O vício mórbido das palavras vãs (fim)

 O que as tuas mãos tiverem para fazer, que o façam com todas as tuas forças; porque na sepultura, para onde te precipitas, não haverá atividade, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.”

(Eclesiastes, 9:10)

Vivemos numa sociedade cristã. A fé cristã se fundamenta na Bíblia, e a Bíblia — também segundo a fé cristã — , é a palavra de Deus. Daí se conclui que a fé se fundamenta nela mesma. Acontece que esse nem é o maior problema do crente. O maior problema do crente é que grande parte da sua Bíblia não se presta para sustentar sua fé e, muitas vezes, poderia até depor contra ela. Por conta disso, a fé desenvolveu o eficiente artifício da seletividade: tudo é lícito, mas nem tudo convém. É o crente que interpreta a palavra de Deus para reforçar sua crença nele, descartando descaradamente tudo aquilo que não atinge esse fim. 

Ao longo de tantos séculos sendo posto em prática, aquele engenhoso artifício perpetrou uma fagocitose sagrada, e acabou por digerir aquilo que deveria proteger. Hoje o cristão já argumenta que o seu Deus não está vinculado à Bíblia, e que suas intenções, vontades e expectativas independe das interpretações que pessoas diferentes, em épocas diferentes, com aspirações e necessidades diferentes poderiam fazer dela. Sendo a divindade cristã dotada de poderes ilimitados, era de se esperar que Deus pudesse mesmo fazer tal coisa: manter uma estreita relação com seus protegidos sem depender de um objeto físico que servisse de intermediário.

Como Deus estaria fazendo isso eu não sei, e o cristão também não sabe, mas é o que menos importa. O que interessa agora ao cristão é descobrir o que fazer com aquela coleção de relatos versiculados, ou, pelo menos, tentar encontrar um meio de explicar ao mundo o seu vício mórbido por aquelas palavras vãs.  

 

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9 Respostas

  1. Fagocitose sagrada, Barros, você tem uns achados incríveis…rsrsr
    E como sempre vai com precisão ao ponto. O crente cada dia mais tem que cortar um dobrado para conciliar essa bagunça toda.

  2. Oi, Shirley.

    Amanhã à noite devo te mandar o e-mail, daí você pode publicar o seu texto na terça-feira mesmo, ok?

    Você perceba que a fé religiosa é tão difícil de refutar justamente pelo fato do crente ter um baralho inteiro na manga para fazer a mão que quiser, de acordo com a conveniência. Se você diz que Deus é gordo, ele te prova que Deus é magro; se você diz que Deus é magro, ele te prova que Deus é gordo. Tudo para manter o vício.

  3. Andre Lopes, em 02/02/2014 às 11:30 disse:
    “Atenção Ateus: vocês já foram ao culto hoje?”

    “Igreja” vem do grego “Eclésia”, uma antiga assembléia de exercício da democracia Ateniense: informação essa que você saberia se lesse outros livros além da Bíblia Cristã.

  4. Carlos Eduardo:

    Obrigado pela informação. Você já pensou em ser cartomante? Acho que não daria certo, por que você errou a sua adivinhação de que eu só leio livros da bíblia.

    Mas voltando ao assunto, qual a relação da sua aula de grego com o meu comentário sobre o culto ateu em Londres?

  5. Ridiculo isso, eu nao virei um incredulo pra continuar a ir na igreja…. Se isso acontecesse por aqui perto de onde eu moro, nao iria de jeito nenhum.

  6. Caramba os comentários desse André Lopes dá vergonha alheia, não vc não deve ler só a Bíblia, lê também livros que falam os mesmos temas, rsrsrrs para de ficar escrevendo tantas tolices um dia vai sentir vergonha de si mesmo de escrever tanta asneira. e vc não lê e nem entende nadica do que está escrito no textos do Barros, seu cérebro tem defeito rsrs só pode! indico pra vc uns livros: Ateu graças a Deus e a Bíblia do Ateu do Alfredo e Inteligência Emocional de Daniel Goleman, ah e anticristo do Nietzsche, só pra começar abrir movimentar um pouco sua mentalidade, depois indico mais, não vale criticar sem ler ok.
    byee

  7. Adrielle,
    ah ah ah, engraçadinho o seu email, Algum argumento a oferecer?

  8. Barros, parabéns pelos seis episódios da série ”O vício mórbido das palavras vãs”.
    Enquanto substituímos as superstições da idade do bronze pela herança do iluminismo, preferimos os trinta artigos da Declaração dos Direitos Humanos, cultivamos a razão e confiamos na ciência, sobra ao cristão a vã tentativa de explicar os inúteis versículos dos livros sagrados.
    Aproveito para sugerir um excelente artigo, de Robert G. Ingersoll que foi um livre pensador norte-americano do século XIX, um orador e líder político norte-americano, notável por sua cultura e defesa do agnosticismo. Crítico da religião cristã, tornou-se agnóstico. O artigo escrito em 1896 foi garimpado de um blog recém-descoberto. Vale ressaltar a lucidez desse livre pensador que viveu no século XIX. Reconheço que o texto é extenso, mas como não exige silogismo, também indico aos crentes pela fácil compreensão.
    Aguardo pelo texto da shirley, na certeza de que terei uma excelente leitura na terça-feira. O que fazer se meu vício são as palavras inteligentes e pertinentes que fazem todo o sentido?
    http://anpekla.com/2014/01/23/por-que-sou-agnostico-robert-g-ingersoll/

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