Ateu e à toa

clique na imagem para visitar o blog: http://www.ateueatoa.com

 

Ateu e à toa” é o nome do excelente blog recém-lançado pelo Fabenrik, que tem como colaborador o Bruno, ambos leitores do DeusILUSÃO.

Sugiro a todos uma visita. Vale muito a pena.

 

“Eu acho que eu vi um gatinho…”

Uma leitora do blog me mandou um e-mail sugerindo a correção da seguinte frase do post “HAGNUS Dei”:

Grande parte dos nossos problemas são criados por nós mesmos.

Segundo ela, a sentença deveria ficar assim:

Grande parte dos nossos problemas é criada por nós mesmos.

Eu agradeço demais a participação da minha linda leitora (que prefere se manter anônima), pois me inspirou a criar a aleta Comunicar erros*, acima, ao lado de Melhores Textos, onde encorajo os leitores do DeusILUSÃO a fazerem o mesmo: apontar erros e sugerir correções, de forma que possa deixar meus textos cada vez mais precisos e agradáveis. Em uma palavra: de fácil leitura! [“Eu acho que eu vi um gatinho…”]

Isso é extremamente útil, porque quando você lê seu próprio texto, não percebe algumas “gafes gráficas” (como palavras que não soam bem juntas, como essas — parece que você tá falando russo), incoerências, dedografias e palavras que foram abduzidas. Sem contar, claro, os benditos erros de ortografia**.

Para todos os outros não há desculpa, mas para as dedografias que escapam de três, quatro revisões, há explicação científica.

Você não lê todo um texto palavra por palavra, bem como não lê todas as palavras letra por letra. Na maior parte do tempo, você lê palavras inteiras e blocos de palavras inteiros de uma vez. Quanto mais fácil for um texto, maior será a tendência de você adivinhar as palavras e os blocos, de forma a tornar a leitura mais rápida e eficiente.

Num texto sobre “limpeza”, por exemplo, você simplesmente “adivinha” grupos de palavras como “sabão em pó”, “água sanitária”, “pano de chão”, sem precisar tê-los lido de fato, pois, pelo contexto, eles são esperados e você os reconhece apenas pelo seu início ou pelos blocos que formam. Quando o cérebro adivinha essas palavras esperadas, ele não as lê, justamente para acelerar o processo de leitura. Se houver um erro de dedografia em um desses blocos adivinhados, não vai ser possível percebê-lo numa leitura corrente normal.

Recentemente, a leitora NáJung me alertou sobre uma frase em que eu escrevi a palavra “texto” como “texo”. Ela copiou e colou a frase no comentário, alertando para que eu corrigisse a palavra escrita erradamente. Mesmo tendo sido alertado de que havia um erro de ortografia na frase transcrita, eu não consegui identificá-lo de imediato, pois estava “lendo” a palavra “texo” como “texto” normalmente.

Daí a utilidade de ter seus textos corrigdios por outra pessoa: foi o seu cérebor que escreveu o texto, portatno ele sabe o que está lá. Não vai “ler” quase nada.

Percebeu todos os três erros ortográficos do parágarfo acima? Se sim, foi porque você já estava alertado, inconscientemente, para o tema.

E percebeu o erro na palavra parágrafo acima?

Bom, mas tendo mencionado a criação da aleta Comunicar erros, tendo justificado sua importância e agradecido à leitora anônima, resta dizer que, na frase que foi motivo do comentário dela, ocorre o que se chama de Silepse de número: em vez de concordar com o núcleo do sujeito (parte), que está no singular, todo o predicado vai para o plural por força semântica do complemento do núcleo (dos nossos problemas), uma vez que é “problemas” [e aqui vai uma Zeugma, de brinde — ou é uma Elipse? (misericórdia!!!)], enfim, é a palavra “problemas” que exerce uma posição mais forte de núcleo do sujeito, mesmo sendo só complemento.

** Esta aleta foi removida.

** Eu, particularmente, já estou escrevendo dentro das novas regras ortográficas, pelas quais se escrevem para-raios, frequente, antirreligioso, autoajuda, creem, etc. Portanto, quando analisando meus erros,  queiram se ater à nova ortografia do português.

“HAGNUS” Dei

Desonestidade.  Não fosse ela, não haveria nenhum Deus no Céu.

