Por que se acredita no inacreditável

Há trinta anos o psicólogo americano Michael Shermer se dedica a combater superstições. Ele criou uma ONG, uma revista (Skeptic Magazine), sites e programas de TV focados em promover o pensamento científico e desmascarar charlatões. Shermer, que chega ao Brasil no fim deste mês para uma série de palestras, é autor de quinze livros. O último, Cérebro e Crença, foi lançado em português na semana passada. Nesta entrevista, ele diz que a tendência de se iludir com fantasias é própria do processo mental humano e defende o combate à crendice em favor do progresso.

Por que as pessoas acreditam no inacreditável?

A evolução fez do cérebro uma espécie de máquina de reconhecimento de padrões na natureza. Às vezes, esses padrões são reais, mas na maioria dos casos são fruto da imaginação. Milhões de anos no passado, ao ouvir um barulho vindo da mata, um hominídeo poderia supor que se tratava de algo inofensivo, como o vento. Se estivesse errado, e fosse um predador, correria o risco de ser devorado. Nosso ancestral poderia, por outro lado, imaginar a presença de uma divindade perigosa no mato e se afastar o mais rápido possível. A segunda opção é a que a maioria adota. Imaginar o perigo e fugir garante a sobrevivência, mas também a ignorância. Ir até o mato verificar do que realmente se trata o barulho exige curiosidade e uma batalha contra os instintos. É nessa categoria, a dos homens que não se rendem a narrativas fictícias, que se encaixa o cientista. Os crentes seguem a trilha inversa, a dos que se contentam com suposições sobrenaturais. É um fenômeno que tem a ver com a química do cérebro: a convicção de que o pensamento mágico é o que basta para a compreensão do universo produz uma sensação de prazer. Ficamos felizes em imaginar que seres místicos, sejam eles deuses ou extraterrestres, se preocupam e cuidam de nós. Não nos sentimos sós.

Como se sabe que o cérebro é propenso a acreditar no fantástico?

A neurociência identifica padrões de ondas cerebrais distintos que nos levam a criar crendices e a ter prazer na constatação de que temos respostas às nossas dúvidas. Em situações extremas, como as enfrentadas por quem está no limite da resistência física ou próximo à morte, o cérebro reage com a redução da atividade na área responsável pela consciência e o aumento em regiões ligadas à imaginação. Essa reação natural está na origem das alucinações. Não há mistério nesse processo. Os cientistas são capazes de produzir visões ou a sensação de transcendência espiritual com o estímulo artificial de certas áreas do cérebro.

O senhor foi um cristão evangélico ativo no esforço de atrair fiéis para sua igreja. Como se tornou um cético?

Somos mais abertos à religião na juventude e na velhice. Naturalmente, no fim da vida é comum procurar por conceitos reconfortantes, ainda que irreais. No meu caso, o apelo da crendice me atingiu na juventude, como uma explicação fácil para tudo o que existe. A religião tem um apelo social enorme. O ambiente alentador de uma comunidade ajuda a afastar as dúvidas até daqueles que não acreditam plenamente no sobrenatural e nos dogmas religiosos. Desvencilhei-me da crença ao entrar para a comunidade científica. O método científico, cujo princípio básico é o de que qualquer afirmação deve ser comprovada em experimentos repetidos, alimenta o ceticismo e favorece o progresso.

O que faz com que a ciência seja a melhor ferramenta para explicar o mundo?

A ciência é democrática. Qualquer um pode estudar e chegar a conclusões racionais. Cientistas estão abertos à possibilidade de estarem errados e, por isso, promovem a invenção e a reinvenção de conceitos. É o que garante o avanço do conhecimento. A crendice é intolerante. Fixa uma verdade e não abre espaço para perguntas. Se nos apegássemos apenas ao sobrenatural, nunca teríamos saído da floresta e criado a civilização.

No mundo moderno, ainda precisamos da crença?

