Ridículo, com 4 letras

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Eu sou um empresário. Tenho uma loja de departamentos que ocupa um quarteirão inteiro do meu bairro. De tão grande, a loja parece um labirinto, com suas linhas intermináveis de prateleiras, gôndolas e eletrodomésticos enfileirados, formando corredores longos e perpendiculares entre si.

Eu mandei instalar um sistema de câmeras que cobre toda a área dessa minha loja, e que pode ser acessado pela internet. São 26 câmeras ao todo, mais uma de lente panorâmica, instalada no teto, que me permite ver toda a área como se fosse num mapa. Quando quero tirar um dia de folga, eu posso monitorar tudo de casa mesmo. Se percebo alguma coisa errada, como um cliente sendo deixado sem atendimento, eu ligo para o chefe dos gerentes de departamentos e mando dar uma dura nos vendedores da seção. E, se for preciso, de casa mesmo eu posso acessar o sistema de comunicação e falar o que quiser, que todos lá poderão me ouvir pelos autofalantes. Nunca precisei usar esse recurso. Até ontem.

Veja você: minha filhinha de 7 anos ficou trancada nessa loja imensa, sozinha, e justamente quando começou um grande incêndio lá dentro.

Por sorte, eu estava monitorando as câmeras e vi tudo online. Com os recursos disponíveis, inclusive o de abrir as portas de acesso à rua remotamente pela internet, eu mantive a calma e percebi que poderia guiar minha filha até à saída mais próxima, evitando aquele fogo infernal.

O que eu omiti, até aqui, foi que minha filha é paraplégica, e que a cadeira de rodas que ela estava usando tinha um sistema de motores que poderiam ser acionados remotamente por mim, também via internet, enquanto ela estivesse na loja. Foi um sistema que eu inventei, e que fazia a cadeira de rodas dela virar um brinquedo nas minhas mãos. Sim, eu sou muito inteligente e adoro criar coisas!

Eu poderia, de fato, ter assumido o controle da cadeira de rodas da minha filha em perigo, e tê-la feito deslizar rápida e seguramente para a saída. De onde ela estava, só precisaria seguir em frente, até o fim do corredor, onde havia um extintor de incêndio, dobrar à esquerda e seguir uns dez metros mais, que lá haveria um outro corredor que a levaria a uma porta dando para a rua.

Eu visualizei tão facilmente essa rota porque tinha, pelo menos, três vantagens que a minha filha não tinha: a onisciência bancada pelas minhas câmeras de vigilância; a clarividência de um adulto experiente; e não estar em pânico dentro de uma loja pegando fogo.

O que eu omiti, até aqui, foi que eu comecei a sentir uma enorme curiosidade em ver como a minha filhinha de 7 anos se safaria de uma situação daquelas, sem a ajuda direta de seu papai todo-poderoso. Foi quando me veio essa ideia… Em vez de assumir o comando da cadeira de rodas, eu decidi acionar os autofalantes para transmitir instruções à minha amada filhinha, de modo que ela chegasse até à saída daquela loja em chamas por seu próprio esforço.

O que eu omiti até aqui, também, foi que eu, do nada, bolei um tipo de jogo de vida ou morte pra ela. Eu disse:

“Minha amada filha. Papai está aqui, cuidando de você, como sempre esteve. Papai tudo vê e tudo sabe. Vou te guiar até à salvação. O que você precisa fazer é ouvir minhas instruções e segui-las à risca. Desvie-se delas e você estará condenada. Mas, se você tiver fé em mim, se tiver fé na minha palavra e trilhar o caminho que lhe ditarei, você será salva. E aqui vai a primeira orientação. De onde você está, você vai ter que se deslocar até um determinado ponto; um lugar especial, marcado por um objeto de muito fácil identificação, que tem um uso bem peculiar. Mas eu não vou dar tudo de mão beijada pra você, né, fofa? Vamos combinar uma coisa: eu lanço uma charada e a resposta certa indicará a direção na qual você deve seguir para escapar do fogo. Amém? Então, vamos lá. A primeira dica é: equipamento de proteção coletiva: 8 letras!

Pois foi. Ela conseguiu acertar essa e as outras respostas até chegar à saída. Não se queimou nem um tiquinho, embora tenha inalado muita fumaça. Eu me senti muito orgulhoso da minha filhota.

Espero que você não faça mau juízo de mim, só porque eu não tomei a atitude mais sensata e eficiente, que seria guiar eu mesmo a cadeira de rodas, e salvar sem demora minha filha indefesa em perigo. Acho que isso meio que interferiria no livre-arbítrio da criança, entende? Espero mesmo que você não me considere um canalha por não ter dado a ela as instruções de fuga de uma forma mais direta, sem esse joguinho de adivinhação. E espero, também, que você não me deteste por isso que eu fiz, porque eu não suporto rejeição. Na verdade, eu quero que você se convença e convença a todos a quem contar essa história de que eu sou um pai maravilhoso e bom, digno de honra e adoração.

Ah! E o mais importante que eu omiti, até aqui, foi que eu mesmo tranquei a minha filha lá dentro da loja. E fui eu que provoquei o incêndio… Estranho isso, né? Eu sei… É que eu tava meio sem ter o que fazer, sabe?… Então isso me veio à cabeça. Esse jogo mortal, essa gincana macabra, essa brincadeira imbecil. Mas acredite em mim quando digo que amo minha filha. Muito. Morreria por ela, se fosse preciso. 

Crucificado, de preferência. 

  

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5 Respostas

  1. Ainda vai ter gente batendo na tecla do livre arbítrio. Ou seja você e obrigado a vir pra ca( ou algum religioso escolheu vir ou não vir) ai quando vem tem duas portas de saída, céu ou inferno. Ahhhhhhh weweeeweww pegadinha do malandro gluglu.

  2. eu ja falei isso num dos posts anteriores e vou repetir aqui: se o deus-judaico cristao existisse de verdade… o livre arbitrio nao existiria… (como criador de tudo… que sabe de todas as coisas do presente do passado e do futuro… ele con certeza saberia antes de criar os seres humanos exatamente cada um dos passos que eles realizam em via ..cada um deles.. e certamente sabe antes mesmo de cria-los quem vai pro ceu e quem vai pro inferno.. assim.. ele cria as pessoas que vao pro inferno sabendo exatamente que elas vao passar a eternidade gritando.. muito amoroso nao e? cade o livre arbitrio ae?

  3. Acho que jesus teve até um morte branda tem gente que tem uma bem mais violenta e nem ressuscita depois,acho que deve ser porque é o filho de deus!

  4. Não sei se vão alegar o livre-arbítrio, mas o que eu sei é que o crente não quer enxergar como o Deus dele é repleto dos mais terríveis defeitos humanos.

  5. Esse pai andou vendo muito jogos mortais

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