O leitor HAGNUS fez, recentemente, um comentário que demonstra exatamente isso: como a desonestidade é indispensável para ser crente em um deus:

“Algo que percebi é que eles [os ateus] podem não crer, mas têm sede da verdade, e se têm sede da verdade… TÊM SEDE DE DEUS!”

O crente no deus judaico-cristão tem internalizado um axioma, um postulado pelo qual Deus é A Verdade. Mas qual verdade? Que argumentos poderiam sustentar essa afirmação? Um Deus cuja moral nem mesmo se assemelha à nossa; um Deus mesquinho e sádico; um Deus que tem dúvida, que se arrepende, que é perfeito e não faz nada que preste, segundo sua própria opinião; um Deus assim é sinônimo de verdade por quê?

“Percebi também que em meus 16 anos de fé passei por muitas aflições! Em muitas delas cheguei até estar por um fio! Imagine aquela situação onde o cristão diz:

– E agora, Senhor? Será que pela primeira vez vou fracassar?

E o ateu diz:

– E agora, minha capacidade de superação? E agora, meu salário, meus amigos? Será que mais uma vez vou fracassar?”

O HAGNUS vive num mundo onde o crente, por causa do seu Deus, nunca fracassa (“Será que pela primeira vez…”) e o ateu, que só conta com sua capacidade de superação, seu salário e seus amigos, não faz outra coisa além disso (“Será que mais uma vez…”). Esse é o mundo em que o crente vive: um mundo onde a desonestidade é uma doença contagiosa; um mundo em que o que se escreve para exaltar Deus, ou para justificá-lo, passa a ser visto como verdade absoluta, sem que ninguém se lembre de pedir dados que fundamentem o que foi dito.

“E aí Deus entra em cena e diz para o cristão: ‘Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça’. (Isaías 41:10)”

A desonestidade em catar na Bíblia os versículos certos para sustentar a vantagem da fé, e fechar os olhos a todos os outros que depõem contra ela.

“‘28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. 29 Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. 30 Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve’. (Mateus 11)”

A desonestidade autoimposta e replicada, pela qual o universo é regido por palavras escritas num papel antigo; a desonestidade de pensar que fé é crer naquilo que é, quando é apenas crer naquilo que se quer que seja.

“E  quando a capacidade própria do Ateu, o salário do Ateu, os amigos e todos os recurso humanos que ele possui acabam se esgotando, deixando ele desiludido e desamparado, a única coisa que pode dizer é apenas o tal de: Fudeu!”

Mesmo não estando sob a proteção de um Deus Todo-Poderoso, eu nunca estive “por um fio” como o Sr. HAGNUS, mas já me senti desiludido e desamparado. Como todo mundo se sente às vezes. Pelo menos, cada vez que disse “Fudeu” valeu como lição e eu aprendi algumas coisas:

1) Enxergar nos problemas a dimensão que eles realmente têm.

2) Todo problema tem uma solução. Quando se está diante de algo que não tem uma solução, a gente deve lembrar de não perder tempo procurando uma, e tratar de se conformar do melhor jeito que encontrar.

3) Muitas vezes, quando não conseguimos resolver um problema, o tempo se encarrega de resolvê-lo por nós.

4) Grande parte dos nossos problemas são criados por nós mesmos.

5) Muitas das nossas frustrações advêm do fato de não nos aceitarmos como somos e querermos fazer com que os outros nos aceitem e nos vejam como não somos.

A honestidade é uma virtude; ser desonesto consigo mesmo é uma fonte inesgotável de sofrimento.

Eu sou ateu; vivo num universo que não foi desenhado para mim, mas com a enorme vantagem de ser um universo em que eu assumo meus próprios erros. E pago por eles.

Eu não aceito (nem jamais aceitaria) que o sangue de ninguém seja derramado por nada que eu tenha feito. Muito menos por algo que eu NÃO tenha feito.

O cristão vê isso como uma das mais belas referências à sua fé. Eu só consigo enxergar uma prova irrefutável de extrema desonestidade.


o cordeiro de Deus

Blog é processado por freira

clique na imagem para mais informações sobre o caso

O autor do blog Liberdade Digital, Emílio Moreno, foi condenado a pagar 16 mil e 600 reais de indenização a uma freira que o processou porque alguém escreveu um comentário no blog dele, direcionado a ela, que ela considerou ofensivo.

