Uma história sem final feliz (Pt. 2)

olhos

O primeiro e-mail que ela me mandou tinha a data de 25/12/2010. Nele, ela me parabenizava pela minha série de textos Nada a ver com Deus, que ela tinha acabado de ler naquele dia. Foi um e-mail longo e bem escrito, em que ela dizia que tinha encontrado, no meu blog, algumas respostas às perguntas que nunca teve coragem de se fazer sobre Deus. E terminava dizendo ter recebido o link para aquele texto de uma “amiga do trabalho”. 

Eu respondi o e-mail dela com um outro ainda mais longo, agradecendo pelo carinho e pela atenção que ela teve para com esse escritor frustrado, e também por todos os elogios que ela me fez e que, certamente, eu não merecia.

Foi assim que começou. Ela me mandou um e-mail. E eu respondi. Não deveria ser novidade pra ninguém que certas pequenas coisas que fazemos (ou que deixamos de fazer) podem, sim, ter consequências que não nos seria possível sequer imaginar; às vezes muito boas, às vezes muito ruins. Ainda não consigo classificar em qual dessas categorias ela, enfim, veio a se enquadrar, após esse nosso primeiro&último encontro.

Para não correr o risco de transformar esse penoso relato num romance mal escrito e mal intencionado, eu preciso comprimir os acontecimentos em pacotes, por sua vez espremidos em frases, cuja única função é servir de apoio para as entrelinhas, que é onde a história vai ser contada.

Os e-mails. Foram muitos. Às vezes três num único dia. Cada vez mais longos, mais íntimos (sem conotação sexual), mais dependentes de uma resposta. E em nenhum deles ela me revelava quem realmente era. No começo, mentiu dizendo-se casada. Depois, confessou que não queria se envolver além da conta comigo; por isso “essa reserva”: queria ter sempre em mente que era ela quem tinha o controle da situação, e, caso quisesse parar “aquilo”, não iria depender da minha permissão. Ela perguntou se eu topava, e eu topei. Alguma coisa me dizia que “aquilo” não iria parar ali. E realmente não parou.

Quando passamos a conversar online, câmeras não eram permitidas. A essa altura, eu já  era uma espécie de confidente, de amigo virtual, de sei lá o quê, mas eu me tornei muito importante pra ela, a ponto de, cinco meses depois daquele primeiro e-mail, ela me dar o número do seu celular, mesmo ainda morrendo de medo de que eu “reconhecesse a voz”, como me confessou durante nosso encontro em São Paulo. Mas não reconheci, porque quase não assisto tevê, e a última coisa que veria na televisão seria uma novela. Mesmo assim, ela só fez umas duas ou três, e nunca foi protagonista.

Depois que eu passei a ouvir sua voz, sua risada, sua respiração, eu me apaixonei de vez. E deve ter acontecido o mesmo com ela, porque, a partir daí, eu me tornei seu amante, se você não levar em conta o fato de que não podia vê-la, nem tocá-la. Mas paixão é uma droga, e para quem está drogado, esse tipo de “deficiência”, de “falha do processo”, é um detalhe perfeitamente esquecível.

Foram dois chips da Vivo que nos possibilitaram cometer essa imprudência — ou, antes, essa imbecilidade — de nos esquecermos, durante quatro longos meses, de que os momentos juntos que passamos com as orelhas espremidas contra o celular não eram em nada diferentes daqueles que o viciado passa ao lado de sua seringa vazia, enquanto desfruta de um breve instante de felicidade indizível, que ele jamais poderia encontrar no mundo real à sua volta.

A nossa felicidade era intensa, mas também era uma farsa. Para nós, entretanto, ela era tão real e tão prazerosa que nos viciamos nela. Nós nos desprendemos completamente da realidade e nos recusamos a aceitar o óbvio: que tudo aquilo era apenas uma ilusão que construímos dentro das nossas próprias cabeças, uma fantasia que só se sustentava durante uns poucos minutos, e que nos deixava tão intoxicados de amor, desejo e tesão um pelo outro, que passamos a viver dependendo dessa droga, ao custo de vinte e cinco centavos a picada.

Foi ela quem sugeriu o encontro. Estava “desesperada” pra me ver, segundo ela mesma me disse. Em dezembro próximo já iríamos completar um ano de “relacionamento”. Eu fui. Viajei para São Paulo e me hospedei no motel mesmo em que marcamos de nos encontrar. Liguei pra ela de lá, na noite anterior. Ela estava tão excitada que quis fazer amor virtual na véspera do encontro. Eu disse não. Já estava cansado daquilo. E, dando tudo certo, no dia seguinte eu a teria nos meus braços para fazer amor de verdade. Finalmente.

A vida é uma comédia. E nós somos, às vezes, uns palhaços mesmo. Eu deveria ter aproveitado o momento — e a proposta — e ter feito amor com ela por telefone. Porque seria a nossa última vez. Mas eu não tinha como saber que, no outro dia, logo depois de me ver, ela iria se curar dessa doença chamada paixão.

