O sexo de Deus (parte 2 de 3 )

Um detalhe que me intrigava, ainda na época em que a minha cabecinha infantil estava sendo semanalmente estuprada pela minha professora de catecismo, era o fato dos “livros sagrados” não dizerem, de forma direta, que aquilo que se estava a ler era uma mensagem de Deus para a humanidade. O livro de Gênesis, por exemplo, traz uma narrativa que conta como se deu a “criação” de todo o universo, nos mesmos moldes em que Conan Doyle conta, em Um estudo em vermelho, como o Dr. Watson conheceu o Sherlock Holmes.

— Mas, irmã… que custo era a pessoa que escreveu o Gênesis ter mencionado que estava escrevendo o que Deus lhe ditava, como uma mensagem para nós?

— Chega! Já lhe disse que não precisava! Que garoto irritante!! Vai ali pro canto e me reze cinco Pai-Nossos e cinco Ave-Marias!

Em algum momento da nossa História, porém, muita gente passou a considerar esse texto da criação do mundo como um tipo de carta psicografada, em que o espírito-autor era justamente o Espírito Santo. Assim, por vários motivos — sendo um deles a total falta de conhecimento sobre praticamente tudo — , o que aquele texto continha adquiriu ares de registro literal do que havia se passado durante os primeiros instantes de existência do universo, e ninguém achou muito conveniente discordar dele, porque (isso até uns duzentos anos atrás) não fazia muito bem para a saúde.

Por conta disso, tinha-se como verdade absoluta que um ente supremo, em tudo o que há para ser supremo (detalhe: ele teria que ser supremo, também, em coisas como maldade, ira, inveja, etc.), havia criado o ser humano numa tacada só, logo após a criação do universo, que demorou um pouco mais: seis dias.

Mas ora… Alguns milhares de anos depois daquela primeira carta psicografada, eis que dois iluminados descobriram, simultaneamente, que o ser humano não foi “criado” numa tacada só: ele evoluiu, como tudo o mais que há na Terra e a que se possa chamar de ser vivo, ao longo de milhões e milhões de anos (aquela parte dos “seis dias” acabou por ser considerada um tempo simbólico também).

E como acabou sendo algo completamente impossível negar os fatos — e, pior, como passou a ser completamente impossível se negar o acesso a eles — as pessoas pararam de ser queimadas vivas por discordar daquele tipo de literatura, e o povo que acendia as fogueiras passou a admitir que aquele relato da criação do mundo era, no fim das contas e apesar de tudo, apenas simbólico mesmo. Justamente como passou a ser considerado simbólico tudo o que não faz o menor sentido que está entre aquele livro de Gênesis e o do Apocalipse, o que (só outro detalhe) não é pouca coisa não!

Daí que os livros psicografados que Deus mandou escrever e que, segundo os que nele acreditam, servem de guia no jogo cósmico da Salvação estão repletos de simbolismos que precisam ser identificados, interpretados e decodificados. Por algum motivo, Deus, na sua infinita sabedoria, não achou conveniente mandar que tudo fosse escrito de uma forma bem objetiva, preto no branco, e, para evitar confusão, por uma única pessoa, como fez aqueloutro Criador do universo: Alá. (Detalhe: várias coisas bem objetivas, como uma ordem direta dada pelo próprio Deus para que se matasse por apedrejamento todo aquele que descumprisse suas leis, não são consideradas nem como sua palavra nua e crua, nem como algum tipo de simbologia: são simplesmente ignoradas. E eu sei por quê.)

Quem crê em Deus precisa crer, antes e obrigatoriamente, na Bíblia, que é a fonte primordial de tudo o que se sabe a respeito dele. Só que, embora essa coleção de livros não pareça outra coisa que não um monte de histórias inventadas — como as fabulosas aventuras de Sherlock Holmes — , ela precisa ser entendida como a palavra escrita de um Deus onipotente, onipresente, onisciente, todo bondade, todo misericórdia, etc. Como isso não seria uma tarefa das mais fáceis, visto que a semelhança com outras histórias de outras culturas, tidas apenas como mitologias, é muito grande; e como a crítica a esses livros já não faz tanto mal para a saúde, resolveu-se adotar a medida extrema de considerar certos textos e trechos como apenas “simbólicos”.

Depois das descobertas de Charles Darwin e Alfred Russel Wallce, e da irrefutabilidade do processo de evolução das espécies, algum papa da nossa História Contemporânea deve ter precisado reunir sua alta cúpula para decretar algo como:


Quei figli di puttana hanno trovato Creazione dell’uomo secondo la Bibbia è impossibile. Dite a tutti che la Genesi è un libro simbolico.

Antes era verdade, porque está escrito na Bíblia e a Bíblia é a palavra de Deus. Depois que se descobriu que não era — melhor dizendo: depois que se tornou impossível esconder que não era — , a “verdade” virou apenas um “simbolismo”. Mas o real problema nisso tudo é que uma parcela enorme da população mundial precisa que um papa lhes diga que absurdo na Bíblia não é mais para ser entendido como verdade absoluta e, sim, como algo “simbólico”. Os demais absurdos, por inferência, continuam valendo.



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