A partir desta data, quem se sentir ofendido por qualquer comentário que seja publicado no DeusILUSÃO, direcionado diretamente à sua pessoa, deverá acessar a aleta Alguém te ofendeu? acima do nome do blog, deixando a cópia do texto considerado ofensivo, o link para o post onde ele aparece e a identificação do autor, se houver.

Queria aproveitar a oportunidade para me inteirar se haveria entre os leitores alguém versado nas leis brasileiras que pudesse me responder o seguinte questionamento:

Eu poderia ser processado se xingasse Deus de “filho da puta” ou se dissesse que acho que Jesus Cristo era gay?

Quero dizer, algum religioso que se sentisse ofendido por tabela, por causa da sua crença, poderia me processar, ou a doutrina entende que Deus é quem deve acertar as contas comigo pessoalmente?


As pérolas, os porcos, e a 5ª edição do Universo.

O Sabino é português, autor do blog A Lógica do Sabino. Um conterrâneo dele, o Mats, autor do blog Darwinismo, discutindo comigo sobre moral, argumentou certa vez que, se não fosse pelo Deus cristão, os seres humanos poderiam até torturar bebês, que ninguém veria problema algum, pois não haveria um padrão absoluto de moral que nos dissesse que torturar bebês seria certo ou errado. Aproveitei o tema e escrevi alguns textos sobre o assunto: A Moral de Deus?, A Moral Flutuante de Deus, e A Sociedade Torturadora de Bebês.

Pedi ao Sabino para me explicar o que ele chama de moral absoluta de Deus, mas ele achou melhor tecer comentários sobre a minha pouca inteligência, e lançar o argumento duvidoso de que o Velho Testamento talvez não seja tão sagrado assim, visto que o cristão baseia sua vida pela Nova Aliança com Jesus Cristo. Duvido que esse argumento “pegue”, pois os crentes, via de regra, consideram toda a Bíblia como sendo a palavra viva do seu Deus. Não bastasse isso, eles são rebanhos conduzidos por pastores que precisam de muito dinheiro para guiá-los até o Céu, e o versículo que fala sobre o dízimo está no livro de Malaquias, o último do Velho Testamento.

O Mats é um crente que quer explicar ao mundo o absurdo que é a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies. O blog do Mats, Darwinismo, preocupa-se quase que exclusivamente em lançar dúvida sobre a veracidade do Evolucionismo. Talvez ele tenha achado mais fácil fazer isso do que encontrar coisas que provem a veracidade do Criacionismo.

Sendo um assunto recorrente, o Sabino me lançou de novo a questão da moral há poucos dias, reafirmando que a moral humana vem de Deus. Ateus seriam, então, seres humanos desprovidos de moral e, segundo o Mats, poderiam até torturar bebês.

Diante disso, pedi ao Sabino para me explicar a moral de um Deus que, num momento, tem uma determinada atitude e, uns mil anos depois, muda de ideia e até se contradiz. Se a moral humana muda e ela vem de Deus, então a moral de Deus muda? Se, hoje, somos contra a escravatura e já fomos a favor é porque, antes, Deus era a favor e, agora, é contra? Se determinados povos cristãos são contra a pena de morte e outros são a favor, é porque Deus está indeciso? Se seguimos um padrão absoluto de moral, e esse padrão vem de Deus, que padrão é esse? Qual a moral de Deus?

Ninguém apareceu com a resposta e, confesso, eu iria passar algumas noites sem dormir se tivesse aparecido. Não porque eu tenha feito perguntas inteligentíssimas, difíceis de serem respondidas, mas porque são perguntas primárias, às quais se poderia responder com dois ou três períodos compostos por coordenação, se houvesse resposta. Se. Mas não há.

Qual é a moral de Deus, que serve de padrão absoluto de moral para toda a humanidade? O Sabino, um crente inteligentíssimo, versado nos livros santos, não me respondeu. E quando um crente não dá uma resposta, geralmente, é porque ele considera que quem pergunta é insignificante demais para merecer uma, ou porque é intelectualmente incapaz de compreendê-la. É a velha desculpa das pérolas jogadas aos porcos.

Para continuarem a enxergar Deus num universo onde não há deus algum, depois da fé, é justamente a isso que eles mais recorrem para continuarem sonhando: desculpas.



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A seguir, respostas minhas a comentários dos leitores (em azul):

“Ateus como ele e como o Barros nem sequer conhecem aquilo que atacam. Eles usam aquilo que o Judaísmo crê para refutar o Cristianismo.”

Será que alguém se importaria em me explicar por que os Judeus não torturam seus bebês?

