O rei dos reis [Republicação]

 rei dos reis

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As pessoas frequentemente puxam minhas orelhas por eu manter um blog aparentemente com a única finalidade de ridicularizar a religião. Eu sempre respondo que essa não é a “finalidade” do blog (pelo menos não seria a única), e que a religião é ridícula por si só: eu só aponto o livro, capítulo e versículo.

Entretanto, como os crentes já não leem mesmo a Bíblia, e cada vez mais eles tentam propagandear a ideia de que Deus está para além dela, eu me peguei pensando o que sobraria para eu ridicularizar se os cristãos abandonassem de vez seu livro sagrado.

Não foi difícil achar um substituto: as idiotices que os crentes falam uns para os outros.

“Jesus está voltando”. Que ótimo! Mas diz também de onde ele está voltando, e o que ficou fazendo lá esse tempo todo… Aqui eles engasgam, porque a resposta envolveria a noção de um Big Brother em escala cósmica.

Os crentes também compartilham tais tolices com ateus, mas com menos frequência e empolgação. Eu, por exemplo, quando sou lembrado de que “Jesus me ama”, costumo responder da forma mais educada que a situação exige, no tom de voz menos beligerante possível: “Foda-se”. Mas não é um “foda-se” agressivo, nem desrespeitoso. É mais um “foda-se” retórico, porque não há mais nada que se possa dizer em resposta a uma afirmação tão imbecil como essa.

Há inúmeros epítetos com os quais o cristão se refere ao seu deus Jesus, todos eles totalmente sem sentido, questionáveis e ridículos por excelência. Jesus é o “rei dos reis”, o “médico dos médicos”, o “príncipe da paz”, o “senhor dos exércitos”, a “luz do mundo”, “o caminho, a verdade e a vida”, e por aí afora. Por que diabos um “príncipe da paz” estaria comandando exércitos? 

Você não me aceita como seu senhor, salvador e deus pessoal? Então é porque tá querendo criar tumulto. Meu exército já sabe o que fazer com você.

Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Caminho para…?, alguém quer saber. Para a eternidade no Paraíso; um lugar mágico muito legal para onde você vai depois de morrer. Ok. E como ele tomou conhecimento disso? Está na Bíblia! O mesmo livro que relata diálogos de uma cobra e uma jumenta com seres humanos? Pois é: é esse aí.

Jesus é a verdade. Ora, mas até hoje ninguém sabe que verdade seria essa, porque nem o próprio emissário soube explicar nada direito. De fato, Jesus mais complicou as coisas do que explicou. Por exemplo: os judeus tinham lá seus mandamentos que, bem ou mal, dava para seguir ou saber com certeza quando não se estava seguindo. Daí que veio Jesus dizer que, para se livrar de uma punição eterna e entrar no Paraíso, era preciso amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Duas coisas impossíveis de se fazer.

Jesus é a vida. Talvez uma alusão ao fato de que você seria apedrejado até a morte se não desse a senha certa, quando alguém perguntasse em que deus você acreditava.  

 

 

No primeiro dia, o Homem criou Deus… [Republicação]

A religiosidade nos acompanha desde o nosso nascimento como espécie. Quando os primeiros da nossa estirpe vagavam em bandos nas planícies do que hoje conhecemos como África, quando ainda não dominavam o fogo nem tinham qualquer ferramenta, o dia lhes trazia calor, lhes trazia luz; permitia que identificassem, de longe, as feras e fugissem a tempo. Já a noite lhes trazia o frio e a escuridão; lhes deixava vulneráveis; gélidos de medo das sombras, de onde poderia surgir, a qualquer instante, a morte.

Nada mais óbvio do que imaginar como aqueles seres passaram a venerar o dia e a temer a noite. Daí a raiz da religiosidade: o culto à Luz e o medo da Escuridão. A noção primitiva do Bem e do Mal.

