Qual o sentido da vida? (parte 4)

sonho

 

Onde eu estava na manhã do dia 5 de fevereiro de 2012? O que fiz naquela manhã? O que aconteceu comigo ao longo do dia? Com quem conversei? O que eu vi de interessante? Eu não lembro de absolutamente nada. Mas, mesmo que eu tivesse uma recordação de onde estava e do que tivesse feito, isso certamente seria apenas um fragmento de tudo o que aconteceu nesse dia específico, observado como quem assiste a um filme cuja imagem é tão desfocada, tão débil e imprecisa que apenas me daria uma informação bem superficial acerca do pouco que eu houvesse lembrado. E ainda assim, esse filme embaçado se apresentaria para mim de uma forma descontínua, mostrando cenas em momentos diferentes sem nada que as ligasse: um rosto, um movimento, uma frase, um objeto, uma paisagem. Uma memória assim tão tênue, uma visão assim tão friável, uma lembrança revista através dessas frações de momentos desconexos seria completamente indistinta de qualquer sonho ou pensamento que eu pudesse ter. 

Por outro lado, eu poderia ter alguma lembrança muito forte de algo que tenha me acontecido naquele dia e que me marcou profundamente. Uma lembrança tão vívida que faria meu coração bater mais forte, ou meus olhos se encherem de lágrimas, como a daquela manhã na praia em que Jéssica disse que me amava, e a da noite em que me telefonou para dizer que não me amava mais. Ainda assim, eu inevitavelmente seria capaz de perceber que essas recordações teriam a mesma consistência, e se apresentariam tal como as coisas que eu fantasio nos meus delírios mais absurdos, como quando me imagino dando uma entrevista coletiva para emissoras de tevê do mundo todo, acerca do sucesso de um livro que eu jamais escreverei.

Qualquer que fosse o caso, porém, essas memórias seriam apenas o produto de algo que só existe hoje, aqui, agora, e somente em mim: a minha consciência. O que eu vivi há um ano, ou há dez, ou ontem está confinado para sempre dentro do meu cérebro, codificado numa série de impulsos eletroquímicos através de uma rede neural exclusivamente minha, que só eu posso acionar, decodificar e usufruir. Toda a minha vida até o instante anterior a esse, se bem medido e bem pesado, é apenas fruto da minha imaginação. Mesmo que todos os meus dias estivessem registrados em arquivos digitais de imagem e som, tudo o que eu fui e tudo o que eu vivi antes do agora estaria resumido à mesma substância de que são feitos os sonhos.

A minha vida é a minha consciência. E a minha consciência só existe agora. O que ela relembrar do meu passado ou imaginar do meu futuro é apenas uma fantasia. O que nós nos acostumamos a chamar de “minha vida” é a soma da forte lembrança do que acabou de acontecer, da expectativa do que está imediatamente por vir, de todos os nossos anseios para o futuro, e de todas as nossas lembranças do que já vivemos. É isso que nos permite imaginar que temos uma vida que perdura, que se estendeu a partir de uma certa data muito especial até agora, e que seguirá adiante até uma outra que não sabemos qual é, mas que nos espera desde a nossa primeira respiração.

Essa vida que medimos em anos é uma ilusão com a qual nos acostumamos, e da qual dependemos para não sofrermos com essa verdade desconcertantemente óbvia: que nós só existimos um pouco de cada vez, que nossa vida se resume apenas a esse ínfimo e mágico momento que se esconde entre o presente instante e o instante seguinte.   

 

o instante

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17 Respostas

  1. imagino, que ha poucas pessoas que ainda no saberiam o que estariam fazendo neste dia, mais o texto serve para uma boa reflexo

  2. para lembrar o que aconteceu no dia anteriores é fácil, é só anotar no diário ( agenda) ou fazer gravaçoes em vídeos. agora NAO TEM MAS DESCULPE SE A MEMÓRIA FALHA .