“Só  o Barros e companhia é que ainda não perceberam que os seus argumentos-palha não afectam o Cristianismo em nada.”

Eu jamais pensaria algo tão tolo. Eu pretendo afetar apenas as pessoas ao meu alcance na esperança de que pelo menos uma delas, que também concorde comigo, afete alguém ao seu alcance e assim, um dia, as pessoas nasçam num mundo onde a religião vai ser apenas mais um clube social, não um passaporte para uma vida numa outra dimensão.

“Ateus pensantes por aqui é raro.”

Mas uma pessoa ateia se tornou ateia porque, em algum momento da sua vida, rompeu com o sistema infundado de crenças no qual foi criada, e isso só aconteceu porque ela se dispôs a fazer o que os dogmas religiosos, por definição, não permitem que o crente faça: pensar. “Ateu pensante” não é raridade, é pleonasmo.

“No “principio” Deus criou todas as coisas e deu directrizes ao homem para viver de uma forma espectacular,”

A Lei Mosaica dava diretrizes ao homem para viver de uma forma espetacular?!!! Matando a pedradas quem descumprisse um sem-número de ordens imbecis como ficar imóvel num dia da semana?

“A Lei Deus deu-a a Moisés para conduzir o povo numa conduta correcta que permitisse a sobrevivência do povo (tanto entre si como entre outros povos),”

Vê que exemplo irretocável de conduta correta e de diplomacia:

“Olha, quem trair o marido, quem for desobediente aos pais, quem não guardar o sábado, quem não me amar mais do que tudo, quem amar alguém do mesmo sexo… que seja apedrejado até à morte!!! E onde houver uma nação da qual eu não seja o Deus único, pode entrar lá e matar todo mundo. Menos as virgens…”

“Ora se a altura certa era só no ano 0, diga-se assim, até lá  Deus preparou um povo para receber o salvador, o povo de Israel,”

Deus criou o Céu e 33,33% dos anjos se rebelaram; criou o Éden e aí já foram 100% os dissidentes; criou a Terra e teve que inundar tudo, recomeçando quase do zero; não deu certo, de novo, e ele desceu aqui para ver se conseguia arrumar as coisas pessoalmente, apresentando-se como o Salvador para o seu povo escolhido. O povo escolhido, entretanto, não comprou a ideia e, aparentemente, esculhambou um trabalho que levou milênios…

Deus, o Todo-Poderoso, Eterno e Perfeito, parece que precisa de uma consultoria do SEBRAE, porque, como Criador e Administrador Supremo do Universo, ele não acerta uma!

“Podemos resumir toda a história do universo em 4 palavras: Criação, Queda, Redenção e Restauração. Algures entre a queda e a redenção teve de aparecer a lei, mas o objectivo não era a lei, era a redenção e futuramente a restauração. Espero ter sido claro…”

Sim, você foi claro, meu amigo:

Deus vai tentar de novo!


A moral flutuante de Deus

Mulher iraniana sendo preparada para o apedrejamento pelo terrível crime de trair o marido. Se você é religioso(a) e acha isso um absurdo, você acaba de discordar de Deus.

“Disse, pois, o Senhor a Moisés: ‘Certamente morrerá aquele homem; toda a congregação o apedrejará fora do arraial.’ Então toda a congregação o tirou para fora do arraial, e o apedrejaram, e morreu, como o Senhor ordenara a Moisés.” (Números 15:32-36)

E o catador de lenha que, talvez, estava apenas querendo fazer o almoço da família não voltou para casa, porque foi executado por não cumprir a lei de Deus: “guardar” o sábado para o descanso. Deus, segundo sua moral, determinou que o homem fosse apedrejado, assim como também mandava apedrejar as adúlteras.

O Sabino, autor do blog português A Lógica do Sabino, argumentou que a moral humana vem de Deus. Eu me comprometi a ceder um espaço aqui no DeusILUSÃO para que ele me explicasse o motivo da moral dele, Sabino, que se recusaria a apedrejar quem quer que fosse, ser diferente da moral do Todo-Poderoso.

Como bom religioso que é, ele quis desconversar alegando que não vive mais sob a Lei Mosaica, mas sim sob a Graça de Jesus Cristo, que, para quem não lembra, é o mesmo que mandou apedrejar o meliante que estava juntando lenha para fazer o almoço.

