O sexo de Deus (parte 2 de 3 )

Um detalhe que me intrigava, ainda na época em que a minha cabecinha infantil estava sendo semanalmente estuprada pela minha professora de catecismo, era o fato dos “livros sagrados” não dizerem, de forma direta, que aquilo que se estava a ler era uma mensagem de Deus para a humanidade. O livro de Gênesis, por exemplo, traz uma narrativa que conta como se deu a “criação” de todo o universo, nos mesmos moldes em que Conan Doyle conta, em Um estudo em vermelho, como o Dr. Watson conheceu o Sherlock Holmes.

— Mas, irmã… que custo era a pessoa que escreveu o Gênesis ter mencionado que estava escrevendo o que Deus lhe ditava, como uma mensagem para nós?

— Chega! Já lhe disse que não precisava! Que garoto irritante!! Vai ali pro canto e me reze cinco Pai-Nossos e cinco Ave-Marias!

Em algum momento da nossa História, porém, muita gente passou a considerar esse texto da criação do mundo como um tipo de carta psicografada, em que o espírito-autor era justamente o Espírito Santo. Assim, por vários motivos — sendo um deles a total falta de conhecimento sobre praticamente tudo — , o que aquele texto continha adquiriu ares de registro literal do que havia se passado durante os primeiros instantes de existência do universo, e ninguém achou muito conveniente discordar dele, porque (isso até uns duzentos anos atrás) não fazia muito bem para a saúde.

Por conta disso, tinha-se como verdade absoluta que um ente supremo, em tudo o que há para ser supremo (detalhe: ele teria que ser supremo, também, em coisas como maldade, ira, inveja, etc.), havia criado o ser humano numa tacada só, logo após a criação do universo, que demorou um pouco mais: seis dias.

Mas ora… Alguns milhares de anos depois daquela primeira carta psicografada, eis que dois iluminados descobriram, simultaneamente, que o ser humano não foi “criado” numa tacada só: ele evoluiu, como tudo o mais que há na Terra e a que se possa chamar de ser vivo, ao longo de milhões e milhões de anos (aquela parte dos “seis dias” acabou por ser considerada um tempo simbólico também).

E como acabou sendo algo completamente impossível negar os fatos — e, pior, como passou a ser completamente impossível se negar o acesso a eles — as pessoas pararam de ser queimadas vivas por discordar daquele tipo de literatura, e o povo que acendia as fogueiras passou a admitir que aquele relato da criação do mundo era, no fim das contas e apesar de tudo, apenas simbólico mesmo. Justamente como passou a ser considerado simbólico tudo o que não faz o menor sentido que está entre aquele livro de Gênesis e o do Apocalipse, o que (só outro detalhe) não é pouca coisa não!

Daí que os livros psicografados que Deus mandou escrever e que, segundo os que nele acreditam, servem de guia no jogo cósmico da Salvação estão repletos de simbolismos que precisam ser identificados, interpretados e decodificados. Por algum motivo, Deus, na sua infinita sabedoria, não achou conveniente mandar que tudo fosse escrito de uma forma bem objetiva, preto no branco, e, para evitar confusão, por uma única pessoa, como fez aqueloutro Criador do universo: Alá. (Detalhe: várias coisas bem objetivas, como uma ordem direta dada pelo próprio Deus para que se matasse por apedrejamento todo aquele que descumprisse suas leis, não são consideradas nem como sua palavra nua e crua, nem como algum tipo de simbologia: são simplesmente ignoradas. E eu sei por quê.)

Quem crê em Deus precisa crer, antes e obrigatoriamente, na Bíblia, que é a fonte primordial de tudo o que se sabe a respeito dele. Só que, embora essa coleção de livros não pareça outra coisa que não um monte de histórias inventadas — como as fabulosas aventuras de Sherlock Holmes — , ela precisa ser entendida como a palavra escrita de um Deus onipotente, onipresente, onisciente, todo bondade, todo misericórdia, etc. Como isso não seria uma tarefa das mais fáceis, visto que a semelhança com outras histórias de outras culturas, tidas apenas como mitologias, é muito grande; e como a crítica a esses livros já não faz tanto mal para a saúde, resolveu-se adotar a medida extrema de considerar certos textos e trechos como apenas “simbólicos”.

