Deus está nu

A fé religiosa é um estado hipnótico que é mantido e reforçado pela percepção dos efeitos que essa hipnose causa na coletividade. Como eu escrevi na segunda parte de Deus, Alice e a Matrix“Uma pessoa isolada chegaria sozinha à conclusão de que suas orações são inúteis”. A fé individual se alimenta da fé social. A convicção inabalável de que existe um Deus se sustenta na constatação de que uma multidão está inabalavelmente convencida de que existe um Deus. É o círculo vicioso e viciante em que cada nova geração se descobre inserida tão logo desembarca nesse planeta.

Mas tudo não passa de fingimento. Do tipo daquele que os súditos demonstraram com relação à roupa invisível do rei: o fingimento coletivo. O mesmo que os cristãos exibem quando dizem que sentem amor por Deus; quando dizem que suas orações são atendidas, que Deus os escuta e os protege; quando dizem que seguem as suas leis e os seus ensinamentos; e quando fingem um sem-número de outras coisas, e propagandeiam isso tudo nos seus cultos, nas suas missas, nas suas procissões, de forma que os outros viciados se sintam à vontade para mentir também as mesmas mentiras e, assim, não se sentirem excluídos, ou, pior, menosprezados pelos demais.

É um sistema poderoso e, quanto a isso, não há dúvida. Não é à toa que ele se mantém há tanto tempo, e não se pode ainda fazer a menor previsão de quando vai começar a desmoronar sob seu próprio peso. Mas esse dia vai chegar. Inevitavelmente. A ignorância é a matéria-prima da fé, e a tendência é que a humanidade se torne cada vez mais instruída. E já hoje as denominações religiosas estão se fragmentando de tal modo que isso talvez venha a ser o primeiro sinal da própria ruína da religiosidade, ou o ponto de partida para uma mudança de foco.

Talvez chegue o tempo em que os cristãos, por exemplo, vão perceber que tudo o que o Deus deles consegue fazer é inspirar a criação de igrejas com nomes ridículos, cuja função primordial é encher os bolsos dos seus fundadores. Talvez, um dia, eles passem a enxergar o seu “templo” como de fato ele é — um clube temático — e continuem indo lá, todo fim de semana, mas para se divertir, cantar, paquerar, interagir em sociedade, meditar. E, enquanto esse dia não chegar, os crentes — então cada vez menos crentes — permanecerão migrando de uma denominação caduca para uma recém-criada, talvez na esperança de que essa nova consiga ainda mantê-los sonhando.

Por ora, eles só estão incomodados porque ouvem, cada vez com mais frequência e cada vez mais de perto, pessoas dizerem que o Deus que eles afirmam seguir não existe em lugar nenhum. Nem mesmo na Bíblia, porque o Deus da Bíblia não aparece vestido com esse manto de bondade, amor e justiça que eles dizem enxergar. Os cristãos estão incomodados porque passaram a conhecer um crescente número de pessoas que não aceitam participar dessa brincadeirinha imbecil criada muitos milênios atrás. E, por conta disso, estão cada vez mais e mais empenhados em proteger sua fé, tentando isolar física e acusticamente os seus fiéis do alarido que essas crianças insolentes estão fazendo, apontando que o Deus deles está nu.

Ateus estão se tornando cada vez mais comuns nas sociedades. E, diferentemente de mim, pessoas poderosas, inteligentes, carismáticas estão se fazendo ouvir, estão fazendo valer sua influência para impedir que esse estado alucinatório promovido pela crença numa fantasia tome conta de tudo, ou pelo menos, estão fazendo o possível para que cada vez mais pessoas despertem desse sonho não só inútil, como também altamente danoso.

“Ateus praticantes” já se mostram na tevê, são assediados pela imprensa, são comprados nas livrarias, dão aulas nas universidades, sentam-se do seu lado nos cinemas, comparecem a festas de aniversário. Eles estão por aí, mas apenas para lembrar-lhe, crente amigo, que você está fingindo que vê algo que não vê — assim como finge amar esse Deus que você não ama —, pois o que você diz que vê simplesmente não está lá: é apenas uma ilusão da sua cabeça, induzida pela sociedade em que você vive.

Como sabemos que “a voz da razão é suave, mas persistente”, é isso o que nós vamos lhe dizer em resposta às suas declarações hipocritamente infundadas, e aos seus gritos histéricos de “Aleluia”.

Mas só isso.

Nós não apedrejaremos ninguém; não atearemos fogo às suas mesquitas, às suas sinagogas, às suas igrejas, aos seus galpões convertidos em bocas de culto. Não incineraremos os seus livros, nem os seus líderes. Nós não lançaremos aviões contra arranha-céus, não empreenderemos nenhuma Cruzada, não degolaremos dissidentes, não iniciaremos nenhuma Guerra Santa, não instauraremos nenhuma Inquisição… Porque não há a menor necessidade disso. E mesmo que houvesse, seria inútil. E mesmo que não fosse, não somos esse tipo de gente.

