“A palavra”

a palavra

 

Os crentes leem “a palavra”. Pregam “a palavra”. Consideram “a palavra” sagrada porque é “a palavra” de Deus. E “a palavra” é a Bíblia.

Mas para agirem assim, eles entendem a Bíblia — ‘os livros’, em latim — como um todo: o livro. Portanto “a palavra” de Deus é “o livro”. Uma coisa macro. Não vai adiantar nada apontar detalhes.

Deus só está nos detalhes quando convém. Ou nos detalhes que convêm.

Se você quiser saber se eles realmente estão querendo dizer que acreditam que uma cobra convenceu uma mulher a cometer um pecado; ou quando você mostra tal e tal contradição, tal e tal erro histórico, ou tal e tal absurdo, que seria absurdo em qualquer época ou em qualquer mundo, o crente vai sempre alegar que esse detalhe é uma alegoria, ou apenas um erro dos seres humanos falhos que Deus usou para escrever sua “palavra”. E esta, como um todo, permanece válida, perfeita e imutável.

Uma vez tive a coragem de perguntar a um amigo religioso como ele diferenciava o que era alegoria do que não era. Ele disse que o Espírito Santo iluminava a pessoa que lia a Bíblia com a intenção de entender “a palavra” para que ela própria fizesse essa diferenciação. Eu perguntei: O mesmo Espírito Santo que “iluminou” os que escreveram os textos? Se ele não conseguiu fazer com que os autores dos livros sagrados evitassem misturar sua natureza humana falha na hora de escrever, o que garante que não vai ocorrer o mesmo com os que vão lê-los? Meu amigo não me respondeu porque ficou muito aborrecido com a minha ignorância acerca dos desígnios divinos que, pelo que entendi, ele conhecia bem.

Eu, no lugar de Deus, se tivesse criado uns tantos bichinhos de estimação que já estariam, desde o nascimento, condenados ao Inferno que eu construí para os que não seguissem as minhas regras, acharia bem mais justo que eles soubessem que regras seriam essas através de um livro sagrado onde elas ficariam bem claras: “Quero isso assim, não assado.” E qualquer trecho que os meus robozinhos azarados lessem da minha Bíblia não iria mostrar nada dizendo o contrário. Chamo de “robozinhos” porque eles teriam que seguir à risca as minhas regras; senão, eu os lançaria no Inferno onde haveria pranto e ranger de dentes. E “azarados” porque essa seria a única opção.

Bom, pelo menos eu seria um deus bem mais honesto do que o Deus cristão: o que estivesse escrito no meu livro sagrado seria o que eu queria dizer. Nada de alegorias; nada de pegadinhas; nada de contradições. Se eu dissesse que quem trabalhasse no sábado deveria ser morto a pedradas, era assim que teria que ser. Sempre. Ninguém diria nada em contrário, nem eu mesmo se me transformasse no meu próprio filho. E se ele, por acaso, tivesse falado demais e prometido que voltaria da morte trazendo todo o seu reino ainda no tempo de vida daqueles que o ouviam, eu, como Pai, teria mantido a promessa. Teria antecipado o Juízo Final em 2 mil anos e resolvido tudo de uma vez. Não teria, de forma alguma, corrido o risco de ninguém ter percebido o óbvio: que se não aconteceu como o filho de Deus anunciara, só poderia ter sido porque deveria haver, dentre eles, um imortal.

Mas mesmo a Bíblia estando cheia dessas contradições, desses erros e desses absurdos, esse tipo de coisa não abala o crente, não perfura a blindagem da sua fé. Porque são apenas detalhes. E tão pequenos e sem importância que nenhum padre ou pastor dá atenção a eles. E “a palavra” permanece divina, sagrada, absoluta e perfeita. Mesmo que, nos detalhes, ela seja apenas ridícula.

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O que é a Bíblia, por Wagner Menke

 
 
 

A primeira Bíblia é de graça [Republicação]

Crianças adoram desenhos animados e todo mundo sabe disso.

Qual a maneira mais fácil de ter a atenção de garotinhos ateus e garotinhas ateias, de forma a poder ajudar seus pais a enfiar-lhes na cabeça uma crença estúpida, inútil e infundada? Faça um desenho animado bem fofinho e de boa qualidade contendo os principais tópicos que elas precisam internalizar, adicione uma ameaça de punição, e você estará no caminho certo.