Depois das descobertas de Charles Darwin e Alfred Russel Wallce, e da irrefutabilidade do processo de evolução das espécies, algum papa da nossa História Contemporânea deve ter precisado reunir sua alta cúpula para decretar algo como:


Quei figli di puttana hanno trovato Creazione dell’uomo secondo la Bibbia è impossibile. Dite a tutti che la Genesi è un libro simbolico.

Antes era verdade, porque está escrito na Bíblia e a Bíblia é a palavra de Deus. Depois que se descobriu que não era — melhor dizendo: depois que se tornou impossível esconder que não era — , a “verdade” virou apenas um “simbolismo”. Mas o real problema nisso tudo é que uma parcela enorme da população mundial precisa que um papa lhes diga que absurdo na Bíblia não é mais para ser entendido como verdade absoluta e, sim, como algo “simbólico”. Os demais absurdos, por inferência, continuam valendo.



Faz um milagre em mim (ou Zaqueu também iria querer comer a Madona)

“E tendo Jesus entrado em Jericó ia passando. E eis que havia ali um varão chamado Zaqueu; e este era um dos principais publicanos e era rico. E procurava ver quem era Jesus e não podia, por causa da multidão, porque era de pequena estatura. E, correndo adiante da turba subiu num sicômoro para o ver; porque havia de passar por ali. E, quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.”

Faz um milagre em mim

(Regis Danese)

Como Zaqueu

Eu quero subir

O mais alto que eu puder

Só  pra te ver

Olhar para Ti

E chamar sua atenção para mim.

[As pessoas fazem isso desde sempre, pelo visto. Basta aparecer alguém famoso por perto, rodeado de seguranças e seguidores. Zaqueu teria feito a mesma coisa pela Madona. A diferença é que, como já é bilionária e continua ganhando fortunas com seu trabalho, ela certamente não iria abusar de um fã bem de vida para conseguir comer e se hospedar de graça na casa dele — ela e sua comitiva — , como fez Jesus, cujo trabalho de vender lotes de terra num mundo encantado estava indo de mal a pior.]

Eu preciso de Ti, Senhor

Eu preciso de Ti, Oh! Pai

[Claro que precisa. De outro jeito, quem vai comprar esse CD com essa música enjoativamente melosa e choraminguenta?]

Sou pequeno demais

Me dá a Tua Paz

[Duas coisas. 1. Vê só a inversão de valores: o infeliz se acha pequeno (fazendo uma referência à baixa estatura do personagem bíblico), quando se compara a uma criatura mitológica, e deixa de lado o fato de que o ser humano é a mais fabulosa espécie de que esse planeta já tomou conhecimento. 2. Essa sensação de pequenez parece incomodá-lo tanto que ele anda agitado e pede paz ao ser mitológico que foi quem originou a sensação de desconforto.]

Largo tudo pra te seguir.

[KKKKKKkkkkkkk….. Tá bom… você larga tudo sim… (rsrsrsrsrs, eu me acabo de rir!) Eu vejo isso todo dia: os cristãos deixando o conforto do seu lar, suas posses e sua família, abdicando de sua única vida para seguir a ordem do seu Jesus e sair pelo mundo pregando o Evangelho a toda criatura. Lembra disso?: “ide e espalhai o Evangelho”, “acumulai tesouros no Céu”, “não vos preocupeis com o dia de amanhã”, “desprezai esse mundo”… Mas se nem o cristão acredita nas dicas do seu Deus, nem cumpre suas ordens, onde eu entro nessa? Ah, que piada!]

Entra na minha casa

Entra na minha vida

Mexe com minha estrutura

Sara todas as feridas

Me ensina a ter Santidade

[Ok. Alguém devia avisar pra esse cara que um dos pré-requisitos da santidade é justamente se resignar com o próprio sofrimento. Ele parece que não entendeu bem o espírito da coisa: quer primeiro ser curado das feridas para, depois, aprender como ser santo! O bom e velho mundo cristão: sempre inundado de contradições, de imbecilidades e de coisas que quase matam a gente de rir.]

Quero amar somente a Ti, [Ã-hã]

Porque o Senhor é o meu bem maior, [Ã-hã]

Faz um Milagre em mim. [Tipo: ganhar outro cérebro que funcione direito?]

