Deuses de mármore [Edição Completa]

produto final - deuses de mármore

Diz-se que, quando perguntado como era capaz de esculpir estátuas tão perfeitas, Michelângelo costumava responder:

   Ela já estava lá, dentro do bloco de mármore; eu só retirei os excessos.

Embora fosse um meio de expressar sua indevida modéstia, não se pode dizer que o famoso escultor estivesse errado: todo o seu trabalho se resumia a retirar os pedaços que não estavam destinados a fazer parte de sua obra. O material que compõe a estátua pronta, como ele bem observou, sempre esteve lá, escondido por trás dos excessos de pedra a que ele se referia.

Outro dia me dei conta de que a Bíblia sagrada dos cristãos é, também, um bloco de mármore, a partir do qual cada crente esculpe o seu próprio Deus, de acordo com suas preferências pessoais, assim como um escultor tira de uma pedra bruta a figura que bem quer. Não admira haver tantas denominações religiosas, tantas interpretações diferentes para um mesmo livro sagrado, tantas regras diferentes que, se descumpridas, conduzirão a diferentes infernos…

Dizer que o Deus cristão é único é uma das maiores mentiras do cristianismo, se não a maior, a começar pelo seu próprio dogma da Santíssima Trindade, que obriga o religioso a se entender com dois deuses ao mesmo tempo — Jesus e o Pai dele — , porque o Espírito Santo, a bem da verdade, nem fede nem cheira.

esboço - deuses de mármore

Um leitor do blog vez e outra costumava escrever nos comentários dos meus textos: Desse Deus em que você acredita, eu também sou ateu. Isso como forma de rebater os argumentos em que eu descrevia as incongruências entre o Deus-Papai Noel com o qual os cristãos viciam seus filhos, e o Deus esquizofrênico presente em toda a Bíblia. Para esse meu leitor, aquele Deus a que eu me referia nos posts do blog simplesmente não existia; daí ele se considerar, também, um ateu. Só que todos os meus textos sobre Deus são baseados na Bíblia, que é a única “fonte” original sobre ele. Para acreditar num Deus de amor, justo e bonzinho, o cristão precisa fazer, com o seu livro sagrado, o mesmo que o escultor faz com um bloco de mármore: retirar tudo o que não serve para compor a estátua que ele já imagina estar ali dentro. É um processo bastante ineficiente, nesse caso, porque, mantendo a comparação, os pedaços da Bíblia que ele jogou fora para moldar o seu Deus continuam sempre lá.

Eu, que moro a menos de quinhentos metros de uma boca de culto de Testemunhas de Jeová, tenho exemplos sem conta para ilustrar isso. Como se sabe, uma vez por semana elas saem batendo de porta em porta para entregar revistas, panfletos, e falar do amor que uma certa criatura que se esconde numa dimensão mágica tem por você. O engraçado é que, quando o meu pai vai atendê-las, eles costumam demorar uns dez, quinze minutos conversando. Quando sou eu, a conversa não se estende além de uns dois minutos:

 — Deus me ama? E se, por acaso, eu não resolver amar ele de volta, ele vai me jogar no Inferno?

 — Olha, Deus amou tanto o mundo que enviou seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna.

 — E Deus amou tanto o mundo a ponto de afogar as pessoas num dilúvio, como quem dá descarga.

Quando a conversa é com meu pai, suponho, as Testemunhas de Jeová se detêm falando de amenidades, quando o Deus-Bipolar estava de bom humor, talvez. Quando é comigo, eu descaradamente faço com que elas contemplem os pedaços da Bíblia que não fazem parte do Deus que elas esculpiram para si mesmas.

Todo religioso com quem já conversei age como se o Deus do Antigo Testamento tivesse morrido. Isso mesmo. É como se ele tivesse existido, criado o universo, tocado o terror na Terra por um tempo e, por fim, tivesse envelhecido e batido as botas, igualzinho a todo mundo. E como “Deus morto, deus posto”, eis que a vaga veio a ser ocupada por seu filho, Jesus. E é a esse que as pessoas que conheço se referem o tempo todo, mal lembrando do outro lá, o falecido.

Quando algum crente menciona Deus, nunca é o Deus bíblico. É um Deus que ele criou em sua cabeça, a partir da ideia que faz de como um deus deveria ser.

Um escultor pode olhar para um bloco de mármore e imaginar a figura que irá tirar dele, assim que cortar fora os pedaços de pedra que a estão escondendo dos olhos do mundo. Enquanto não começa a trabalhar, só o artista vê o que ali está escondido. O cristão tenta fazer o mesmo com a sua divindade, mas, diferentemente do mármore, a Bíblia não se deixa despedaçar. Daí o crente precisar contar com a boa vontade dos outros para imaginar, junto com ele, o mesmo Deus que ele imagina ver sob o mármore. É a razão de tantas religiões cristãs: cada grupo de pessoas vê um Deus diferente.

Se você quiser fazer um teste, sempre que alguém vier “falar de Deus” pra você, esse Deus que se diz ser bondoso, paternal, perfeito, etc., aponte no Antigo Testamento um dos sem-número de trechos que descrevem um Deus malévolo, belicoso e infestado de péssimos atributos humanos. As chances são de que a pessoa sugira que você faça o que ela mesma já fez: jogar fora esses pedaços de Bíblia que não fazem parte da sua escultura.

withe_marble_block 

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11 Respostas

  1. Muito bom Barros, cada vez melhor.
    Abracao

  2. Obrigado, Carlos! Abraço!

  3. O seu grande problema meu amigo (se é que me permite lhe chamar assim pois sou cristão com muito orgulho) é que a bíblia precisa ser lida e entendida pois nem tudo que está escrito é da forma que está escrito. É preciso que o espírito santo toque no seu coração para que você veja as coisas que acha que não faz sentido terem sentido.

  4. Deus inspirou pessoas a escrever uma mensagem para nós, mas também precisa nos inspirar a ler corretamente o que está escrito. Seria mais prático se Deus tivesse nos inspirado diretamente a entender o que ele quer, não acha?

  5. Verdade. É isso mesmo o que acontece. VIVA O ATEÍSMO!!!

  6. Barros, você está doido ?

    Mais prático pra quê ? Uma coisa óbvia e nada nebulosa não presisa de interpretação, “conhecimento” e muito menos de fé . Em algum lugar já li : ” eu acredito porque é absurdo …”

    Durma com isso.

  7. Fernando, eu também já li essa frase; acho que foi num livro do Dawkins. É como se fosse uma doutrina, um princípio, ou algo assim, inerente às religiões.

  8. O cristianismo e o ultimo monumento romano, Em vez de expulsar os pecadores para o inferno o deus cristao deveria descrusar os braços e os convidar para passar um dia com ele la no ceu , almoçar com eles cantar, dançar com eles , ele ganharia muito mais que ficar ameaçando os com fogo eterno, ira divina e um monte de pragas, coisas tipicas de Israel.

  9. A salvaçao eterna da alma depende entao de diferenças de ideias

  10. Direto dos studios de Holywood, uma superprodução super inspirada :

  11. […] Deuses de mármore […]

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