O grande mérito desse vídeo abaixo é que ele consegue destacar de uma forma assombrosamente clara dois pontos  do cristianismo que, sempre que possível, são mais bem disfarçados:

1) ame a Deus durante a sua curta vida na Terra, ou ele vai ferrar você por toda a eternidade; e

2) compre aqui o que você precisa para aprender a puxar o saco dele.


Deus morto, deus posto

Atualmente, quando um filho de Deus bate à minha porta, em pleno domingo de manhã, querendo “ler a palavra” pra mim, eu logo despacho o infeliz com uma declaração semelhante a essa:

Olha, eu acho esse livrinho aí uma coleção de fábulas. Algumas tolas, algumas ridículas, algumas  grotescas. Não quero que você leia pra mim, não.

Se isso não parece dar resultado, eu uso a minha frase bat-repelente:

Eu não acredito em Deus, não aceito Jesus como meu salvador, e renego o Espírito Santo. 

Aí eles vão embora. Já quando é uma filha de Deus… e quando é jeitosinha… eu tento exibir meus conhecimentos bíblicos, e geralmente começo assim:

Você já leu a Bíblia toda? 

Nunca conheci ninguém que tivesse lido a Bíblia do Gênesis ao Apocalipse. E acho muito difícil alguém querer me convencer de uma coisa se, ela mesma, não se mostra convencida:

Mas essa é boa! Quer dizer que Deus mandou escrever esse livro pra você, pra te ensinar a ser boa, a ter moral, a fazer o que é certo, além de, principalmente, mostrar como salvar sua alma do Inferno, e você não teve a curiosidade de ler tudo?

Não é estranho? Pois eu acho. Muito. E mais ainda o fato delas não se interessarem nem um pouco pelo Antigo Testamento, com exceção de um ou outro versículo escolhido a dedo do meio de inúmeros outros que precisam desculpar, justificar, reinterpretar das formas mais mirabolantes, para que esses versículos realmente não digam o que parecem que dizem.

Uma vez a garota arregalou os olhos quando eu disse que Deus havia mando matar um homem a pedrada só porque ele havia descumprido a lei do descanso sabático (Num 15:32). Ela buscou refúgio na companheira, esperando que a outra dissesse que eu estava delirando, mas só ouviu a amiga dizer que “A lei antiga não estava mais valendo. Agora vivemos sob a Graça”. E adivinha quem disse isso? Jesus? Não. Só pode ter sido Saulo de Tarso, vulgo São Paulo, o metido.

Que autoridade teria Paulo para contradizer o próprio Deus em forma humana? Jesus tem uma fala em Mateus em que diz que não veio revogar a Lei Mosaica (Mat, 5:17), ou seja, ele não pretendia mudar sequer um jota ou til daquilo que Deus já havia determinado. E isso é mais do que reforçado pela cena da tentativa de apedrejamento de Maria Madalena, em que Jesus deixa claro que não veria problema nenhum em que se apedrejasse a mulher (“Que atire a primeira pedra…”), desde que os algozes dela estivessem eles mesmos cumprindo toda a Lei (“…aquele que estiver sem pecados.”). Quem não cumpria a lei, pecava; e, se pecava, não deveria estar tão ansioso por punir outros pecadores.

No máximo, no máximo, Jesus condenou ali apenas a hipocrisia dos seus pares que adoravam cumprir as leis terríveis de Deus “nos outros”, enquanto eles mesmos as desobedeciam.

Se o próprio Deus, em forma humana, disse que suas leis deveriam permanecer como estavam mesmo que “céus e terras passem”, por que o crente resolveu dar ouvidos a um homem igual a ele que apareceu, tempos depois, dizendo que aquela lei havia sido substituída?

Resposta: porque os cristãos daquele primeiro século, os que escreveram a parte da Bíblia que os cristãos de hoje leem, eram muito mais evoluídos socialmente do que os que escreveram o Antigo Testamento, a outra parte que os cristãos não leem. E como foi preciso substituir o Deus judaico pelo deus cristão — Jesus Cristo — , nada mais previsível do que o novo deus ter regras novas para passar aos seus novos fiéis. Mas aí, como se esqueceram de pôr essas falas na boca de Jesus, precisaram colocá-las na de Paulo, pois não dava pra fazer uma segunda edição dos Evangelhos, revista e ampliada.

