A versão original do Pecado Original

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Capítulo 1

DEUS: Bem-vindo ao Paraíso, Adão! Não te assustes, ó pá!! Eu sou o teu Criador! Fui eu que te fiz; não me tenhas medo. Só vim saber o que tu achaste da minha Obra.

ADÃO: Eu… Eu… não sei o que vos diga.

DEUS: Como assim “não sei o que vos diga”? Pois eu criei um universo inteiro para ti, e não recebo elogio algum em troca? Estou a passar-me!

ADÃO: Mas eu abri os olhos pela primeira vez ainda esta manhã; nem deu tempo de perceber no que estou metido…

DEUS: Pois não te faças de rogado. Eu sou Deus. Sou todo-poderoso, onipresente, onisciente, eterno, perfeito e imutável. Sou o teu Senhor e Criador. Que isto te baste! Agora dá uma boa olhada em volta e vê que beleza que ficou isto aqui! Fiz tudo isto justamente para tu poderes me encher de elogios, e ainda estou a esperar por um, ao que parece.

ADÃO: Deixai-me ver… Eu diria que realmente…  é um lugar muito… Ei!, o que são aquelas coisas?

DEUS: Hein?! Onde? Ah, aquilo são as nuvens. Elas são água em forma de vapor. A função delas é condensar e cair na forma de chuva para prover o mundo com água líquida, que é o que sustenta toda a vida que eu criei. Depois de vir-se à terra, a água evapora e volta a ser nuvem. Eu projetei tudo nos mínimos detalhes, como podes ver, e cada coisa tem uma função específica. Sendo perfeito, eu teria mesmo que criar um mundo perfeito, pois não? Mas tu dizias…

ADÃO: E o que há para além das nuvens?

DEUS: Além das nuvens? Ora, essa é boa! Além das nuvens há de haver o cosmos, ora bolas!; um sem-fim de galáxias, quasares, asteroides, matéria escura, buracos negros… Uma infinidade de coisas.

ADÃO: Para que serve um buraco negro?

DEUS: Tu tens muita lata para ficares aí à sombra da bananeira a perguntar-me tamanhas estultices.

ADÃO: Mas vós dissestes que cada coisa tinha uma função…

DEUS: O que eu disse foi para tu olhares “em volta” e não “para cima”, entendeste? Vê aí e diz-me logo o que achaste.

ADÃO: Bem, vejamos… O que é aquela coisa grandona ali ao lado daquela coisinha de pernas finas?

DEUS: Ora pois, aquilo são animais, e tu precisarás dar nome a eles.

ADÃO: Ah… Então o grandão com a juba eu vou chamar de leão. A coisinha de pernas finas que está a saltitar alegremente em volta dele vai chamar-se gazela. Eles parecem tão amigos, não é?

DEUS: De facto! Criei todos os seres em perfeita harmonia, mas deixei para ti a muita grande honra de dar o nome a todos os animais da terra.

ADÃO: Opa! Mas eu pensava que seriam apenas aqueles dois. Reparastes na infinidade de bichos que há por aí? E só de insetos há de haver mais de dois milhões de espécies! Como arranjarei eu tempo para nomear tudo?

DEUS: Tempo não é problema. Tu vais viver para sempre, Adão. Agora também não é por isto que eu posso ficar a esperar para sempre tu elogiares o meu trabalho! Foi para isto que eu te criei. E não fica a mexer nisso aí, tás a ver?!

ADÃO: Qual a função disto, afinal? Está a aumentar de tamanho…

DEUS: Para, eu já disse! Estátua!

ADÃO: Parei! Pronto! Só tencionava saber para que isto haveria de servir. E quanto ao buraco negro? Esquecestes de reponder…

DEUS: Quem anda esquecido aqui és tu, percebes? E o elogio que ainda não me fizeste?

ADÃO: Pronto. Eu achei o lugar muito aprazível. Fostes por demais caprichoso, está-se a ver.

DEUS: Ah, Obrigado! São muitos anos a virar frangos.

ADÃO: Mas há uma coisa…

DEUS: Uma coisa?

