O símbolo macabro do cristianismo [Republicação]

Crucificação vem do latin crucifixio [crux = cruz + o verbo figere = fixar, prender].*  Foi o método de execução adotado pelo império romano, para punir crimes cometidos pelos escravos, desde o século seis antes de Cristo até o ano de 337 da era cristã, quando o imperador Constantino I aboliu esse tipo de execução, justamente por causa da veneração bizarra que um número crescente de seguidores de uma nova seita passaram a demonstrar por esse horripilante instrumento de tortura.

A pena de morte por crucificação era uma punição duríssima, pois a sentença antecipava ao réu não só que ele perderia a vida, mas que a sentiria se esvair lentamente, até o ponto em que seu corpo não conseguisse mais suportar justamente aquilo que todo organismo mais evita: a dor. E não seria uma dor inesperada e letal, mas uma dor agendada, que, uma vez tendo início, seria constante, inimaginavelmente intensa e deliberadamente infligida por mãos adestradas na técnica de impor o máximo de sofrimento pelo maior tempo possível.

O processo de execução começava com o criminoso sendo despojado de suas vestes e preso a uma coluna, para ser submetido ao flagelo, que era o açoite feito com um chicote especialmente confeccionado para esse fim. Depois o condenado era amarrado de braços abertos a uma cruz de madeira (ou a uma árvore), onde era deixado para morrer. Ali, enquanto sentia por todo o corpo a dor excruciante que o flagelo lhe havia causado, o enfraquecimento provocado pela perda de sangue e pelo sofrimento prolongado fazia o crucificado esmorecer sobre suas pernas presas e, não mais podendo suster-se de pé na cruz, ficar completamente pendurado pelos braços, com o peso do corpo a comprimir-lhe o diafragma, até não mais conseguir manter a respiração e morrer por asfixia.

As execuções tinham início no meio da tarde e se estendiam até o pôr-do-sol, uma vez que, como ditava a tradição, o executado não poderia permanecer na cruz durante a noite, pois acreditava-se que isso contaminaria a terra com a maldição que havia caído sobre o morto. Quando ocorria do crucificado ainda estar vivo pela hora do crepúsculo, os soldados romanos lhe quebravam as pernas para acelerar o processo.

A crucificação raramente era feita pregando-se o réu à cruz, mas quando esse sofrimento adicional lhe era imposto, fazia-se necessário providenciar um apoio em que o crucificado pudesse se manter sentado. Não fosse esse artifício, a morte viria rápida demais e a punição seria considerada branda. Tendo o peso do corpo sustentado por esse tipo de banquinho, o expediente de quebrar as pernas do criminoso para acelerar a morte por asfixia não surtia efeito. Assim, no caso de chegar a noite, o condenado que ainda resistisse vivo era violentamente espetado por espadas e lanças, ali mesmo na cruz, até que parasse de se estrebuchar a cada nova estocada, o que atestaria a sua morte.

Se Jesus Cristo foi mesmo executado por crucificação há dois mil anos, três coisas podem ser ditas seguramente sobre ele.

A primeira, que ele deve ter cometido um crime compatível com a sentença de morte recebida, o que, obviamente, foi omitido dos textos sagrados do cristianismo. Blasfêmia, por dizer-se filho de Deus ou por ameaçar o poder e posição dos sacerdotes e fariseus, não seria motivo suficiente para ser morto por crucificação, visto que Jesus estaria afrontando a lei dos hebreus, não a de Roma; e o governador local não iria querer gastar o seu latin com um bando de arruaceiros de um povo subjugado reclamando que alguém havia blasfemado contra o Deus deles. Os romanos, que tinham dezenas e dezenas de deuses, talvez mesmo só tivessem ficado perplexos ante a falta de fé que aquela gente demonstrava em relação ao seu próprio Deus, não deixando nas mãos dele a vingança pela blasfêmia recebida, como eles, certamente, teriam deixado.

A segunda, que ele sofreu de uma forma inimaginável antes de morrer. Eu, particularmente, lamento muito por ele e pelo fato de nossa espécie ter cometido, como ainda comete, tantos atos de barbárie contra si, e mesmo contra outras formas de vida.

E a terceira, que, independentemente do que Jesus achava que era, ou do que as pessoas que escreveram os Evangelhos achavam que ele era; independentemente do que tenham escrito, dezenas de anos depois, sobre o que ocorreu após sua morte, Jesus de Nazaré morreu naquela cruz e ainda continua morto.