Para que a religião efetivamente nascesse, faltava ainda juntar a esse culto uma característica exclusivamente nossa, os animais ditos “superiores”: a personificação.

A seleção natural favoreceu aqueles que tinham o cérebro mais propenso a ver algo, ou alguém, naquilo que não estava totalmente definido. Os hominídeos que confundiam uma sombra qualquer tomando-a por um predador, saiam correndo para salvarem suas vidas. Se estivessem errados, isso só lhes teria custado energia e tempo. Mas eles mantinham-se vivos e passavam adiante essa característica para as gerações futuras. Já aqueles que confundiam um predador qualquer tomando-o por uma sombra, eram devorados e foram extintos.

Milhões de anos (e um cérebro três vez maior) depois, o homem aperfeiçoou essa habilidade. Nascia assim a figura da “divindade”: a personificação de algo que explicava o que não se podia entender.

Estamos a mais de quatro milhões de anos de distância daqueles primeiros hominídeos, mas ainda trazemos conosco o medo do escuro e a necessidade de nos sentirmos protegidos, quando não especiais. Ao homem moderno foi dada a opção de entender a origem do mundo e dele próprio como sendo resultado de um processo evolutivo. Mas essa ideia é altamente prejudicial aos nossos interesses: o ”processo” não ouve nossas preces, não nos protege de perigos; o “processo” não tem um plano para nossas vidas, não nos conforta em situações difíceis, não nos acena com uma outra vida muito melhor do que a que temos. O “processo” nos deixa entregues à nossa própria competência e aos nossos próprios recursos; o “processo” não se importa conosco.

Por isso é tão tentadora a ideia de um ser supremo, todo poderoso, que é convenientemente chamado de pai… porque essa necessidade de proteção vem justamente do que há de mais infantil em nós. O que passa sempre despercebido pela mente religiosa, é que o fato dessa ideia ser confortadora não a torna real. Deus é apenas uma ilusão. Uma poderosa ilusão.

O que é Religião? [Republicação]

Muito frequentemente nós somos enganados pelos nossos sentidos. E muito frequentemente, também, nós nos deliciamos com isso, a ponto de pagarmos para sermos vítimas de uma ilusão. Dos truques de mágica à indústria cinematográfica, esse aspecto da nossa condição humana nos tem feito enriquecer, ao longo dos séculos, aqueles que descobriram como nos fazer bem ao nos iludir. A religião, porém, é um exemplo claro de como uma ilusão pode se tornar danosa. 

Danosa, obviamente, para o lado que não está ficando milionário com a fé alheia. 

Pessoas religiosas costumam argumentar, baseadas em pesquisas científicas, que a crença em uma divindade é algo bastante benéfico para o indivíduo; seja para sua vida social ou para sua saúde física e emocional, por exemplo. Essa declaração, apesar de correta, não torna a fé religiosa menos prejudicial à nossa sociedade, à nossa civilização, e mesmo até à nossa espécie. Se for para analisar os prós e os contras, pode-se acabar chegando à conclusão de que é possível se adquirir, por outros meios, os mesmos benefícios atribuídos à crença em deuses, sem precisar trazer a reboque tudo de ruim que está, sempre esteve, e sempre estará vinculado à Religião. Tentar negar essa proposição é uma reação natural, fruto de um afundamento excessivamente longo dentro de uma sociedade doutrinada a pensar exatamente isso: que acreditar em deuses faz bem, sob todos os pontos de vista. Mas isso depende. E depende muito. E essa dependência é demasiadamente perigosa. 

Se, acometidos de uma mesma e gravíssima enfermidade, um crente e um ateu são submetidos a idênticos cuidados médicos, os resultados dessa atenção devem ser semelhantes. Entretanto, se por motivos diversos (e, na esmagadora maioria dos casos, perfeitamente explicáveis), o tratamento surtir efeito apenas em um deles, e o outro vier a morrer, a mente religiosa irá se apegar a uma das duas seguintes conjecturas, para sua própria conveniência. A primeira, se morrer o ateu, que a fé salvou o crente. A segunda, se morrer o crente, que foi a vontade de Deus, e devemos todos nos conformar com ela. 