É impossível deixar de crer. A ciência também depende da nossa capacidade de elaborar crenças. Qualquer experimento nasce com uma premissa baseada no que se acredita ser verdade. Ideologias também precisam da habilidade de crer. Eu acredito no liberalismo, na democracia e nos direitos humanos. Podemos, porém, abandonar o que não pode ser explicado, como deuses e bruxos. Não nos faria falta.

Há vantagens na crença?

A evolução nos concedeu a habilidade de acreditar por boas razões. A crença em divindades nos levou a temer o mundo e, com isso, nos ajudou a sobreviver nele. Também contribuiu para a formulação de leis que regiam comunidades primitivas. A moral e a ética nasceram na religião.

Se a ética tem origem religiosa, por que ela prevalece na sociedade laica?

As igrejas se tornaram um fator de corrupção, motivo de guerras e perseguições. Por sorte, presenciamos o declínio da crença no sobrenatural. Países do norte europeu, onde apenas um quarto da população segue alguma religião, têm índices de criminalidade, suicídio e doenças sexualmente transmissíveis inferiores aos de estados em que a maioria dos habitantes é de crentes, como os Estados Unidos e o Brasil. Se a religião se declara um bastião da bondade, por que, historicamente, estados teocráticos são mais suscetíveis à criminalidade do que os seculares?

Apesar de vivermos na era da ciência, cresce a crença no sobrenatural. Por quê?

É verdade que vivemos num mundo em que a ciência faz parte do dia a dia. todos gostam de iPhones e admiram as naves que pousam em Marte. Mas poucos abdicam de crenças sobrenaturais e aceitam a ciência como ferramenta para explicar o universo. A maioria só quer aproveitar os produtos da ciência. Quando se trata de responder a dúvidas primordiais, como a origem do universo ou o sentido da existência, preferem explicações irreais, mas convincentes em suas narrativas fictícias.

Por que o senhor se dá ao trabalho de combater a superstição?

Sempre me perguntam por que não deixo os crentes em paz. Ocorre que a crença no sobrenatural não é inócua. Ao contrário, é bastante perigosa. Acreditar  na dita medicina alternativa é um exemplo. Muita gente morre por substituir o tratamento médico sério por procedimentos supersticiosos, como o consumo de ervas com propriedades supostamente milagrosas.

Não é possível provar a existência de divindades e criaturas fantásticas. O senhor concorda que também é difícil provar que não existem?

O fato de não explicarmos um mistério não significa que ele exija explicações sobrenaturais. Só mostra que ainda não há resposta. O ônus da prova cabe aos crentes. O cético só crê no que é provado. Nesse aspecto, a ciência tem feito bom trabalho ao desmascarar mitos. No passado, já se acreditou que a Terra viajava pelo cosmo no lombo de um elefante. Existem 10.000 religiões. Espanta-me a arrogância de quem supõe que só uma crença seja correta em meio a tantas.

O senhor leva em consideração que pode estar errado?

Assim como todos, só descobrirei a resposta quando morrer. Como cientista, estou aberto à possibilidade de ter me enganado. Se houver um ou vários deuses, ficarei surpreso. Mas não tenho medo. Se há um Deus, ele me deu um cérebro para pensar. Meu pecado seria usá-lo para raciocinar e buscar explicações? Um ser benevolente não me puniria por utilizar bem as armas que me concedeu.

 

Fonte: Revista Veja, edição 2283, páginas 84 e 85.

Abaixo, link para outra entrevista intitulada “O risco da crendice”:

http://veja.abril.com.br/090102/entrevista.html

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Religião e Longevidade [Republicação]

Essa semana, as páginas amarelas da revista Veja trouxeram uma entrevista com um psiquiatra americano, autor de 40 livros que relacionam crença religiosa com saúde, o professor Harold Koenig. Sua apresentação pela jornalista que o entrevistou não poderia ser mais instigante: “nasceu em uma família católica, mas hoje, por influência da mulher, frequenta a igreja protestante”.

Selecionei alguns trechos para comentar, porque eu tenho mesmo uma certa antipatia por pessoas “influenciáveis”, e gosto de externar essa antipatia, mesmo que não possa ser diretamente para a fonte dela.