ADÃO: Na verdade mesmo são duas… Quer dizer… Três, ao todo…

DEUS: Olha, se tu quiseres manter a tua saúde em perfeito estado, eu acho bom tu desembuchares duma vez…

ADÃO: É que isto está a ser-me de grande incómodo. Esta manhã, eu sentei na grama… e a grama é bem viçosa, percebestes? Bem viçosa e… deveras pontuda. E eu achei bem desagradável sentar na grama, porque…

DEUS: Já entendi! Está anotado; vejo isto depois. Próxima!

ADÃO: Pois bem. É sobre isto de dar nome a bichos e estar a fazer-te elogios… Eu não sei direito quem sois vós, nem quem sou eu, nem o que estou a fazer aqui. Aliás, nem mesmo sei onde é este “aqui”. Isto tudo está- -me a enfastiar.

DEUS: Próxima!

ADÃO: É que eu só tenho visto estes… estes animais o dia todo… E agora aparecestes vós; mas não há ninguém igual a mim e isto me incomoda também. Eu achava que vós poderíeis…

DEUS: Vira aqui um pouquinho, Adão. Coisa pouca.

ADÃO: Virar? Assim? Então… Eu achava que vós poderíAaaaaai!! O que vem a ser isto?!

DEUS: Isto chama-se dor. Não era para tu sentires dor, mas, já que pediste companhia, eu vou fazer uma mulher de uma de tuas costelas.

ADÃO: Isto doeu-me à vera! Mas por que vós não poderíeis fazer uma mulher sem me aleijar deste jeito?! Por um acaso também fizestes as galáxias e os buracos negros a partir de costelas?

DEUS: Quem anda à chuva, molha-se, pois não?

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Capítulo 2

DEUS: Pronto. Aí está tua companhia, Adão (Gen 1:27). Que nome pretendes dar a ela?

ADÃO: “Eis aqui agora o osso de meus ossos e a carne da minha carne; ela se chamará Virago, porque do varão foi tomada.”

DEUS: Virago? Ai, que me deu até dor de cabeça. Nada disso: chamá-la-ás de Eva. E vou recolher-me agora, porque a ficar contigo neste tró-ló-ló nunca mais é sábado. Até amanhã!

ADÃO: E o que estaremos nós a fazer na vossa ausência?

DEUS: Eu vos abençoo. Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se mova sobre a terra. (Gen 1:28) Quanto a ti, rapariga…

EVA: Tu tá falando comigo?

ADÃO: Eva! Isto são modos?

DEUS: …, conversaremos quando eu desocupar-me de coisas mais importantes. Não vou poder ficar mais tempo convosco hoje.

EVA: Por mim tá beleza, mas eu tô cheia de fome. Onde tem um lugar aberto a essa hora pra gente tirar a barriga da miséria?

DEUS: Eis que vos tenho dado toda erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. (Gen 1:29-30) Até amanhã!

EVA: Se a gente pode comer de tudo e é tudo de graça, eu tô dentro… Ué! Pra onde é que ele foi?

ADÃO: Desapareceu no ar! Parece gostar de exibir-se!

EVA: Na boa: qual é a desse cara?

ADÃO: Ele é Deus. Onipotente, onisciente, onipresente, eterno, perfeito e imutável. Foi ele que nos criou e a tudo mais que tu estás a ver. Na verdade ele criou apenas a mim; mas consoante o papel dele de Criador, eu pedi-lhe para criar um outro da minha estirpe.

EVA: Vocês dois são criadores de estirpe?

ADÃO: Não. Eu pedi-lhe para que criasse um outro parecido comigo. Mas pelo que estou a notar, tu és bem diferente…  

EVA: Credo!! Por que esse troço tá apontando pra mim?

ADÃO: Eu realmente não sei por que isto está a agir desta maneira, mas ficou assim depois que tu aparececeste. Antes era diferente; e menor.

EVA: E que porra é essa de querer me chamar de Jivago? Tu acha que eu tenho cara de traveco, seu filho da puta?

ADÃO: Não, rapariga.

EVA: Rapariga é a sua vó!