É certo, também, que é impossível ignorar a multidão que diz esperar a volta do mais famoso finado de que se tem notícia. A esses eu só tenho uma coisa a dizer: vão continuar esperando.



*Fonte: Wikipedia.

O ateu e o agnóstico (pt. 2) [Republicação]

T. H. Huxley

T. H. Huxley

Foi o biólogo inglês Thomas Henry Huxley que, em 1869, nos seus Collected Essays (Ensaios Reunidos), usou pela primeira vez a palavra “agnóstico”, forjada do adjetivo grego ágnostos (ignorante). Huxley pretendia que ela definisse aquele que estava no extremo oposto em relação aos que apregoavam um conhecimento acerca da existência de Deus. Se o crente tinha esse conhecimento e ele não, isso certamente fazia dele um ignorante, ou seja — um agnóstico.

Ao longo do tempo, o vocábulo foi ficando cada vez mais famoso e encorpado, a ponto de perder a simplicidade e ironia da sua definição original. Se você conseguiu inferir o significado de agnóstico só lendo o parágrafo acima, não se espante ao perceber que deixou de entendê-lo depois de procurar por uma definição mais aprofundada.

Acredito que a explicação que o próprio Huxley deu sobre o termo, em 1889, complicou mais do que pôde esclarecer. E é essa explicação, citada no tópico A pobreza do agnosticismo, que, talvez, tenha levado Dawkins a discorrer sobre a ideia presente em Deus, um delírio de que o agnóstico é alguém que está em cima do muro. Uma pessoa que, não vendo nenhum motivo válido para acreditar em Deus, também não se sente capaz de usar sua razão para concluir que não existe Deus algum, recusando-se, assim, a declarar-se religioso ou ateu, respectivamente.

Talvez seja esse o entendimento que as pessoas têm hoje do que seja um agnóstico, razão pela qual aqueles que assim se definem têm de lidar com a pecha de “indeciso”, ou mesmo a de “covarde”, intelectualmente falando. Aparentemente, a sociedade parece assumir que, enquanto o ateu é aquele que compra briga e defende “seus ideais” com unhas e dentes — arcando com as consequências de manifestar tal posição numa sociedade sabidamente contrária a ela — , o agnóstico seria aquele que, não vendo motivos para defender nem o “sim” nem o “não”, prefere viver no conforto de sua indiferença.

Thomas Huxley estava apenas sendo tremendamente irônico quando considerou que seus contemporâneos possuíam o conhecimento da existência de Deus. Não havia, nem há, tal conhecimento. Se houvesse, ele poderia ser facilmente compartilhado, e a crença não teria razão de ser. O religioso também é um ignorante. Um agnóstico que usa do subterfúgio de preencher sua falta de conhecimento com fé.

O ateu é tão somente o agnóstico que se recusou a fazer isso.

 

O ateu e o agnóstico (pt.1) [Republicação]

somostodos

Pergunte a um padre da igreja Católica, ou a um obreiro da Universal, ou a uma testemunha de Jeová que apareça no seu portão se eles sabem a definição da palavra “ateu”. Eu quero que a alma da minha mãe vá tostar no Inferno se não souberem!

  Ateu é aquele que não acredita em Deus.

E ainda arrisco dizer que alguns estarão aptos a dar uma aula de etimologia:

  “Ateu” vem do latim atheus.

   Esse a significa negação, ou ausência.

   E theus significa Deus.

O ateu seria, portanto, uma pessoa que nega Deus; uma pessoa sem Deus, certo?

Errado.

A palavra latina atheus deriva da palavra grega átheos, e os gregos que a conceberam não faziam a menor ideia de quem era Deus, pelo simples fato de que Deus não compunha o seu panteão de deuses. Theos, em grego antigo, significava “divindades”. 

