mesmo que venham a existir aqui mesmo na terra no futuro. São seres inexistentes, mas cuja existência, mesmo que improvável, é logicamente possível.

    No entanto conceitos da razão pura, como o de Deus e número não
    podem vir a existirem, pois estão essencial e necessariamente fora do
    plano da existência.

    Você não prova a existencia dos números. Nem muito menos acredita
    neles, tal qual a maçã.

    Em que sacola será que Sofia os classificaria ?

  5. Deus nem está na existência atual, nem muito menos numa possível existência potencial, como uma sereia, ou um unicórnio, por exemplo.Ele é um ser, cuja existência, tanto atual, como potencial é necessária e absolutamente impossível.

    Logo, não faz o menor sentido tentar provar-lhe, nem
    a e x i s t ê n c i a, nem tão pouco a i n e x i s t ê n c i a.

  6. Fala, Jamil.

    Rapaz, eu vejo contradições aí. Deus não pode ser um “ser” que “não é”. E ninguém poderia saber absolutamente NADA acerca de um ser assim descrito. Logo, saber isso que você alega saber dele é impossível.

  7. À lua da razão, Deus é tão real, quanto a maçã, no plano da existência, ou os números no plano das essências.

  8. relaciona-se com o mundo material causalmente

    Jamil, meu velho!

    Essa suposta “relação casual” de Deus com esse universo é tão somente fruto da vontade de que seja assim. Ou seja, o crente vê essa relação porque assim ficou convencionado pra ele, sem qualquer fundamento lógico (que dirá científico!).

    Quanto à escolha de Sofia acerca de, por exemplo, em que sacola ela colocaria o número 2, eu acho que ela precisaria de mais uma sacola… rsrs Muito filosófica essa questão.

  9. Fala, Barros!

    A contradição é apenas aparente, ou de semântica. Mas o pensamento, ou argumento, me parece plausível se tivermos em mente que há seres do mundo da existência e seres do mundo das
    essências.

    Há seres de nossa pura razão, ou entendimento, que estão fora do espaço-tempo e consequentemente não sujeitos à Lei de causalidade.
    Logo não faz sentido dizer que tais seres existam. No entanto sua realidade essencial é evidente à luz da razão.

    Só há uma forma de refutar tais realidades essenciais a meu ver, que é negar a razão. É possível pensar as essencias, ou realizar existencias sem o uso da razão?

  10. A Razão e x i s t e ( no sentido material, ou físico-causal)?

    No entanto fazemos uso dela a todo instante.

  11. Se a razão não existe como essência, mas podesse ser deduzida da existência, sob a leia da causalidade material, como explicar que
    2+2 = 4 é uma v e r d a d e a b s o l u t a ?

  12. Sem as verdades absolutas, ou essenciais, nada faria sentido. Tudo se tornaria tão plausível, quanto absurdo. 2+2 poderia ser qualquer coisa, desde 5 até a um pêlo de camelo

  13. Não há verdades absolutas no plano da existência, nem tão pouco no
    da inexistência.

    Só há verdade absolutas no plano das essências. Logo a questão teológica não é uma questão de existência ou inexistência. Mas de essência. A querela ateu x teístas, assim, não passaria de um fenômeno sociológico das ideologias.

  14. Discutir a existência de essenciais é não só um equívoco como uma grande contradição.

  15. Os filósofos da ciência já reconheceram esse equívoco, quando chegaram a atribuir status de verdade absoluta à relatividade das verdades científicas.

  16. Eles simplesmente chegaram a mesma conclusão dos filósofos gregos: Só podemos saber com certeza, ou propor teses no plano das essências. No plano da existência, todo saber é relativo, nada
    podemos saber, apenas conjecturar. Em essência, só podemos saber, com absoluta certeza, que nada podemos saber.

  17. Amigo Barros, parabéns pelo blog.

    Expus os argumentos acima como uma possível síntese ao dilema ateísmo x teísmo. Claro que não pretendo com isso, nem que ateus, passem a acreditar, ou muito menos que deístas passem a não acreditar em Deus, ou divindades. Por isso meu pensamento não é apologético, mas dialético.

    Claro, devido a minha formação religiosa, optei por uma síntese teológica, mas nada impede que haja, nos mesmos termos do argumento, uma antítese à minha síntese.

    Mais uma vez parabéns pela iniciativa e coragem
    por sustentar suas teses. Desculpe os erros de português e alguma incoerência nos argumentos.

    Um grande abraço!

  18. Obrigado, Jamil! Se não aqui, depois a gente continua esse debate lá “no nono andar”… Gostei muito da noção de seres que existem em essência como os números. Talvez seja o mesmo caso de Deus: como os números, ele é concebido em nossas mentes com o propósito que nós a ele atribuímos.

  19. Como então nós dizemos que sabemos o que são os números e os demais entes da matemática.

    Como você sabe que o quadrado da hipotenusa é a soma dos quadrados dos catetos ?

  20. Pois é, Jamil: assim como os números, Deus é real na medida em que atende as necessidades às quais nós lhe atribuímos que deve atender; assim como os números existem na medida em que cumprem a finalidade que nós lhe atribuímos que cumpram.

    Deus e os números precisam de um cérebro humano para existir.

  21. […] Parte 3 […]

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