Sabino, meu nobre, eu não sou uma pessoa religiosa: ninguém me escreveu um livro que contém tudo o que eu preciso saber para essa vida e para uma próxima. Por isso eu preciso de respostas bem mais elaboradas… e a sua não explicou nada. Se você vive sob a Graça de Jesus Cristo (?) ou sob a Lei Mosaica (!!!) é o que menos importa. Eu queria saber por que você não mataria a pedradas a moça do caixa do McDonald’s que estivesse trabalhando numa tarde de sábado, ou uma mulher que tivesse traído seu digníssimo esposo.

Se a sua moral vem de Deus e é essa a moral dele, o que te leva a pensar que você entrará no Paraíso mesmo discordando do cara que dita as regras? Ou por que você acha que a moral de um ser eterno e perfeito mudou em apenas alguns milênios?

Estou, temporariamente, afastado do meu dicionário Houaiss. Por isso peguei a definição de “moral” de dicionários online:


Michaellis

1 Relativo à moralidade, aos bons costumes. 2 Que procede conforme à honestidade e à justiça, que tem bons costumes.

iDicionário Aulete

1 Conjunto de regras de conduta, inerente ao espírito humano, aplicáveis de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, ou a grupo ou pessoa determinada, proveniente dos estudos filosóficos sobre a moral. 2 Conjunto de regras e princípios de decência que orientam a conduta dos indivíduos de um grupo social ou sociedade.


E, aproveitando que o Sabino vai explicar essa questão, eu pediria para que ele enfeitasse ainda mais o seu texto apresentando o seu argumento para justificar o episódio bíblico em que Jesus salva Maria Madalena da execução imposta pela Lei Mosaica. Eu, particularmente, acho estranho o fato dele não ter feito a mesma coisa com o pobre do catador de lenha: “Que atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecados”. E o cara teria voltado para casa.

O trecho abaixo foi extraído do post Jesus, o Charlatão.

“A ATITUDE DE Jesus para com as mulheres é, no geral, ambígua ao extremo. Às vezes ele as trata sob o rigor da lei mosaica. Noutras, está do lado delas. Sexismo da sua parte não pode ser aceitável, uma vez que ele, supostamente, veio à Terra como exemplo de moral para todo o tempo ainda por vir, e o preconceito que era comum no tratamento com as mulheres durante a época em que ele viveu como ser humano não deveria tê-lo influenciado a ponto de fazê-lo conivente com ele. Embora tal tratamento pudesse ter sido o costume daquela época, o modelo de comportamento de Jesus deveria, seguramente, ter sido atemporal.”

Um Deus cuja moral sustenta leis que mandam apedrejar uma mulher até à morte por ter sido pega fazendo sexo com outro que não o marido, ou por ter sido pega fazendo sexo com outro sem ser casada, e, depois de alguns milênios, isenta uma determinada mulher de sofrer a punição que ele mesmo impôs e chancelou, não pode ser um Deus confiável.

Inda mais quando se suspeita que o que são para nós mil anos, para ele passa num piscar de olhos.


A sociedade torturadora de bebês (fim)

“Profecia sabínica: O ateu Barros vai, mais uma vez, mostrar a incoerência com a sua cosmovisão do mundo, ao afirmar que a moral é construída pela sociedade.”

O Sabino acha que a moral humana vem de Deus. As coisas nos parecem certas ou erradas porque Deus nos inspira a vê-las como ele as vê. O problema, parece, é que Deus é um tanto quanto… digamos… volúvel.

Houve um tempo em que o trabalho no sábado era punido com a morte, com a conivência divina. Depois, o Deus-Filho (já reparou que o Deus-Espírito-Santo é o mais moita da Trindade?) vem com essa: “O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado”, e ninguém mais precisa ser apedrejado.

Deus também era escravocrata, visto que o seu povo escolhido via a escravatura como uma coisa aceitável e necessária: os escravos dos judeus trabalhavam no sábado, fazendo o serviço que os judeus não podiam fazer por causa da Lei Mosaica [Ninguém pensava em apedrejar os escravos? (Pra mim, doido só é doido se rasgar dinheiro…)]. Deus deve ter mudado de opinião de novo, porque ninguém mais no mundo civilizado considera a escravidão algo moralmente aceito. Deus ordenava, também, a morte dos não crentes, ou dos que tentassem desviar um crente do caminho da fé, para adorar outro deus. Hoje ele é mais tolerante. E por aí vai…

E aí aparece o Mats e me diz que, se não fosse Deus estar servindo para nós como um padrão de moral a ser seguido, nós seríamos capazes até de torturar bebês.

