As ovelhas (parte 2 de 2)

 

Eu nunca tive a oportunidade de perguntar a um judeu o que ele pensa do Holocausto. Só por curiosidade mesmo, porque, obrigatoriamente, teria que ser um pensamento vinculado a uma desculpa bem idiota, afinal, os judeus eram o povo que Deus escolheu pra ele, e estiveram muito mais desamparados do que qualquer outro povo que não teve deus nenhum para protegê-lo. Mas cheguei a perguntar isso a uma testemunha de Jeová, que eu moro a menos de quinhentos metros de uma boca de culto. Ela me disse que o Holocausto “fazia parte do plano de Deus”, e eu muito incredulamente respondi: “É mesmo??!”. Na verdade, acho que respondi assim: “É mesmo!!?”. Seja como for, quase mais nada no mundo me deixa mais estupefato do que a capacidade do crente de ser um completo imbecil, quando lhe convém, como é o caso de quando usa respostas-padrão para responder a todo tipo de pergunta.

Meus parentes mais próximos deram a mesma resposta estúpida, mas eles estão desculpados porque nada têm a ver com o Deus do Antigo Testamento. Quando eles dizem que seu livro sagrado é a Bíblia, estão dizendo uma meia verdade, porque a Bíblia deles se resume ao Novo Testamento, quando não apenas aos quatro evangelhos. O deus deles é, de fato, Jesus Cristo e, até onde se sabe, Jesus não fazia distinção entre povos, desde que você afirmasse que acreditava que ele era Deus. Se você se rendesse a esse capricho dele, podia estuprar sua mãe que, ainda assim, iria viver no Paraíso.

Os judeus não acreditavam que Jesus era Deus, logo… A explicação para o Holocausto, talvez. Um lembrete divino que diz: “Viu só o que pode lhe acontecer?”.

O que o crente não consegue perceber, e é justamente graças a isso que ele se mantém crente, é que ele jamais raciocina sobre a sua fé e, quando o faz, é de uma maneira absurdamente desonesta, tendenciosa e corporativa. Por isso um ateu jamais pode se dar ao luxo de dizer que “venceu” uma discussão com um religioso. O ateu precisa se valer de um raciocínio honesto, explícito e minimamente compartilhado pelo senso comum. Ao crente basta recorrer às suas experiências pessoais, às suas certezas pessoais e à sua crença de família. 

Meus parentes católicos e evangélicos se consideram ovelhas de Cristo. Jesus é o seu pastor e nada lhes faltará. Claro que, quando as coisas faltam — e como faltam!! — , eles têm uma meia dúzia de desculpas prontas para pôr no lugar de um Deus que só existe em suas mais tolas fantasias.

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16 Respostas

  1. Mesmo quando eu era criança e jugava ter certeza que realmente existia alguem que se preoculpava conosco.. Eu nunca entendi essa carta branca que essa divindade tinha de ser agredecida pelas coisas boas que “fazia” e perdoada por aquelas que esquecia de fazer ou as ruins que deliberadamente deixava passar. Quanto ao que voce disse sobre a logica de raciocinio desonesta (pelo menos no que toca a fe)… E totalmente verdade.. E digo mais… Se surgissem provas irrefutaveis da não existencia de um arquiteto universal (eu sei bem quais são as possibilidades reais de isso acontecer) os teistas continuariam a ignorar e a dizer que o fato de acreditar ja era o bastante para existir ( sera que não sabem mesmo a diferença entre as duas coisas?). por enquanto.. Para eles como não existe nada conclusivo nem para o sim ou para o não (embora existam muitas pistas para o não).. Ja e suficiente para eles dizerem que isso e uma prova da existencia.

  2. «Pai santo, guarda, em teu nome, aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós».
    Será que, falando assim, Jesus cria algum elo divino entre os discípulos? Passam a ser deuses?
    Jesus e o Pai são um. Um ser divino? Não, devido à analogia de os discípulos serem um também. Se vários não podem ser um no sentido literal também Jesus e o Pai não podem ser um único Deus. Que querem dizer estas palavras? Qualquer ateu interpreta claramente. A unidade entre dois seres distintos é no sentido espiritual. Jesus não partilha da divindade do Pai mas recebeu Deste as palavras que transmite aos seus discípulos.