As primeiras civilizações sempre tinham várias divindades às quais se atribuía o controle de diferentes coisas no mundo. Havia um deus responsável pelas boas colheitas, outro pelas pestes, outro pelo clima, e assim por diante. Pela época em que os gregos chamavam os seus descrentes de ateus, Deus atendia por outro nome e ainda fazia parte de um grupo de divindades cultuadas pela sociedade hebraica politeísta de então. Durante os longos períodos de escravidão, o subjugado povo hebreu passou a venerar mais especificamente o único deus ao qual poderia dirigir suas preces, o único que lhe poderia ser útil numa batalha pela libertação e na luta pela conquista de um novo território: seu deus da guerra, Jeová. Não é à toa que a Bíblia descreve Deus como sendo tão propenso a matar pessoas, tão irascível e tão belicoso. Ele era, de fato, o senhor dos exércitos, e sua função era exterminar os inimigos de seus devotos. Mas foi por uma combinação de acaso e força política que Jeová acabou se tornando o único deus digno de culto, quando seus mais fervorosos crentes assumiram definitivamente o poder e, por força de lei, transformaram os hebreus num povo monoteísta.

Também na Grécia antiga cultuavam-se inúmeros deuses. Zeus era o mais poderoso, o senhor de todos eles; Crono, pai de Zeus, era o deus do tempo; Afrodite, a deusa do amor; Hades, o deus do mundo dos mortos; Ares, o correspondente grego de Jeová, era o deus da guerra; e muitos muitos outros. Na civilização onde a palavra foi criada, ateu seria aquela pessoa que não venerava nenhum desses deuses. Se um cristão, um hindu, um judeu e um muçulmano fossem transportados no tempo para aquela época e lugar, todos eles seriam considerados ateus, porque certamente não iriam se dispor a adorar nenhum dos deuses gregos de então.

Resgatando a definição original, ateu seria aquele que não crê em nenhuma das divindades cultuadas pela sociedade na qual está inserido, visto que os gregos que cunharam o termo estavam considerando apenas os seus próprios deuses. Assim, um judeu seria ateu numa sociedade hindu; um hindu seria ateu numa sociedade islâmica; um muçulmano, numa sociedade cristã; e um cristão, numa sociedade judaica, porque, esperneiem o quanto quiserem, Alá, o Deus cristão e o Deus judaico não são a mesma divindade, apesar da origem comum. Dizer o contrário só seria possível se você conseguisse imaginar um mundo onde sua mãe pariu você, e, ao mesmo tempo, ela não pariu você. Diferentemente do Deus cristão, o Deus judaico nunca estuprou uma virgem para ter um filho mortal. E mesmo o Alcorão, segundo Christopher Hitchens, traz duas suras que advertem ao muçulmano que ele irá para o Inferno se considerar que Jesus é filho de Alá.

Esclarecido o significado original da palavra ateu, fica fácil perceber que ela atualmente foi sobrescrita em duas novas e diferentes acepções. Por um lado, para os ateus, ela ficou mais abrangente e passou a englobar a descrença em todos os deuses de todas as civilizações e de todas as épocas. Já a definição de ateu como sendo “aquele que não crê em Deus” só seria válida em sociedades com o mesmo tipo de fé religiosa que a nossa. Entretanto, a onipresente força de marketing das religiões cristãs ao redor do mundo, de acordo com seus interesses e sua peculiar desonestidade, sequestrou o termo para uso exclusivo, de forma a fazer parecer que a palavra se refere tão somente ao Deus bíblico, como se ele fosse a única divindade em que as pessoas poderiam acreditar.

Ou não.

Seu presente [fim]

 barros

Antes de considerar um texto “pronto para impressão”, você precisa ainda lê-lo em voz alta. É o pulo do gato. Só na leitura em voz alta que você vai perceber o que ainda não havia percebido no texto lido silenciosamente. É nessa etapa que se notam palavras repetidas muito próximas uma da outra, cacofonias e até erros de pontuação.

Por exemplo, no texto anterior eu escrevi: “Mas, surpresa das surpresas! Ainda não está”. Relendo de novo o texto em voz alta, concluí que a pontuação correta seria: “Mas surpresa das surpresas: ainda não está!”.

Sem falar que é pela leitura em voz alta que você nota se o texto está fluindo ou se está travado; se está leve ou difícil de digerir; se você escolheu palavras que não estão “encaixando”, ou que podem ser substituídas por outras para dar maior ênfase ou beleza; se há trechos desnecessários, ou se está faltando algo; se está ambíguo em algum ponto; enfim, é uma ferramenta indispensável. É nessa fase que você dá os retoques finais à sua obra. É o verniz, ou o perfume. Ou os dois.