ADÃO: Eva, acalma-te! O nome era Virago, mas eu não sei de onde eu tirei aquilo. Era como se eu estivesse a ler um script! Muito estranho! Eu, na verdade, penso que tu és muita linda…

EVA: Minino, esse negócio aí tá tremendo grudado no teu corpo. É o vento, será?

ADÃO: Eu cá estou a suspeitar que não seja. Tu não queres ir comigo para ali embaixo daquela árvore?

EVA: Pode ser… Tu me explica o que tá acontecendo, que eu não tô entendendo bulhufas! A gente vai sentar aqui embaixo, nessa grama pontuda? Ai, que susto!! Olha ali no pé de pau! Que bicho feio é esse?

ADÃO: Ah, este cá ainda não tem nome. Deus  mandou- -me nomear todas as criaturas do mundo, mas, até agora, só dei nome para três apenas. Para duas, de facto, desde que ele não aceitou o nome que te dei.

EVA: Não fode! Tu queria me chamar de Jivago!

ADÃO: Era Virago. Mas eu gostava de saber por que tu falas tantos palavrões deste jeito…

EVA: Puta que pariu!, é mesmo; eu já tinha reparado. Mas tu acredita que eu não consigo evitar essa merda? Parece até que foi ele que me criou assim. É como se ele quisesse fazer eu parecer inferior a tu, só pode!

ADÃO: O que estás a dizer?

EVA: “O que estás a dizer”. Tu acha que eu consigo falar desse jeito, todo certinho que nem vocês dois falam? Porra nenhuma! Aí tu já pensou a gente num evento social? O povo todo ouvindo tu com essa fala de criador de estirpe e eu falando feito uma… Rapariga! Ele me chamou de rapariga?  

ADÃO: Não é o que tu estás a pensar. Depois explico-te isto. Mas escuta: Deus está com este assunto de dar-me atribuições, e eu vou requerer teu auxílio. Lembra-te do que te disse sobre nomear todos os bichos do mundo? Quando eu penso que só de insetos há de haver mais de dois milhões de espécies…

EVA: Dois milhões!? Porra!, dois milhões de espécies de inseto é inseto pra caralho!!

ADÃO: Pois não?!

EVA: Mas e esse bicho grosso e comprido aí. Que nome tu vai dar pra ele?

ADÃO: Estava a pensar em Mister Adão… rsrs

EVA: Não, seu convencido! Esse outro aí no chão!

ADÃO: Ah, sim. Que tal serpente?

EVA: É bem melhor do que Jivago, com certeza. Mas, se tu, Adãozinho, me quiser sentadinha do seu lado na grama, vai ter que tirar essa serpente daí.

ADÃO: Pois está arrumado. Eu a ponho aqui neste galho de árvore… Pronto! E agora… 

EVA: Eita que o teu negócio tá me cutucando na coxa…

ADÃO: Tu és muita linda, sabias?

EVA: Muita linda? Ai, para!! rsrsss Vem cá! Que babado era aquele de “frutificai e multiplicai-vos”? Tu entendeu?

ADÃO: Pois tu acreditas que esta foi a única coisa que eu entendi até este ponto? Agora é saber se tu queres que eu te explique a ti.

EVA: Te explique a ti? Teu dicionário tá nervoso, num tá não? rsrsrsrs 

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Capítulo 3

DEUS: Adão! Adão!

ADÃO: Estou cá! Por que não viestes ontem?

DEUS: Porque ontem era o Sétimo Dia da Criação; o dia que eu já reservara para o meu descanso, ora pois!

ADÃO: Mas anteontem vos despedistes com “até amanhã”, então eu achava que…

DEUS: Mas “até amanhã” é o que toda gente diz ao despedir-se; não significa que se venha mesmo a dar-se as caras no outro dia. Mas olha isto: eu te fiz uma túnica de peles, por causa do incómodo da grama.

ADÃO: Mas por que só fizestes a minha?! E isto lembrou- -me que os outros bichos não sentem incómodo com a grama pontuda, nem com o frio da noite, nem com o vento constante que causa desconforto no atrito com a pele. Vós não acharíeis mais conveniente ter-me feito com algum tipo de proteção natural? Talvez uma pele mais resistente como a do búfalo, ou com pelos para me aquecer como a dos ursos?