Perguntado como havia chegado à conclusão de que a religiosidade aumenta a sobrevida das pessoas em até 29%, ele respondeu que “Há uma relação significativa entre frequência da prática religiosa e longevidade. Acredito que o impacto na sobrevida seja até maior, algo em torno de 35%”.

“Acredita”? Aparentemente as conclusões do entrevistado não são baseadas em pesquisas científicas sérias, como a que divulguei no texto O Falso Poder da Oração. Quando você “faz ciência”, você não “acredita” nos dados obtidos: você os calcula.

Outra coisa, na mesma resposta, ele afirmou que “tanto os mandamentos religiosos quanto a vida em comunidade estimulam a boa saúde”. Eu gostaria que ele tivesse dito exatamente a que mandamento(s) ele estaria se referindo. Quando à vida em comunidade, divulguei também outro estudo a respeito em Eis o Mistério da Fé.

Mais à frente na entrevista, ele diz que:

As crenças religiosas precisam influenciar sua vida para que elas influenciem também sua saúde.

Quanto mais uma pessoa fosse influenciada pela sua religião, mais ela deveria acreditar que sua fé seria suficiente para manter sua saúde, ou lhe curar de doenças, e menos procurar assistência médica especializada. Isso não faz parte do mundo em que eu vivo. No mundo em que eu vivo, as pessoas religiosas vão dar depoimentos chorosos em programas de tevê com pilhas de papéis de exames clínicos na mão, que mostram como Deus as curou, através dos seus respectivos planos de saúde…

Quando a entrevistadora quis saber se havia alguma evidência que mostrasse se uma determinada religião teria mais efeitos positivos do que outra, quando se considerava os fatores saúde e longevidade, ele disse que não havia “estudos confiáveis” sobre o tema, e ainda veio com essa:

Um credo cujos benefícios são óbvios no Brasil pode não ter o mesmo efeito positivo sobre as pessoas nos países árabes.

Donde se infere o motivo que o levou a mudar para a religião da esposa: não é o sistema de crenças que importa, mas o fato de você estar “conectado” ao mesmo sistema de crenças das pessoas que o cercam. Não é à toa que sociedades diferentes, em épocas diferentes, inventaram deuses diferentes…

O senhor diz que quem vê Deus como uma entidade distante e punitiva tem menos benefícios para a saúde do que quem o vê como um ser compreensivo e que perdoa. Por quê?

A religião pode virar uma fonte de stress se aumentar o sentimento de culpa ou gerar um mal-estar na pessoa (…). Por isso, acho que faz bastante diferença acreditar em um Deus amoroso e misericordioso.

Donde se conclui que Deus é aquilo que você quer que ele seja.

Falando sobre o comportamento de pacientes em estado terminal, ele diz que aqueles que são religiosos “toleram melhor o processo da morte. Eles acreditam que não é o fim e, por isso, não ficam tão ansiosos. Sabem que vão para um lugar melhor”.

Não, eles não sabem, porque não há como “saber”. Eles têm fé; eles acreditam; eles esperam que seja como sua crença sempre lhes disse que será. E uma coisa que Richard Dawkins disse e que nunca me saiu da cabeça foi que, se esse pensamento tivesse um mínimo fundo de verdade, um mínimo de vínculo com a realidade à nossa volta, seria fácil descobrir, num velório, quais dos presentes seriam ateus e quais seriam os crentes.

Quando a jornalista quis saber o que ele pensava de ateus e agnósticos, o crente que havia nele não aguentou mais ficar escondido por trás do escritor, do professor, do pesquisador, e se revelou em toda sua idiotice:

Apenas uma fração do mundo pode ser explicada pela ciência.

Claro, em tudo mais, você enfia o seu Deus e resolve o problema.

Noventa por cento da população mundial acredita em Deus e, se você faz parte dos 10% que não creem ou não têm certeza, ao menos mantenha a mente aberta.

