Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.

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Eu tinha uma professora de filosofia que sempre chegava uns 20, 25 minutos atrasada. Como as aulas dela eram sempre nos primeiros horários, os alunos iam chegando e se deixando ficar fora do prédio, onde havia um jardim, muita sombra de árvore e banquinhos de praça. A gente ficava ali, das 8 às 8:30 da manhã, rindo de um monte de besteira que a gente mesmo produzia, e sem sentir um pingo de sono. O sono só vinha quando a dita cuja finalmente chegava, e a gente emburacava na sala, atrás dela, com cara de vaca que chegou no lugar do abate. Aquela infeliz me fez odiar filosofia… Sorte que o curso não se propunha a formar filósofos, e sorte minha que, tempos depois, já tendo conhecido o País das Maravilhas de Alice, eu fui visitar O Mundo de Sofia. Mas, enfim… Ponto; parágrafo.

Foi numa dessas esperas de quase meia hora que um colega de classe, militante do PC do B, interrompeu a animada conversa do grupo com o famigerado grito de guerra de “O povo! Unido! Jamais será vencido!”, e começou a distribuir a propaganda política do partido dele. Eu me recusei a receber os panfletos, porque nunca soube de nenhum cidadão norte-americano que tivesse improvisado uma balsa e enfrentado um mar repleto de tubarões para ir tentar a vida em Cuba. E, por conta disso, ele me chamou de alienado. “Você é um alienado!”, ele disse. Foi quando eu fiz, então, a pergunta fatídica; aquela que assusta os despreparados e enfurece os imbecis: “Por quê?”. 

Ele me respondeu, já alteando a voz num arremedo de discurso, que eu era alienado por “não querer me envolver com política; não querer conhecer as propostas, nem conhecer os ideais do comunismo”. E aí você já percebe como é poderoso o dom da retórica e da eloquência, pois mesmo um completo imbecil, pois mesmo um padre molestador de criancinhas ainda pode enganar a muitos e se passar por “entendido” ou por “santo”, conforme o caso. Basta saber falar bem e com uma fluência que disfarce a sua total falta de conteúdo, de moral, e de argumentos.

Quando ele, enfim, terminou o discurso-miolo-de-pote que tinha improvisado para uma dúzia de universitários alienados — eu incluso —, resolvi perguntar se ele sabia alguma coisa sobre o homem cuja imagem estampava sua camiseta vermelha. 

— É Che Guevara, porra! 

Foi a resposta.

Aí eu perguntei se ele sabia alguma coisa além do nome do cabeludo de boina que ele trazia no peito. Sim, ele sabia: “Che Guevara foi um herói da revolução cubana; foi um guerrilheiro que liderou a rebelião que libertou Cuba de um ditador filho da puta!”

Não só pelo fato da professora de filosofia já ter chegado, mas, também, porque o cara tinha duas vezes o meu tamanho, eu resolvi encerrar a conversa por ali mesmo, e não quis saber qual era a definição de “liberdade” que ele tinha lido no dicionário.

Mas você veja como a cabeça dos jovens são sugestionáveis, e como os mitos se aproveitam disso para se eternizarem. Um universitário de classe média, em pleno gozo de suas faculdades mentais, abraça uma causa já falida no mundo todo e se veste propagandeando numa camiseta um mito que ele desconhece completamente. 

Che Guevara não foi um herói: foi um guerrilheiro desmiolado, um assassino covarde, um líder militar desastrado e incompetente, que se não fosse a admiração indevida que despertou em Fidel Castro, teria sido executado antes mesmo do fim da revolução. Esta, por sua vez, propunha-se a depor um ditador e instalar uma democracia, mas, como mostrou a História, havia um golpe dentro do golpe. Quando os líderes da revolução que depôs o ditador cubano Fulgêncio Batista, em 1959, souberam que haviam lutado não para livrar Cuba de um ditador, mas apenas para substituí-lo por outro, foram presos ou exterminados por heróis como Che Guevara.

Ernesto Rafael Guevara de la Serna era filho da alta burguesia argentina, e, por algum motivo, tomou como hobby sair por aí se envolvendo em guerrilhas, com carta branca para matar quem não estivesse de acordo com sua visão de mundo. No caso dele, a visão política. Estivesse lutando por ideais religiosos, certamente teria aplaudido de pé os mártires que pilotaram os aviões até às torres gêmeas de Nova Iorque. Porque só há uma coisa que os fanáticos veneram mais do que morrer por um ideal: é matar por ele. 