Contradições bíblicas

Deus se arrepende?

SIM: “Então arrependeu-se o SENHOR de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração”. (Gênesis 6:6)

NÃO: “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?” (Números 23:19)

SIM: “Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras. Então Samuel se contristou, e clamou ao Senhor a noite toda”. (I Samuel 15:11)

SIM: “Ora, Samuel nunca mais viu a Saul até o dia da sua morte, mas Samuel teve dó de Saul. E o Senhor se arrependeu de haver posto a Saul rei sobre Israel.”. (I Samuel 15:35)

Deus pode ser “visto”?

SIM: em Gênesis 18:1 Deus apareceu a Abraão.

SIM: em Gênesis 32:24-30 Jacó (Israel) viu e lutou com Deus.

SIM: em Êxodo 24:9-11 Moisés e 73 anciãos viram Deus.

SIM: em Êxodo 33:11 Deus falou com Moisés cara a cara.

SIM: em Êxodo 33:22-23 Deus permitiu que Moisés visse suas “partes de trás”.

SIM: em Deuteronômio 34:10 Deus falou com Moisés cara a cara.

SIM: em Isaías 6:1-13 Isaías postou-se diante de Deus e o viu.

SIM: em Ezequiel 1:27-28 Ezequiel descreve Deus em detalhes.

SIM: em Amós 7:7 Amós viu Deus.

NÃO: “Deus nunca foi visto por alguém.” (João 1:18)

NÃO: “Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém.” (1 Timóteo 6:16)

Ele é um Deus de paz?

NÃO: “O SENHOR é homem de guerra; o SENHOR é o seu nome.” (Êxodo 15:3)

SIM: “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos.” (1º Coríntios 14:33)

Ele é um Deus de palavra?

SIM: em Números 23:19 Deus não muda, cumpre suas promessas.

NÃO: em I Samuel 2:30-31 Deus admite não cumprir sua promessa.

NÃO: em II Reis 20:1-6 Deus diz uma coisa, depois muda de idéia e diz outra.

NÃO: “E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha anunciado lhes faria, e não o fez.” (Jonas 3:10)

Devemos temer a Deus?

SIM: em Deuteronômio 6:13 devemos temer a Deus.

SIM: em I Pedro 2:17 devemos temer a Deus.

NÃO: em I João 4:18 amor perfeito não se mistura com medo.

Deus é a favor de imagens?

NÃO: em Êxodo 20:4 fazer imagens é proibido.

SIM: em Êxodo 25:18 Deus ordena que se façam dois querubins de ouro.

Só Jesus subiu aos céus?

NÃO: em Gênesis 5:24 Enoch foi levado corporalmente aos céus.

NÃO: em II Reis 2:11 Elijah ascendeu ao céu num redemoinho.

SIM: em João 3:13 Jesus diz que nenhum homem além dele jamais subiu aos céus.

Judas morreu enforcado?

SIM: “E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e se foi enforcar.” (Mateus, 2:5-6)

NÃO: “Ora, este [Judas] adquiriu um campo com o galardão da iniquidade; e, precipitando-se, rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram.” (Atos, 1:18)

Quando viveram os Nefelins?

Em Gênesis 6:4 se lê que os nefelins viveram na terra antes da inundação.

Em Gênesis 7:23 está escrito que só Noé, sua família e os animais na arca sobreviveram ao dilúvio.

Em Números 13:33 está escrito que bem depois da inundação, os nefelins ainda viviam.

Quantos animais subiram à arca?

Segundo Gênesis 6:19-20: dois de cada espécie, incluindo pássaros, animais e seres rastejantes.

E segundo Gênesis 7:2-3: sete de cada animal e pássaro limpos e dois de cada um dos demais animais.

Deus causa sofrimento voluntariamente?

SIM: em Êxodo 4:11 Deus admite ser a causa de cegueira, surdez e idiotia.

NÃO: em Lamentações 3:33 Deus não causa voluntariamente dor ou aflição.

Os filhos devem pagar pelos pecados dos pais?

SIM: em Êxodo 20:5 Deus culpa as crianças pelas iniquidades dos pais por até quatro gerações.

NÃO: em Deuteronômio 24:16 o filho não deve ser punido pelos pecados do pai.