Eu acho que alguém deve ter dito isso para o primeiro grego que começou a desconfiar que a Terra era redonda. E incrível como o fato de 100% das pessoas não concordar com ele não foi suficiente para mudar a forma do nosso planeta.

Mantenha sua mente aberta pra isso também. 

Cabaré processa igreja

 No Ceará, cabaré processa Igreja Universal

Em Aquiraz, no Ceará, dona Tarcília Bezerra construiu uma expansão de seu cabaré, cujas atividades estavam em constante crescimento após a criação de seguro desemprego para pescadores e vários outros tipos de bolsas.

Em resposta, a Igreja Universal local iniciou uma forte campanha para bloquear a expansão, com sessões de oração em sua igreja, de manhã e à noite. O trabalho de ampliação e reforma progredia célere até uma semana antes da inauguração, quando um raio atingiu o cabaré queimando as instalações elétricas e provocando um incêndio que destruiu o telhado e grande parte da construção.

Após a destruição do cabaré, o pastor e os crentes da igreja passaram a se gabar “do grande poder da oração”. Então, Tarcília processou a igreja, o pastor e toda a congregação, com o fundamento de que eles “foram os responsáveis pelo fim de seu prédio e de seu negócio, utilizando-se da intervenção divina, direta ou indireta”.

Na sua resposta à ação judicial, a igreja, veementemente, negou toda e qualquer responsa-bilidade ou qualquer ligação com o fim do edifício. O juiz a quem o processo foi submetido leu a reclamação da autora e a resposta dos réus, e, na audiência aberta, comentou:

“Eu não sei como vou decidir neste caso, mas uma coisa está presente nos autos. Temos aqui uma proprietária de cabaré que firmemente acredita no poder das orações, e uma igreja inteira declarando que as orações não valem nada!”

Fonte: http://www.gibanet.com/2013/05/01/a-fe-do-cabare-e-a-incredulidade-da-igreja/

JESUS – a verdade por trás do mito

 

O ARQUIVO PARA “BAIXAR” (Não é bom nem falar aquela outra palavra, em inglês…) A REVISTA ESTEVE DISPONÍVEL POR TRÊS DIAS AQUI NO BLOG. MAIS TEMPO DO QUE JESUS FICOU SEPULTADO.

MAS TIVE QUE REMOVER TODOS OS LINKS PARA SITES DE HOSPEDAGEM DE MATERIAL PROTEGIDO POR DIREITO AUTORAL, POR DETERMINAÇÃO DO WORDPRESS.

CASO CONTRÁRIO O BLOG SERIA DELETADO. RECEBI SÓ UMA SUSPENSÃO DE ALGUMAS HORAS.

Religião e Longevidade

Essa semana, as páginas amarelas da revista Veja trouxeram uma entrevista com um psiquiatra americano, autor de 40 livros que relacionam crença religiosa com saúde, o professor Harold Koenig. Sua apresentação pela jornalista que o entrevistou não poderia ser mais instigante: “nasceu em uma família católica, mas hoje, por influência da mulher, frequenta a igreja protestante”.

Selecionei alguns trechos para comentar, porque eu tenho mesmo uma certa antipatia por pessoas “influenciáveis”, e gosto de externar essa antipatia, mesmo que não possa ser diretamente para a fonte dela.

Perguntado como havia chegado à conclusão de que a religiosidade aumenta a sobrevida das pessoas em até 29%, ele respondeu que “Há uma relação significativa entre frequência da prática religiosa e longevidade. Acredito que o impacto na sobrevida seja até maior, algo em torno de 35%”.

“Acredita”? Aparentemente as conclusões do entrevistado não são baseadas em pesquisas científicas sérias, como a que divulguei no texto O Falso Poder da Oração. Quando você “faz ciência”, você não “acredita” nos dados obtidos: você os calcula.