DEUS: Adão. Sério. Eu te criei com um propósito e não era para ser este de fazer-me listas de coisas a corrigir.

ADÃO: E qual propósito seria?

DEUS: Não é da tua conta, opá! E é isto: vim dizer-te que tu podes comer dos frutos de qualquer árvore, exceto daquela que eu pus bem ali no meio do jardim. Se tu comeres do fruto daquela árvore, tu morrerás. (Gen 2:16-17)

ADÃO: Mas ainda anteontem vós dissestes: 

  Eis que vos tenho dado toda erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. (Gen 1:29)

ADÃO: Por que só agora vindes com esta exceção??!!

DEUS: Isto também tem um propósito. E também não é da tua conta. Mas eu vou repetir para que tu depois não venhas a dizer que não foste avisado:

  Come de todas as árvores do Paraíso, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás. (Gen 2:16-17)

ADÃO: Como fica isto de dizerdes que podíamos comer dos frutos de “todas as árvores”, se deixastes uma árvore venenosa tão acessível no meio do jardim, e só dois dias depois vindes dar este aviso?

DEUS: Como eu já bem notara: tu reclamas demasiado! Sorte que ainda estou eu com paciência para aturar-te. Só não te confias muito nisto. A notícia boa é que hoje eu vou te dar um ajudante.

ADÃO: Ajudante? Alguém para ajudar-me na escolha dos nomes dos mais de dois milhões de espécies de insetos? 

DEUS: Hei de ignorar este teu comentário, para teu próprio bem, percebes? O caso é que não é bom que o homem esteja só. Tu vais cair em sono profundo para eu tirar uma de tuas costelas, e dela fazer uma mulher. (Gen 2:18-22)

ADÃO: Mas vós já fizestes isto anteontem, no Sexto Dia! Não vos lembrais?

  E criou Deus o homem à sua imagem e semelhança; e criou-os homem e mulher. (Gen 1:27)

EVA: Ô, Adão! ADÃÃÃÃÃO!! Chega aqui na moita! O leão tá pegando a leona e ela fica é de quatro, enquanto ele vem por trás!! A gente tava fazendo errado, mané! Deve ser por isso que eu tô com as costas tudo fudida da porra daquela grama do caralho!

DEUS: Mas quem é essa desbocada?!

ADÃO: É a Virago. Digo: a Eva! Vós não aparecestes ontem, então eu e a Eva… nós passamos o dia todo… nos conhecendo… 

EVA: ADÃÃÃ-ÃO!! Vem ver isso! Quem sabe tu descobre o que tu tá fazendo de errado, porque o leão, meu filho, tá pegando a leona já tem mais de quarenta minutos, e eu ainda não ouvi ele pedir pra “dar uma descansadinha” não, tá?

ADÃO: É “leoa”, Eva!! “LEOA”!!! 

DEUS: Ela será eternamente amaldiçoada por isto!

ADÃO: Só por errar o nome de um bicho? E por falar em bicho, nós estamos a viver ao relento, feito bicho. E isto de dormir sob as estrelas pode ser romântico, mas não é nada cómodo, nem saudável. Eu pensava que vós pudésseis criar um tipo de…

DEUS: Estou a me referir a ela ser amaldiçoada por ter fechado os olhos do homem para a inocência, tendo-os aberto para o pecado.

ADÃO: Pecado? O que é pecado?

DEUS: Vós não deveríeis ter feito o que fizestes! Vós me desobedecestes!

ADÃO: Mas não vos lembrais do que dissestes anteontem?

  Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra. (Gen 1:28) 

ADÃO: Vós deixastes a mim sozinho no paraíso com uma mulher nua, com instruções para nos multiplicarmos, e só agora vindes falar de pecado? Pelo que nos tomais então? Havemos de ser bactérias?

DEUS: Tu te revoltaste contra o teu Criador. E não és mais digno de estar na presença dele. Eu te expulso deste paraíso e, de hoje em diante, a terra será maldita por tua causa. Tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra, de que foste tomado. Porque tu és pó, e em pó te hás de tornar.

ADÃO: Ô, Ééééva! ÉÉÉÉVA!!! Corre aqui que nos desgraçamos!