Os cristãos ficaram, assim, com um deus completamente novo, mais próximo deles e mais palatável, se comparado ao antigo Deus judaico. Os cristãos tinham umas novas regras ainda um tanto confusas, mas, pelo menos, não era preciso sair por aí apedrejando ninguém, segundo Paulo. Eles tinham um deus que agora se interessava não só em proteger e paparicar Israel, mas que era o deus de uma “Israel espiritual”, um clube aberto, portanto, que fez sucesso justamente por isso. Eles tinham algo com que os judeus jamais poderiam sonhar: a imagem de seu próprio deus para colar na traseira do carro. E eles tinham, por fim, um símbolo novo de adoração, a Cruz, que seria o símbolo da nova religião, e que viria a diferenciar os novos crentes no novo deus, dos velhos crentes no Deus judaico que os cristãos mataram, sepultaram, e esqueceram.

 

Teste seus amigos crentes (Parte 3)


#2 Você acredita que Deus é bom?

As quatro coisas mais mal distribuídas do mundo são, pela ordem, poder, dinheiro, beleza e bom-senso. Eu, graças a Deus, ainda consegui pegar o bom-senso.

Entretanto, ninguém pode aplicar o bom-senso que tenha em cima de um assunto que desconhece completamente, ou sobre o qual não queira verter um mínimo de raciocínio. Em virtude disso, mesmo que uma pessoa religiosa também tenha sido contemplada com bom-senso, ela não se atreve a raciocinar sobre o pouco que conhece da sua própria religião. Eis o mistério da fé revelado: as coisas mais absurdas são empurradas goela abaixo do cristão porque o filtro do bom-senso que as rejeitaria nunca está em uso.

O experimento que eu desenvolvi é capaz de pôr o bom-senso do religioso para funcionar. No tranco, se preciso, ou algo como o Modo de Segurança do Windows. Por isso, ele irá fugir desse tipo de conversa como o Diabo da cruz. Ele perceberá que um interlocutor obstinadamente treinado para manter um determinado foco não irá deixá-lo seguir adiante no seu blá blá blá sem fim, que é de onde a fé tira o seu sustento. Vendo-se obrigado a, também, manter o foco, a fé que tem vai esmorecer, e, em esmorecendo, um mundo sem Deus se apresentará em toda a sua crueza diante dos olhos arregalados do crente, mimado desde o berço por um amigo imaginário que, de repente, não está mais lá.

Duvida? É só pôr em prática, você mesmo, o experimento que descrevi até aqui com alguma pessoa religiosa que você conheça. Pergunte a ela: “Você acredita que Deus é bom?”.

Claro que a pessoa vai dizer que sim. Deus é bom. Então, tente fazer com que ela justifique isso, usando a única coisa que sabe sobre Deus: a Bíblia. Como pode ser bom um ser todo-poderoso, todo-isso, todo-aquilo como é descrito no livro cristão, fazer o que Deus fez, permitir o que permitiu, cometer as atrocidades que cometeu.

Pergunte à pessoa religiosa como pode ser bom um Deus que ameaça com um castigo tão horrendo como o Inferno aqueles que não simpatizarem com ele; que incita à violência, que mata e que manda matar; que pune todos pelo suposto erro de dois; que comete genocídios; que amaldiçoa os filhos pelo crime dos pais; que é entusiasta da escravidão e da pena de morte; que pede sacrifícios humanos, e por aí vai…

Esteja só atento para não se deixar enrolar pelos “subterfúgios-padrão”  do crente. Por exemplo, quando você falar que Deus é a favor da escravidão e do apedrejamento, ele dirá algo como “Ah, mas isso é o Antigo Testamento”, ou “Ah, mas era a lei da época”, ou “Ah, mas o povo tinha o coração duro”, etc., e vai querer fazer você aceitar isso como uma justificativa, como se, por fazer parte do Antigo Testamento, não fosse o mesmo Deus; como se, por ser a lei da época, não houvesse sido instituída por ele, ou com sua conivência; como se fosse possível dizer que uma pessoa que manda matar a pedrada continua sendo boa, só porque os que vão ser apedrejados não são.

