Hífen — um castigo divino (3)

AO90

«Aprenda a regra e decore as exceções» foi o primeiro bom conselho que eu lembro ter recebido na vida. Ele veio de um professor de português na quinta série. Isso funcionou perfeitamente bem para mim até 2009, quando li pela primeira vez a regra 1) da Base XV do Acordo Ortográfico de 1990, que trata do emprego do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares.

A regra lá diz que eu devo escrever com hífen a palavra composta formada de outras palavras independentes na língua, como guarda-chuva. Ora, “guarda” (flexão do verbo guardar) e “chuva” são duas palavras que se juntaram  para   formar   um   novo  vocábulo: guarda- -chuva; daí o hífen. Pelo mesmo motivo se escreve, por exemplo, para-raios: “para” (flexão do verbo parar) e “raios” (plural de raio).

Deixa ver se aprendi: se eu tiver duas palavras “soltas” que se juntam para formar uma outra coisa, eu taco hífen nela! Manda-chuva. Gira-sol. Para-quedas. Que simples! Adoro quando as coisas têm lógica.

Acontece que, sendo um simples tracinho, ninguém pensou que ele fosse precisar de lógica. Mandachuva, girassol e paraquedas são escritas assim, sem hífen. Jesus, Maria, José! Que disparate é esse? Ah!, mas é claro: são exceções à regra geral. Nossa!, que susto! Meu professor me alertou mesmo para esse tipo de coisa; é preciso decorar as exceções. No caso da Base XV, sobre o hífen nos compostos, as exceções são: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedistas, etc.  

Etc.??! Tá louco?

A partir de para-raios e paraquedas, como diabos eu escrevo paralama/para-lama? Só mesmo recorrendo ao VOLP*: para-lama. Mas, ora! Sem uma lista completa das exceções, eu vou ter sempre que recorrer ao dicionário. De que adiantou saber a regra 1) da Base XV se precisei consultar no VOLP como escrever para- -lama?

A pessoa que fez essa regra, quando terminou de botar o ponto do etc., deveria ter usado o backspace do teclado e apagado todo o texto até chegar no número 1), e recomeçado assim: 

  1) Para palavras compostas, consulte nosso Vocabulário Ortográfico.

Simples: sem regras e sem exceções; prático: porque é assim mesmo que tem que ser; e útil, porque deixa o leitor com mais tempo para tentar entender as loucuras da regra número 6).

________________________

*VOLP: Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (ABL, 5ª ed., 2009)

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