Qual o sentido da vida? (parte 7)

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Das janelas do nono andar, eu os tenho observado por milênios, desde quando nasceram para si mesmos e passaram a contemplar o mundo em busca de respostas, de explicações, de sentido. Eu presenciei sua agonia ao servir de alimento às feras; estive ao seu lado enquanto morriam de ignorância e de ingenuidade; e os acompanhei de perto em toda a sua penosa odisseia. Sozinhos e indefesos, eles eram como crianças deixadas à própria sorte num mundo não só inconcebivelmente vasto, mas também intimidante e completamente hostil. Mesmo assim, contra todos os prognósticos, expectativas e possibilidades, eles sobreviveram.

Então eles cresceram, e por sua própria conta e risco, aprendendo com a dor e com o sofrimento de suas tentativas e erros, de suas perdas e danos, eu os vi dominar os elementos e herdar a Terra. Ouvi por séculos as suas dúvidas, as suas queixas, os seus sonhos; compartilhei de seus temores e de suas esperanças; alegrei-me com eles a cada mínima conquista; e me entristeci por todas as suas derrotas e vitórias. Vi seus bebês morrerem por exaustão de tanto chorar de fome e de sede, de dor e de frio, de medo e de abandono. Velei seus corpos despedaçados nos campos de batalha, e abençoei aqueles que foram oferecidos em sacrifício a deuses inúteis.

Agora mesmo eu lhes surpreendo vivendo num mundo que, embora sabidamente finito e menos intimidante, continua sendo, como sempre foi, hostil e indiferente ao que quer que eles próprios acham que são. Ainda sozinhos e indefesos, eu os vejo nas ruas abaixo, vivendo suas vidas sem propósito, ignorantes acerca do que realmente se tornaram. Hoje eles mandam seus filhos para a escola, vão para o trabalho, param nos sinais vermelhos, fazem reuniões, voltam para casa à noite, assistem televisão e vão dormir na certeza questionável de poder começar tudo de novo na manhã seguinte. Sem mesmo saber por quê.

Outro dia, numa tarde nublada de solidão, eu me cansei de apenas olhar e desci até eles. Olhei-os nos olhos, apertei suas mãos, mas sequer me reconheceram. Estavam ocupados demais com seus celulares, com seus compromissos, com suas ilusões, com suas vidas sem sentido. Foi quando eu quase desisti. Fechei os olhos por um instante, e já pensava em voltar para minha própria dimensão, quando uma brisa rápida e fria me trouxe de volta o mesmo aroma de morangos que eu havia me acostumado a sentir nos cabelos dela.

Eu me voltei para o vento e, de onde ele vinha, vinha também ela na minha direção, como se tivesse acabado de sair de um conto de fadas. Ela sorria para mim e me olhava incrédula, não por eu estar ali, completamente destoante de tudo e de todos ao meu redor, mas por não ter ela mesma conseguido resistir à tentação de vir ao meu encontro. Enquanto sentia extasiado fluir violentamente pelo meu corpo a recompensa que encerra o verdadeiro e insondável significado da minha existência, eu me atrevi a pronunciar seu nome ainda um pouco mais alto do que os trovões acima, que, sem demora, começaram a ribombar de inveja:

Sofia.

 

do espaço

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3 Respostas

  1. Não entendi Barros!! quem é o cara ai do texto? um anjo? um deus?

  2. É uma metáfora para o meu conhecimento histórico. Para o “nosso”, na verdade.

  3. […] Parte 7 […]

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