  3. “para lembrar o que aconteceu no dia anteriores é fácil, é só anotar no diário ( agenda) ou fazer gravaçoes em vídeos. agora NAO TEM MAS DESCULPE SE A MEMÓRIA FALHA .”

    Experimente fazer isso e depois releia o que escreveste 10 anos depois pra ver se sua visão dos fatos lidos ainda é a mesma em sua maioria.

  4. Deni Costa, não creio que você ache que “poucas pessoas” não sabem o que fizeram numa manhã de um ano atrás.

  5. claro que é , nao importa quantos anos passe , isto é igual a casa do bbb (big broder) o que gravou tá gravado, a menos que vc corte cena pra edita-la ,

  6. Barros,

    Você disse:

    “A minha vida é a minha consciência. E a minha consciência só existe agora.”

    Dizer que “a minha consciência só existe agora”, no atual estágio do desenvolvimento da humanidade, tem o mesmo peso perante a verdade absoluta (verdade desconhecida), que dizer: “a minha vida é a minha consciência, e, é eterna”… Com um indiscutível agravante em seu desfavor, a ciência e o conhecimento atuais, apontam para a conquista da imortalidade, quando muito no próximo milênio…

    E agora meu caro Barros, como ficamos? Acho que estou em grande vantágem, dado o peso dos meus aliados. rsrsrs.

  7. A ciência, em 1989, também “apontava” que, no ano 2000, nós iríamos para o trabalho em nossos próprios discos voadores.

    Esses que lhe disseram que seremos imortais daqui a mil anos sãos os mesmos que lhe contaram que o “conhecimento absoluto” já foi alcançado em vários outros planetas fora do sistema solar? Você ainda não me respondeu essa.

  8. E eu acho que você ainda não se apercebeu de um enorme problema.

    Se, mesmo vivendo apenas umas sete décadas (média mundial), nós já nos defrontamos com problemas sérios de recursos e de “gerenciamento” para dar conta de mais de 7 bilhões de indivíduos, imagina se passássemos a viver cem anos a mais que fosse! O seu sonho de imortalidade precisaria ser atrelado a algo altamente preocupante, e isso me deu uma ótima ideia para inserir em um dos próximos textos dessa série…

  9. Sabe quando um escritor acertou o “alvo”? É quando ele diz num escrito ao que aos pessoas chegaram num consenso. Aí ele atingiu o “sucesso”. Alguém pediu uma vez, quando estava sob um auge de perseguição teo-pulhítica, que algum leitor compilasse os comentários que estavam sendo feitos no blog SEM RELIGIÃO (em que vc era um dos titulares). Um cara rascunhava às pressas num computador de Lan House (ou algum outro que conseguia) comentários do que estava acontecendo com ele. Em vários comentários redizia o que garotas e garotos estavam denunciando. Uma história sendo arquivada num blog quase sem importância, mas pelo menos até onde se lia, sincero. Vários blogueiros diziam: “Cara, faça seu blog não use o dos outros, para comentar coisas que não se relacionam direto com o post”. Eles talvez não lessem os comentários, ou só dessem importância ao aumento de suas vaidades, e não aos leitores, ao que pudesse estar se passando nas suas caras, sem que fizessem absolutamente nada, nem um toque numa rede nem nada (exceto um, que disse: “Li lá no trabalho para meus colegas”). Até hoje há consideração de quantos precisaram dos blogues para fazer o que precisaram fazer numa hora difícil.
    Um post tipo piada foi postado no Diário de Uns Ateus, sob forma de uma piada, esse post está linkado do blog Bobagento, leitura certa na internet pelos adolescentes.
    Neste post lá do D1A um comentário acertou direto na figura da piada; que é um crucifixo, uma crucifixão, e o comentário é esse (mas seguinte tem também uma figura postada anexa num comentário, que dá resume o contexto):
    “Não entendem até hoje que o que quer que esteja pregado nesse símbolo do mito crucificado não é um bípede? E que os escravos são obrigados a olhar o que lhes desgraça? Não decifraram ainda a charada? A lição é: “Olhem bem o que acontece com os que tentam se livrar ou livrar os cegados pelas mentiras das crenças”. A cruz é a morte, A MORTE LOUVADA.
    Quem mira seja o que for que esteja dependurado em cruz, mira o que lhe desgraça. Mira a covardia, a traição, a submissão.
    Quem louva esse símbolo entrega sua vida à desgraça pessoal e civil.
    É um símbolo de terror e domínio, uma arma de um parasitismo.
    Alguém sequer desconfiou dos 13 VESTIDOS do carranco grotesco que posou com vestido vermelho com pompa chefe de reino num país “democrata”?