A imagem de Che Guevara é um ícone. Mas pergunte a alguém que a esteja exibindo na camiseta, ou num pôster colado na porta do quarto, ou numa tatuagem no peito: um ícone “de quê?”; e as chances são de que você tenha comprovada a teoria de quão imbecilizantes podem ser os cultos cegos a pessoas que, por força de marketing, ganharam fama mundial, sem que ninguém se desse ao trabalho de conhecer quase nada além dos seus nomes e do que “os outros” disseram que essas pessoas foram, ou fizeram. E, às vezes, sem que tenham sequer existido.

E pra não dizer que não falei das flores…

O tema central do meu texto acima era o de chamar a atenção para o fato de que é bem comum as pessoas defenderem ideologias que ignoram completamente. O argumento era esse: um jovem militante do PC do B pode, orgulhosamente, exibir a imagem do Che Guevara em sua camiseta, sem saber patavina sobre quem ele realmente foi, ou sobre o que ele realmente fez. Com base nisso, argumentei que os crentes de programa* fazem o mesmo com relação a Jesus Cristo: estampam em suas camisetas declarações de amor a um mito que sequer conhecem direito, e saem por aí, satisfeitíssimos com o orgulho que essa ignorância lhes proporciona.

   *Eu os batizei de ‘crentes de programa’ porque eles caíram na vida fácil de trocar amor por presentinhos, favores e recompensas celestiais…

Pois bem. Não me propus, com aquele texto, a tomar partido nem de direita, nem de esquerda, embora não precise fazer segredo de que jamais iria querer morar num país comunista, pensamento este compartilhado por muitos comunistas que eu conheci.

Se alguém se sentiu ofendido com meu texto, eu gostaria de lembrar que nada lhe impede de expressar, aqui mesmo, esse seu descontentamento, nem de divulgar seus próprios contra-argumentos que deverão mostrar onde eu me equivoquei escrevendo o que escrevi. Felizmente, vivemos num Estado em que é possível esse tipo de discordância, e o debate só traz benefícios para os dois lados. Em “certos” lugares, você não poderia dizer abertamente que não concorda com “certas” coisas, se é que você me entende.

Mas eu preciso dizer que não sou um anticomunista. Eu só acho que o comunismo “não funciona”.

Se o comunismo funcionasse, na prática, um homem não seria levado ao desespero de colocar toda a família num bote improvisado com câmaras de ar de pneus de caminhão, para se lançar num mar repleto de tubarões, na esperança de aportar com vida no país-símbolo do capitalismo. Se o comunismo fosse o que seus partidários acham que é, as pessoas não precisariam ser vigiadas dia e noite, como forma de o Regime garantir que não sofrerá um motim; não teriam restrições de acesso à internet, nem seriam privadas do direito de receber informação jornalística de outras fontes que não o próprio Estado. Se o comunismo fosse esse paraíso descrito nos panfletos de campanha, as pessoas não precisariam ser tratadas como crianças, com seus governantes desempenhando o papel de pais que atuam como um filtro poderoso e onipresente, pelo qual não passaria nada que o Estado julgasse inadequado aos seus filhos-cidadãos, ou apenas a ele próprio.

Acho que os camaradas têm uma vaga suspeita de que o comunismo, na prática, não bate com a teoria. Como ideologia, ele é até bem sedutor. Mas ideologias costumam produzir mais mártires do que soluções.

John Lennon nos pediu para imaginarmos um mundo sem posses, um mundo compartilhado por todos. Mas ele era mesmo um sonhador! Nada nos impede de sonharmos nossos sonhos, mas seria bom estarmos imunes à tentação de acreditar que qualquer sonho é realizável. Muitos — na verdade, quase todos — não são. Precisamos aprender a identificar e descartar sonhos impossíveis, e fazer o melhor que pudermos com a realidade que nos cerca, que é tudo o que nos sobra, afinal, quando estamos acordados.