Tudo bem. Imagine uma sociedade que, por não “receber a moral” do Deus do Sabino e do Mats, passasse a torturar os seus bebês. Por diversão, ou em algum ritual maluco. Imaginou? Que aparência teriam os membros dessa sociedade? Eu gostaria muito de saber, pois não seriam humanos.

Nós somos o que somos e chegamos aonde chegamos justamente por mantermos certas atitudes ao longo de incontáveis gerações. Proteger, alimentar e amar nossos bebês é apenas uma delas. Se existiu um grupo de hominídeos que não prestava esse tipo de atenção e cuidado às suas crias, ou que as torturava, certamente teve uma taxa de mortalidade infantil que levou essa sociedade à extinção, porque não existe tal coisa entre nós.

Do mesmo modo, uma sociedade que não visse nada de errado em um membro matar outro teria sido extinta. Não é uma imbecilidade pensar que, só depois que Moisés desceu do Monte Sinai com os Dez Mandamentos, as pessoas passaram a considerar o assassinato um ato condenável?


— Caraca!! Lê isso aqui: “Não matarás”…

— Nossa! Que onda, maluco! Não devemos matar…

— Então!!! Miniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiino, nem te conto! Tu escapou fedendo, porque eu ia te arregaçar hoje… Tu ia pra vala!

— Sério?! Ha-ha-ha… E eu que tava pensando em matar minha mãe! Sei lá, tipo, hoje é terça-feira… eu tava sem muita coisa pra fazer… Mas não! Seria pecado. Não vamos desagradar a Deus…


A moral é ditada pelas sociedades sim. É o conjunto de pessoas que vivem em sociedade que determina o que é certo e o que é errado; quem tem razão e quem não tem. E isso é lapidado ao longo do tempo e varia de uma sociedade para outra, de forma que a escravatura, por exemplo, é vista, hoje, como imoral (=contrária à moral), mas já foi moralmente aceita, bem como era aceito (e até bem aceito) o relacionamento homossexual na Grécia antiga, que não era sequer tolerado no nosso país e hoje já passou a ser.

Os chineses adoram carne de cachorro e de gato, e os criam para o abate assim como nós criamos galinhas. Matar um cachorrinho para comê-lo é tão bizarro para nós como deve ser bizarro, para os indianos, o que fazemos com as nossas vacas.

Se eu fizer sexo com uma moça de 14 anos, mesmo com o consentimento dela, estarei cometendo estupro, segundo a lei do meu país. E as leis de um povo são feitas por legisladores que refletem a moral da sociedade como um todo. Já em certas tribos, indiazinhas de 8 anos podem fazer sexo naturalmente com os membros mais velhos da aldeia; em outras, os filhos são iniciados na vida sexual pelos próprios pais; no mundo islâmico, uma menina pode ser dada em casamento a partir dos 9 anos, idade que tinha uma das esposas de Maomé… Quem vai dizer o que está certo e o que está errado nisso tudo? Deus? Não. É a sociedade de cada um.

Deus, mesmo se existisse, não poderia ser considerado um padrão confiável, pois não mantém seu ponto de vista. Cria a humanidade e se arrepende de tê-la criado (Gênesis, 6:6). Decide exterminar todo mundo e se arrepende de ter tomado essa decisão (Gênesis, 8:21). Cria leis que ele mesmo diz que não se deve seguir (o descanso sabático: Deus manda matar a pedradas quem trabalha no sábado e, depois, como Jesus, diz que as coisas não são bem assim…). Se os crentes chamam isso de padrão, eu queria saber o que eles considerariam “falta de padrão”.

Cada sociedade é que determina o que é moral e o que é imoral. Mas existe uma “moral comum”, a que nos impediu de nos autoaniquilarmos como espécie. A moral intrínseca à humanidade, como respeitar a vida, a família e a propriedade do outro. Se alguma vez existiu uma sociedade que considerava moralmente aceito matar outro indivíduo, ou torturar bebês, foi extinta, levando consigo seu senso de moral inviável. Tão inviável que não restou nenhum deles para contar a história.

Essa moral comum que conhecemos hoje como humanidade é a que “deu certo”, a que permitiu que continuássemos existindo.

Deus, como sempre, só apareceu bem depois.



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