Qual o sentido da vida? (parte 8)

janelas

— Credo! Que coisa mais deprimente!

Eu a levei a uma delicatessen ali perto e, enquanto esperava meu cappuccino — ela já havia sido servida de uma fatia de torta alemã e refrigerante — , apresentei-lhe o teste do prisioneiro egípcio, que ela detestou, para dizer pouco:

— Isso é um troço completamente… Jesus! Não sei nem o que diga! Como você pôde imaginar uma coisa dessas?!

— Eu achei que seria uma maneira bem interessante de fazer as pessoas pensarem sobre o sentido de suas vidas.

— Interessante?! Você achou isso “interessante”? Pra um filósofo, você devia escolher melhor as palavras.

— Nunca disse que era filósofo. Mas, enfim… O que eu queria mostrar às pessoas é que elas jamais aceitariam “viver”, entre aspas, naquelas condições. Logo, eu só poderia concluir que seja o que for que dê sentido às suas vidas não estaria dentro daquela cela; não estaria sequer nelas mesmas. 

Quando meu cappuccino chegou, ela prestimosamente me ofereceu um pedaço de sua enorme fatia de torta. Eu aceitei, mas pedi que ela o deixasse separado no seu prato, pois talvez ele me pudesse ser útil de outra forma dali a pouco.

— Continue. E vê se acaba de uma vez com esse assunto deprimente.

— Prometo que vou ser rápido. Vê só. Se você fosse um tipo de fada-madrinha, o que você faria para tornar a pena daquele preso egípcio mais suportável?

Ela havia acabado de enfiar um pedaço enorme de torta na boca e me fuzilou com os olhos.

— Tudo bem. Eu, por exemplo. Se eu fosse um fado-madrinho, eu poderia fazer uma série de mudanças que tornariam aqueles cinquenta por cento de chance de se libertar uma probabilidade bem menos atrativa. Eu faria a cela ficar do tamanho da minha casa, e seria confortavelmente mobiliada: cama, escrivaninha, sofás, mesa, quadros, poltronas, tapetes, etc., mais ainda uma banheira de hidromassagem com água quente, chuveiro, bidê e um vaso sanitário. Colocaria várias janelas que dessem para vistas de montanhas bem longe no horizonte, vales, bosques e rios; e através das quais ele pudesse tomar sol. As refeições, cinco por dia, seriam algo como num serviço de quarto de hotel cinco estrelas. Ele teria ainda um frigobar frequentemente abastecido com bebidas, petiscos e guloseimas; um computador com acesso ilimitado à internet; uma enorme tevê tela plana de última geração; DVDs, CDs, celular, um aparelho de ginástica, uma esteira de corrida, e todo tipo de publicação impressa que escolhesse ler, diariamente. Eu ainda iria permitir que, uma vez por mês, ele pudesse assistir, na cela, aos melhores filmes em cartaz nos cinemas; que recebesse visita de seus familiares uma vez por semana, e visita íntima a cada dois meses. E então? Me saí bem?

— Bastante, eu acho. Mas ainda assim ele continuaria preso para o resto da vida?

— Sim, mas a pergunta essencial é: depois de toda essa mágica que eu fiz, e em relação às condições anteriores, você acha que ele se sentiria “mais” ou “menos” tentado a puxar aquela tira de couro que ainda penderia do teto?

— Menos, sem dúvida.

— Exato. Ele não iria mais se sentir tão inclinado a obter a liberdade, quando isso significaria arriscar sua vida, com as chances ainda sendo de meio a meio. Ora, mas o que foi que mudou na “vida” dele que o fez alterar tão drasticamente sua disposição para arriscar perdê-la?

— …

— Não quer nem arriscar uma resposta, Sofia? 

— Ela passou a… fazer mais sentido.

— Bingo.

 

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7 Respostas

  1. Barros
    Como está posto até aqui o sentido da vida seria mais ou menos como uma realidade virtual gerada a partir de interações prazerosas. Um hedonismo, no sentido que a Psicologia dá ao termo.

  2. Isto mesmo Barros o sentido da vida é viverrrrrrrrrrrr!!!

  3. Mas… Se o VERDADEIRO sentido da vida é gozar dos prazeres e usufruir do bom e do melhor (não que isso não faça sentido), o que dizer de pessoas que têm de tudo, têm saúde, têm família, têm vida sexual ativa e prazerosa, têm amigos, têm dinheiro, têm prestígio na sociedade, têm liberdade, têm uma infinidade de opções, etc, no entanto não têm paz, não têm alegria, não têm prazer de viver????

  4. Shirley, a minha conclusão vai tender para esse lado.

    ADAMANTDOG, você precisaria definir “viver”, pois eu concluí que, pelo menos para nós, ter as necessidades básicas satisfeitas não é o suficiente, e você puxaria “a cordinha” se estivesse no lugar daquele prisioneiro.

    Elienai, estamos na “parte 8” ainda.

  5. Barros:

    Eu acho que sim !! eu puxaria !! afinal 50% de chance é melhor que nada, se não puxa-se, iria morrer do mesmo jeito.

  6. OK, Barros.

  7. […] Parte 8 […]

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