EVA: Ai, o que foi? Deixa eu respirar, que eu vim numa carreira só! Cara, eu vi uma chimpanzoa fazendo uma coisa muito safada com um chimpanzéu. Tu vai se amarrar…

DEUS: E tu, rapariga…

EVA: Rapariga é a senhora sua avó!

ADÃO: Eva, não piora as coisas. Fica calada.

EVA: E tu tá pensando que porque me comeu agora manda em mim? 

ADÃO: Cala-te, Eva!

EVA: Cala-te o caralho! 

DEUS: …, eu multiplicarei os teus trabalhos, e especialmente os de teus partos; tu darás à luz com dor os teus filhos, e estarás para sempre sob o poder do teu marido; e ele te dominará.

ADÃO: Falei para te calares, não falei?

__________

 

“A palavra”

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Os crentes leem “a palavra”. Pregam “a palavra”. Consideram “a palavra” sagrada porque é “a palavra” de Deus. E “a palavra” é a Bíblia.

Mas para agirem assim, eles entendem a Bíblia — ‘os livros’, em latim — como um todo: o livro. Portanto “a palavra” de Deus é “o livro”. Uma coisa macro. Não vai adiantar nada apontar detalhes.

Deus só está nos detalhes quando convém. Ou nos detalhes que convêm.

Se você quiser saber se eles realmente estão querendo dizer que acreditam que uma cobra convenceu uma mulher a cometer um pecado; ou quando você mostra tal e tal contradição, tal e tal erro histórico, ou tal e tal absurdo, que seria absurdo em qualquer época ou em qualquer mundo, o crente vai sempre alegar que esse detalhe é uma alegoria, ou apenas um erro dos seres humanos falhos que Deus usou para escrever sua “palavra”. E esta, como um todo, permanece válida, perfeita e imutável.

Uma vez tive a coragem de perguntar a um amigo religioso como ele diferenciava o que era alegoria do que não era. Ele disse que o Espírito Santo iluminava a pessoa que lia a Bíblia com a intenção de entender “a palavra” para que ela própria fizesse essa diferenciação. Eu perguntei: O mesmo Espírito Santo que “iluminou” os que escreveram os textos? Se ele não conseguiu fazer com que os autores dos livros sagrados evitassem misturar sua natureza humana falha na hora de escrever, o que garante que não vai ocorrer o mesmo com os que vão lê-los? Meu amigo não me respondeu porque ficou muito aborrecido com a minha ignorância acerca dos desígnios divinos que, pelo que entendi, ele conhecia bem.

Eu, no lugar de Deus, se tivesse criado uns tantos bichinhos de estimação que já estariam, desde o nascimento, condenados ao Inferno que eu construí para os que não seguissem as minhas regras, acharia bem mais justo que eles soubessem que regras seriam essas através de um livro sagrado onde elas ficariam bem claras: “Quero isso assim, não assado.” E qualquer trecho que os meus robozinhos azarados lessem da minha Bíblia não iria mostrar nada dizendo o contrário. Chamo de “robozinhos” porque eles teriam que seguir à risca as minhas regras; senão, eu os lançaria no Inferno onde haveria pranto e ranger de dentes. E “azarados” porque essa seria a única opção.

Bom, pelo menos eu seria um deus bem mais honesto do que o Deus cristão: o que estivesse escrito no meu livro sagrado seria o que eu queria dizer. Nada de alegorias; nada de pegadinhas; nada de contradições. Se eu dissesse que quem trabalhasse no sábado deveria ser morto a pedradas, era assim que teria que ser. Sempre. Ninguém diria nada em contrário, nem eu mesmo se me transformasse no meu próprio filho. E se ele, por acaso, tivesse falado demais e prometido que voltaria da morte trazendo todo o seu reino ainda no tempo de vida daqueles que o ouviam, eu, como Pai, teria mantido a promessa. Teria antecipado o Juízo Final em 2 mil anos e resolvido tudo de uma vez. Não teria, de forma alguma, corrido o risco de ninguém ter percebido o óbvio: que se não aconteceu como o filho de Deus anunciara, só poderia ter sido porque deveria haver, dentre eles, um imortal.

