O vício mórbido das palavras vãs (parte 2)

 

Recebi por e-mail o link para aquele texto da casa incendiando com o garotinho preso no primeiro andar. Supostamente seria para que eu entendesse o que é ter fé. O garotinho confiou em alguém que não podia ver, não foi? Jogou-se da janela só porque ouvia o pai, logo abaixo, dizendo que ele se atirasse. Ele teve fé, assim como nós devemos ter fé em Deus, que é o nosso pai celeste. Essa era a mensagem da autora do texto. Só que a analogia que ela fez é terrivelmente falha.

O que Deus chama de “fé”?

    Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.”

(Hebreus; 11:1)

Pelo versículo acima dá para concluir duas coisas bem óbvias: “fé” tem duas definições, e uma delas não tem o menor fundamento. Ter fé em algo não é a prova de que esse algo existe. Para um crente contrariar essa constatação, teria que admitir a existência de todos os outros deuses de todas as outras religiões. Afinal, como explicar que apenas a fé dos cristãos teria a prerrogativa de “provar coisas que não vemos”? Assim, uma vez que permitir o acesso de outros deuses ao mundo real implicaria no desmoronamento do dogma basilar do cristianismo — a crença em um único Deus (que são três, ao todo!) — essa parte que fala em prova de coisas invisíveis precisa ser descartada. O lado bom disso tudo é que a outra definição ainda pode ser aproveitada. A má notícia é que, nesse sentido, a aplicação é muito, muito restrita.

Eu posso dizer, por exemplo, “Tenho fé que vou morrer um dia”, “Tenho fé que o sol vai nascer amanhã”, ou “Tenho fé que a água vai ferver a cem graus centígrados se eu quiser fazer café na praia”. Mas não posso dizer coisas como “Tenho fé que estarei vivo amanhã”, porque nada no mundo pode me dar essa certeza. É claro que eu espero estar vivo amanhã, mas essa manifestação da minha vontade não pode ser expressa como fé, de acordo com a própria acepção que Deus dá ao termo.

Isso acaba nos levando a uma conclusão paradoxalmente cômica: a fé que o crente tem em Deus não tem nada a ver com fé, segundo o próprio Deus.

 

 

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2 Respostas

  1. Barros:

    Concordo, a fé cega não se justifica. Nossas crenças devem ser basadas em evidências históricas e conclusões filosóficas. Por ex.

    – Jesus existiu na opinião de muitos historiadores
    – Jesus foi crucificado, ressuscitou e apareceu para multidões após sua morte.
    – Seus discípulos, que o negaram antes de sua morte, depois mudaram de comportamento. Após as aparições de Jesus a história mostra que foram executados, preferiram a morte a nega-lo. Não vejo outra razão para preferirem morrer, se não estivessem falando a verdade.
    – Pode-se avaliar algo pelos seus frutos. Os frutos do cristianismo são na sua esmagadora maioria ótimos, prega-se o amor, a humildade, a ajuda aos pobres, a defesa da dignidade do ser humano, o respeito aos homosexuais… É claro que numa instituição de 2 mil anos, global, há casos de maldade, afinal, a igreja é composta por homens.

    Por isso que se alguém se atirar ao fogo pela simples fé, eu acho errado também.

    Um abraço.

  2. FELICIANO: Parabens ANDRÉ LOPES, gostei do seu texto, eu gostaria de acrescentar ao seu texto, o texto que transcrevo abaixo;
    Assim surgiu o Espiritismo: com a ação dos Espíritos Superiores, apoiados na maturidade moral e cultural de Allan Kardec, no papel de codificador.
    Com a máxima “Fora da caridade não há salvação”, procura ressaltar a igualdade entre os homens, perante Deus, a tolerância, a liberdade de consciência e a benevolência mútua.
    E a este princípio cabe juntar outro: “Fé inabalável é aquela que pode encarar a razão face à face, em todas as épocas da humanidade”. Esclarece Allan Kardec:
     “A fé raciocinada que se apóia nos fatos e na lógica, não deixa qualquer obscuridade: crê-se, porque se tem certeza e só se está certo, quando se compreendeu”. Fique com Deus

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