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4 Respostas

  1. Isso ai… vendo alguns aqui no blog penso que a fé é a única coisa que se tem…

    Quando alguém coloca a ciência a altura da religião e diz que ambas são baseadas na fé, o melhor é pedir uma cerveja e deixar disso…

    Como diz o texto, o tempo da religião está para acabar… mais e mais gerações vão crescer já sem essa lavagem cerebral que todos sofremos, minha filha fará parte disso, já está com 3 anos e nunca foi exposta a nada religioso… e assim mais e mais pessoas crescerão para ridicularizar naturalmente quem ainda acreditar em fantasias…

    Acho que nosso papel é dar suporte a essa nova geração, digo isso porque é evidente que os religiosos de hoje tentarão a qualquer custo manter o status quo, não vão querer ser ridicularizados por nenhum adolescente certo?

    Esse é um dos motivos que parei de discutir com crente aqui no deusilusão, de vez em quando dou uma cutucada em alguém, mas minha função é ensinar quem vai mudar esse quadro… quem precisa disso porque viveu em um planeta com esse câncer chamado religião talvez precise dela muito mais do que a gente imagina…

    Abraço
    Cristiano

  2. “Ateus praticantes” já se mostram na tevê, são assediados pela imprensa, são comprados nas livrarias, dão aulas nas universidades, sentam-se do seu lado nos cinemas, comparecem a festas de aniversário.

    E tem uns que fazem vídeos também! rsrs

    Ótimo texto e grande abraço!

  3. Barros

    Sim, a gente observa que esta acabando, que Deus já não é mais aquele do AT, ele está sendo desmistificado gradativamente modificando sua e a imagem por pessoas especiais que você mesmo citou:

    pessoas poderosas, inteligentes, carismáticas estão se fazendo ouvir, estão fazendo valer sua influência para impedir que esse estado alucinatório promovido pela crença…

    Observamos que Deus foi perdendo terreno dando lugar a Jesus Cristo na figura de um mártir açoitado, ensanguentado, pregado numa cruz, agonizante emitindo frases de efeito e que por ter sido humano mexe mais com a sensibilidade das pessoas.

    As religiões já não são as mesmas, estão se desfragmentando com o sincretismo religioso principalmente as evangélicas com suas ramificações, porém todas com base num Deus triuno e isto para mim já é o primeiro sinal de que elas estão acabando, a Igreja Católica está em decadência e já convivem hipocritamente com a permanência de membros imorais, por corrupção, homossexualismo e o pior: a tão famosa pedofilia praticada por homens que, por seu comportamento sexual não aceito por eles mesmos, sentem-se frustrados justamente porque essa conduta é renegada pela sociedade e então… se abnegam da vida por meio da sublimação e resolvem tornar-se sacerdotes, mas, não conseguem conter sua carnalidade.

    O que me espanta é que ainda nos tempos de hoje nos deparamos com pessoas nos convidando a filosofar, porém, ainda arraigados a velhas concepções alegando que estudam Teologia etc e tals se esquecendo das tantas complexidades que eles ainda defendem causadas por esse Deus produzido pela mente humana e a maioria reage as críticas quase a com a mesma forma violenta da Idade Média, e só não nos jogam numa fogueira porque se conscientizaram que aqueles horrores foram crimes contra a humanidade, mas, tem a língua afiada para atacar nossa dignidade e integridade moral o que também é um tipo de violência embasados no que julgam certo pelo aval de suas crenças revelando que tais comportamentos não condizem com ao de uma pessoa de mente saudável.

    As análises de hoje quando feitas por especialistas em ciência comportamental como ciência da sociedade concluem que ainda existem resquícios de crueldade nos meios religiosos demonstrados pela falta de respeito e exteriorizados por sua ira [a mesma do seu Deus], quando seus pontos de vista são confrontados, reagindo como se estivessem nos sórdidos Tribunais do Santo Ofício da Igreja praticavam nos calabouços e condenavam a morte sob tortura e determinando o tipo de tortura daqueles que seriam mortos pelos piores tipos de torturas [por favor, leia no link] nos calabouços estes Tipos de torturas da Santa Inquisição como a empalação, mandavam serrar seus corpos ao meio eram queimados vivos nas fogueiras, ou por cosimento vivo, submersão todos aqueles que não aceitavam a escravidão da Igreja assim como judeus e muçulmanos e ateus, alegando serem contra seu Deus por não aceitarem seu Deus cheio de bondade ou Jesus Cristo como seu filho.

    Revendo a história da Igreja a gente conclui que tudo isso e aliando aos escândalos sexuais dos sacerdotes do presente foi desnudando gradativamente a imagem de Deus que hoje está peladão e sem credibilidade.

    Veja o vídeo dos absurdos que Deus permitiu em favor do seu nome.

  4. Tenho sentido muito a falta da nossa amiga sessrodrigues [Shirley].

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