Antes do Fim

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Hoje eu li uma frase no vidro traseiro de um Fiat Uno estalando de novo: “Obrigado, Deus”. Se eu não estivesse atolado até o pescoço de trabalho, iria mandar fazer um adesivo daqueles pra colocar no meu carro: “Obrigado, Deus, mas eu tinha pedido um Toyota Hilux”.

É por isso que Papai Noel faz mais sucesso do que Deus com as crianças: dos dois velhinhos de barba branca, o do gorro vermelho é o único que entrega os presentes direito.

O texto final da série Voo e Queda só vai ser publicado nesse fim de semana. E a razão disso é porque ainda não o escrevi.

Agora, responda rápido: Um Deus imaterial é feito de quê?

Isso mesmo: de Nada!

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( Você quer ser um Patrocinador? )

Como todo mundo sabe, Deus é tudo de bom, muito mais poderoso do que o Super-Homem e tal. Mas não move uma palha para ajudar suas incontáveis igrejas aqui na Terra. Ele, que tudo controla, não se dá nem ao trabalho de desviar os raios das suas edificações, que são os seus templos sagrados. E haja para-raios pra espetar nessas igrejas todas!

Pois bem, como Deus é duro, o missionário R.R. Soares não faz cerimônia para pedir ajuda terrena mesmo. São os “patrocinadores”.

— Deus chamou você para ser um patrocinador?

Se sim, se Deus chamou, é só fazer um sinal, que, nessa hora do culto, a igreja fica coalhada de “obreiros” (pelo menos é a terminologia da IURD) com as mãos repletas de boletos do Bradesco. Enquanto o pessoal é, digamos, estimulado a pegar uma fichinha de depósito daquelas, o R.R. Soares sempre apresenta alguma coisa. Ontem ele convidou os que já fazem contribuições regularmente a darem algum “testemunho” (outro termo técnico muito usado) de como Deus estaria “operando” (mais um) nas suas vidas, tipo assim, para motivar futuros patrocinadores, já aproveitando que os boletos estavam ali roçando as caras deles.

O que me chamou à atenção foi logo no primeiro depoimento. Um casal de idosos. Só a mulher falou. E falou sobre o MILAGRE que Deus tinha operado na vida dela e do marido. O missionário ficou muito alegre e pediu para que ela divulgasse o tal milagre. A senhora disse que o marido apresentou um problema muito grave no coração. Foi socorrido a um hospital, onde passou por tratamentos intensivos, medicação constante, atenção médica, exames e tal. No fim do relato, que me deixou certo de que eles dois devem ter um ótimo plano de saúde, a velhinha revelou o milagre:

— Depois de 12 dias no hospital, ele está aqui.

Ok. Eu não posso ser tão burro assim. O “ele”, obviamente, é o marido. O velhinho. A prova do milagre. Quando ela completa “ele está aqui”, está apenas se valendo de um eufemismo, ou seja, ela quis dizer: “ele ainda está vivo”. Isso. Vivo, depois de ter tido um problema grave no coração. Depois dos 12 dias de internação e cuidados médicos especializados. Pois é. Não parece que tá faltando alguma coisa? Eu, pelo menos, não consigo achar onde aquela senhora escondeu o milagre que fez o R.R. Soares pedir palmas para Jesus.

Se alguém puder me explicar… Eu também quero aplaudir.

Amanhã à noite continuo com a parte 4 da série A Insuportável Arrogância do Ser.

Prece para um Condenado

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Estou atrasando a publicação dos textos porque estou de mau humor. E estou de mau humor porque estou adoentado.

Eu estou numa crise de rinite alérgica. Pelo menos eu acho que é isso. Não sei ao certo porque eu raramente procuro ajuda médica e, presumivelmente, seriam eles, os médicos, as pessoas indicadas para dizer se você tem rinite, ou algo do tipo. Como eu detesto hospitais, estou me valendo de um autodiagnóstico que fiz, usando a Internet, e do tratamento que eu mesmo inventei para me livrar dessa crise:

1) paracetamol 750mg

2) lenços de papel

3) dias, de 3 a 5

Aí eu aplico um pouco de neurolinguística. Eu digo para o meu cérebro: “Cérebro, trate de pôr a casa em ordem com isso aí, porque vai ser tudo o que você vai ter.”

Sempre funciona.

