O ateu e o agnóstico (Parte 2)

T. H. Huxley

T. H. Huxley

Foi o biólogo inglês Thomas Henry Huxley que, em 1869, nos seus Collected Essays (Ensaios Reunidos), usou pela primeira vez a palavra “agnóstico”, forjada do adjetivo grego ágnostos (ignorante). Huxley pretendia que ela definisse aquele que estava no extremo oposto em relação aos que apregoavam um conhecimento acerca da existência de Deus. Se o crente tinha esse conhecimento e ele não, isso certamente fazia dele um ignorante, ou seja — um agnóstico.

Ao longo do tempo, o vocábulo foi ficando cada vez mais famoso e encorpado, a ponto de perder a simplicidade e ironia da sua definição original. Se você conseguiu inferir o significado de agnóstico só lendo o parágrafo acima, não se espante ao perceber que deixou de entendê-lo depois de procurar por uma definição mais aprofundada.

Acredito que a explicação que o próprio Huxley deu sobre o termo, em 1889, complicou mais do que pôde esclarecer. E é essa explicação, citada no tópico A pobreza do agnosticismo, que, talvez, tenha levado Dawkins a discorrer sobre a ideia presente em Deus, um delírio de que o agnóstico é alguém que está em cima do muro. Uma pessoa que, não vendo nenhum motivo válido para acreditar em Deus, também não se sente capaz de usar sua razão para concluir que não existe Deus algum, recusando-se, assim, a declarar-se religioso ou ateu, respectivamente.

Talvez seja esse o entendimento que as pessoas têm hoje do que seja um agnóstico, razão pela qual aqueles que assim se definem têm de lidar com a pecha de “indeciso”, ou mesmo a de “covarde”, intelectualmente falando. Aparentemente, a sociedade parece assumir que, enquanto o ateu é aquele que compra briga e defende “seus ideais” com unhas e dentes — arcando com as consequências de manifestar tal posição numa sociedade sabidamente contrária a ela — , o agnóstico seria aquele que, não vendo motivos para defender nem o “sim” nem o “não”, prefere viver no conforto de sua indiferença.

Thomas Huxley estava apenas sendo tremendamente irônico quando considerou que seus contemporâneos possuíam o conhecimento da existência de Deus. Não havia, nem há, tal conhecimento. Se houvesse, ele poderia ser facilmente compartilhado, e a crença não teria razão de ser. O religioso também é um ignorante. Um agnóstico que usa do subterfúgio de preencher sua falta de conhecimento com fé.

O ateu é tão somente o agnóstico que se recusou a fazer isso.

 

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5 Respostas

  1. Pra mim existe somente as duas espécies. Os que acreditam em deuses e os que não acreditam em deuses. Ou seja Ateus e crentes, ou Crédulos. Esse negócio de agnóstico é embromação de quem ainda está em cima do muro, não é uma nova espécie. Não existe mais ou menos crédulo. Seria o mesmo que alguém ser mais ou menos gente, mais ou menos pedra, mais ou menos copo. Ateu, como um substantivo, não pode ser variável. Pode?

  2. Eu concordo, Alfredo. “Agnóstico” foi uma ironia de Huxley. Só que o termo pegou e as pessoas meio que criaram uma nova definição para ele. Uma pessoa que diz

    “Ah, se existe um deus, qualquer que seja ele, é incognoscível, portanto, não se pode provar que existe nem que não existe. Assim sendo, eu não quero tomar partido”

    é ateia. Ela pode não saber, pode não querer ser, pode não gostar de ser.

    Mas é.

  3. Barros, gosto de lr seus textos. São claros e objetivos e , acima de tudo, lúcidos. Você deveria editar um livro.

  4. Deus existe, coitado de quem não acredita.

  5. Anônimo,

    ( seu ) Deus existe porque você acredita.

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