Mas mesmo a Bíblia estando cheia dessas contradições, desses erros e desses absurdos, esse tipo de coisa não abala o crente, não perfura a blindagem da sua fé. Porque são apenas detalhes. E tão pequenos e sem importância que nenhum padre ou pastor dá atenção a eles. E “a palavra” permanece divina, sagrada, absoluta e perfeita. Mesmo que, nos detalhes, ela seja apenas ridícula.

O que é a Bíblia, por Wagner Menke

 
 
 

A primeira Bíblia é de graça [Republicação]

Crianças adoram desenhos animados e todo mundo sabe disso.

Qual a maneira mais fácil de ter a atenção de garotinhos ateus e garotinhas ateias, de forma a poder ajudar seus pais a enfiar-lhes na cabeça uma crença estúpida, inútil e infundada? Faça um desenho animado bem fofinho e de boa qualidade contendo os principais tópicos que elas precisam internalizar, adicione uma ameaça de punição, e você estará no caminho certo.

O grande mérito desse vídeo abaixo é que ele consegue destacar de uma forma assombrosamente clara dois pontos  do cristianismo que, sempre que possível, são mais bem disfarçados:

1) ame a Deus durante a sua curta vida na Terra, ou ele vai ferrar você por toda a eternidade; e

2) compre aqui o que você precisa para aprender a puxar o saco dele.


Deus morto, deus posto

Atualmente, quando um filho de Deus bate à minha porta, em pleno domingo de manhã, querendo “ler a palavra” pra mim, eu logo despacho o infeliz com uma declaração semelhante a essa:

Olha, eu acho esse livrinho aí uma coleção de fábulas. Algumas tolas, algumas ridículas, algumas  grotescas. Não quero que você leia pra mim, não.

Se isso não parece dar resultado, eu uso a minha frase bat-repelente:

Eu não acredito em Deus, não aceito Jesus como meu salvador, e renego o Espírito Santo. 

Aí eles vão embora. Já quando é uma filha de Deus… e quando é jeitosinha… eu tento exibir meus conhecimentos bíblicos, e geralmente começo assim:

Você já leu a Bíblia toda? 

Nunca conheci ninguém que tivesse lido a Bíblia do Gênesis ao Apocalipse. E acho muito difícil alguém querer me convencer de uma coisa se, ela mesma, não se mostra convencida:

Mas essa é boa! Quer dizer que Deus mandou escrever esse livro pra você, pra te ensinar a ser boa, a ter moral, a fazer o que é certo, além de, principalmente, mostrar como salvar sua alma do Inferno, e você não teve a curiosidade de ler tudo?

Não é estranho? Pois eu acho. Muito. E mais ainda o fato delas não se interessarem nem um pouco pelo Antigo Testamento, com exceção de um ou outro versículo escolhido a dedo do meio de inúmeros outros que precisam desculpar, justificar, reinterpretar das formas mais mirabolantes, para que esses versículos realmente não digam o que parecem que dizem.

Uma vez a garota arregalou os olhos quando eu disse que Deus havia mando matar um homem a pedrada só porque ele havia descumprido a lei do descanso sabático (Num 15:32). Ela buscou refúgio na companheira, esperando que a outra dissesse que eu estava delirando, mas só ouviu a amiga dizer que “A lei antiga não estava mais valendo. Agora vivemos sob a Graça”. E adivinha quem disse isso? Jesus? Não. Só pode ter sido Saulo de Tarso, vulgo São Paulo, o metido.

Que autoridade teria Paulo para contradizer o próprio Deus em forma humana? Jesus tem uma fala em Mateus em que diz que não veio revogar a Lei Mosaica (Mat, 5:17), ou seja, ele não pretendia mudar sequer um jota ou til daquilo que Deus já havia determinado. E isso é mais do que reforçado pela cena da tentativa de apedrejamento de Maria Madalena, em que Jesus deixa claro que não veria problema nenhum em que se apedrejasse a mulher (“Que atire a primeira pedra…”), desde que os algozes dela estivessem eles mesmos cumprindo toda a Lei (“…aquele que estiver sem pecados.”). Quem não cumpria a lei, pecava; e, se pecava, não deveria estar tão ansioso por punir outros pecadores.

