Blasfêmia (parte final)

“Blasfêmia” é, por definição, a ofensa feita à divindade, que, no caso, precisaria existir no texto, de modo a sofrer a ação do verbo. Se a ofensa existe, se o agente existe, mas se não há divindade que receba o desaforo, o circuito não fecha e adeus, coerência textual.

Mas, fora do texto, a divindade não existe. Se existisse, nada seria mais natural do que esperar que ela mesma se entendesse com o infeliz que a destratou. E os legisladores dos países religiosos poderiam então se ocupar de coisas mais úteis, porque eu não consigo imaginar nada mais inútil e descabido do que redigir uma lei para especificar como punir um blasfemo. 

Não, eles certamente não conseguem enxergar o mundo de uma forma coerente: então um imbecil qualquer ofende o Criador do universo, o ser todo-poderoso que controla tudo, aquele que ameaçou abertamente mandar quem não gostasse dele para um lugar de sofrimento eterno, onde haveria pranto e ranger de dentes… pois bem, um cara ofende essa criatura e você ainda acha que alguém na Terra precisaria se preocupar em puni-lo? Hellô-ôu!! Será que uma eternidade no Inferno já não seria punição suficiente?

Sim, seria. Se existisse um Inferno; se existisse uma divindade que pudesse mandar para lá alguém como eu. Mas, sorte minha, não há, não. E se existisse mesmo um deus tão filho da puta quanto o Deus dos cristãos, pode apostar sua alma como eu seria um exímio baba-ovo dele; afinal, qualquer coisa seria infinitamente melhor do que ir para o Inferno.

A blasfêmia é uma ofensa, sim. Mas o ofendido não é a divindade: é quem nela crê. Ora, um cristão, por exemplo, precisa acreditar em coisas tão absurdas quanto água se transformar em vinho, e vinho, em sangue; precisa acreditar que um ser supremo, eterno e perfeito, com poderes infinitos e inimagináveis teve o cuidado de construir todo esse universo para poder brincar de casinha com a gente aqui embaixo; brincar de “pai” e “filho”; de Deus e de “povo escolhido”. E tendo ele bolado essa gincana e mudado as regras umas duas ou três vezes, resolveu, por fim, recolher-se a uma dimensão inacessível, de onde observa o desenrolar dos acontecimentos, vibrando de emoção, excitamento e curiosidade para ver como a coisa toda vai acabar, ou até já sabendo como acaba (o que seria um indício muito forte de que ele não é lá muito bom do juízo).

Quando alguém como eu diz as coisas que eu digo, ou escreve o que eu escrevo, deve ofender mesmo àqueles que acreditam em deuses, porque isso é um lembrete muito inconveniente de quão afolozadas são as colunas que sustentam a lógica do mundo em que eles vivem. Talvez eles cheguem a pensar:

Eu posso achar certas coisas que dão suporte à minha fé bem absurdas, ou mesmo impossíveis, quando não ridículas, mas veja só o tanto de gente que também acredita no que eu acredito! Mas, então, me aparece esse aí dizendo isso sobre o meu Deus, como se esse Deus não existisse, como se não lhe afetasse, como se tudo em que acredito fosse, de fato, o que parece que é…: uma tolice, um conto de fadas grotescamente escrito e alinhavado para me dar a impressão de que o mundo foi criado e é dirigido com um propósito, e de que eu sou tão especial quanto pareço… E esse cara tá dando a entender que eu estou enganado? Ele tá pensando que eu sou o quê?? Um idiota?! “

É isso. A blasfêmia ofende tanto ao indivíduo quanto à sociedade religiosa da qual ele faz parte; e, ofendidos, eles reagem de acordo com o que lhes permitem as leis morais do seu povo e do seu tempo; mas invariavelmente com violência e com ódio, no mínimo tentando punir e silenciar aqueles que, com atos, pensamentos e palavras, acabam por lhes despertar de novo a dúvida reprimida, a tanto custo e há tanto tempo, de se não estariam mesmo vivendo todos uma grande e tola ilusão.