Outra coisa, na mesma resposta, ele afirmou que “tanto os mandamentos religiosos quanto a vida em comunidade estimulam a boa saúde”. Eu gostaria que ele tivesse dito exatamente a que mandamento(s) ele estaria se referindo. Quando à vida em comunidade, divulguei também outro estudo a respeito em Eis o Mistério da Fé.

Mais à frente na entrevista, ele diz que:

As crenças religiosas precisam influenciar sua vida para que elas influenciem também sua saúde.

Quanto mais uma pessoa fosse influenciada pela sua religião, mais ela deveria acreditar que sua fé seria suficiente para manter sua saúde, ou lhe curar de doenças, e menos procurar assistência médica especializada. Isso não faz parte do mundo em que eu vivo. No mundo em que eu vivo, as pessoas religiosas vão dar depoimentos chorosos em programas de tevê com pilhas de papéis de exames clínicos na mão, que mostram como Deus as curou, através dos seus respectivos planos de saúde…

Quando a entrevistadora quis saber se havia alguma evidência que mostrasse se uma determinada religião teria mais efeitos positivos do que outra, quando se considerava os fatores saúde e longevidade, ele disse que não havia “estudos confiáveis” sobre o tema, e ainda veio com essa:

Um credo cujos benefícios são óbvios no Brasil pode não ter o mesmo efeito positivo sobre as pessoas nos países árabes.

Donde se infere o motivo que o levou a mudar para a religião da esposa: não é o sistema de crenças que importa, mas o fato de você estar “conectado” ao mesmo sistema de crenças das pessoas que o cercam. Não é à toa que sociedades diferentes, em épocas diferentes, inventaram deuses diferentes…

O senhor diz que quem vê Deus como uma entidade distante e punitiva tem menos benefícios para a saúde do que quem o vê como um ser compreensivo e que perdoa. Por quê?

A religião pode virar uma fonte de stress se aumentar o sentimento de culpa ou gerar um mal-estar na pessoa (…). Por isso, acho que faz bastante diferença acreditar em um Deus amoroso e misericordioso.

Donde se conclui que Deus é aquilo que você quer que ele seja.

Falando sobre o comportamento de pacientes em estado terminal, ele diz que aqueles que são religiosos “toleram melhor o processo da morte. Eles acreditam que não é o fim e, por isso, não ficam tão ansiosos. Sabem que vão para um lugar melhor”.

Não, eles não sabem, porque não há como “saber”. Eles têm fé; eles acreditam; eles esperam que seja como sua crença sempre lhes disse que será. E uma coisa que Richard Dawkins disse e que nunca me saiu da cabeça foi que, se esse pensamento tivesse um mínimo fundo de verdade, um mínimo de vínculo com a realidade à nossa volta, seria fácil descobrir, num velório, quais dos presentes seriam ateus e quais seriam os crentes.

Quando a jornalista quis saber o que ele pensava de ateus e agnósticos, o crente que havia nele não aguentou mais ficar escondido por trás do escritor, do professor, do pesquisador, e se revelou em toda sua idiotice:

Apenas uma fração do mundo pode ser explicada pela ciência.

Claro, em tudo mais, você enfia o seu Deus e resolve o problema.

Noventa por cento da população mundial acredita em Deus e, se você faz parte dos 10% que não creem ou não têm certeza, ao menos mantenha a mente aberta.

Eu acho que alguém deve ter dito isso para o primeiro grego que começou a desconfiar que a Terra era redonda. E incrível como o fato de 100% das pessoas não concordar com ele não foi suficiente para mudar a forma do nosso planeta.

Mantenha sua mente aberta pra isso também. 

Por que se acredita no inacreditável

Há trinta anos o psicólogo americano Michael Shermer se dedica a combater superstições. Ele criou uma ONG, uma revista (Skeptic Magazine), sites e programas de TV focados em promover o pensamento científico e desmascarar charlatões. Shermer, que chega ao Brasil no fim deste mês para uma série de palestras, é autor de quinze livros. O último, Cérebro e Crença, foi lançado em português na semana passada. Nesta entrevista, ele diz que a tendência de se iludir com fantasias é própria do processo mental humano e defende o combate à crendice em favor do progresso.