Nos dois casos, o religioso está aplicando em si mesmo a ilusão que lhe rende aqueles supostos benefícios, e que engorda as contas bancárias daqueles que lhe incentivam a continuar acreditando que ele está se beneficiando de alguma coisa.

Acreditar que o ser supremo que criou todo o universo está tão preocupado com você a ponto de “auxiliar” na sua recuperação durante um tratamento médico intenso pode, sim, de alguma forma, contribuir para sua melhora, uma vez que, provavelmente, vai deixar você mais otimista, mais calmo, etc. Mas acreditar que o Todo-Poderoso vai curar você sem ajuda extra pode te levar à morte. Tão longe que estamos dos tempos bíblicos, Deus hoje só cura através de um bom plano de saúde.

O mais que passa nos shows de horrores dos programas religiosos que você assiste na tevê, e a que tantos olhos chorosos e desesperados veem como milagre divino, é tão somente um engodo; um embuste amalamanhado, quase sempre tão mal feito que só mesmo a vontade de ser iludido pra justificar a crença numa coisa tão explicitamente forjada.

Mas, no fim das contas, religião é apenas isso mesmo: a consumação de uma fraude aliada ao desejo de ser enganado por ela.

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3 frases imbecis [Republicação]

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Cristão que é cristão costuma dizer frases imbecis a torto e a direito, simplesmente porque faz parte da sua rotina não racionalizar nada referente à sua própria fé. Ele ouve e repete; lê e acredita; ora e espera. É assim que funciona e sempre funcionou. Mas, de todas as frases imbecis que se pode ouvir de um religioso, “Deus é fiel” ganha o primeiro lugar, à frente até da surrada “Jesus te ama”, segunda colocada, e “Deus é amor”, a terceira.

Deus é fiel, crente? Claro que ele vai dizer que sim, e, como sempre, não vai querer seguir com a conversa. Porque a conversa acabaria por revelar que ele está equivocado. Equivocado no seu entendimento do que seja ser fiel, ou equivocado no que venha a ser o Deus que ele diz que ama. Na verdade, na verdade, o crente só é crente porque ele ignora um sem-número de coisas, dentre elas, sua própria divindade.

Se eu dissesse, crente, que ser fiel é ser leal, eu poderia perguntar: Deus é/foi leal a quem exatamente? Eu sei que você pode tirar alguns bons exemplos do seu livrinho de fábulas, mas, ainda assim, a coisa fica feia pro seu lado, porque você vai precisar admitir que Deus foi leal a certas pessoas, e a outras não. Se ele apoiou um lado num campo de batalha, porque era o lado cujo comandante babava seu ovo sagrado, não demonstrou um pingo de lealdade para com Jó, por exemplo, que também era seu devoto. Se Deus é leal, às vezes, quando lhe convém, você não pode transformar isso num tipo de “descrição” dele. A menos que queira aumentar aquela frase campeã de imbecilidade para “Deus é fiel, quando quer”.

Outra: ser fiel é ser constante. E taí uma coisa que o Deus bíblico não é. Muito ao contrário, ele é bastante volúvel, para não dizer bipolar. Se não acredita em mim, faça uma coisa que você nunca fez (embora sua alma eterna dependa disso): leia a sua Bíblia. Você vai ver que Jesus e Deus têm personalidades bem diferentes. Só pra não me estender, lembro que Deus queria ser o deus dos hebreus, seu povo escolhido — e só. Jesus queria ser o deus de todo mundo.

Outras definições de fiel? Seguro. Que não falha. Você acha que Deus se encaixa? O mesmo Deus que vem tentando há milênios ser o único deus digno de adoração? Que criou a humanidade e se arrependeu? Que veio à Terra em carne e osso deixar uma mensagem que explicasse como a gente poderia se salvar de sua fúria e só complicou tudo mais ainda?

