Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 2)

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Tudo leva a crer que a grande polêmica sobre o aborto reside no fato de que nos é moralmente inaceitável tirar a vida de um ser humano, mais ainda quando ele está  tão indefeso quanto um bebê no útero materno. Mas, para se tirar a vida de um ser humano, é preciso, antes, que exista um ser humano.

Na Roma antiga, o aborto em qualquer estágio da gravidez era moralmente aceitável, porque o bebê  só era visto como um indivíduo, um cidadão, após o nascimento. Platão, que defendia o “aborto obrigatório” para mulheres que engravidassem após os 40 anos, acreditava que a “alma” só entrava no corpo no momento do parto. Já para Aristóteles, a vida intrauterina se iniciava com o primeiro movimento do feto, que acontecia por volta de 40 dias depois da fecundação, para o sexo masculino, ou 90 dias, para o feminino, pois, sendo seres inferiores, as mulheres se desenvolviam mais lentamente.

Essa concepção aristotélica da origem da vida foi chancelada por figurões da Igreja, como Tomás de Aquino e Agostinho, tornando-se a visão oficial do catolicismo até o século 16, quando o papa Sixto V proibiu a interrupção da gravidez sob pena de excomunhão, que é quando o papa assina um documento obrigando Deus a enviar uma pessoa para o Inferno. Entretanto, o sucessor de Sixto V, o papa Gregório IX, após uma reunião com o Criador, revogou essa lei e ficou tudo como estava antes, até o século 19, quando o papa Pio IX conseguiu convencer Deus de que, realmente, a vida humana se inicia quando o espermatozoide entra no óvulo.

Estamos esperando o resultado de uma nova audiência que o papa Chico terá com Deus, para acertar algumas arestas com o Todo-Poderoso, uma vez que, se for para considerar um óvulo fecundado como sendo uma pessoa, Deus vai ter sua reputação de projetista inteligente terrivelmente abalada, porque 50% desses óvulos não conseguem se fixar na parede do útero, sendo expelidos naturalmente na menstruação. Logo, por extrema e injustificada incompetência, pois ele é perfeito, Deus seria responsável por mais abortos do que qualquer doutorzinho de clínica clandestina. E outra, como querer considerar que o ser humano se origina no encontro do óvulo com o espermatozoide se, até 15 dias após a fecundação, o embrião pode se dividir e produzir 2 ou 3 seres humanos distintos?

Essas perguntas Deus não pode deixar de responder. Enquanto não responde, por tradição, a Igreja Católica permanece com sua posição de dois séculos atrás, confirmando a tese de que Deus é meio lentinho para tomar decisões importantes.

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…continua…

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4 Respostas

  1. Melhor eu esperar o final da série.
    Talvez eu nem precise dizer mais nada.

  2. Barros,

    A igreja católica desde sempre condenou o aborto, seja via Tomás de Aquino ou Agostinho. Aborto sempre, em qualquer circumstância (exceção ao já explicado caso de risco de vida da mãe), foi considerado pecado mortal pela igreja católica. Portanto, não há nenhuma inconsistência entre a igreja católica de mil anos atrás e a de hoje.

    Se a pergunta muda para ‘quando começa a vida’, a igreja aceita o que diz a ciência, não é assim que vocês ateus gostam? Na época de Tomás de Aquino não havia estudo da genética, microscópio, etc, ele simplesmente seguiu a ciência de sua época.

    A propósito, a igreja não fechou questão sobre o momento em que se crê que uma alma passa a habitar um corpo. Eu, como católico, posso acreditar que uma mórula não tem alma. Isso não quer dizer que este corpo, que cresce e tem pais humanos, não seja um ser humano vivo.

    E a propósito, é sacanagem a novelinha vir em capítulos, pois você pode ajustar o texto de acordo aos comentários. Isso lhe dá uma vantagem competitiva.

  3. Essa aqui está fora do assunto… veja o que é a desinformação, a revista Veja está com chamada em sua primeira pagina no site: “Papa deixa ‘porta aberta’ para discutir celibato na Igreja”. O Zezinho desavisado pensa que ele falou algo de novo e já está com um pé lá e um cá… quando se lê a reportagem, isso o que ele disse:

    “A Igreja Católica tem padres casados, católicos ​​gregos, católicos coptas e no rito oriental. Não é um debate sobre um dogma, mas sobre uma regra de vida que eu aprecio muito e que é um dom para a Igreja. Por não ser um dogma de fé, a porta sempre está aberta”

    Não falou absolutamente nada de novo há séculos.

    http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/papa-deixa-porta-aberta-para-discutir-celibato-na-igreja

  4. É isso que o André Lopes falou mesmo, a Igreja sempre condenou o aborto; independente de quando se inicia a vida humana (ou melhor, a consciência humana; já que a vida de um feto é lógico que começa na concepção mesmo sendo ainda inconsciente), o embrião já pode ser considerado um ser humano em potencial; e, portanto, dever ter os mesmos direitos de um ser humano nascido!