Por que as pessoas acreditam no inacreditável?

A evolução fez do cérebro uma espécie de máquina de reconhecimento de padrões na natureza. Às vezes, esses padrões são reais, mas na maioria dos casos são fruto da imaginação. Milhões de anos no passado, ao ouvir um barulho vindo da mata, um hominídeo poderia supor que se tratava de algo inofensivo, como o vento. Se estivesse errado, e fosse um predador, correria o risco de ser devorado. Nosso ancestral poderia, por outro lado, imaginar a presença de uma divindade perigosa no mato e se afastar o mais rápido possível. A segunda opção é a que a maioria adota. Imaginar o perigo e fugir garante a sobrevivência, mas também a ignorância. Ir até o mato verificar do que realmente se trata o barulho exige curiosidade e uma batalha contra os instintos. É nessa categoria, a dos homens que não se rendem a narrativas fictícias, que se encaixa o cientista. Os crentes seguem a trilha inversa, a dos que se contentam com suposições sobrenaturais. É um fenômeno que tem a ver com a química do cérebro: a convicção de que o pensamento mágico é o que basta para a compreensão do universo produz uma sensação de prazer. Ficamos felizes em imaginar que seres místicos, sejam eles deuses ou extraterrestres, se preocupam e cuidam de nós. Não nos sentimos sós.

Como se sabe que o cérebro é propenso a acreditar no fantástico?

A neurociência identifica padrões de ondas cerebrais distintos que nos levam a criar crendices e a ter prazer na constatação de que temos respostas às nossas dúvidas. Em situações extremas, como as enfrentadas por quem está no limite da resistência física ou próximo à morte, o cérebro reage com a redução da atividade na área responsável pela consciência e o aumento em regiões ligadas à imaginação. Essa reação natural está na origem das alucinações. Não há mistério nesse processo. Os cientistas são capazes de produzir visões ou a sensação de transcendência espiritual com o estímulo artificial de certas áreas do cérebro.

O senhor foi um cristão evangélico ativo no esforço de atrair fiéis para sua igreja. Como se tornou um cético?

Somos mais abertos à religião na juventude e na velhice. Naturalmente, no fim da vida é comum procurar por conceitos reconfortantes, ainda que irreais. No meu caso, o apelo da crendice me atingiu na juventude, como uma explicação fácil para tudo o que existe. A religião tem um apelo social enorme. O ambiente alentador de uma comunidade ajuda a afastar as dúvidas até daqueles que não acreditam plenamente no sobrenatural e nos dogmas religiosos. Desvencilhei-me da crença ao entrar para a comunidade científica. O método científico, cujo princípio básico é o de que qualquer afirmação deve ser comprovada em experimentos repetidos, alimenta o ceticismo e favorece o progresso.

O que faz com que a ciência seja a melhor ferramenta para explicar o mundo?

A ciência é democrática. Qualquer um pode estudar e chegar a conclusões racionais. Cientistas estão abertos à possibilidade de estarem errados e, por isso, promovem a invenção e a reinvenção de conceitos. É o que garante o avanço do conhecimento. A crendice é intolerante. Fixa uma verdade e não abre espaço para perguntas. Se nos apegássemos apenas ao sobrenatural, nunca teríamos saído da floresta e criado a civilização.

No mundo moderno, ainda precisamos da crença?

É impossível deixar de crer. A ciência também depende da nossa capacidade de elaborar crenças. Qualquer experimento nasce com uma premissa baseada no que se acredita ser verdade. Ideologias também precisam da habilidade de crer. Eu acredito no liberalismo, na democracia e nos direitos humanos. Podemos, porém, abandonar o que não pode ser explicado, como deuses e bruxos. Não nos faria falta.

Há vantagens na crença?

A evolução nos concedeu a habilidade de acreditar por boas razões. A crença em divindades nos levou a temer o mundo e, com isso, nos ajudou a sobreviver nele. Também contribuiu para a formulação de leis que regiam comunidades primitivas. A moral e a ética nasceram na religião.