Quando alguém, inadvertidamente, me diz que Deus é amor, eu invariavelmente respondo “Ou você não entende porra nenhuma de Deus, ou não entende porra nenhuma de amor”. Já quando um religioso me diz que Deus é fiel, eu pego mais pesado ainda.

Eu pergunto “Por quê? Por que você acha que Deus é fiel?”. E é quando o crente se contorce, no desconforto de fazer algo com que não está acostumado: raciocinar sobre as tolices que espalha, mais por hábito do que por convicção.

Toda a fé em Deus se baseia e se sustenta apenas num monte de frases imbecis.

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Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Parte final)

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Depois do ato sexual, o espermatozoide vai levar de 8 a 12 horas para chegar até o óvulo e penetrá-lo, e mais 24 até se fundir com ele numa célula única. As divisões sucessivas que darão origem a um novo ser só vão começar dali a mais 40 horas, e o óvulo ainda precisará de 2 semanas para chegar no útero e tentar se fixar nele. Tudo dando certo até aqui, só em mais 2 meses o embrião ganhará sua primeira rede de neurônios, num total de três células. Os primeiros 3 neurônios dos seus futuros 86 bilhões.

Eu, particularmente, não vejo o menor problema em uma gestação ser interrompida no dia seguinte à fecundação, ou na sua primeira quinzena, por exemplo. Mas até que ponto eu continuaria sem “ver o menor problema”? Minha resposta mais sincera: eu não sei.

Por isso é tão importante a opinião dos meus pares, cidadãos iguais a mim, que compartilhem o mesmo código moral que eu; pessoas que tivessem aversão a sacrifícios humanos, a chantagens e genocídios, por exemplo. Mas o que eu não posso aceitar deles, é que seus argumentos venham embrulhados na sua fé religiosa. E por dois motivos bem simples.

O primeiro, é que eles não poderiam me convencer de que eu deveria dar ouvidos ao seu Deus específico, descartando todos os outros dos quais já ouvi falar. Além da vontade de estarem adorando o deus certo; além do desejo de que esse um seja o deus verdadeiro e os outros sejam todos falsos, eles não têm mais nada a oferecer.

O segundo motivo, é que eles precisariam me mostrar que seus padrões morais são os mesmos desse Deus da sua preferência, caso contrário, não haveria justificativa para usar sua fé como argumento.

A “questão do aborto” se nos apresenta como um problema que precisa de uma solução. E a solução não vai cair do céu. Ela terá que vir de nós mesmos, mas só quando nos dermos o trabalho de parar para discutirmos o assunto: com responsabilidade, com inteligência, com discernimento e, acima de tudo, sem recorrer a nenhum desses conjuntos de certezas hipócritas chamados de religião.

Não é a crença em uma criatura mágica habitante de uma dimensão insondável que torna uma pessoa boa e suas decisões acertadas. Citando um grande pensador, “Pessoas religiosas fazem coisas boas não porque são religiosas, mas porque são boas.” Não é uma religião que vai nos dizer o que é ser “humano”, nem é o que nos tornará melhores. O que nos tornará melhores é a fé que devemos ter em nós mesmos, como seres racionais capazes de diferenciar o que é certo do que é errado; aquilo que nos prejudica, daquilo que nos engrandece; o que pode nos levar a viver mais como indivíduos e melhor como sociedade, daquilo que pode nos aniquilar, ou nos fazer envergonhar a própria Evolução por nos ter permitido um cérebro tão maravilhoso, mas que não soubemos como usar.

O aborto, assim como a eutanásia e a pena de morte, são questões para se discutir até que a nossa sociedade global lhes dê uma resposta única, porque eu não conheço mais de uma humanidade habitando este planeta. O que há são pessoas em diferentes lugares cultuando diferentes criadores do universo, cada um dizendo uma coisa diferente sobre os nossos mesmos problemas.