No máximo, no máximo, Jesus condenou ali apenas a hipocrisia dos seus pares que adoravam cumprir as leis terríveis de Deus “nos outros”, enquanto eles mesmos as desobedeciam.

Se o próprio Deus, em forma humana, disse que suas leis deveriam permanecer como estavam mesmo que “céus e terras passem”, por que o crente resolveu dar ouvidos a um homem igual a ele que apareceu, tempos depois, dizendo que aquela lei havia sido substituída?

Resposta: porque os cristãos daquele primeiro século, os que escreveram a parte da Bíblia que os cristãos de hoje leem, eram muito mais evoluídos socialmente do que os que escreveram o Antigo Testamento, a outra parte que os cristãos não leem. E como foi preciso substituir o Deus judaico pelo deus cristão — Jesus Cristo — , nada mais previsível do que o novo deus ter regras novas para passar aos seus novos fiéis. Mas aí, como se esqueceram de pôr essas falas na boca de Jesus, precisaram colocá-las na de Paulo, pois não dava pra fazer uma segunda edição dos Evangelhos, revista e ampliada.

Os cristãos ficaram, assim, com um deus completamente novo, mais próximo deles e mais palatável, se comparado ao antigo Deus judaico. Os cristãos tinham umas novas regras ainda um tanto confusas, mas, pelo menos, não era preciso sair por aí apedrejando ninguém, segundo Paulo. Eles tinham um deus que agora se interessava não só em proteger e paparicar Israel, mas que era o deus de uma “Israel espiritual”, um clube aberto, portanto, que fez sucesso justamente por isso. Eles tinham algo com que os judeus jamais poderiam sonhar: a imagem de seu próprio deus para colar na traseira do carro. E eles tinham, por fim, um símbolo novo de adoração, a Cruz, que seria o símbolo da nova religião, e que viria a diferenciar os novos crentes no novo deus, dos velhos crentes no Deus judaico que os cristãos mataram, sepultaram, e esqueceram.

 

Teste seus amigos crentes (Parte 3)


#2 Você acredita que Deus é bom?

As quatro coisas mais mal distribuídas do mundo são, pela ordem, poder, dinheiro, beleza e bom senso. Eu, graças a Deus, ainda consegui pegar o bom senso.

Entretanto, ninguém pode aplicar o bom senso que tenha em cima de um assunto que desconhece completamente, ou sobre o qual não queira verter um mínimo de raciocínio. Em virtude disso, mesmo que uma pessoa religiosa também tenha sido contemplada com bom senso, ela não se atreve a raciocinar sobre o pouco que conhece da sua própria religião. Eis o mistério da fé revelado: as coisas mais absurdas são empurradas goela abaixo do cristão porque o filtro do bom senso que as rejeitaria nunca está em uso.

O experimento que eu desenvolvi é capaz de pôr o bom senso do religioso para funcionar. No tranco, se preciso, ou algo como o Modo de Segurança do Windows. Por isso, ele irá fugir desse tipo de conversa como o Diabo da cruz. Ele perceberá que um interlocutor obstinadamente treinado para manter um determinado foco não irá deixá-lo seguir adiante no seu blá blá blá sem fim, que é de onde a fé tira o seu sustento. Vendo-se obrigado a, também, manter o foco, a fé que tem vai esmorecer, e, em esmorecendo, um mundo sem Deus se apresentará em toda a sua crueza diante dos olhos arregalados do crente, mimado desde o berço por um amigo imaginário que, de repente, não está mais lá.

Duvida? É só pôr em prática, você mesmo, o experimento que descrevi até aqui com alguma pessoa religiosa que você conheça. Pergunte a ela: “Você acredita que Deus é bom?”.

Claro que a pessoa vai dizer que sim. Deus é bom. Então, tente fazer com que ela justifique isso, usando a única coisa que sabe sobre Deus: a Bíblia. Como pode ser bom um ser todo-poderoso, todo-isso, todo-aquilo como é descrito no livro cristão, fazer o que Deus fez, permitir o que permitiu, cometer as atrocidades que cometeu.

