O sexo de Deus (parte 1 de 3)

Dos milhões de espécies de animais conhecidos, a vasta maioria reproduz-se sexualmente, incluindo a maioria dos insetos. Quase todos os animais maiores que alguns milímetros são reprodutores sexuais capazes de escolha sexual: todos os mamíferos, todos os pássaros e todos os répteis. A situação é similar com as plantas. Das cerca de 300 mil espécies de plantas conhecidas, mais ou menos 250 mil reproduzem-se pelas flores que atraem polinizadores.” *

* A Mente Seletiva: como a escolha sexual influenciou a evolução da natureza humana. MILLER, Geoffrey F. Editora Campus. 2000. pág. 194.

Você sabe por que você faz sexo [em termos biológicos]? Se respondeu que é para preservar a espécie pela geração de novos indivíduos… bem… digamos que você tirou um 7. O que pouca gente sabe é que o sexo também protege a espécie do aniquilamento provocado pelo acúmulo de mutações ao longo do tempo. E, se foi Deus quem criou esse negócio, estamos, então, à mercê de um Deus pra lá de macabro, nada onipotente, nada inteligente e muito menos perfeito, porque, se Deus fosse essa Coca-Cola toda, teria criado tudo perfeito desde o começo, tendo feito da Evolução uma coisa absolutamente desnecessária.

Senão, vejamos.

Os primeiros organismos que surgiram na Terra, muito, muito antes de Adão ter comido a Eva, se reproduziam fazendo cópias de si mesmos. Parecia ser a coisa mais simples e mais eficiente do mundo. Só que, apesar de extremamente precisas, essas cópias não eram 100% perfeitas, de forma que, de vez em quando, surgia um erro em algum ponto da cadeia genética das cópias-filhas. De uma geração para outra, esses erros eram desprezíveis e não causavam danos. Mas como o processo envolvia a cópia da cópia da cópia da cópia… indefinidamente, os erros se acumulavam de uma forma perigosíssima para a sobrevivência daqueles organismos. Isso, após inúmeras gerações, acabava levando a espécie à extinção.

Para criaturas como as bactérias, a reprodução sem sexo ainda está na moda, mas para seres absurdamente complexos como nós humanos esse tipo de coisa não teria dado certo. Ao longo de milhões de anos, com erros e mais erros se acumulando nas gerações-filhas, nossa espécie teria sido extinta. Em outras palavras, não teríamos chegado até aqui, mas nem fodendo! Ups! Essa expressão chula, além de desnecessária num blog tão família quanto o meu, é também incoerente: foi justamente o sexo que nos fez o que somos, e que nos permitiu chegar até esse nível de desenvolvimento físico e intelectual a que chegamos.

Caso você venha de uma família cristã e acredite em Deus, é bem provável que acredite ainda naquela história de cegonha, porque quem acredita em Deus é capaz de acreditar em qualquer outra idiotice. A verdade, entretanto, é bem outra.

Cada ser vivo tem, em cada célula, o seu próprio DNA, que é um projeto para criar um novo corpo. Só que, para criar uma nova vida, de acordo com esse método revolucionário, seria necessário um parceiro da mesma espécie, mas do sexo oposto.


No caso dos seres humanos, o DNA é composto por 46 cromossomos, que são sequências de genes. Para fazer um filhinho, porém, cada humano entra somente com metade desses cromossomos, ou seja, com apenas um filamento do seu DNA. Dentro de cada célula do seu corpo existe uma cópia de metade dos genes do seu pai e outra de metade dos genes da sua mãe. Cada espermatozoide e cada óvulo é fabricado, aleatoriamente, com um ou outro dos filamentos disponíveis do DNA original dos pais.

Se você considerar a figura abaixo, onde cada uma dessas filas de bolinhas representa exatamente o mesmo trecho do cromossomo responsável, digamos, pelo perfeito desenvolvimento das válvulas do coração, com cada pai produzindo dois tipos diferentes de células reprodutoras — “H” e “h”, para o homem; e “M” e “m” para a mulher — , vai chegar à conclusão de que um casal poderia gerar até 4 filhos com características genéticas diferenciadas, dependendo de qual filamento do pai (H ou h) “casou” com qual filamento da mãe (M ou m).