A religião pretende nos convencer de que a fé em deuses nos é mais útil do que a nossa razão, e ludibria cada nova geração ensinando que é com base na fé religiosa que construímos nossa moral. Dois equívocos tão perniciosos, deletérios e ultrajantes para a dignidade humana que seus propagadores deveriam ser procurados como criminosos. Para nossa infelicidade, porém, não só eles ainda são vistos como pessoas de respeito, como são investidos de indevida autoridade para falar em nosso nome, isso quando não se outorgam o direito de dar a palavra final justamente sobre aqueles dilemas que nos furtamos a decidir por nós mesmos.

A polêmica sobre o aborto é só uma das questões morais que ainda precisamos resolver. Mas para chegarmos a um consenso sobre o que é certo e errado, é preciso parar de argumentar em nome de Deus, e tentar eliminar as nossas dúvidas, usando toda a nossa humanidade, em nome da Vida.

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Consultei: Vida: o primeiro instante.

Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 6)

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Você seria capaz de torturar uma criança por 7 dias, até matá-la, como forma de punição aos pais dela?

Você seria capaz de afogar todos os seus filhos se eles não estivessem se comportando de acordo com o que você esperava deles?

Você seria capaz de exigir que alguém matasse o próprio filho como uma prova de obediência a você?

Você seria capaz de permitir que alguém arrasasse — física, social e psicologicamente — a vida de uma pessoa que te ama, só para “testar” se o amor que ela sente é mesmo verdadeiro, e se ela ainda continuaria tendo essa devoção a você, mesmo estando no fundo do poço?

Você torturaria um inocente até à morte, como parte de um ritual planejado por você mesmo, para se sentir em condições de perdoar as outras pessoas por não seguirem as suas ordens?

Não? Parabéns. Eu também não. E acho que nenhuma pessoa minimamente decente que você conheça responderia o contrário.

Mas Deus não seria minimamente decente, se existisse. Não pelos nossos padrões. Segundo a Bíblia, ele não só praticou esses atos imorais (com os quais você, obviamente, não concordou), como centenas de outros que também não receberiam sua aprovação.

Donde se chega à inevitável pergunta: 

Para que diabos te interessaria, então, saber o que Deus acha ou deixa de achar com relação a assuntos que envolvam a nossa vida em sociedade, se, de fato, todos nós rejeitamos o código de conduta que ele nos impôs, justamente porque não concordamos com ele, por considerar o modo como ele trata a vida humana moralmente inaceitável?

E eis que só há uma inevitável resposta:

Porque, na sua cabeça, o universo é dele, as regras foram feitas por ele, é ele quem manda, e, caso você o contrarie, você vai se ferrar. Eternamente.

É essa a prisão intelectual a que o religioso se sujeita, precisando justificar os atos imorais de sua divindade imoral, devido a um medo pavoroso do castigo eterno que essa mesma divindade fez questão de apregoar, o máximo que pôde, enquanto esteve aqui embaixo com a gente, em forma humana.

Em todos os Evangelhos, Jesus Cristo sempre se ocupou mais em nos falar do Inferno.

…continua…

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Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 4)

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Ninguém deveria se posicionar contra ou a favor do aborto sem antes se submeter a um pequeno teste que eu vou reproduzir aqui, comigo mesmo no papel de “rei Salomão”. Funciona assim: a cada situação hipotética, envolvendo uma solicitação para que um aborto seja realizado, eu terei que decidir o que fazer e justificar a decisão tomada. 

Situação 1

Uma grávida de quase 8 meses me faz o pedido para abortar a criança, porque descobriu que o pai do bebê estava de caso com outra mulher, e ela não quer mais ter um filho com ele.

Decisão: INDEFERIDO.

Interromper a gravidez nesse estágio seria assassinato: uma barriga de 8 meses já envolve um ser humano.

Situação 2

Uma mulher me faz o pedido de autorização para tomar “a pílula do dia seguinte”, pois transou com o namorado sem preservativo, mesmo estando no período fértil.

