Blasfêmia (parte 1)

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Logo depois da publicação de God Delusion (Deus, um delírio), Richard Dawkins foi entrevistado num programa de tevê em que respondeu algumas perguntas dos telespectadores, dentre elas, a de uma moça turca que, após dizer que não tinha lido o livro, perguntou o que ele pensava a respeito de ter escrito coisas tão ofensivas sobre a religião dela. Richard Dawkins deu, então, uma de suas respostas antológicas. Primeiro, ele lembrou à moça que, se escreveu coisas ofensivas, certamente não foi de forma gratuita, mas, de todo modo, esperava que ela tivesse lido o livro antes de se achar apta a criticá-lo. Segundo, que se alguém tinha uma visão completamente diferente da dele, seria de se esperar que essa pessoa pudesse defender sua posição argumentando algo como “Você está errado aqui, aqui, e aqui”, e não simplesmente dizendo “Ah, isso é ofensivo!, isso é ofensivo!”.

Eu considero esse tipo de atitude como sendo parte de um sistema de defesa da crença religiosa; um grito de alerta ou, antes, um sinal de ataque que denuncia à coletividade devota a ameaça representada pela presença do descrente. É mais ou menos o mesmo que se observa quando uma abelha é morta pela mão de quem se aproximou demais da colmeia: com os odores do seu corpo mutilado, a sentinela suicida sinaliza às suas companheiras onde os demais ataques deverão se concentrar. O feromônio do inseto morto marca o inimigo; os gritos de “blasfêmia!” denunciam à sociedade o ateu.

Resumindo, quando um crente ouve ou lê algo sobre a sua fé que não lhe agrada, ele tende a pedir ajuda aos demais para repelir aquela ameaça, como parte de um procedimento instintivo de defesa. Não há por que esperar, então, que ele queira entrar em discussões filosóficas sobre o assunto; é mais provável que só queira mesmo se livrar do intruso. Melhor ainda pra ele que nem precisa morrer, como a abelha; ele só precisa chamar a atenção para o alvo: “Blasfêmia! Blasfêmia!”.

Mesmo não tendo como defender de forma racional suas convicções, pelo menos ele não se sentirá sozinho. Em pouco tempo, terá a companhia de um enxame igualmente incapaz de refutar os argumentos dissonantes, mas, como grupo, habilmente treinado na arte mortal de eliminar dissidentes.

 

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Uma resposta

  1. esta cada vez mas comum os lançamentos de livros ofensivos com leituras hipnóticas no intuito de fazerem marckentig pessoal de seu autores .este sim sao boas jogadas ofensivas .

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