As combinações são essas: HM, Hm, hM e hm. No desenho, as bolinhas pretas representam genes com defeito: aqueles erros de cópia que se acumulavam de geração para geração nas reproduções sem sexo. Perceba que num dos filamentos do DNA original, tanto do pai (H) quanto da mãe (M), esse trecho do cromossomo não apresenta genes defeituosos. Isto é, um tipo de espermatozoide (dentre 2 possíveis) e um tipo de óvulo (dentre 2 possíveis) têm esse trecho crucial da sua cadeia genética perfeito.

Agora veja o que acontece quando um espermatozoide de cada tipo fecunda um óvulo de cada tipo. “H” fecundando “M” é a perfeição total:



“H” fecundando “m”. Alguns genes de “m”, figura abaixo, estão defeituosos nesse trecho, mas não tem problema: o projeto da nova vida segue normalmente usando-se a cópia do gene correspondente de “H”, que está perfeita.


Esse é o “pulo do gato”: os genes vêm em pares. Se um está com defeito, usa-se a cópia reserva. Mas isso é só metade do segredo.

Continuando, quando temos “h” fecundando “M”, dá-se o mesmo caso acima, só que é “h” que apresenta alguns genes com defeito:



Por último, “h” fecundando “m”:


Percebeu o problema? Nesse caso, o trecho apresenta dois genes de “m” com defeito, mas com a cópia dos correspondentes em “h” perfeita. Até aí, tudo bem. Só que mais outros dois genes desse filamento de DNA da mãe também são defeituosos e, dessa vez, não há cópia em “h”, pois os mesmos genes são defeituosos no trecho herdado do pai.

Como os casos intermediários “Hm” e “hM” só nos levaram ao ponto de partida, ou seja, à mesma “condição genética” dos pais, examinemos os casos extremos. Digamos que esses pais gerem dois filhos: um foi produto de “HM” e o outro de “hm”.


O filho gerado por “HM”, figura acima, terá genes perfeitamente “limpos” nesse trecho do cromossomo. Ele está totalmente livre dos defeitos que seus pais tinham e que foram acumulados ao longo das gerações anteriores, podendo passar seus genes perfeitos para as gerações seguintes.


Já o filho que foi fecundado por “hm”, acima, pelo exemplo dado, não vai ter as válvulas cardíacas formadas e não vai sobreviver. Mas ele não é importante. Para a Natureza, ele é apenas “lixo genético” sendo jogado fora. Na verdade, é extremamente necessário que ele morra, para não passar à frente seus genes defeituosos.

Macabro, não?

Graças à reprodução envolvendo dois indivíduos, pode-se descartar, junto com um só “produto”, os genes defeituosos que vinham se acumulando ao longo das gerações. Esse artifício engenhoso garante a sobrevivência da espécie como um todo, mantendo seu código genético praticamente inalterado.


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14 Respostas

  1. Deus é tão contra o sexo que Jesus nem pai humano teve.

  2. Barros

    Se não for dessa vez que lançam uma fatwa contra você, não será nunca mais.
    Além de ter o atrevimento de explicar didaticamente a lógica da evolução pela reprodução sexuada, o faz por meio de um materialismo muito neoateuhumanista.
    Junte-se a isso a crueza herética de falar sobre o design inteligente como lixo genético…
    Acho que vou começar a rezar pela sua alma.