Talvez, em teoria, o comunismo fosse a ideologia política que, uma vez adotada pelo mundo todo, tornaria real o sonho da canção: não haveria posses; nada pelo que matar ou morrer; e o mundo seria um só. Talvez o comunismo fosse mesmo capaz de fazer todas as pessoas felizes, trabalhando pelo bem comum, cada uma satisfeita com sua condição, como os Betas, Gamas, Deltas e Ypsilones do Admirável Mundo Novo de Huxley. Quem sabe só um pouco menos felizes do que os Alfas, que estariam no controle de tudo…

Talvez, em teoria, o comunismo fizesse surgir uma sociedade mais justa, menos violenta e bem mais humana. Mas, em teoria, também dá pra você manter um elefante suspenso sobre um abismo, preso pelo rabo ao ramo de uma flor.   

 

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8 Respostas

  1. Muito boas reflexões Barros, só vou discordar sobre o ‘talvez’ relativo ao comunismo.
    Penso que a ideologia comunista já nasceu fadada a não dar certo, pois deixa de lado um aspecto fundamental do ser humano que é o individualismo. Precisamos viver em grupo, por n razões, mas dentro desse grupo precisamos manter nossa individualidade. Até por isso e para não dizer que também eu não falei das flores (rsrsrsr) as religiões continuam tendo sucesso onde o comunismo falhou: seduzir as pessoas e mantê-las crentes. A religião faz a pessoa se sentir especial, o comunismo quer (ou quis) fazer as pessoas iguais. É interessante notar que o comunismo e suas variantes esquerdistas, examinadas,um pouco mais a fundo tem uma acentuada semelhança com religiões em geral, com a diferença de que enquanto a religião promete o paraíso para os mortos, o esquerdismo o promete para os vivos. Ou para os que restarem vivos, depois do processo de se fazer aceitar a redenção comunista.

  2. Shirley e se voce avaliar o céu dos crentes é um céu comunista tb.

  3. Caro Barros. Gosto e aceito as suas reflexões pois elas deixam a nu as verdades reveladas. Cito um trecho “Não satisfeitos com inventarem um deus, os homens prostram-se aos pés daqueles que nomeiam imperador, rei, príncipe, presidente, ditador. Uma vez acostumados a um dono, não mais o podem dispensar.”
    Gérard Vincent, em Akhenatom: a história do homem contada por um gato.

    Juca xavier

  4. Obrigado a quem teve paciência para ler e ainda comentar. Estou viajando a trabalho e sem tempo para atualizar o blog. Abraço.

  5. Me respondam uma coisa: o capitalismo funciona?
    Se funciona como explicar a pobreza, a destruição do meio ambiente, a busca frenética por bens que são impossíveis à maioria dos viventes com o consequente aumento gradativo do roubo e da espoliação.
    Será então o capitalismo a única alternativa econômica?
    Alguém pode citar um só país da terra onde o comunismo, como pensado por Marx, Rosa, Trotsky e outros, tenha sido realmente implementado? (Não vale citar os governos títeres e as ditaduras burocráticas)
    Não digo com isso que o comunismo seja a resposta definitiva, porém, é algo que ainda não experimentamos e o capitalismo está nos esgotando dia a dia.
    Ainda prefiro Che como referência a Bush. Sem comparação!

  6. O capitalismo funciona. O problema é que ele não foi, digamos, “projetado” para beneficiar todo mundo. Por que nenhuma sociedade adotou o comunismo pensado por Marx, Rosa, Trotsky e outros? Porque as sociedades humanas são compostas — adivinha só — por seres humanos e, ao que parece, a gente não tem essa tendência ao desapego.

  7. Muito bem. Não temos “essa tendência ao desapego”. Mas, se isso é um fato, não podemos pensar nunca em mudá-lo? Gostei, Barros, dos questionamentos levantados por Glauco Lima, e acho que, de fato, o sistema capitalista não será o último a provarmos. Acho inconteste que ele jamais suprirá as necessidades de toda a humanidade. Convém lembrar que nos estágios iniciais da humanidade não era o sistema capitalista que vigorava. Acho até que naquele estágio vigorava, sim, uma “tendência ao desapego”. Aproveito para dizer que gosto de seus artigos, principalmente na esfera em que contesta as religiões organizadas. Quanto a sistemas econômicos, acho que você parece por em prática uma certa corrente de pensamente a que chamam de Darwinismo social com a qual não concordo, justamente devido aquela nossa “tendência ao desapego”. Abração!

  8. Parabéns Barros, este texto foi espetacular, já o imprimi e vou utulizá-lo em uma reunião de debates que realizaremos aqui em minha cidade.

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