Qual o sentido da vida? (parte 11)

Norma Jean

— Por que uma pessoa rica se mataria… — ela repetiu a pergunta pra si mesma, enquanto contemplava a rua através da enorme vidraça ao lado da nossa mesa — …se ela teria dinheiro suficiente pra pagar por todo tipo de prazer disponível? Realmente — ela concluiu voltando o olhar para mim — , sua tese desmoronou.

— Você acha?

— Eu acho. Se é mesmo prazer que dá sentido à vida, e se pessoas ricas podem pagar por todo e qualquer tipo de prazer disponível, a gente não poderia nunca ouvir falar de alguém assim cometendo suicídio.

— É um raciocínio bem coerente, Sofia. Mas me diga: por que você escolheu torta alemã com Coca-Cola e eu apenas um cappuccino?

— Ora, mas o que isso tem a ver?

— Sofia…

— Tá, já entendi. Esse seu jogo tá mais lento do que aquele das sacolas… Mas tudo bem… Vejamos… Porque eu estava com vontade de comer torta alemã com Coca-Cola. Essa serve?

— Então você acordou com essa vontade hoje…?

— Claro que não!

— Desde quando você passou a ter vontade de comer torta com refrigerante?

— Ora, desde que você me convidou pra vir aqui. Aí eu escolhi isso, e você, o cappuccino.

— Você concordaria comigo se eu afirmasse que você fez esse pedido porque, dentre as opções disponíveis, considerou que essa torta e essa marca de refrigerante iriam lhe dar mais prazer do que qualquer outra combinação possível no momento?

— Hummm…

— Por exemplo: por que não torta alemã com Fanta uva, ou com cappuccino? Ou kibe com suco de laranja? Ou coxinha com água?

— Você tá querendo dizer…

— Que é você, e mais ninguém, que pode decidir o que é que lhe dá ou não dá prazer; ou o que lhe dá mais ou menos prazer.

— E…?

— Uma pessoa rica pode chegar nessa loja e ficar muito frustrada com as opções, não pode?

— Pode. Mas eu acho que ninguém iria se matar porque aqui não servem pretzel com guaraná.

— Também acho. Mas a questão aqui é outra: nem sempre o que você pode comprar está disponível; ou nem sempre está à venda.

— Elabore melhor isso, que eu me perdi um pouco, eu acho.

— Muito bem. Vou me citar como exemplo. Eu jogo xadrez desde o início da minha adolescência. Aprendi sozinho todos os tipos de notação de xadrez para poder ler livros e matérias em jornais e revistas especializadas, além dos registros das partidas dos Grandes Mestres. Eu sempre sonhei em ser, pelo menos, Mestre Nacional em xadrez. Mas adivinha: eu tenho uma memória péssima, baixíssima capacidade de concentração, força de vontade insuficiente, um raciocínio lógico-abstrato capenga e uma inteligência bastante duvidosa. Mesmo se eu tivesse tanto dinheiro quanto o Bil Gates, é bem provável que jamais me tornasse um Mestre em xadrez. E não dá pra comprar um título desses numa delicatessen.

— Então você iria se matar…

— Não. Mas você entendeu que, mesmo dinheiro não sendo problema, alguém poderia não conseguir satisfazer seus próprios desejos?

— Entendi. Mas aí, no seu caso, você poderia escolher outra coisa. Hipismo, alpinismo, yoga… Ia tentando e aproveitando a vida…

marilyn-monroe

— Sim. Seria o esperado. Mas, às vezes, Sofia, a coisa desejada poderia ser… digamos… tão vital quanto o ar que se respira.

— Não consigo imaginar nada assim tão…

— Marilyn Monroe. Sabe quem foi ela?

— Mais ou menos. Uma atriz, né?

— É. Um ícone. Um símbolo sexual. Desejada por todos os homens. Invejada (ou odiada) pelas mulheres. Rica. Linda. Famosa. Infeliz.

— Também queria ser enxadrista?

— Ela casou com homens que a queriam como um troféu. E era assim que ela se sentia. Frustrada, sem parentes próximos e sem amigos íntimos, ela se entregou de corpo e alma ao trabalho, e o estresse da vida que levava a arremessou no mundo dos calmantes, dos remédios pra dormir. Como eram drogas pesadas, ela acabou se viciando nelas, e precisando de outras drogas para se manter desperta e ativa durante o dia, numa montanha-russa mortal. Na última noite de sua vida, ela ligou para vários supostos “amigos” para conversar, mas ninguém estava disponível. Ninguém queria saber dos problemas dela. Ninguém a amava de verdade. Ela foi encontrada morta na manhã seguinte ainda segurando o telefone.

— Mas… mas… isso é de uma burrice!! Por que ela não… Por que ela não foi procurar desfrutar de outras coisas que a vida tinha pra lhe oferecer? Viajar o mundo, conhecer pessoas diferentes, aprender xadrez, sei lá!

— Você não poderia ter feito essas escolhas por ela, Sofia. Ter alguém pra conversar, naquela noite, não era como o meu título de Mestre de xadrez, nem como a sua torta alemã com Coca-Cola. Era muito mais do que isso: era vital.

— Como o ar que se respira… 

Marilyn Monroe

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4 Respostas

  1. Gosto por jogar xadrez… Ficção e realidade se misturam ?

  2. Gosto por jogar xadrez… Ficção e realidade se misturam ?

    Inevitavelmente… rsrsrsss

    Grande abraço!

  3. 1. FELICIANO: Segue textos extraidos da “BÍBLIA “EDIÇÕES PAULINAS” DA IGREJA CATÓLICA, contendo casos de REENCANAÇÃO.
    Ainda em Jó, na versão da Igreja grega, afirma: “Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo”; 8 – no Livro de Sabedoria, aceito pelos católicos, o autor diz que “ Sendo bom, entrou num corpo sem mancha” (8:20); etc, Concluimos que neste caso está muito claro outro caso de reencarnação) Observação “corpo sem mancha um novo ser, um novo nascimento”
    Ainda em Jó, na versão da Igreja grega, afirma: “Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo” CORINTIOS 15:
    SÔBRE A RESSURREIÇÃO: 15:18 – Se é só para esta vida que temos colocado nossa esperança em Cristo, somos de todos os homens, os mais dignos de lástima.
    SABEDORIA: 8:19 – Eu era um menino vigoroso, 20 – ou antes, como era bom, eu vim a um corpo intacto. Obs. Intacto “um novo ser, sem pecado” (Mais um caso de reencarnação).esperarei, porquanto a ela voltarei de novo”; 8 – no Livro de Sabedoria, aceito pelos católicos, o autor diz que “ Sendo bom, entrou num corpo sem mancha” (8:20); etc, Concluimos que neste caso está muito claro outro caso de reencarnação) Observação “corpo sem mancha, sem pecado um novo ser, um novo nascimento”

  4. […] Parte 11 […]

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