O ateu e o agnóstico (Parte 1)

somostodos

Pergunte a um padre da igreja Católica, ou a um obreiro da Universal, ou a uma testemunha de Jeová que apareça no seu portão se eles sabem a definição da palavra “ateu”. Eu quero que a alma da minha mãe vá tostar no Inferno se não souberem!

  Ateu é aquele que não acredita em Deus.

E ainda arrisco dizer que alguns estarão aptos a dar uma aula de etimologia:

  “Ateu” vem do latim atheus.

   Esse a significa negação, ou ausência.

   E theus significa Deus.

O ateu seria, portanto, uma pessoa que nega Deus; uma pessoa sem Deus, certo?

Errado.

A palavra latina atheus deriva da palavra grega átheos, e os gregos que a conceberam não faziam a menor ideia de quem era Deus, pelo simples fato de que Deus não compunha o seu panteão de deuses. Theos, em grego antigo, significava “divindades”. 

As primeiras civilizações sempre tinham várias divindades às quais se atribuía o controle de diferentes coisas no mundo. Havia um deus responsável pelas boas colheitas, outro pelas pestes, outro pelo clima, e assim por diante. Pela época em que os gregos chamavam os seus descrentes de ateus, Deus atendia por outro nome e ainda fazia parte de um grupo de divindades cultuadas pela sociedade hebraica politeísta de então. Durante os longos períodos de escravidão, o subjugado povo hebreu passou a venerar mais especificamente o único deus ao qual poderia dirigir suas preces, o único que lhe poderia ser útil numa batalha pela libertação e na luta pela conquista de um novo território: seu deus da guerra, Jeová. Não é à toa que a Bíblia descreve Deus como sendo tão propenso a matar pessoas, tão irascível e tão belicoso. Ele era, de fato, o senhor dos exércitos, e sua função era exterminar os inimigos de seus devotos. Mas foi por uma combinação de acaso e força política que Jeová acabou se tornando o único deus digno de culto, quando seus mais fervorosos crentes assumiram definitivamente o poder e, por força de lei, transformaram os hebreus num povo monoteísta.

Também na Grécia antiga cultuavam-se inúmeros deuses. Zeus era o mais poderoso, o senhor de todos eles; Crono, pai de Zeus, era o deus do tempo; Afrodite, a deusa do amor; Hades, o deus do mundo dos mortos; Ares, o correspondente grego de Jeová, era o deus da guerra; e muitos muitos outros. Na civilização onde a palavra foi criada, ateu seria aquela pessoa que não venerava nenhum desses deuses. Se um cristão, um hindu, um judeu e um muçulmano fossem transportados no tempo para aquela época e lugar, todos eles seriam considerados ateus, porque certamente não iriam se dispor a adorar nenhum dos deuses gregos de então.

Resgatando a definição original, ateu seria aquele que não crê em nenhuma das divindades cultuadas pela sociedade na qual está inserido, visto que os gregos que cunharam o termo estavam considerando apenas os seus próprios deuses. Assim, um judeu seria ateu numa sociedade hindu; um hindu seria ateu numa sociedade islâmica; um muçulmano, numa sociedade cristã; e um cristão, numa sociedade judaica, porque, esperneiem o quanto quiserem, Alá, o Deus cristão e o Deus judaico não são a mesma divindade, apesar da origem comum. Dizer o contrário só seria possível se você conseguisse imaginar um mundo onde sua mãe pariu você, e, ao mesmo tempo, ela não pariu você. Diferentemente do Deus cristão, o Deus judaico nunca estuprou uma virgem para ter um filho mortal. E mesmo o Alcorão, segundo Christopher Hitchens, traz duas suras que advertem ao muçulmano que ele irá para o Inferno se considerar que Jesus é filho de Alá.

Esclarecido o significado original da palavra ateu, fica fácil perceber que ela atualmente foi sobrescrita em duas novas e diferentes acepções. Por um lado, para os ateus, ela ficou mais abrangente e passou a englobar a descrença em todos os deuses de todas as civilizações e de todas as épocas. Já a definição de ateu como sendo “aquele que não crê em Deus” só seria válida em sociedades com o mesmo tipo de fé religiosa que a nossa. Entretanto, a onipresente força de marketing das religiões cristãs ao redor do mundo, de acordo com seus interesses e sua peculiar desonestidade, sequestrou o termo para uso exclusivo, de forma a fazer parecer que a palavra se refere tão somente ao Deus bíblico, como se ele fosse a única divindade em que as pessoas poderiam acreditar.

Ou não.

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3 Respostas

  1. Barros,

    adorei o texto, achei bem sucinto e objetivo. Será que você poderia por favor citar as fontes? Acredito que isso pode ser de interesse também de outros leitores do blog, e quem sabe até de crentes que podem se coçar de curiosidade… Crentes cabeça dura depois de ler as fontes, podem até desdenhar delas mas bem que gostariam que elas não existissem para não precisar sentir tanto desgosto nem desconforto.
    Crente cabeça dura vai dizer : minha única e verdadeira fonte é essa aqui, ó ! A Bílbia sagrada que é blá blá blá… Amém !