Nos últimos 10 anos, por mim mesmo, tive que entrar num hospital 12 vezes. Dez vezes porque preciso fazer um check-up anual obrigatório, por causa do meu trabalho; nas outras 2, entrei pela porta da emergência: cálculo renal. Nada que 3 litros diários de água não resolvam.

Fora isso, tenho uma saúde perfeita. Se bem que, como a medicina está cada vez mais sofisticada, muito mais ainda na área dos diagnósticos, a gente nunca pode dizer que está completamente são. Pague por uma consulta cara numa clínica de renome e duvido que você volte para casa sem uma doença grave.

Mas o que eu quero dizer é que, na última década, estive em hospitais apenas uma dúzia de vezes e, desse total, apenas em duas ocasiões realmente precisei de ajuda médica. Ateu que sou, não preciso pedir a Deus para me livrar de doenças, nem culpo o Diabo pela minha rinite, que não está me deixando sequer digitar direito esse texto. Entretanto, ao longo dessa mesma década, tive que entrar em hospitais muitas outras vezes, para prestar assistência a pessoas muito queridas que sempre rezam a Deus pela própria saúde e, também, pela minha.

Pelo menos Deus parece atender à parte que fala sobre cuidar da minha saúde, mas eu acharia bem mais fácil confiar num Deus que desse prioridade aos seus próprios crentes.

Mas aqui vai ainda um pedido. Fora a rinite alérgica, e como eu jamais vou pagar uma consulta cara para ganhar uma doença, eu tenho uma saúde perfeita. Por isso, por favor, não rezem por mim.

( entre parêntesis )

Por motivo de força maior (não divina, diga-se de passagem), vou publicar a parte [11] só no sábado, abordando um tema que os padres católicos devem conhecer bem: abuso de menores.

Mas vou tratar apenas do abuso intelectual. O abuso sexual, eu deixo para a polícia, porque a Igreja mesmo… essa, quando toma conhecimento de um caso de abuso perpetrado pelos seus sacerdotes, geralmente, ou faz vista grossa, ou tenta proteger…  …  …  …quem? …o padre! Mas, pelo menos, ela ainda faz alguma coisa quando sabe de algo. O Deus onisciente dos cristãos é que não faz nada… Eu, claro, tenho as minhas suspeitas de por que “Ele” não faz nada.

Há um artigo enorme no livro EVERYTHING YOU KNOW ABOUT GOD IS WRONG que traz detalhes obscenos tirados de um processo envolvendo o estado americano da Filadélfia e sua diocese católica, ou algo que o valha, em que você percebe a mão de Deus protegendo os padres pedófilos, pois eles sempre se dão bem. Nojento. Um devoto que lesse aquilo deveria pensar umas cinco vezes antes de colocar na boca a hóstia consagrada pelas mãos de um desses homens santos. E se eu acreditasse na teoria cristã da punição eterna, eu juro que iria ser um excelente católico praticante só para não correr o risco de ir para o Inferno junto com eles, “os homens que ensinam o caminho do Céu”.

E só pra constar e fechar o post de hoje, antes que a bateria do meu Mac se esgote (pois, onde vou passar a noite, não tem onde carregar — a “força” maior mencionada acima), agora há pouco, acabei de injetar minha dose diária de programa religioso e vi que o pastor R.R. Soares tá vendendo de tudo no programa de tevê dele. Misericórdia!!, parece mais a Polishop! O homem tá vendendo de tudo: tevê por assinatura com 37 canais, CDs, série de desenho animado para as crianças, revista, livro, cobrando jabá dos cantores de gospel que vão ao programa… Só falta começar a vender terreno no Céu, como já teve quem vendesse (e já teve quem comprasse!).

Não é à toa que pipocam novas igrejas em cada esquina: é dinheiro líquido e certo. E abençoado!

Se minha carreira pretendida de psicólogo (ou filósofo) não der para pagar minhas contas e bancar minha vida desregrada, eu juro que vou pensar em fundar uma nova igreja.  Já tenho até um nome: ISEUPSMASUD — Igreja Sacerdotal Epistemológica Universal Pentecostal Sentetrional Midiática Anglicana dos Santos dos Últimos Dias.

É: o nome é complicado, mas eu já cheguei à conclusão de que quanto mais você confundir a cabeça do seu rebanho, mais devoto ele será.

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