NÃO: em Ezequiel 18:19-20 cada um é responsável por suas próprias ações; um filho não tem culpa pelos pecados de seus pais.

Deus disse ou não disse?

SIM: em Levítico 1:7 Deus entrou em cada pequeno detalhe sobre oferendas e sacrifícios.

NÃO: em Jeremias 7:22 Deus nega ter dito qualquer coisa sobre oferendas e sacrifícios.

Deus é bondoso, piedoso, etc?

NÃO: em Números 25:4 Deus ordena a Moisés enforcar os líderes ao sol para acalmar sua fúria.

NÃO: em Deuteronômios 4:24 Deus é um fogo que consome, e ciumento.

NÃO: em I Samuel 6:19 Deus mata 50.070 por um pecado sem compaixão.

NÃO: em I Samuel 15:2,3 Deus ordena destruição total de uma nação inteira por causa dos pecados de um homem.

NÃO: em II Samuel 21:1 Deus causa fome de três anos por causa dos atos na casa de um homem.

SIM: em I Crônicas 16:34 Deus é bom e piedoso.

SIM: em Salmos 25:8 Deus é bom e certo.

SIM: em Salmos 145:8-9 Deus é graça, compaixão, pouco dado à fúria, piedoso e bom com todos.

NÃO: em Jeremias 13:14 Deus não terá pena, não poupará, não terá compaixão, e os destruirá.

NÃO: em Jeremias 17:4 Deus ficará irado com Judah para sempre.

SIM: em Ezequiel 18:32 Deus não vê prazer na morte.

SIM: em 1 João 4:16 Deus é amor

Interpretareis conforme a vossa conveniência (parte 2)

 

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Quando eu citei aqueles versículos bíblicos que deveriam fazer qualquer mulher decente se sentir humilhada pelo seu próprio Deus, a desculpa que aquelas mulheres que passaram na minha porta domingo me deram foi: “Ah!, mas isso é o Antigo Testamento”.

Isso significa exatamente o quê? Significa que Deus era mesmo esse canalha machista e preconceituoso, mas, depois de ter sido pai, no Novo Testamento, mudou completamente o seu modo de ser e tornou-se um amor de pessoa, digo, um amor de Deus?

É isso mesmo.

Essa desculpa-padrão de “Ah!, mas isso é o Antigo Testamento” é a mais idiota em que alguém poderia pensar, e é por isso que faz tanto sucesso entre essas pessoas que não se incomodam em acreditar que uma cobra e uma jumenta falaram com um ser humano, mostrando-se, nos dois casos, serem até mais inteligentes do que o seu interlocutor.

Em todo caso, essa é a mesma justificativa que os cristãos usam para não saírem por aí apedrejando os outros a torto e a direito: Jesus Cristo aboliu toda a antiga lei Mosaica. Isso graças a uma interpretação bem longa feita em cima de um versículo bem curtinho.

O versículo é esse, mencionado na “parte 1“:

Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido

E a interpretação é a que segue.

Uma lei pode ser estipulada em termos do que é proibido ou do que é exigido. Quem faz o que não é para se fazer, segundo a lei, assim como quem não faz o que a lei manda fazer, é, por definição, um transgressor dessa lei. Tratando-se das leis de Deus, um pecador, para usarmos a terminologia condizente.

Uma lei implica, também, numa sanção, numa pena, que se imputa a quem a transgride. Em terminologia bíblica, quem peca deve ser punido.

As punições na lei Mosaica eram, geralmente, capitais: morte por apedrejamento, decaptação, enforcamento ou fogueira, dependendo do crime. O Deus do Antigo Testamento era bem pragmático. Com ele era preto no branco: “Você foi acusada de bruxaria, ou se casou e seu marido percebeu que o membro dele te penetrou sem que você gritasse de dor? Péssima notícia: você está condenada a morrer por apedrejamento.”

Então, o processo todo envolvia lei + sanção + pecador + punição.

Aí o cristão, interpretando aquele “sem que tudo seja cumprido” do versículo mais acima, acha que Deus, que foi quem inspirou Moisés a escrever leis com aquelas punições terríveis, teve a brilhante ideia de vir ele mesmo receber a punição por toda a humanidade de uma vez só. Logo, uma vez que Jesus Cristo pagou o pato por todo mundo, recebendo toda a punição que a lei determinava ser imputada aos pecadores — individualmente — , a pena prevista na lei não poderia ser aplicada em mais ninguém, uma vez que já havia sido “cumprida” numa única pessoa: Jesus.