Eu estava esperando encontrar uma moça comum, de beleza comum, com uma vida comum. Ela estava esperando encontrar o quê? Um príncipe? Quando abri aquela porta de motel pra deixar ela entrar na suíte Mil e Uma Noites, a moça comum, de beleza comum, que achei que ela fosse não estava lá. Essa surpresa me fez arregalar os olhos o máximo que eu podia, mesmo sem acreditar em nada do que eles viam. E meu próprio rosto era como um espelho refletindo o espanto no rosto dela. Mas o que em mim era deslumbramento, nela era só decepção, porque, no lugar do príncipe que ela esperava, a vida também tinha lhe enviado uma outra pessoa.

Eu..


Anúncios

Uma história sem final feliz (Pt. 1) [Republicação]

Airport_symbol.svg

Aeroporto de Guarulhos, São Paulo, Terminal 2, Asa D.

Agora são exatamente… 17h37min do dia 17 de outubro de 2011. Estou escrevendo esse texto numa cadeira bem desconfortável de uma lanchonete. Meu voo sai daqui a três horas e, caso não desista da ideia, pretendo agendar esse texto para ser publicado automaticamente no blog às 00h00min do dia 18, horário do Nordeste, que é pra onde eu estou indo.

Antes de vir pra cá, pro aeroporto, eu estava num motel, acompanhado da mulher mais linda que já vi na vida: uma atriz da Rede Globo, solteira, já perto de completar 25 anos de idade, e que fez umas 3 novelas eu acho (não sei ao certo pq não vejo novela) e não está em nenhuma agora. Isso é tudo que vou dizer sobre ela, por 3 motivos:

1. cavalheirismo;

2. porque ela me fez prometer que nunca falaria nada a respeito; e

3. porque ninguém iria mesmo acreditar se eu dissesse quem era.

O fato da gente não ter transado, mesmo ela tendo passado boa parte da manhã comigo naquele motel, almoçado comigo, e me dado um beijo na boca antes de sair pra sempre da minha vida, não é, nem nunca seria um quarto motivo. Eu teria guardado segredo do mesmo jeito, se a gente tivesse feito o que foi lá pra fazer. Só que com melhores lembranças do que as que ela me deixou.

Por que eu estou fazendo isso? Escrevendo essa introdução às pressas? Por 3 motivos também:

1. eu tomei umas doses de vodka;

2. começando o texto agora (com essa coragem irresponsável, com essa raiva indisfarçável e com a decepção insuportável), eu me obrigo a contar o que aconteceu, porque, mesmo sem ter um final feliz,

3. essa é uma daquelas histórias que merecem ser contadas.

.

Jesus está voltando

 jesus está voltando

.

Se tem uma coisa que me irrita bastante é ouvir pessoas inteligentes dizerem coisas sem sentido, baseadas em sua fé religiosa. Um colega de trabalho ia me fazer um discurso catequizador, mas começou com a frase errada:

— Barros, Jesus está voltando.

É óbvio que ele certamente tinha uma pilha de argumentos para me convencer de que meu ateísmo iria me levar para o Inferno, mas, pelo menos para mim, também era óbvio que tudo que ele tinha pra me dizer não fazia o menor sentido, a começar por aquele dito anedótico.

— Jesus está voltando? — eu repeti. — Voltando de onde?

Ele meio que se engasgou com a minha interrupção assim logo no início, mas era uma pergunta bastante evidente: se alguém está voltando, está voltando de algum lugar. A resposta foi que Jesus estava voltando “de junto do pai”.

Eu reconheço que sou uma pessoa insuportável, mas, vamos combinar:

— Tá. E o pai dele tava onde?

Ele meio que enrolou, mas acabou desembuchando: “no céu”. Ó, que ótimo! Estávamos progredindo! Só mais um pouquinho e eu já ia deixar ele passar pra segunda frase do discurso.

— O céu fica onde?

Surpreendentemente, meu colega se irritou com essa pergunta e quis continuar sua exposição passando por cima dela. Claro que eu não poderia permitir isso: a salvação da minha alma exigia que eu me inteirasse completamente do assunto. Mas, como ele de fato não sabia de onde Jesus estava voltando, achou que poderia compensar a ausência desse dado repetindo aquela afirmação mais algumas vezes:

— Jesus está voltando, Barros. Ele está voltando, entende? Logo todo joelho se dobrará e todo…

— Há dois milênios que ele está voltando, meu querido!

— Sim, mas a hora chegou! A Bíblia diz que haveriam guerras e rumores de guerras! Observe os sinais do fim dos tempos, Barros. Todo dia você vê a televisão mostrando furacão, tsunami,  guerra, terremoto, surto de…

— Mas isso sempre existiu!! O que nem sempre existiu foi a tevê. 

— …doenças contagiosas, nação se levantando contra nação, pai matando o filho! Esses sinais estão descritos na Bíblia!