  3. Maria com isso voce quer dizer que jesus e filho de deus ou que ele seria um ser humano como todos nos?

  4. Tenho andado a repetir o mesmo desde que comecei a participar no blog. Para mim e para os demais ateus Jesus foi um ser carnal, humano, filho de Maria e José, com vários irmãs e irmãos de sangue. Isso não o impediu de ser um rabino, não acha? Isso não o impediu de ter uma relação única com Deus.
    Mas, Alyson, se é ateu, qual é a sua dúvida?

  5. maria na verdade eu sou agnostico… não ateu.. minha pergunta é por pura curiosidade mesmo (que eu acho que é o que realmente move o mundo). fiquei curiosos para entender o seu ponto de vista que eu nunca tinha visto alguem pensar dessa forma antes, mas não quer dizer que eu esteja interessado em pensar dessa forma.. ate porque eu guardo as minhas ressalvas sobre a real existencia de jesus.

  6. Não percebo qual é a raridade do meu pensamento. Deve haver montes de gente a pensar o mesmo. Jesus tem que ser uma fantasia na mente de uns quantos fanáticos, porquê? Não pôde ter real existência? Os evangelhos têm contradições, é por isso? Várias pessoas que presenciam o mesmo acontecimento não o descrevem da mesma maneira. Permito-me ver uma certa autenticidade nos evangelhos devido a pequenas diferenças nalguns detalhes.
    Os profetas não esclarecem bem quem será o messias? E daí? Jesus tem que estar associado ao messias?

  7. De fato, a realidade do ateu moderno, é que ele encontra dificuldades em seu próprio meio. Não existe uma visão única de posições de moralidade, mesmo que regras sejam quebradas. O ateu é uma espécie rara, tanto quanto o cruzamento de um tigre com uma pantera. Ou, para ser mais urbano, a mistura que de um pitbull. Ou seja, matematicamente refletindo, ateus jamais serão tribo, nação, ordem, religião. Sem usar o argumento do consenso que, por acaso, é mundial. Uma religião só pode existir se houver um ideal coletivo. Neste caso, ser ateu é brincar de irresponsável na varanda do quintal de sua consciência pouco desenvolvida, porque ateu não pensa, apenas declara algo que jamais poderá provar.

    Abraço..

  8. “Meus parentes católicos e evangélicos se consideram ovelhas de Cristo. Jesus é o seu pastor e nada lhes faltará. Claro que, quando as coisas faltam — e como faltam!! — , eles têm uma meia dúzia de desculpas prontas para pôr no lugar de um Deus que só existe em suas mais tolas fantasias.”

    _ As ‘coisas’ faltam para qualquer um ser humano, um animal, e até para uma planta. Esse texto é repeteco. Só uma dúvida, pois a reflexão é um tanto indigna de refutação. A dúvida é se você expõe sua família para dar mais crédito ao seu pensamento, ou será porque os cristãos de sua família não têm acesso ao blog?

    Caso eles não tenham voz ativa aqui, você poderia ser considerado um oportunista, e até um garoto fazendo arte por ser revoltadinho com mamãe, papai, vovó, etc. É só uma reflexão, pois começar um texto expondo a família sem que ela possa se defender é, no mínimo, desonesto.

    :)

  9. “Os judeus não acreditavam que Jesus era Deus, logo… A explicação para o Holocausto, talvez. Um lembrete divino que diz: “Viu só o que pode lhe acontecer?”.

    _ Não foi o povo judeu que negou Cristo, mas os políticos. E se você pensa assim, podemos dizer que foi o povo brasileiro que aceitou a Copa aqui, num país repleto de hipócritas que nos representam.

    Detalhe: Jesus não era burro e não chegou falando que era Deus. Quanto ao Holocausto, para a História, foi político,

  10. Uma religião só pode existir se houver um ideal coletivo.

    Corrigindo…

    Uma religião só pode existir se houver um delírio coletivo.

    Obrigado.

  11. A propósito:

    ”Eu e o Pai somos um”

    (João 10:30)

  12. É bem verdade que o fundamentalismo religioso causa graves transtornos mentais.