Richard Dawkins costuma pedir para sua esposa, que é atriz, ler seus textos para ele antes de publicá-los. Ele destaca que o ator tem uma forma mais apurada de leitura em voz alta, em virtude da sua arte, que torna o trabalho de revisão final mais eficiente. Eu não tenho ninguém; leio eu mesmo, tentando fazer o melhor que posso.

É isso. Depois dessas etapas, eu me dou por satisfeito e publico o que escrevi. Um texto que você escreve e divulga é o seu presente para o mundo. E ninguém gosta de dar presente de baixa qualidade.

Sinto orgulho quando alguém elogia um texto meu; todo mundo adora receber elogios. Mas um texto que eu escrevo tem que agradar primeiro a mim. Se eu conseguir isso, já me sinto recompensado. Se não agradar a mais ninguém… Paciência!

Como facilitar a leitura

 

Seu presente [2]

 

escritor

Assim que eu finalizo o texto-base e o leio pela primeira vez, eu já faço uma primeira revisão, eliminando as falhas mais evidentes (pois tem sempre um errinho de dedografia aqui e ali), mexo nos parágrafos, estico e encurto frases, mudo coisas de lugar. Faço isso bem rápido, pois a ideia é salvar, fechar e esquecer. Pelo menos por algumas horas. 

Eu digito muito rápido: 300 toques por minuto, em média, alcançando velocidade máxima de quase 400 toques. Daí que, depois daquela fase de produção mental, eu consigo aprontar um texto-base em menos de uma hora; isso já incluindo a primeira revisão. Depois disso, não penso mais nele por um tempo. Você pode programar seu cérebro para trabalhar de forma inconsciente num determinado projeto, enquanto o seu consciente se ocupa com outras coisas. Einstein dizia que ia dormir com um problema e acordava com a solução. Talvez por isso que ele dormia mais de dez horas por noite.

Enfim, quando eu volto ao texto-base, já o vejo com outros olhos. Olhos descansados, talvez. E assim, enquanto faço uma nova leitura, vou reconstruindo o texto aos poucos, até que consiga melhorar a estrutura dele como um todo, desde a escolha de palavras e composição das frases até a linha argumentativa, sempre com a preocupação de deixar o processo de leitura fácil, fluente e agradável.

Essa seria a segunda revisão. A partir desse ponto, o texto precisa “maturar”. O material digitalizado original fica arquivado, mas eu mantenho uma cópia dele no meu cérebro, e essa cópia vai recebendo alterações ao longo do dia (ou dos dias), de forma que, quanto mais o texto demorar para ser realmente finalizado, melhor ele ficará (Na opinião do autor, claro).

Eu sei que isso acontece porque, quando volto ao texto, depois de algum tempo, estou cheio de ideias novas, de argumentos melhores, mais claros e mais contundentes. Assim, eu praticamente reescrevo um outro texto em cima do que estava lá, todo faceiro, achando que ia ser o definitivo. Nunca é. Se eu voltar a um texto, ele muda. E o processo de revisão/edição às vezes se repete com um certo indício de transtorno obsessivo compulsivo.

Quando, ao final de mais uma revisão, percebo que não mudei nada, é porque, pelo meu crivo, o texto finalmente está perfeito, digo, pronto. 

Mas, surpresa das surpresas! Ainda não está. Falta algo que sempre faço antes de dar o comando de “Salvar” pela última vez. Algo que descobri que compartilho com os melhores escritores do mundo.

Seu presente [1]

 escritor

Não acho que seja muito frequente um grande escritor divulgar o seu método particular de criação literária. Então, como é Natal, eu resolvi escrever sobre o “meu” método, quase como um presente para você, querido leitor, querida leitora do Deusilusão.

Tá certo que, se você considerar escritor apenas alguém que já teve livros publicados… Não, eu não sou um escritor. E se você acha que, para ser escritor, é preciso ganhar dinheiro pelos seus escritos; não, também não me enquadro nessa definição. Ainda assim, nas linhas que se seguem, eu apresento um passo a passo de como eu produzo meus textos, e não obrigaria você a continuar a ler nem mesmo se eu pudesse.

Pois bem. A primeira coisa que preciso deixar claro é que sou inteiramente responsável por tudo que escrevo. Nunca houve uma “inspiração divina”, e eu saberia dizer se tivesse havido, porque eu sou ateu. E por falar em inspiração, eu ando sempre em companhia de um adorável Moleskine, pois nunca se sabe quando ela vai dar o ar da graça. Aprendi a não confiar na memória. Não lembro (!) desde quando isso, mas já faz um bom tempo que escrevo minhas melhores ideias nesses caderninhos. Esse é o passo 1.