    O fato de Deus ser um ser perfeito (uma vez que nada pode ser acrescentado a Ele que o torne superior) não significa que suas obras tenham de ser, necessariamente, perfeitas como Ele. Um exímio escultor pode esculpir algo perfeito de uma só vez; como também, pode fazer um esboço, se assim o desejar, e ir aperfeiçoando sua obra aos poucos.

    Se formos condenar Deus pelos abortos naturais, então, vamos culpá-lo logo por todas as mortes no mundo de uma vez; já que todos nós, cedo ou tarde, morremos!

    Há um bom texto do Vaticano sobre a doutrina da Igreja sobre o aborto, a qual destaco.


    SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

    DECLARAÇÃO SOBRE O ABORTO PROVOCADO

    6. A tradição da Igreja sempre considerou a vida humana como algo que deve ser protegido e favorecido, desde o seu início, do mesmo modo que durante as diversas fases do seu desenvolvimento. Opondo-se aos costumes greco-romanos, a Igreja dos primeiros séculos insistiu na distância que, quanto a este ponto, separa deles os costumes cristãos. No livro chamado Didaque diz-se claramente: « Tu não matarás, mediante o aborto, o fruto do seio; e não farás perecer a criança já nascida » [6] . Atenágoras frisa bem que os cristãos têm na conta de homicidas as mulheres que utilizam medicamentos para abortar; ele condena igualmente os assassinos de crianças, incluindo no número destas as que vivem ainda no seio materno, « onde elas já são objeto da solicitude da Providência divina » [7] . Tertuliano não usou, talvez, sempre a mesma linguagem; contudo, não deixa também de afirmar, com clareza, o princípio essencial: « É um homicídio antecipado impedir alguém de nascer; pouco importa que se arranque a alma já nascida, ou que se faça desaparecer aquela que está ainda para nascer. É JÁ UM HOMEM AQUELE QUE O VIRÁ A SER» [8] .

    7. E no decorrer da história, os Padres da Igreja, bem como os seus Pastores e os seus Doutores, ensinaram a mesma doutrina, sem que as diferentes opiniões acerca do momento da infusão da alma espiritual tenham introduzido uma dúvida sobre a ilegitimidade do aborto. É certo que, na altura da Idade Média em que era opinião geral não estar a alma espiritual presente no corpo senão passadas as primeiras semanas, se fazia uma distinção quanto à espécie do pecado e à gravidade das sanções penais. Excelentes autores houve que admitiram, para esse primeiro período, soluções casuísticas mais suaves do que aquelas que eles davam para o concernente aos períodos seguintes da gravidez. Mas, jamais se negou, mesmo então, que o aborto provocado, mesmo nos primeiros dias da concepção fosse objetivamente falta grave. Uma tal condenação foi de fato unânime. De entre os muitos documentos, bastará recordar apenas alguns. Assim: o primeiro Concílio de Mogúncia, em 847, confirma as penas estabelecidas por Concílios precedentes contra o aborto; e determina que seja imposta a penitência mais rigorosa às mulheres « que matarem as suas crianças ou que provocarem a eliminação do fruto concebido no próprio seio » [9] . O Decreto de Graciano refere estas palavras do Papa Estevão V: « É homicida aquele que fizer perecer, mediante o aborto, o que tinha sido concebido »[10] . Santo Tomás, Doutor comum da Igreja, ensina que o aborto é um pecado grave contrário à lei natural [11] . Nos tempos da Renascença, o Papa Sisto V condena o aborto com a maior severidade [12] . Um século mais tarde, Inocêncio XI reprova as proposições de alguns canonistas « laxistas », que pretendiam desculpar o aborto provocado antes do momento em que certos autores fixavam dar-se a animação espiritual do novo ser [13] Nos nossos dias, os últimos Pontífices Romanos proclamaram, com a maior clareza, a mesma doutrina. Assim: Pio XI respondeu explicitamente às mais graves objeções;[14] Pio XII excluiu claramente todo e qualquer aborto direto, ou seja, aquele que é intentado como um fim ou como um meio para o fim;[15] João XXIII recordou o ensinamento dos Padres sobre o caráter sagrado da vida, « a qual, desde o seu início, exige a ação de Deus criador » [16] . E bem recentemente, ainda, o II Concílio do Vaticano, presidido pelo Santo Padre Paulo VI, condenou muito severamente o aborto: « A vida deve ser defendida com extremos cuidados, desde a concepção: o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis »[17] . O mesmo Santo Padre Paulo VI, ao falar, por diversas vezes, deste assunto, não teve receio de declarar que A DOUTRINA DA IGREJA « NÃO MUDOU; e mais, que ELA É IMUTÁVEL »[18] .

    …”.

    FONTE: http://portalcatolico.org.br/portal/declaracao-sobre-aborto-provocado/

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