Simples, né?

Ou isso, ou ninguém iria acreditar que o Jesus, do Novo Testamento, e o Deus do Velho eram um só, porque, quando se trata de legislação, esses dois não se entendem:

Disse, pois, o SENHOR [Deus] a Moisés: Certamente morrerá aquele homem [pego catando lenha no dia de sábado]; toda a congregação o apedrejará fora do arraial. (Números 15:35)

E disse-lhes [Jesus]: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. (Marcos 2:27)

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Interpretareis conforme a vossa conveniência (parte 1)


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Certa vez recebi um e-mail com uma imagem anexada em que um rapaz negro exibia uma enorme suástica tatuada no peito. Não dá para afirmar com segurança, mas é muito provável que esse indivíduo não tivesse, à época em que se tatuou, a menor noção do que foi o Nazismo.

O mesmo tipo de estranheza — de sensação de coisas que não combinam — me causa a devoção de uma mulher pelo Deus bíblico. Eu me pergunto: será que ela, alguma vez, já se inteirou do que esse Deus pensa dela? A experiência me diz que não. Como o rapaz da suástica em relação ao Nazismo, elas também não fazem ideia de quem seja Deus.

O Deus da Bíblia, coincidentemente, tem a mesma visão da mulher que tinham os homens que escreveram suas falas, alguns milênios atrás, num lugar onde nascer com uma vagina era a segunda pior coisa que poderia ocorrer a um ser humano. A primeira era não oficializar, no devido tempo, que essa vagina era propriedade de um determinado homem; e só dele. Isso porque a pena para uma portadora de vagina sem dono era a morte por apedrejamento.

Como bem observou Richard Dawkins, a mulher só tem valor na Bíblia se for esposa ou mãe. Uma solteirona, naqueles tempos, poderia ser facilmente denunciada como bruxa, ou adúltera, e morta por apedrejamento, sem necessidade de provas ou julgamento. Um boato era o suficiente.

Quando umas senhoras vieram à minha porta, esse domingo passado, vender seu Jesus Cristo pra mim, eu fiz as minhas duas perguntas-padrão:

— Vocês já leram toda a Bíblia?

— Nós lemos todo dia.

— Não foi isso que eu perguntei. Vocês já leram sua Bíblia do começo ao fim?

Não: nenhuma delas tinha lido. Na verdade, nunca ninguém a quem já fiz essa pergunta respondeu com um sim.

Na minha segunda pergunta-padrão, eu sempre menciono algum trecho em que Deus demonstra seu desprezo pelas mulheres:

— Vocês sabiam que é por causa de vocês, mulheres, que existe a morte? [Eclesiástico 25:33]

— Vocês sabiam que Deus acha correto matar mulheres que se casam não sendo mais virgens? [Deuteronômio 22:20]

— O que vocês acham da ordem de Deus para que a mulher se sujeite e seja dominada pelo marido? [Gênesis 3:16, Pedro 3:1]

A essas minhas perguntas, invariavelmente, a resposta também é padrão:

— Ah!, mas isso tudo está no Antigo Testamento!

Aparentemente, Deus poderia ter economizado um monte de pergaminho — e vidas humanas — mandando escrever apenas o Novo Testamento, já que o Antigo não serve pra nada. Ou, como aquelas senhoras disseram: “Tudo isso foi abolido com o sacrifício de Jesus…”

Interessante notar que Jesus mesmo nunca mencionou nada a respeito. Ao contrário:

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido”

[Bíblia Online, Mateus 5:17-18].

Aquelas senhoras, então, tentaram me mostrar como a Bíblia “explica” que Jesus aboliu as leis terríveis do Antigo Testamento, e como entendem que Deus não tem mais aquele desprezo por elas.

É justamente aí onde se percebe o malabarismo mental que essas pessoas precisam fazer, devidamente conduzidas por seus “pastores”, de forma que suas crenças não sejam abaladas pela simples constatação de que os textos bíblicos não vieram de Deus, mas dos “homens” que o inventaram.