    Alguém notou o circo armar o espetáculo do malafrário (malafa, pastuto no Brasil) dando bedelhos na vida íntima alheia, enquanto ordens de Ministérios Públicos (federal e estadual) são jogadas de lado uma à uma (hoje foi em SP).

    Estamos sendo conduzidos ao matadouro. Os negros são aliciados contra os brancos, os homens a desprezar as mulheres, os pobres contra os ricos, os jovens contra dos adultos, a nossa vida contra os valores simples e sinceros do viver.

    Ninguém se dá conta de que a “proteção” das “famílias” na internet impede um garoto ou garota de ler o que tem de útil na internet, e essa farsa de “segurança” serve para que sejam jogados direto em sítios já malhados e empacotados com toda a covardia dos desonestos contra o adolescentes?

  10. Nosso cérebro é limitado no que diz respeito as memórias, nunca existirá vida eterna. O cérebro é capacitado para dar essa falsa ilusão de que temos uma vida que segue um padrão linear e fluído, através das lembranças, mas a consciência só existe nesse momento e, quando o as lembranças não forem mais capazes de serem armazenadas devido a extensão da nossa existência, estaríamos num vácuo existencial.

  11. PRIMEIRA IGREJA ATEIA NA INGLATERRA, COM DIREITO A DÍZIMOS E AGRADECIMENTOS À VIDA. TEM ATÉ SACERDOTES AUTOINTITULADOS. E SE É BOM PARA A INGLATERRA…

    CHAMAM DE CONGREGAÇÃO E O NOME É “ASSEMBLEIA DE DOMINGO”

    http://www1.folha.uol.com.br/bbc/1226731-culto-alternativo-de-igreja-ateista-tem-rock-e-comedia.shtml

    SAUDAÇÕES A TODOS!

  12. NÃO SEI SE VAI ABRIR A IMAGEM DA IGREJA

  13. Eu li a reportagem. Bem interessante, como notícia, mas uma palhaçada, no fim das contas esse negócio de igreja de ateus.

  14. Barros,

    Essa sua capacidade de criar contos em etapas, ou, como você diz, ‘séries’, realmente carrega uma dramaturgia tal que, independente da ideologia, é algo verdadeiramente literário.Tipo Paulo Coelho teria que nascer várias vezes para entender o que é escrever. Quando um escritor derrama seu talento, nada mais importa. E é por isso que amamos Baudelaire, Nietzsche, Bukowski, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud. E mais alguns escritores – lembrei de Oscar Wilde, Edgar Allan Poe (leia!); Charles Diekens, e, logicamente, William Shakespeare! Vá fundo, amigo! Talento é algo que o homem tem, mas nem sempre faz amizade com ele. Sucesso, Barros!

    PS – Sinceramente ^^

  15. Cara, na boa. Tu é phoda! Sem palavras… :)

  16. , que pena que eu “pulei” esse seu comentário! Realmente não o li na data em que você postou, há mais de 1 ano. Se tivesse deixado seu e-mail, eu escreveria agradecendo. Mas deixo aqui o meu muito obrigado pela sua consideração.

    Moisés, mui grato pelo elogio, e pelo “ph”.

  17. […] Parte 4 […]

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