Se a ética tem origem religiosa, por que ela prevalece na sociedade laica?

As igrejas se tornaram um fator de corrupção, motivo de guerras e perseguições. Por sorte, presenciamos o declínio da crença no sobrenatural. Países do norte europeu, onde apenas um quarto da população segue alguma religião, têm índices de criminalidade, suicídio e doenças sexualmente transmissíveis inferiores aos de estados em que a maioria dos habitantes é de crentes, como os Estados Unidos e o Brasil. Se a religião se declara um bastião da bondade, por que, historicamente, estados teocráticos são mais suscetíveis à criminalidade do que os seculares?

Apesar de vivermos na era da ciência, cresce a crença no sobrenatural. Por quê?

É verdade que vivemos num mundo em que a ciência faz parte do dia a dia. todos gostam de iPhones e admiram as naves que pousam em Marte. Mas poucos abdicam de crenças sobrenaturais e aceitam a ciência como ferramenta para explicar o universo. A maioria só quer aproveitar os produtos da ciência. Quando se trata de responder a dúvidas primordiais, como a origem do universo ou o sentido da existência, preferem explicações irreais, mas convincentes em suas narrativas fictícias.

Por que o senhor se dá ao trabalho de combater a superstição?

Sempre me perguntam por que não deixo os crentes em paz. Ocorre que a crença no sobrenatural não é inócua. Ao contrário, é bastante perigosa. Acreditar  na dita medicina alternativa é um exemplo. Muita gente morre por substituir o tratamento médico sério por procedimentos supersticiosos, como o consumo de ervas com propriedades supostamente milagrosas.

Não é possível provar a existência de divindades e criaturas fantásticas. O senhor concorda que também é difícil provar que não existem?

O fato de não explicarmos um mistério não significa que ele exija explicações sobrenaturais. Só mostra que ainda não há resposta. O ônus da prova cabe aos crentes. O cético só crê no que é provado. Nesse aspecto, a ciência tem feito bom trabalho ao desmascarar mitos. No passado, já se acreditou que a Terra viajava pelo cosmo no lombo de um elefante. Existem 10.000 religiões. Espanta-me a arrogância de quem supõe que só uma crença seja correta em meio a tantas.

O senhor leva em consideração que pode estar errado?

Assim como todos, só descobrirei a resposta quando morrer. Como cientista, estou aberto à possibilidade de ter me enganado. Se houver um ou vários deuses, ficarei surpreso. Mas não tenho medo. Se há um Deus, ele me deu um cérebro para pensar. Meu pecado seria usá-lo para raciocinar e buscar explicações? Um ser benevolente não me puniria por utilizar bem as armas que me concedeu.

 

Fonte: Revista Veja, edição 2283, páginas 84 e 85.

Abaixo, link para outra entrevista intitulada “O risco da crendice”:

http://veja.abril.com.br/090102/entrevista.html

Estudo diz que ateísmo vai tomar lugar das religiões

clique na imagem para ler o texto original

Do site F5 da Folha, 10/08/2011:

Carolas, tremei.

Um estudo que será publicado neste mês aponta que, quanto mais desenvolvido o país, maior o número de ateus.

Para o autor Nigel Barber, portanto, chegará o dia em que quase todo o mundo vai se declarar sem religião.

A mudança já estaria ocorrendo. A pesquisa, feita em 137 países, mostra que nas economias mais desenvolvidas o número de descrentes é  crescente.

Na Suécia, por exemplo, o índice chega a 64% da população, seguida por Dinamarca (48%), França (44%) e Alemanha (42%).

Na outra ponta, países da África sub-saariana têm menos de 1% de ateus.

O autor aponta razões mercadológicas para a baixa das religiões.

Segundo ele, as pessoas procuram as igrejas para se salvar de dificuldades e incertezas da vida.

Hoje profissionais como psicólogos e psiquiatras podem perfeitamente suprir essa lacuna.

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