666 [Republicação]

666

Lúcifer era o mais belo dos anjos, o preferido de Deus. Ambicionando ser mais do que já era, ele revoltou-se contra o Criador e liderou uma terça parte dos anjos numa rebelião que acabou expulsando-os a todos dos céus.

Lúcifer, o Anjo Caído. Satanás. O Diabo.

Acredito que essa estória, que pretende dar conta do surgimento do arqui-inimigo do Todo-Poderoso (como diabos um ser todo-poderoso pode ter um arqui-inimigo?)… bom, acredito que a estória é do conhecimento de todo mundo. Eu só queria saber como os cristãos tomaram conhecimento dela, já que a mensagem de Deus para eles, a Bíblia, não fala nada a respeito da origem do ser que assumiu a administração do Inferno. 

Como minha conta do DeusILUSÃO, no Twitter, ia chegar ao tweet número 666, eu quis comemorar esse… “evento” com um texto sobre Satanás, a besta e seu número maldito.  Pedi, então, para os leitores do blog me informarem onde eu poderia encontrar, nos textos bíblicos, passagens relacionadas ao tema. 

Dos livros sugeridos, faço os comentários a seguir.

Jó 1:7 É apenas o relato da aposta que Deus fez com Satanás acerca da devoção de Jó. Os dois combinam que tipos de sofrimento devem ser impostos a Jó pra ver quanto ele aguenta sem praguejar contra o Senhor. Deus ganhou a aposta; Satanás não saiu perdendo nada; e Jó só se fodeu na estória.

1Pedro 5:8 Descreve tão somente uma advertência que Pedro faz aos cristãos sobre o Diabo estar sempre à espreita.

Ezequiel 28:12 a 19 Aparentemente, os cristãos leem aqui uma suposta “origem” de Satanás, sua revolta contra Deus e sua expulsão do Céu. Na verdade, o narrador está se referindo ao rei de Tiro, nessa passagem. Não tem nada a ver com o Diabo. 

Isaías 14 Começando-se o versículo 12 com “Como caíste do céu”, e terminando o 14 com “ao mais profundo abismo”, acredito que eles entendam como outra referência ao Anjo Caído, mas o texto começa falando dos “opressores de Israel” e não muda o foco em nenhum momento, sendo, portanto, a esses opressores a que se referem os versículos acima.

Até aqui, pelo menos, nada na Bíblia explicando o surgimento do Diabo que pudesse se comparar ao Episódio I, de Guerra nas Estrelas.

Apocalipse 12:4 Refere-se à terça parte das estrelas do céu que foram lançadas para a Terra pela cauda da besta. Provavelmente é daí que os cristãos tiraram aquela estória da rebelião de Lúcifer (nome que me disseram que não é mencionado na Bíblia em parte alguma). Mas no próprio livro de Apocalipse, no primeiro versículo do seu primeiro capítulo, João diz que o que ali está escrito é sobre as coisas que irão acontecer “brevemente”. É uma profecia, então; não é a narrativa sobre a origem de nada.

Apocalipse 13:18 Num texto absolutamente sem sentido, como deve-se esperar que sejam todas as descrições de sonhos, é onde se menciona o número de uma das bestas, porque, na verdade, há duas delas. E esse tal número vem, desde então, inundando o imaginário de gente que é fascinada por mistérios.

Isso me levou a concluir que tudo que eu sei e que você sabe sobre um Lúcifer que desafiou Deus e foi arremessado para a Terra com a terça parte dos anjos, foi só uma outra lenda inventada bem depois do Criador ter mando botar um ponto final na sua mensagem para seus macaquinhos de estimação. O que os cristãos fizeram foi juntar um monte de retalhos do seu livro sagrado, atribuindo a eles o sentido que bem queriam, e criar mais uma fábula para explicar a origem de um dos seus personagens mais centrais, mas que não pôde ser contemplada na fábula principal.

E o número 666 é só uma ilusão para distrair os bestas.


* VICARIUS FILII DEI, em latim, quer dizer “vigário filho de Deus”, e é  um dos títulos atribuído aos papas.

666

A verdadeira história de Deus

Vídeo indicado por Gustavo Milaré, do blog Opiniões do Bandeirinha

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