É claro que ele não estava me ouvindo e, então, eu tive que dar uma alfinetada:

— Jesus não vai voltar de lugar algum, porque ele não foi pra lugar algum. Se a gente se congelasse e fosse reanimado daqui a mais dois mil anos, as pessoas nas ruas ainda estariam dizendo a mesma coisa. “Jesus está voltando” é uma frase sem sentido; não significa nada. Serve só pra sustentar sua fé em algo que não existe. Se não existe, o fato de ele não estar aqui pode ser explicado pela afirmação de que ele “está voltando”. Mas ele vai “estar voltando” sempre: nunca vai chegar. Nem hoje, nem amanhã.

Ele ficou pasmo com a minha petulância:

— Como que você pode dizer isso, rapaz?! Que argumentos você tem pra embasar o que você tá falando? Como você quer sustentar a afirmação de que ele não virá mesmo amanhã, se você não tem como saber o que vai acontecer amanhã?

— Eu aposto cinquenta reais com você que ele não virá amanhã.

— Que imbecilidade, rapaz…

— Cinquentinha só! Topa? Se ele não vier amanhã, você me paga.

— Você vai ser castigado por isso, Barros.

Ele encerrou a conversa e voltou pra seção dele. E eu deixei de ganhar cinquenta reais mole, mole, porque essa conversa foi ontem e, agora vocês também já estão sabendo, Jesus ainda não chegou.

O céu deve ficar a milhões de anos-luz daqui e, talvez, ele esteja vindo de jumento.

  

 

Eu sou o fantoche do Diabo

o bem e o mal 

.

Dia desses eu fui abordado na porta da minha casa por duas irmãs que tinham invadido a rua com outros frequentadores da sua boca de culto. Como vi que ninguém estava carregando material suficiente para fazer uma fogueira, resisti ao impulso de correr para dentro de casa, e sorri pra elas duas, fingindo ser a pessoa mais doce do mundo. Os outros membros do bando passavam e sorriam pra mim, enquanto pareciam apertar, ainda com mais força, suas Bíblias contra os seus respectivos sovacos.

De repente, surgiu um anjinho do meu lado esquerdo, que é o lado do coração, que é o órgão responsável pelas minhas emoções e pelos meus pensamentos bons. Ele me cochichou dizendo que eu fosse educado e cortês, e tentasse assimilar, no meu coração, a mensagem que elas estavam querendo passar. Ao mesmo tempo, do meu lado direito, que é o lado do meu apêndice, que é o órgão responsável por me lembrar que eu não entendo nada de biologia, apareceu um diabinho rabudo e vermelho que disse: “Detona!”. Dessa vez eu decidi seguir o conselho do anjo, porque a minha psiquiatra me garantiu que essas vozes na minha cabeça só vão me deixar em paz depois que eu me tornar uma pessoa menos belicosa.

Elas começaram até bem: “A gente pode falar com você um minuto?”. Aí eu disse: “Sim”. Uma delas, então, me apresentou um panfleto impresso com algumas sentenças ao lado de quadradinhos [supostamente para alguém marcar com um X] onde eu li rapidamente coisas como a) Deus, b) Homem, c) Mídia, etc. Enquanto segurava o papel na minha frente, ela perguntou: “Você pode me dizer quem controla o mundo?”. Aí eu disse: “Não”. Foi quando ela começou rapidamente a me esclarecer sobre como tudo é extremamente simples: bastaria amar a Deus e ler a Bíblia, que todos os meus problemas e os problemas do mundo se resolveriam; e que todos os meus problemas, bem como os problemas do mundo, eram frutos do pecado.

Pacientemente eu a ouvi durante quase quarenta segundos; mas aquele diabinho estava agora arranhando meu apêndice com uma serrinha de unha, então eu tive que interrompê-la:

— Me dê um exemplo de pecado.

— Desobedecer as leis de Deus é pecado.

— Me dê um exemplo de pecado.

Minha professora de catecismo me chamou muitas vezes de “impertinente” por bem menos do que isso.

— O marido trair a esposa é um exemplo de pecado.

— E por que você acha que maridos traem as esposas?

— Porque eles cedem às tentações do Diabo.

Aqui o diabinho vermelho parou de lixar o meu apêndice e ficou prestando atenção na conversa.

— Quer dizer que, se eu fosse casado com você e tivesse um caso com a sua irmã aí, isso seria culpa do Diabo?

— Não: seria culpa sua e dela, por cederem à tentação dele. 

— Então a ideia de transar com a sua irmã foi posta na minha cabeça pelo Diabo?

— Foi… — ela disse, disfarçadamente avaliando a distância que se encontrava do resto do grupo, ao longo da rua. 

— Você acreditaria em mim se eu dissesse que, se sua irmã fosse bem feia, magrela e tivesse mau hálito, o Diabo poderia fazer o diabo, mas eu nunca trairia você com ela?

Elas não quiseram continuar a conversa, por algum motivo. Despediram-se entre apressados conselhos para que eu lesse a Bíblia, e foram se juntar aos outros do bando, que também não deviam entender nada de biologia, a ponto de achar que o desejo que um homem tem de transar com mais de uma mulher é motivado por uma criatura malévola que habita uma dimensão mágica.   

  

 

%d blogueiros gostam disto: