Perdoa-me, porque pequei

 

mulher-cristã

Eis que você é o motivo de eu estar levemente embriagado, porque eu raramente bebo. E nem é porque tenha alguma intolerância alcoólica, mas sim uma certa aversão a paraísos artificiais. Talvez seja repugnância. Na verdade, repugnância me veio à mente agora só porque lembrei do que senti quando me perdi contemplando a adolescência que você está sepultando por baixo das suas folgadas roupas de crente e dos cabelos longos presos num coque sem graça, enquanto sai por aí abordando pessoas na rua para tentar contagiá-las com a sua doença mental sagrada. Me perdoe se fui rude, mas você devia ter ouvido sua amiga e continuado seu caminho logo depois que mencionei que era ateu e que não tinha tempo: nem para vocês duas nem para nenhuma das três personalidades do seu Deus esquizofrênico.

Como já disse, eu raramente bebo; e também raramente se passa um dia sem que eu me arrependa de alguma coisa. E me arrependi de ter sido grosseiro com você. Me arrependi tanto e imediatamente que, logo depois, parei num barzinho de mesas na calçada, enquanto observava você se afastando magoada, sua saia longa demais escondendo suas pernas finas e coxas magras, certamente cheias de pelos ensebados e fedorentos, porque talvez seu Deus também a proíba de usar sabonete Dove

Como ainda era muito cedo e eu era o primeiro cliente; e como a moça que veio à mesa me atender era infinitamente mais bonita do que você (e devia até usar Dermacyd Neutralize), eu pedi uma cerveja. Quando ela perguntou qual marca eu queria beber, eu pedi pra ela escolher: pra mim todas têm gosto de xixi gelado. Mas não disse isso pra ela, é claro. E também nunca bebi xixi gelado, só pra você saber. Na verdade, eu nunca bebi xixi de jeito nenhum. Enquanto a moça do bar não voltava, eu fiquei pensando em como puxar assunto. Você sabe: não custava nada soltar umas gracinhas e tentar a sorte, afinal, ela era muito bonita mesmo. Não, você não sabe. Você não frequenta barzinhos, muito menos leva cantada.

Mas, aí, meus olhos se voltaram pra você de novo. Era uma rua longa e bem iluminada. Ainda podia ver sua bunda chocha, seus quadris duros e seu cocó de moça de igreja. Mas sua figura longilínea e seu andar suave prenderam minha atenção como a angústia costuma prender o choro. E, de repente, eu desejei ter deixado você ler aquele trecho da Bíblia que você estava marcando tão aflitamente com seu dedinho. Foi quando você se virou na minha direção. E ficou imóvel, me olhando. Eu congelei. O Inferno congelou. Eu te magoei.

No que você estava pensando, ali parada, olhando pra mim? Eu não sei. E também não sei quanto tempo demorou aquilo. O que eu sei foi que a linda garçonete veio e foi embora, me deixando sozinho com uma cantada que perdeu a vontade de existir, e com uma garrafa preta de xixi gelado que eu tomei mais para me punir do que por qualquer outra coisa.

O interessante é que sempre que passo perto de um bar, meus olhos de vampiro aposentado me obrigam a contemplar o eterno desespero da existência humana disfarçado nesse ritual de socialização e acasalamento, em que cada lata de cerveja se destina a resfriar, por algumas poucas horas, o inferno de cada um. Hoje você foi o meu inferno.

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Estou republicando esse texto pra me lembrar de nunca mais magoar ninguém em nome de Deus.

Perdoa-me, porque pequei

 

musa

Eis que você é o motivo de eu estar levemente embriagado, porque eu raramente bebo. E nem é porque eu tenha alguma intolerância alcoólica, mas sim uma certa aversão a paraísos artificiais. Talvez seja repugnância. Na verdade, repugnância me veio à mente agora só porque eu lembrei do que senti quando me perdi, por um minuto ou dois, contemplando a adolescência maravilhosa que você está sepultando por baixo das suas folgadas roupas de crente, e dos cabelos longos presos num coque sem graça, enquanto sai por aí abordando pessoas na rua para tentar contagiá-las com a sua doença sagrada. Me perdoe se fui rude, mas você devia ter ouvido sua amiga e continuado seu caminho logo depois que mencionei que era ateu, e que não tinha tempo nem pra vocês duas nem para nenhuma das três personalidades do seu Deus esquizofrênico. Como já disse, eu raramente bebo, e também raramente se passa um dia sem que eu me arrependa de alguma coisa. E me arrependi de ter sido grosseiro com você. Me arrependi tanto e imediatamente que parei num barzinho de mesas na calçada, logo depois, enquanto observava você se afastando magoada, sua saia longa demais escondendo suas pernas finas e coxas magras, certamente cheias de pelos ensebados e fedorentos, porque talvez seu Deus também a proíba de usar sabonete Dove. Como ainda era muito cedo e eu era o primeiro cliente, e como a moça que veio à mesa me atender era infinitamente mais bonita do que você, e devia até usar Dermacyd Neutralize, eu pedi uma cerveja. Quando ela perguntou qual marca eu queria beber, eu pedi pra ela escolher, porque pra mim todas têm gosto de xixi gelado. Mas não disse isso pra ela, é claro. E também nunca bebi xixi gelado, só pra você saber. Na verdade, eu nunca bebi xixi de jeito nenhum. Enquanto ela não voltava, eu fiquei pensando em como puxar assunto, essas coisas. Você sabe: não custava nada soltar umas gracinhas e tentar a sorte, afinal, ela era muito bonita mesmo. Não, você não sabe. Você não frequenta barzinhos, muito menos leva cantada. Mas aí meus olhos se voltaram pra você de novo. Era uma rua longa e bem iluminada. Ainda podia ver sua bunda chocha, seus quadris duros e seu cocó de moça de igreja. Mas sua figura longilínea e seu andar suave prenderam minha atenção como a angústia costuma prender o choro. E, de repente, eu desejei ter ouvido você ler aquele trecho da Bíblia que você estava marcando com seu dedinho. Foi quando você se virou na minha direção. E ficou imóvel, me olhando. Eu congelei. O Inferno congelou. Eu te magoei, não foi? Você me perdoa? No que você estava pensando, ali parada, olhando pra mim? Você usaria Dermacyd Neutralize se eu pedisse? Quanto tempo demorou aquilo eu não sei. O que eu sei foi que a linda garçonete veio e foi embora, me deixando sozinho com uma cantada que perdeu a vontade de existir, e com uma garrafa preta de xixi gelado que eu tomei mais para me punir do que por qualquer outra coisa. O interessante é que sempre que passo perto de um bar, meus olhos de vampiro aposentado me obrigam a contemplar o eterno desespero da existência humana disfarçado ou embebido nesse ritual de socialização e acasalamento, em que cada lata de cerveja se destina a resfriar, por algumas poucas horas, o inferno de cada um. Hoje você foi o meu inferno.