Decisão: DEFERIDO.

Esse tipo de anticoncepcional atua impedindo que ocorra a fecundação e descamando a parede interna do útero, para que um óvulo fecundado não se fixe nele, e seja eliminado naturalmente. É o que ocorre a cerca de 50% de todos os óvulos fecundados, mesmo quando as mamães querem muito engravidar, e ninguém acha que “vidas” foram perdidas nesses casos, nem faz passeatas nem velórios por causa delas.

Situação 3

Uma grávida de 6 meses pede para proceder o aborto, uma vez que vários exames, feitos e repetidos nos últimos 30 dias, diagnosticaram que o feto não tem cérebro.

Decisão: DEFERIDO.

Em 98% dos casos de anencefalia, os bebês morrem na primeira semana após o nascimento; os outros 2% não resistem a mais do que uns poucos meses. Não há por que exigir que uma mulher leve a cabo uma gravidez que só serviria para debilitá-la, física e psicologicamente, sem que o feto tivesse nenhum benefício.

Situação 4

Uma mulher fez o teste de gravidez um mês após ter sido vítima de estupro e, descobrindo-se grávida, quer fazer o aborto.

Decisão: DEFERIDO.

Mesmo tendo cometido a imprudência de esperar pelo atraso da menstruação para, só então, fazer o teste de gravidez, ainda estamos falando de um amontoado de células que, embora já apresente uma estrutura primordial que dará origem a um coração, só vai começar a esboçar um sistema nervoso dali a mais 30 dias. A opção da mulher em não querer ser mãe de uma criança gerada nessas condições infames é simplesmente indiscutível.

Situação 5

Uma mulher solicita autorização para interromper a gravidez de 3 meses, porque se verificou que o feto estava muito mal formado, sem os membros superiores e inferiores, e ela não quer ser a responsável por gerar um ser humano com tamanho grau de deformidade, que passará toda a vida dependendo dos outros para tudo e qualquer coisa, além de alegar que passaria o resto de sua própria vida sofrendo em ver um filho em tais condições.

Decisão: Ups!

Situação 6

Uma mulher pede para interromper a gravidez de menos de um mês, depois de ter engravidado acidentalmente. Ela e o marido decidiram que aquele não seria o melhor momento para o casal ter um filho.

Decisão: Ups!

Meu julgamento foi baseado na minha moral, no meu entendimento do que seja “certo” e “errado”, no meu conhecimento de mundo. É algo muito parecido com um cálculo matemático que, através de uma fórmula insondável, pesa os prós e os contras, compara as consequências, pondera os motivos, avalia os prejuízos, os riscos e os benefícios, além de umas outras tantas variáveis, e fornece um resultado límpido, um “x” austero e decidido, que me diz o que fazer em cada caso.

Nas quatro primeiras situações, essa fórmula me bastou para me convencer de qual decisão tomar. Mas por que ela não me valeu nas duas últimas hipóteses? Resposta: porque eu percebi que não tinha o discernimento necessário para “julgar” esses casos; como se faltassem dados a serem computados. Nessas situações, e por isso mesmo, experimenta-se a extrema necessidade de buscar o apoio moral dos demais:

O que as outras pessoas fariam? O que elas pensam a respeito? 

As respostas a essas perguntas, entretanto, precisam ser racionais. O consenso que irá se originar delas será um somatório de todos aqueles “x”, depois de inseridos os dados que ficaram faltando. A nossa moral deve ser guiada pela nossa razão, pelo senso comum do que seja “certo” e “errado”, “aceitável” e “inaceitável”, “humano” e “desumano”. A nossa moral é o que justifica os nossos atos através da nossa humanidade.

No próximo texto, eu vou mostrar por que, no debate que envolve questões de vida e morte, como a eutanásia, a pena capital e o aborto, a fé religiosa precisa ficar — obrigatoriamente — fora daquela equação.

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…continua…

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