O passo 2 é a estruturação mental do texto: o tema e o emaranhado de ideias ligadas a ele. Daí, quando a estrutura está completa, mesmo não tendo a menor ideia de como irei juntar isso tudo, eu procuro por um fecho. Um bom fecho. Quando eu tenho um bom fecho, eu me sinto capaz de escrever um bom texto. É como se ele fizesse a mágica de juntar tudo no lugar certo. Entretanto isso não significa dizer que um bom fecho sirva de compensação para um texto ruim, embora um mau fecho estrague um bom.

Com o fecho adequado e a estrutura pronta, eu começo a digitar todo o texto, até o ponto final. Só quando digo “Acabei”, é que o trabalho de escritor realmente começa, porque escrever qualquer um escreve. Um escritor compõe. E o trabalho de composição se resume a revisar e editar, revisar e editar… Até o limite da perfeição ou da exaustão. O que vier primeiro.

De fato, o trabalho de edição já começa após o ponto final, na primeira leitura que faço do material recém-escrito. Um bom corretor ortográfico sempre ajuda, mas quase tudo você tem que corrigir por si. Um programa de computador nunca vai deixar o seu texto com coesão e coerência. Isso é trabalho para você. Também nunca vai organizar os parágrafos de forma a facilitar a leitura, nem vai escolher a melhor estrutura frasal, nem o melhor comprimento das frases, nem a melhor ordem para os argumentos; muito menos alinhavar tudo isso e deixar o texto leve, agradável e interessante para que o seu pretenso leitor não o abandone antes de concluir a leitura.

“Um texto produzido sem esforço é lido sem prazer”. Ele tem que ser escrito com o pensamento voltado para quem lê, não para quem escreve. E isso sob todos os aspectos. Num blog, por exemplo, o texto nunca deve ser muito longo. Por isso, eu continuo amanhã! 

 

Por que Deus é uma ilusão?

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Por que o Deus cristão é impossível

Autor: Chad Docterman

Tradução: André Díspore Cancian

[Ortografia original. Fonte: ateus.net]

Introdução

Os cristãos consideram que a existência de seu Deus é uma verdade óbvia. Esta assunção é falsa, não apenas porque falta qualquer evidência para a existência deste Deus – que, apesar de onipresente, é invisível –, mas porque a própria natureza que os cristãos atribuem a este Deus é autocontraditória.

Provando uma negativa universal

Muitos cristãos, assim como muitos ateus, alegam que é impossível provar uma negativa universal. Por exemplo, apesar de não haver evidências de que unicórnios ou dragões existem, não podemos provar sua inexistência. A não ser que tenhamos um conhecimento completo do Universo, precisamos a admitir a possibilidade de que, em algum lugar do Universo, talvez existam tais seres.

Mas a alegação de que a onisciência é necessária para provar uma negativa universal presume que o conceito que estamos discutindo é logicamente coerente. Se os atributos que conferimos a um objeto ou ser hipotéticos são autocontraditórios, então podemos concluir que este não pode existir e, portanto, não existe.

Não é necessário todo o conhecimento do universo para provar que esferas cúbicas não existem. Tais objetos têm atributos mutuamente exclusivos que tornam sua existência impossível. Um cubo, por definição, tem oito vértices, enquanto a esfera não tem nenhum. Tais propriedades são completamente incompatíveis – não podem estar contidas simultaneamente no mesmo objeto.  Pretendo demonstrar que as supostas propriedades do Deus cristão Iavé, assim como as de uma esfera cúbica, são incompatíveis, e, ao fazê-lo, demonstrar que a existência de Iavé é impossível.

Definindo Iavé

Os cristãos dotaram seu Deus de todos os seguintes atributos: ele é eterno, todo-poderoso e criou todas as coisas; criou todas as leis da natureza e pode mudar qualquer coisa por meio de um ato de sua vontade; é todo-bondade, todo-amor e perfeitamente justo; é um Deus pessoal que experimenta todas as emoções de um ser humano; é todo-sabedoria; vê todo o passado e todo o futuro.