  3. Ou nós ainda não compreendemos bem por que é tão om as coisas serem como são. Alguns a tempos atrás diriam que de nada serviam os órgãos ditos vestigiais. Hoje sabe-se da função de vários destes. Cabe a nós estudarmos e pesquisarmos se queremos conhecer a verdade do mundo natural, ou sair por ai falando achismos de que isto é imperfeito, aquilo é errado e nunca um deus onipotente e onisciente poderia fazer algo assim. Bem, não somos oniscientes para dizer que o projeto biológico é imperfeito, está muito acima da nossa compreensão atual e acima de qualquer projeto que tenhamos imaginado. Se existe tal ser onisciente ele deve saber melhor do que nós, que mal iniciamos nossos estudos nas ciências biológicas, de o porque de as coisas serem assim. Se esse tal onisciente e onipotente criou assim, cabe a nós entendermos projeto que seria tão complexo e perfeito para nos inspirarmos. Caso tenha sido apenas forças naturais a agir ao acaso, ainda nos resta buscar entender seus funcionamentos e suas determinísticas leis. E não sair falando com tanta prepotência que isto ou aquilo é imperfeito sem ao menos entender omo funciona. Eu pelo menos não sou onisciente e não tenho por onde julgar que de outra forma seria melhor. Se já é tão difícil criar um modelo onde surja a reprodução sexuada do acaso, fica mais difícil crê-lo ao pensar que este além de ser demasiado dispendioso em termos energéticos é também demasiado imperfeito para ter sobrevivido tanto pelo crivo da seleção natural(seja lá como ela opere).
    Agora, se os que estão a afirmar o presente artigo são oniscientes, iluminados ou apresentam sabedoria muito superior a de um pobre mortal como eu, peço desculpas. Pois então podeis afirmar que um modelo inobservado é superior a um modelo observado porém ainda não inteligido e dizer qual é mais perfeito e qual não poderia nunca ser criado por uma entidade que sabeis nem sequer existir. Já eu, tampouco posso falar sobre o que entidades que para mim não existem fariam assim como sobre o quão perfeito é algo não compreendido.

  4. Shirley, não precisa! Esse tipo de coisa só se pode esperar de crente fanático. Felizmente vivemos num país onde as religiões são compostas de crentes de programa e crentes de manada, conduzidos por crentes empreendedores que estão mais preocupado com os próprios bolsos do que com as ofensas que eu faço ao Deus deles.

  5. entao Barros vai pro Irã – se vai ver uma coisa!! se vai conhecer a ira do todo poderoso lá!!1 ———– lá Deus é foda !!1 e fode os outros tambem!

  6. O Barros esse texto é republicaçao , nao é? eu ja tinho lido!
    achei divino! rsrsrsrsrsrsrs ! vc introduziu algo? no bom sentido é claro!

  7. Carlos

    E não sair falando com tanta prepotência que isto ou aquilo é imperfeito sem ao menos entender omo funciona. Eu pelo menos não sou onisciente e não tenho por onde julgar que de outra forma seria melhor.

    bem vindo ao mundo fantástico do deus Barros, aqui não existe um compromisso com a realidade a onisciência resume-se a criticas vazias, incapaz de idealizar seu mundo ateu melhor , mais coerente, tipo inveja de quem não pode fazer melhor nem fazendo uso da imaginação.
    Penso que são os homens que se fazem anjos ou demônios e criticar ao criador ja é demonstrar uma tendência para um dos lados.

  8. aqui não existe um compromisso com a realidade

    É isso aí!

    Compromisso com a realidade só mesmo no mundo religioso.

    Eu li que os profissionais de saúde recomendam não contrariar essas pessoas.

  9. Greg, é uma republicação, sim. Na íntegra. Minha casa está em reforma há cinco meses e estou meio sem condições de escrever novos textos.

    Abraço!

  10. Eu li que os profissionais de saúde recomendam não contrariar essas pessoas.

    Se continua fazendo isso o tempo todo, então também não deve estar batendo muito bem da caixola.

  11. “menos não sou onisciente e não tenho por onde julgar que de outra forma seria melhor.”

    Eu também não sou mas nem preciso se onipotente para ver que a bíblia está cheio de coisa errada e o mundo com um deus bíblico desse seria justamente essa bagunça que é ou seja como se não existisse um!

  12. Eles adoram crentes lá também todos deviam ir pra lá já que querem viver do jeito de 2000 anos atrás!

  13. muitos já foram para lá e se tornaram mártires de uma coisa ilógica como a religião,um verdadeiro desperdício das suas vidas

  14. Sugiro o assunto postado no link seguinte para trazer explicar sobre o assunto.
    http://portalconservador.com/a-crenca-em-deus-e-inata/

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