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O sexo de Deus (parte final)

Se Adão e Eva comeram do fruto proibido eu não sei, mas, para eu estar aqui escrevendo essas heresias, Adão deve ter, obrigatoriamente, comido a Eva. Deles nasceram Caim e Abel, e depois que Abel foi comer capim pela raiz…


— Irmã… A senhora disse que, quando a gente morre, vai viver no Paraíso. Abel já vivia no Paraíso; então, depois que foi morto, ele ressuscitou?

— Vai ali pro canto, vai… Dessa vez são vinte Pai-Nossos e vinte Ave-Marias.

Depois que Abel foi assassinado, ficamos com uma proporção (em números absolutos também) de dois homens para cada mulher, o que desvalorizou muito o Paraíso em suas qualidades paradisíacas… Como Eva era a única mulher do universo, podemos dizer seguramente que o incesto rolou solto por aquela época, e que Deus não tava muito preocupado com isso, não. Contanto que ninguém mexesse no pomar dele, filho transar com a própria mãe, irmão transar com irmã, pai transar com filha, nada disso parecia ser um problema.

Um conhecido meu já quis me explicar que Deus havia criado toda a humanidade de uma só vez, e que Adão e Eva eram apenas os representantes ou personagens principais daquela mensagem divina…


É preciso inspiração do Espírito Santo para compreender plenamente o verdadeiro significado dos textos sagrados…

Sério? O Espírito Santo inspira alguém para escrever suas mensagens e, depois, precisa fornecer mais inspiração para que elas sejam entendidas? E você tá me dizendo que foi esse mesmo um aí que construiu o universo? Mas ele parece não ter competência sequer para  passar numa prova de redação!…

Mas, enfim, uma vez que tudo foi devidamente esclarecido, e admitiu-se que o Gênesis apenas “relata de uma forma simbólica” a criação do universo e do ser humano (leia-se: é um mito, uma fábula, como a da Chapeuzinho Vermelho), Richard Dawkins chamou a atenção do mundo religioso para outro detalhe: por que Deus teria tido o trabalho de assumir a forma humana e de se oferecer em sacrifício para livrar a humanidade da maldição lançada por ele mesmo, por conta daquele pecado terrível cometido por aquelas duas pessoas que nunca existiram?

Sendo o Gênesis “simbólico”, a missão suicida do filho de Deus para salvar o mundo também deveria ser, o que, se bem entendido, quer dizer que tudo nos Evangelhos não passa de mitologia tosca e asquerosamente intragável, que sequer se presta para enfeitar nossas estantes com personagens fantásticos de histórias sublimes, como os da mitologia grega.

Um Deus bruto, turrão, violento, exibido, birrento; um Deus que não faz nada direito, que não se preocupa com detalhes… um Deus machista que engravidou uma mulher praticamente à força; um Deus ao qual nos referimos sempre por pronomes masculinos… só pode ser um Deus-macho.

Um Deus-fêmea, um Deus-mulher, uma Deusa-mãe teria, indiscutivelmente, criado um mundo muito, muito melhor.

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O sexo de Deus (parte 2 de 3 )

Um detalhe que me intrigava, ainda na época em que a minha cabecinha infantil estava sendo semanalmente estuprada pela minha professora de catecismo, era o fato dos “livros sagrados” não dizerem, de forma direta, que aquilo que se estava a ler era uma mensagem de Deus para a humanidade. O livro de Gênesis, por exemplo, traz uma narrativa que conta como se deu a “criação” de todo o universo, nos mesmos moldes em que Conan Doyle conta, em Um estudo em vermelho, como o Dr. Watson conheceu o Sherlock Holmes.

— Mas, irmã… que custo era a pessoa que escreveu o Gênesis ter mencionado que estava escrevendo o que Deus lhe ditava, como uma mensagem para nós?

— Chega! Já lhe disse que não precisava! Que garoto irritante!! Vai ali pro canto e me reze cinco Pai-Nossos e cinco Ave-Marias!