A criação de Deus era originalmente perfeita, mas, os humanos, ao desobedecê-lo, trouxeram a imperfeição ao mundo. Humanos são maus e pecadores, e precisam sofrer neste mundo devido à sua pecaminosidade. Deus dá aos humanos a oportunidade de aceitar o perdão de seu pecado, e todos que o fizerem serão recompensados com a bem-aventurança no céu, mas, enquanto estiverem na Terra, devem sofrer por sua causa. Todos os humanos que decidirem não aceitar este perdão serão enviados ao inferno para sofrer o tormento eterno.

Tais atributos de Deus são relatados pela Bíblia, que os cristãos acreditam ser a palavra perfeita e verdadeira de Deus. Um verso que muitos cristãos gostam de citar diz que ateus são tolos (Cf. Salmos 14:1). Pretendo demonstrar que os conceitos divinos mencionados acima são completamente incompatíveis, e revelar a impossibilidade de todos eles co-existirem simultaneamente no mesmo ser. Não há qualquer tolice em negar o impossível; tolice é adorar um Deus impossível.

A perfeição busca ainda mais perfeição

O que Deus fez durante aquela eternidade anterior à criação de todas as coisas? Se Deus era tudo que existia naquele tempo, o que perturbou o equilíbrio eterno e o induziu à criação? Estava entediado? Etava solitário? Deus supostamente é perfeito. Se algo é perfeito, este algo é completo – não precisa de qualquer outra coisa. Nós, humanos, nos engajamos em atividades porque estamos buscando uma perfeição elusiva, pois há um desequilíbrio causado pela diferença entre o que somos e o que queremos ser. Se Deus é perfeito, então não pode haver desequilíbrio. Não há qualquer coisa de que ele necessite, qualquer coisa que deseje ou qualquer coisa que deva ou irá fazer. Um Deus que é perfeito não faz qualquer coisa senão existir. Um criador perfeito é impossível.

A perfeição gera imperfeição

Entretanto, por mero exercício intelectual, continuemos. Suponhamos que este Deus perfeito tenha realmente criado o Universo. Os humanos foram a coroa de sua criação, visto que foram criados à sua imagem e têm a habilidade da tomar decisões. Entretanto, esses humanos destruíram a perfeição original escolhendo desobedecer a Deus.  Como!? Se algo é perfeito, nada imperfeito pode vir dele. Uma vez alguém disse que um mau fruto não pode vir de uma boa árvore; entretanto, este Deus “perfeito” criou um Universo “perfeito” que foi tornado imperfeito pelos humanos “perfeitos”.  A fonte última da imperfeição é Deus. O que é perfeito não pode fazer-se imperfeito, assim, os humanos devem ter sido criados imperfeitos. Tudo que é perfeito não pode criar coisas imperfeitas, então Deus deve ser imperfeito para ter criado seres humanos imperfeitos. Um Deus perfeito que cria seres humanos imperfeitos é impossível.

O argumento do livre-arbítrio

A objeção dos cristãos a este argumento envolve o livre-arbítrio. Eles dizem que um ser precisa possuir livre-arbítrio para ser feliz. O Deus todo-bondade não queria criar robôs, então deu aos humanos o livre-arbítrio para possibilitar a eles experimentar o amor e a felicidade. Mas os humanos usaram este livre-arbítrio para escolher o mal, e introduziram a imperfeição ao Universo originalmente perfeito de Deus. Deus não tinha controle sobre esta decisão, assim a culpa por nosso Universo imperfeito é dos humanos, não de Deus.

Há vários motivos pelos quais este argumento é fraco. Em primeiro lugar, se Deus é onipotente, então a assunção de que o livre-arbítrio é necessário para a felicidade é falsa. Se Deus pôde fazer a regra de que apenas seres com livre-arbítrio poderiam experimentar a felicidade, então poderia, tão facilmente quanto, ter feito a regra de que apenas robôs poderiam experimentar a felicidade. A última opção é claramente superior, visto que robôs perfeitos nunca poderiam tomar decisões que tornassem eles ou seu criador infelizes, enquanto seres com livre-arbítrio poderiam. Um Deus perfeito e onipotente que cria seres capazes de arruinar sua própria felicidade é impossível.

Em segundo lugar, mesmo se admitirmos a necessidade do livre-arbítrio para a felicidade, Deus poderia ter criado humanos com livre-arbítrio que não tivessem a habilidade de escolher o mal, mas apenas entre várias opções boas.