[ Deus apareceu pra mim ]

Alta madrugada e eu não consigo dormir. Eu estou com sono. Muito. Mas é só ficar na horizontal que ele vai embora.

Tudo começou por causa da atualização do meu Macintosh — o equivalente do Windows nos computadores da Apple. (Eu sei que dizer que o Macintosh é “equivalente” ao Windows é uma tremenda heresia, mas foi o que veio na hora e eu não estou em condição de primar pelo estilo.)

Pois foi. A versão anterior do sistema operacional da Apple era o Leopard. Agora é o Snow Leopard.  Clica aí pra ver que lindo! Meu CD chegou ontem. Instalei. Perfeito. Mas, no backup, eu esqueci de salvar o Microsoft Office que a Apple adaptou para o Mac. Então. Estou com meu Mac novinho com o melhor sistema operacional que existe, mas sem o Word. Um vício.

Que jeito? Encomendar o programa ou baixar um pirateado. Mas eu nunca uso software pirata. Nunca. Nada pirata. Mas eu fiquei sem o Word. Meu Mac novo sem o Word. Encomendar, esperar, instalar… dias de espera. Eu queria usar hoje. Eu falei: vício.

Lá vai o Barros pra Internet procurar uma versão pirata…

— Barros… rapaz… [essa aqui é a minha consciência] Você não é disso. Encomende o software. Espere. Não faça isso.

Daí, já viu: eu sempre sigo minha consciência. Desisti e fui pra cama. Devia ser umas 21:40.

Foi aí que começou. Eu não conseguia pegar no sono. Ficava pensando que podia baixar da Internet o pacote da Microsoft; ficava ponderando que podia muito bem esperar até o original chegar pelo correio; ficava furioso com o meu próprio descuido em não ter salvo o troço todo no backup… e perdi o sono. Voltei pro Macbook pra, definitivamente, baixar o programa pirata, mas, quando eu acordo, minha consciência acorda junto:

— Barros… rapaz…pirata não… você não é disso…

Então eu voltava pra cama e começava tudo de novo. Até que, depois de muito puxa-encolhe, eu  consegui pegar no sono, mas pra acordar, logo em seguida, com uma pessoa batendo levemente na minha cabeça com o que eu identifiquei depois ser um CD novinho com o programa da Microsoft que eu queria. Era Deus:

— Acorda vagabundo! — ele falou num tom bem parecido com o de um policial.

— Vagabundo o caralho, seu filho da puta!! — eu berrei. Até então, eu já tinha notado que não era um policial (obviamente, senão teria acordado “mais calmo”), mas não sabia que era Deus.

Na verdade, não sei como descobri que era Deus, mas era ele. Isso ficou bem claro alguns segundos depois, enquanto eu o encarava com a maior cara de “Me fudi” e enquanto ele me encarava com a maior cara de “Se fudeu”.

Pois é. Deus estava lá, na minha frente, segurando o CD de instalação do Word pra Mac.

— É original? — eu perguntei. Não sei se alguém concorda, mas essa não parece ser uma pergunta muito inteligente para se fazer ao criador do universo.

— Barros, Barros… — Deus falou meu nome duas vezes: não era um bom sinal… — Eu sei o que você está pensando…

— Eu duvido.

Aqui Deus riu. Um bocado.

— Você está pensando: “Será que ainda há tempo?”.

— Tempo pra… quê?

— Para ser salvo, Barros. Salvo!

— Hehehehe… — eu sorri pra Deus. Um sorriso meio que forçado, mas sorri. — Você, digo, o Senhor é muito sabido: era isso mesmo.

— E então? … …

— E então o quê?

— Vai ficar aí calado com essa cara de bunda?!

Aqui eu tive que rir.

— Mas o que é pra fazer? — perguntei.

— Faça uma pergunta, seu jumento! Você não tem nada para me perguntar?

— Esse CD é original?

Deus não respondeu, eu acordei e não consigo mais dormir. 02:55 a.m.

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