    Particularmente eu gostaria de saber a fonte do parágrafo que começa com “As primeiras civilizações sempre tinham…”

    Não pretendo ser chato, absolutamente. Mas é que isso serveria inclusive para me ajudar a corroborar meus discursos. Além é claro, de dar uma maior seriedade ao artigo e ao blog.

  2. Fernando, rapaz, concordo plenamente com você que citar as fontes torna o texto muito mais “responsável” e útil, uma vez que pode incitar as pessoas a lerem mais sobre o assunto, e incentivá-las a pesquisar por conta própria. Entretanto, pelo menos aqui no Deusilusão, eu raramente escrevo “fazendo pesquisas”. Quando isso ocorreu, e foi muito raro, eu divulguei as fontes que consultei, como foi o caso no texto sobre o aborto e no outro sobre a vagina de Nossa Senhora.

    Na produção do dia a dia, fica difícil (ou praticamente impossível) citar fontes, porque o que normalmente faço, além de consultar meu Houaiss sagrado e a Wikipédia, é usar o meu próprio “conhecimento de mundo” sobre o tema. Aulas de História que tive, séries da BBC, entrevistas que vi, livros e reportagens que li, vídeos que assisti no YouTube, e tudo mais que cria uma consciência situacional sobre aquele assunto. Posso ter usado nesse texto, por exemplo, várias informações que obtive lendo Uma Breve História do Mundo (G. Blainey), Tratado de Ateologia (M. Onfray) ou Deus não é grande (C. Hitchens), mas não saberia dizer quais, nem de qual deles elas vieram, porque foram informações que assimilei ao longo da vida, mas que não foram guardadas no meu cérebro presas com um clip a uma nota dizendo de onde elas saíram.

    Aliás, você muito convenientemente me lembrou que é exatamente isso que eu vou precisar fazer dentro em breve, quando começar a escrever minha monografia sobre Alice no País das Maravilhas (o título completo é “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”). Eu venho colecionando exemplares traduzidos já há algum tempo e vou ter que me doutrinar a fazer esse tipo de cruzamento de dados, afinal, será um texto científico e não um post num blog. Já li o original em inglês duas vezes, vi o clássico da Disney 3 vezes e o do Tim Burton 4 vezes. Mas isso não tem nada a ver com o que eu vinha falando…

    Pois bem, resumindo, não tenho como colocar as fontes que me possibilitaram a escrever o texto. Ao mesmo tempo, as fontes são tantas e tão acessíveis que talvez isso seja até desnecessário. Qualquer livro de História deve tratar do assunto dos hebreus como sendo a primeira sociedade monoteísta. E deve dizer que eles não eram monoteístas antes de “se tornarem” monoteístas. Mesmo analisando seu mito de um Deus só, dá pra perceber que eles copiaram quase tudo das civilizações politeístas de sua época, principalmente a grega e a babilônica. Zeus tinha destruído a Terra com um dilúvio, do qual escaparam apenas um homem e uma mulher numa arca, muitos séculos antes do Deus hebreu ter feito a mesma coisa… Por aí se tira, né? Os hebreus foram apenas plagiadores com a sua Bíblia, e tiveram a sorte de ninguém aparecer pra cobrar direitos autorais.

    Quanto ao parágrafo específico que você citou, uma boa fonte seria A History of God: a 4000-year quest of Judaism, Christianity and Islam. Não sei se já tem versão em português, mas ele está muito bem resumido no vídeo que publiquei no post O nascimento de Deus*.

    Vale a pena dar uma olhada, viu?

    Grande abraço.

    * As fontes para a confecção do vídeo estão no original em inglês, e são essas aqui:

    A History of God: The 4,000-Year Quest of Judaism, Christianity and Islam:
    http://www.amazon.com/History-God-000-Year-Judaism-Christianity/dp/0345384563

    Well-sourced Wikipedia articles describing the evolution of Jewish monotheism from polytheism:
    http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_ancient_Israel_and_Judah#Religion
    http://en.wikipedia.org/wiki/Monotheism#Origin_and_development
    http://en.wikipedia.org/wiki/Yahweh#Early_history_of_Yahweh-worship

    Enuma Elish:
    http://en.wikipedia.org/wiki/En%C3%BBma_Eli%C5%A1
    Library of Ashurbanipal:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Library_of_Ashurbanipal
    Canaanite Religion:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Canaanite_religion
    Did Jewish Slaves Build the Pyramids?:
    http://skeptoid.com/episodes/4191

    Taanach Cult Stand:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Yahweh#Development
    Israel Enters Recorded History in Egypt at 1200 BCE:
    http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_ancient_Israel_and_Judah#Iron_Age_I

    Jeremiah’s Monolatrist Polytheism:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Queen_of_heaven_(Antiquity)#Hebrew_Bible_references

    Exodus Renaming by P verified in The Bible with Sources Revealed:
    http://www.amazon.com/Sources-Revealed-Richard-Elliott-Friedman/dp/0060530693

  3. De qualquer forma, obrigado pela “dica”. Eu vou ver se posso citar fontes, sempre que possível.

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