Em terceiro lugar, Deus supostamente possui livre-arbítrio, e mesmo assim ele não toma decisões imperfeitas. Se humanos são imagens miniaturizadas de Deus, nossas decisões deveriam ser similarmente perfeitas. Ademais, os ocupantes do céu, que presumivelmente precisam possuir livre-arbítrio para serem felizes, nunca usarão este livre-arbítrio para tomar decisões imperfeitas. Por que os humanos originalmente perfeitos fariam diferente?

O problema continua: a presença de imperfeição no Universo refuta a suposta perfeição de seu criador.

O Deus todo-bondade cria sofrimento futuro premeditado

Deus é onisciente. Quando criou o Universo, viu os sofrimentos que humanos suportariam como resultado do pecado daqueles humanos originais. Ele ouviu os gritos dos condenados. Certamente ele sabia que seria melhor para esses seres humanos que nunca tivessem nascido – e a Bíblia, de fato, diz exatamente isso –, e certamente esta divindade toda-compaixão teria antevisto a criação de um Universo destinado à perfeição no qual muitos dos humanos estavam condenados ao sofrimento eterno. Um Deus perfeitamente compassivo que deliberadamente cria seres condenados ao sofrimento é impossível.

Punição infinita por pecados finitos

Deus é perfeitamente justo, e ainda assim sentencia os imperfeitos humanos que criou ao sofrimento infinito no inferno por pecados finitos. Claramente, uma ofensa limitada não justifica uma punição ilimitada. A sentenciação divina dos seres humanos imperfeitos a uma eternidade no inferno por um pecado com a duração de uma mera vida mortal é infinitamente injusta. O caráter absurdo desta punição infinita mostra-se ainda maior quando consideramos que a fonte última da imperfeição humana é o Deus que os criou. Um Deus perfeitamente justo que sentencia sua criação imperfeita à punição infinita por pecados finitos é impossível.

Crença mais importante que ação

Consideremos todas as pessoas que vivem em regiões remotas do mundo e que jamais ouviram o “evangelho” de Jesus Cristo. Consideremos as pessoas que aderiram naturalmente à religião de seus pais e nação – como foram ensinados a fazer desde seu nascimento. Se acreditarmos no que os cristãos dizem, todas essas pessoas irão perecer no fogo eterno por não acreditarem em Jesus. Não importa quão justos, bondosos e generosos eles foram com seus semelhantes durante sua vida: se não aceitarem o evangelho de Jesus, estão condenados. Nenhum Deus justo jamais julgaria um homem por suas crenças em vez de suas ações.

Revelação imperfeita da perfeição

A Bíblia supostamente é a palavra perfeita de Deus. Ela contém instruções para que a humanidade evite as eternas chamas do inferno. Quão maravilhoso e bondoso da parte deste Deus é proporcionar a nós meios de superar os problemas pelos quais ele, em última instância, é responsável! O Deus todo-poderoso poderia, por um simples ato de sua vontade, eliminar todos os problemas que nós, humanos, precisamos enfrentar; mas, em vez disso, com sua sabedoria infinita, ele optou por oferecer este indecifrável amálgama de livros denominado Bíblia como meio para evitaremos o inferno que ele preparou para nós. O Deus perfeito decidiu revelar sua vontade através desta obra imperfeita, escrita na linguagem imperfeita dos humanos imperfeitos, traduzida, copiada, interpretada e narrada por homens imperfeitos. Dois homens nunca irão concordar sobre o que a palavra de Deus realmente significa, visto que grande parte dela é autocontraditória ou obscurecida por enigmas. E ainda assim o Deus perfeito espera que nós, imperfeitos humanos, entendamos este enigma paradoxal utilizando as mentes imperfeitas com as quais ele nos equipou. Certamente o Deus todo-sabedoria e todo-poderoso sabia que teria sido melhor revelar sua vontade perfeita diretamente a cada um de nós em vez de permitir ela fosse distorcida e pervertida pela imperfeita linguagem e pelas ruinosas interpretações do homem.

