Qual o sentido da vida? (parte 5)

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Nós somos a nossa consciência. Sem ela, seríamos apenas mais um organismo preso ao compromisso biológico imperativo de sobreviver e reproduzir, guiado exclusivamente pelo instinto compartilhado com animais que consideramos inferiores, como a lagartixa. É a nossa consciência que, ao mesmo tempo em que nos revela que também somos animais, entrega-se à ilusão de que temos que ser bem mais do que isso, por causa do deslumbramento que ela tem por si mesma. Esse deslumbramento tende a não nos permitir aceitar que um ser assim tão especial, assim tão superior, deveria ter o mesmo fim que imaginamos que todos os outros animais terão. Afinal, ninguém acha que lagartixas também mereçam um Paraíso.

Mas nós devemos merecer. Porque nós sabemos que estamos aqui; porque temos noção de nós mesmos, dos outros, de tudo mais à nossa volta e muito mais além, e da relação que existe entre tudo isso; porque nos questionamos sobre as coisas, sobre a vida e sobre o nosso futuro; porque temos emoções que se manifestam de modo sublime através de todas as formas de arte que inventamos; porque temos uma inteligência inigualável que nos faz olhar para a nossa espécie com um fascínio assombroso, como se não quiséssemos enxergar em nós apenas aquilo que aparentamos ser. E, acima de tudo, porque temos essa consciência que nos assegura que é importante demais, preciosa demais para ser desperdiçada, caso fôssemos apenas animais condenados a viver umas poucas décadas e com o único propósito de se multiplicar sobre a terra.

Acontece que esse mundo do qual temos consciência e com o qual interagimos não existe por si mesmo. Ele só existe dentro dos nossos próprios cérebros. É lá que as luzes, sons, texturas, gostos e cheiros se transformam em realidade. E como essa realidade é produzida apenas dentro das nossas cabeças, nós fomos capazes de fazer um pequeno ajuste nela, e passamos a compartilhar um mundo que nos reforça a percepção encantadora de que essa condição especial, revelada e percebida, ao mesmo tempo, pela nossa própria consciência, foi um presente, um sopro divino de um Criador maravilhoso, perfeito e eterno que nos fez à sua imagem e semelhança: maravilhosos, perfeitos e eternos.

Tolo engano. E as explicações para sustentar essa teoria não passam de estórias que eram contadas para as crianças de milênios atrás, quando toda fonte de conhecimento provinha dos mais velhos, e o que os mais velhos sabiam acerca de quase tudo era apenas fruto de sua superstição, medo e imaginação.

Mas depois que Charles Darwin, com seu livro cujo título original é Sobre a Origem das Espécies por meio da Seleção Natural, ou A Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida, mostrou que nossa espécie não foi “criada” de uma só vez, muito menos por um ente divino, nós começamos a duvidar mais seriamente que pudesse haver alguma informação confiável — sobre nós ou sobre o mundo em que vivemos — naquelas estórias de ninar. Depois de transformar o Gênesis, a “Palavra do Deus Vivo”, numa simples e tola alegoria, Darwin também nos revelou o que seria aquele “sopro divino”, em seu livro A Descendência do Homem, e a Seleção em Relação ao Sexo, que foi brilhantemente explorado em A Mente Seletiva, de Geoffrey Miller.

A nossa consciência, que é, ao fim e ao cabo, tudo o que nós somos, é produto da nossa inteligência (que, por sua vez, é um subproduto da nossa evolução); e a nossa inteligência não evoluiu para produzir arte, nem filosofias, nem deuses, mas apenas para conquistar uma parceira sexual e poder acasalar e passar adiante os nossos próprios genes. O mesmo propósito de uma lagartixa.

 

 lagartixa

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7 Respostas

  1. Muito bom Barros, eu nao tenho participado em comentarios porque estou na correria, mas sempre leio todos. Sempre bons.

    Abracao
    Carlos Mello
    Porto Alegre

  2. Muito parecido com o Budismo. Boa análise.

  3. “cujo objetivo primordial não era produzir arte, nem filosofias, nem deuses, mas apenas conquistar uma parceira sexual para acasalar e passar adiante os nossos próprios genes. O mesmo propósito de uma lagartixa.”

    Se não era esse o objetivo, então ficarmos inteligente a ponto de desejar conquistar outros planetas, entender o universo e buscar a verdadeira origem das coisas seria um “desvio” na evolução? Puxa, fazer arte (como escrever, pintar, compor músicas), filosofar, pensar o universo, me parece melhor que só transmitir genes. Aí é que está, segundo tal teoria, a coisa tomou outro rumo, né? Muito simplista para explicar a origem desse vidão, com todo respeito à lagartixa e a todos os animais.

    Alfred Russell Wallace, e não Darwin seria o autor da teoria da evolução. O próprio Darwin admitiu ter escrito uma “meia carta” à Wallace concedendo prioridade a ele, ao Wallace. O que ocorreu foi que este jovem cientista estava em algum lugar no fim do mundo pesquisando, enquanto Darwin correu e escreveu seu best seller.

    O que quero dizer é que nada é, ainda, definitivo. São teorias. E onde estarão as anotações do cientista Wallace?? Alguém sabe dizer?

    http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI2973647-EI8146,00.html

    Saudações!

  4. Não sei se o link vai entrar.

    http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI2973647-EI8146,00.html

  5. Olá Barros! Seus textos são sempre excelentes, por isso mantenho um link de seu site em meu blog. Gostaria também de usar este espaço para dar uma dica de proteção de textos para reduzir a possibilidade de plágio, pois tenho sido vítima desta prática. No link que segue há uma forma interessante de evitar o “ctrl+c, ctrl+v” que apliquei ao meu blog recentemente: http://www.icebreaker.com.br/2009/05/bloqueando-selecao-de-textos-e-imagens.html

    Sds.

  6. Obrigado pela dica, Alexandre.

    Um abraço

  7. […] Parte 5 […]

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