Pergunte à pessoa religiosa como pode ser bom um Deus que ameaça com um castigo tão horrendo como o Inferno aqueles que não simpatizarem com ele; que incita à violência, que mata e que manda matar; que pune todos pelo suposto erro de dois; que comete genocídios; que amaldiçoa os filhos pelo crime dos pais; que é entusiasta da escravidão e da pena de morte; que pede sacrifícios humanos, e por aí vai…

Esteja só atento para não se deixar enrolar pelos “subterfúgios-padrão”  do crente. Por exemplo, quando você falar que Deus é a favor da escravidão e do apedrejamento, ele dirá algo como “Ah, mas isso é o Antigo Testamento”, ou “Ah, mas era a lei da época”, ou “Ah, mas o povo tinha o coração duro”, etc., e vai querer fazer você aceitar isso como uma justificativa, como se, por fazer parte do Antigo Testamento, não fosse o mesmo Deus; como se, por ser a lei da época, não houvesse sido instituída por ele, ou com sua conivência; como se fosse possível dizer que uma pessoa que manda matar a pedrada continua sendo boa, só porque os que vão ser apedrejados não são.

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O sexo de Deus (parte final)

Se Adão e Eva comeram do fruto proibido eu não sei, mas, para eu estar aqui escrevendo essas heresias, Adão deve ter, obrigatoriamente, comido a Eva. Deles nasceram Caim e Abel, e depois que Abel foi comer capim pela raiz…


— Irmã… A senhora disse que, quando a gente morre, vai viver no Paraíso. Abel já vivia no Paraíso; então, depois que foi morto, ele ressuscitou?

— Vai ali pro canto, vai… Dessa vez são vinte Pai-Nossos e vinte Ave-Marias.

Depois que Abel foi assassinado, ficamos com uma proporção (em números absolutos também) de dois homens para cada mulher, o que desvalorizou muito o Paraíso em suas qualidades paradisíacas… Como Eva era a única mulher do universo, podemos dizer seguramente que o incesto rolou solto por aquela época, e que Deus não tava muito preocupado com isso, não. Contanto que ninguém mexesse no pomar dele, filho transar com a própria mãe, irmão transar com irmã, pai transar com filha, nada disso parecia ser um problema.

Um conhecido meu já quis me explicar que Deus havia criado toda a humanidade de uma só vez, e que Adão e Eva eram apenas os representantes ou personagens principais daquela mensagem divina…


É preciso inspiração do Espírito Santo para compreender plenamente o verdadeiro significado dos textos sagrados…

Sério? O Espírito Santo inspira alguém para escrever suas mensagens e, depois, precisa fornecer mais inspiração para que elas sejam entendidas? E você tá me dizendo que foi esse mesmo um aí que construiu o universo? Mas ele parece não ter competência sequer para  passar numa prova de redação!…

Mas, enfim, uma vez que tudo foi devidamente esclarecido, e admitiu-se que o Gênesis apenas “relata de uma forma simbólica” a criação do universo e do ser humano (leia-se: é um mito, uma fábula, como a da Chapeuzinho Vermelho), Richard Dawkins chamou a atenção do mundo religioso para outro detalhe: por que Deus teria tido o trabalho de assumir a forma humana e de se oferecer em sacrifício para livrar a humanidade da maldição lançada por ele mesmo, por conta daquele pecado terrível cometido por aquelas duas pessoas que nunca existiram?

Sendo o Gênesis “simbólico”, a missão suicida do filho de Deus para salvar o mundo também deveria ser, o que, se bem entendido, quer dizer que tudo nos Evangelhos não passa de mitologia tosca e asquerosamente intragável, que sequer se presta para enfeitar nossas estantes com personagens fantásticos de histórias sublimes, como os da mitologia grega.

Um Deus bruto, turrão, violento, exibido, birrento; um Deus que não faz nada direito, que não se preocupa com detalhes… um Deus machista que engravidou uma mulher praticamente à força; um Deus ao qual nos referimos sempre por pronomes masculinos… só pode ser um Deus-macho.

Um Deus-fêmea, um Deus-mulher, uma Deusa-mãe teria, indiscutivelmente, criado um mundo muito, muito melhor.

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