Justiça contraditória

Não se precisa olhar em qualquer lugar senão própria na Bíblia para descobrir suas imperfeições, pois ela se contradiz, e assim expõe sua própria imperfeição. Ela se contradiz em questões de justiça, pois o mesmo Deus que assegura seu povo de que os filhos não serão punidos pelos pecados de seus pais acaba por destruir uma família inteira pelo pecado de um homem (ele havia roubado um pouco do saqueio de guerra de Iavé). Foi o mesmo Iavé que afligiu milhares de inocentes com praga e morte para punir o maldoso rei Davi por tomar um censo. Foi o mesmo Iavé que permitiu que humanos matassem seu filho porque o perfeito Iavé tinha fracassado em sua própria criação. Consideremos quantos foram apedrejados, queimados, assassinados, estuprados e escravizados devido ao distorcido senso de justiça de Iavé. O sangue de bebês inocentes está nas mãos perfeitas, justas e compassivas de Iavé.

História contraditória

A Bíblia contradiz-se em questões históricas. Uma pessoa que lê e compara os conteúdos da Bíblia ficará confuso sobre quem eram exatamente as esposas de Esaú, se Timná era uma concubina ou um filho e se a linhagem terrena de Jesus vem de Salomão ou de seu irmão Natã. Há centenas de contradições históricas documentadas. Se a Bíblia não pode confirmar a si própria em questões mundanas, como poderemos confiá-la em questões morais e espirituais?

Profecias falhadas

A Bíblia interpreta mal suas próprias profecias. Compare-se Isaías 7 com Mateus 1 para se encontrar apenas uma das muitas profecias mal interpretadas das quais os cristãos são passivamente ou deliberadamente ignorantes. O sinal dado por Isaías ao rei Ahaz visava assegurá-lo de que seus inimigos, Rei Rezim e Rei Remalia, seriam derrotados. Essa profecia foi cumprida exatamente no capítulo seguinte. Ainda assim, Mateus 1 não apenas interpreta erradamente a palavra “donzela” como “virgem”, mas também alega que esta profecia já cumprida na realidade cumpriu-se com o nascimento virginal de Jesus!

O cumprimento de profecias na Bíblia é citado como prova de sua inspiração divina, entretanto, aqui está um bom exemplo de uma profecia cujo significado original foi e continua sendo distorcido para sustentar doutrinas absurdas e falsas. Não há limites para o que um indivíduo crédulo fará para sustentar suas crenças febris quando confrontado com evidências contundentes.

A Bíblia é imperfeita. Apenas uma imperfeição é necessária para destruir a suposta perfeição da palavra de Deus. Muitas foram encontradas. Um Deus perfeito que revela sua vontade perfeita através de um livro imperfeito é impossível.

O onisciente altera o futuro

Um Deus que conhece o futuro é impotente para mudá-lo. Um Deus onisciente que é todo-poderoso e dotado de livre-arbítrio é impossível.

O onisciente é surpreendido

Um Deus que sabe tudo não pode ter emoções. A Bíblia diz que Deus experimenta todas as emoções humanas, incluindo ódio, tristeza e felicidade. Nós, humanos, experimentamos emoções como resultado de um novo conhecimento. Um homem que desconhece a infidelidade de sua esposa irá experimentar as emoções de ódio e tristeza apenas após descobrir o que anteriormente, para ele, estava oculto. Em contraste, o Deus onisciente não é ignorante em relação a qualquer coisa. Nada é oculto para ele, nada novo pode lhe ser revelado – assim não há como adquirir um conhecimento ao qual possa reagir emocionalmente.

Nós, humanos, experimentamos ódio e frustração quando algo está errado e somos impotentes para consertá-lo. O Deus perfeito e onipotente pode, entretanto, consertar qualquer coisa. Humanos sentem desejo daquilo que lhes falta. Para o Deus perfeito nada falta. Um Deus onisciente, onipotente e perfeito que experimenta emoções é impossível.

Conclusão

Ofereci argumentos para a impossibilidade – e, portanto, para a inexistência – do Deus cristão Iavé. Nenhum indivíduo racional e livre-pensador pode aceitar a existência de um ser cuja natureza é tão contraditória quanto a de Iavé, o “perfeito” criador de nosso imperfeito Universo. A existência de Iavé é tão impossível quanto a existência de esferas cúbicas ou unicórnios róseos invisíveis. Apesar de que crentes podem encontrar conforto em serem fiéis a impossibilidades, não há maior satisfação que a de possuir uma mente lúcida. Eles podem escolher servir um Deus impossível. Eu escolho a realidade.

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