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10 Respostas

  1. Gostei de conhecer seu site e estarei sempre por aqui, adorei seus temas coerentes, racionais e faz sentido com minha forma de pensar.
    Um abraço

  2. Eu simplesmente amo esse blog…

  3. Como será que o habitante da Crentolândia explica para si mesmo que o seu Deus Onicoisente não venha se defender pessoalmente?
    Que precise de legislação humana para defendê-lo e punir os blasfemos?
    Aliás, porque um Deus Onicoisente precisa ser defendido?

  4. https://www.youtube.com/watch?v=vqxycnoE1IM Alguém aqui já viu esse vídeo do Ray Comfort,um evangelista americano,que sai entrevistando diversas pessoas aleatoriamente e questionando as mesmas sobre a teoria da evolução?Um documentário chamado Evolution vs God,que alega comprovar que a teoria de Charles Darwin não é provada cientificamente,não tem evidência alguma e só é acreditada pela fé por parte dos ateus e alguns professores universitários que abordam o tema nas faculdades nos EUA. Achei um absurdo,uma divulgação da ignorância e burrice,não sei o que tem na cabeça desses fanáticos que não possui conhecimento mínimo sobre ciência.Eu queria uma opinião de vocês, amigos ateus,principalmente dos responsáveis pelo blog deusilusão e se possível um post a respeito desse vídeo do Ray Comfort.

  5. A blasfêmia só existe porque Deus existe. A quem voces iriam ofender se Deus fosse uma mentira? Na media em que você diz que blasfemou vc automáticamente já está inconcientemente adimitindo a existencia de Deus.

  6. E Davi pôs a mão no alforje, e tomou dali uma pedra e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa, e a pedra se lhe encravou na testa, e caiu sobre o seu rosto em terra.

    1 Samuel 17:49

  7. cExiste uma insatisfação face ao Deus bíblico porque Ele não preenche os requisitos atuais. Vivemos num mundo onde, alegadamente, não existe escravatura,onde os remédios, se não curam, pelo menos aliviam o sofrimento. A maioria das pessoas não sente necessidade de orar porque a vida lhes parece fácil. Claro que nem todos usufruem das regalias de um emprego estável que dê para pagar as contas de saúde e sobreviver com dignidade. É por isso que Jesus se dirigiu aos pobres e aflitos naquele tempo longínquo. É por isso que os pobres e os desvalidos da nossa sociedade se socorrem dessa «muleta» espiritual. Com todo o respeito que tenho pelo homem Jesus, ele soube bem ir ao encontro dos anseios mais profundos do ser humano. Não confundindo Jesus com o Deus bíblico, ele soube interpretar o que de bom havia na crença do Deus Único e transmitir esse conhecimento para que o ser individual não entrasse em desespero.

  8. Versículos: é o que se escreve quando não se tem argumentos…

    Abraço
    Cristiano

  9. Cristiano, se me permite, Jesus foi um Mestre que tinha discípulos. Ficou para a história como Filho de Deus. Porém, na minha fraca interpretação, ele foi morto porque levou longe de mais uma reforma do sistema religioso judaico.. Ele viu Deus com outros olhos e permitiu-se a ele próprio ensinar no templo sem ter sido devidamente autorizado.

  10. David, em 25/08/2013 às 05:42 disse:
    E Davi pôs a mão no alforje, e tomou dali uma pedra e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa, e a pedra se lhe encravou na testa, e caiu sobre o seu rosto em terra.

    o xará e você achou isso bonito ?

    ssrodrigues, em 23/08/2013 às 23:45 disse:
    Como será que o habitante da Crentolândia explica para si mesmo que o seu Deus Onicoisente não venha se defender pessoalmente?

    isso eu não sei dizer, Só sei dizer que moro na:
    Rua da fé exposta ,No 2000 – Jardim Cantinho do Céu
    Crentolandia-Espirito Santo
    ao lado do Shopping Paraiso

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