Em algum momento da nossa História, porém, muita gente passou a considerar esse texto da criação do mundo como um tipo de carta psicografada, em que o espírito-autor era justamente o Espírito Santo. Assim, por vários motivos — sendo um deles a total falta de conhecimento sobre praticamente tudo — , o que aquele texto continha adquiriu ares de registro literal do que havia se passado durante os primeiros instantes de existência do universo, e ninguém achou muito conveniente discordar dele, porque (isso até uns duzentos anos atrás) não fazia muito bem para a saúde.

Por conta disso, tinha-se como verdade absoluta que um ente supremo, em tudo o que há para ser supremo (detalhe: ele teria que ser supremo, também, em coisas como maldade, ira, inveja, etc.), havia criado o ser humano numa tacada só, logo após a criação do universo, que demorou um pouco mais: seis dias.

Mas ora… Alguns milhares de anos depois daquela primeira carta psicografada, eis que dois iluminados descobriram, simultaneamente, que o ser humano não foi “criado” numa tacada só: ele evoluiu, como tudo o mais que há na Terra e a que se possa chamar de ser vivo, ao longo de milhões e milhões de anos (aquela parte dos “seis dias” acabou por ser considerada um tempo simbólico também).

E como acabou sendo algo completamente impossível negar os fatos — e, pior, como passou a ser completamente impossível se negar o acesso a eles — as pessoas pararam de ser queimadas vivas por discordar daquele tipo de literatura, e o povo que acendia as fogueiras passou a admitir que aquele relato da criação do mundo era, no fim das contas e apesar de tudo, apenas simbólico mesmo. Justamente como passou a ser considerado simbólico tudo o que não faz o menor sentido que está entre aquele livro de Gênesis e o do Apocalipse, o que (só outro detalhe) não é pouca coisa não!

Daí que os livros psicografados que Deus mandou escrever e que, segundo os que nele acreditam, servem de guia no jogo cósmico da Salvação estão repletos de simbolismos que precisam ser identificados, interpretados e decodificados. Por algum motivo, Deus, na sua infinita sabedoria, não achou conveniente mandar que tudo fosse escrito de uma forma bem objetiva, preto no branco, e, para evitar confusão, por uma única pessoa, como fez aqueloutro Criador do universo: Alá. (Detalhe: várias coisas bem objetivas, como uma ordem direta dada pelo próprio Deus para que se matasse por apedrejamento todo aquele que descumprisse suas leis, não são consideradas nem como sua palavra nua e crua, nem como algum tipo de simbologia: são simplesmente ignoradas. E eu sei por quê.)

Quem crê em Deus precisa crer, antes e obrigatoriamente, na Bíblia, que é a fonte primordial de tudo o que se sabe a respeito dele. Só que, embora essa coleção de livros não pareça outra coisa que não um monte de histórias inventadas — como as fabulosas aventuras de Sherlock Holmes — , ela precisa ser entendida como a palavra escrita de um Deus onipotente, onipresente, onisciente, todo bondade, todo misericórdia, etc. Como isso não seria uma tarefa das mais fáceis, visto que a semelhança com outras histórias de outras culturas, tidas apenas como mitologias, é muito grande; e como a crítica a esses livros já não faz tanto mal para a saúde, resolveu-se adotar a medida extrema de considerar certos textos e trechos como apenas “simbólicos”.

Depois das descobertas de Charles Darwin e Alfred Russel Wallce, e da irrefutabilidade do processo de evolução das espécies, algum papa da nossa História Contemporânea deve ter precisado reunir sua alta cúpula para decretar algo como:


Quei figli di puttana hanno trovato Creazione dell’uomo secondo la Bibbia è impossibile. Dite a tutti che la Genesi è un libro simbolico.

Antes era verdade, porque está escrito na Bíblia e a Bíblia é a palavra de Deus. Depois que se descobriu que não era — melhor dizendo: depois que se tornou impossível esconder que não era — , a “verdade” virou apenas um “simbolismo”. Mas o real problema nisso tudo é que uma parcela enorme da população mundial precisa que um papa lhes diga que absurdo na Bíblia não é mais para ser entendido como verdade absoluta e, sim, como algo “simbólico”. Os demais absurdos, por inferência, continuam valendo.



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