    Os crentes chegam aqui espumando a boca de ira, a mesma que Jesus demonstrou quando se descontrolou e açoitou com um azorrague de cordéis, uma espécie de chicote de várias correias trançadas, atadas a um pau, ou de uma correia que os cocheiros tangiam os animais e também era usado para a aplicação de flagelo em condenados. Séculos depois o uso do azorrague foi abandonado por produzir sérias lesões no corpo.
    Diz a bíblia que Jesus mandou ver no lombo dos mercenários do templo, aliás, ele foi considerado um “agitador do povo” pelos sacerdotes judeus da época, uma ameaça ao sistema vigente.

  13. Se a intenção ao usar ideal coletivo foi dar legitimidade às religiões, que tiro no pé! A História tá assim de ideais coletivos com resultados nada…ideais.

  14. Ana, permita-me que lhe pergunte em que evangelho está escrito que Jesus usou um azorrague. Não consigo encontrar essa passagem. Não é para a contestar.
    Pessoalmente, não acredito que os crentes cheguem aqui a espumar de ira. A maneira de escrever pode induzir a isso mas não passa de uma forma de diálogo. Âs vezes, a idade do comentador reflete-se no à vontade com que produz o seu discurso se for bastante jovem. Se fossemos a pensar assim, então o sr.Barros seria um monstro pelos palavrões que escreve e no dia-a-dia seria intratável.
    Penso que há uma certa cordialidade entre todos e é bom que assim se mantenha.

  15. Maria
    Pelo visto você não é uma cristã atenciosa.
    Não acredito muito na bíblia, mas, pesquisando sobre cenas violentas bíblicas, fora o genocídio em nome de Deus para assentar seu povo na Terra Prometida onde emanava leite e mel no livro de Josué, encontrei no livro de João os seguintes dizeres:
    “(João 2:13) – E estava próxima a páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
    (João 2:14) – E achou no templo os que vendiam bois, e ovelhas, e pombos, e os cambiadores assentados.
    (João 2:15) – E tendo feito um azorrague de cordéis, lançou todos fora do templo, também os bois e ovelhas; e espalhou o dinheiro dos cambiadores, e derribou as mesas;
    (João 2:16) – E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda.”

    E você Maria você é a favor do comércio nas Igrejas? Porque hoje em dia os crentes além ter cantinas, vendem CDs, livros, musicas, ampolas de água do Rio Jordão, tijolinhos de Deus em plástico ungidos, cosméticos, sabonete para lavar alma, bombons, chaveiro, “cajado de Moisés” deve ser usado para bater naquilo que o crente gostaria de ter (um carro novo, por exemplo), pedrinhas trazidos da “terra santa” (Israel). óleo santo, miniaturas da arca da aliança e mais bugigangas, todos “carregados” de poder espiritual.

    Pois são esses ou outros disparates que me faz pensar e agir com mais racionalidade e ceticismo e para mim toda e qualquer religião é um “caso perdido”.

  16. Obrigada, Ana, por me ter esclarecido. É que eu tinha passado os olhos várias vezes por João e não tinha encontrado o tal azorrague. Devia estar com os olhos cansados.
    Quanto ao resto, eu não sou crente mas tenho pena de não o ser. Gostaria de ter uma fé ilimitada pois ela remove montanhas e tem poderes curativos para o corpo e para a alma. Infelizmente tenho que lidar com a minha incredulidade lendo a bíblia e outros livros relacionados para tentar entendê-la. Eu só estou procurando compreender a personagem de Jesus e o que é que ele quis realmente comunicar. Nem os discípulos compreendiam muitas vezes o que ele dizia bem como os fariseus. Como é que nós, pobres leigos, podemos determinar que o homem era violento sem justa causa?
    Como não frequento igreja nenhuma é claro que não concordo com o comércio nas igrejas. Nem sabia que faziam isso tudo que a Ana diz aí. Mas as igrejas são uma coisa e os conteúdos filosóficos e éticos do Novo Testamento são outra. Não podemos nem devemos ser ateus ou agnósticos por causa das igrejas. Ainda não nos aconteceu nada que nos fizesse passar para o lado de Deus. Quando menos esperarmos talvez a nossa vida mude.

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