Uma viagem até as estrelas

Minha tradução do tópico “Humanity in Space” (pág. 157), Cap. 5: O Universo Incompatível, do livro God: The Failed Hypothesis:


Muito já foi dito sobre as viagens espaciais. É propaganda enganosa como a busca por novos mundos é comparada às explorações europeias nas Grandes Navegações. Filmes como Jornada nas Estrelas e Guerra nas Estrelas levam as pessoas a pensar que, algum dia, tudo o que teremos que fazer é entrar numa espaçonave e cruzar a galáxia numa velocidade colossal. Cada planeta em que pousarmos é imaginado como tendo uma atmosfera e outras condições suficientemente parecidas com as da Terra que permitirão que andemos a vontade sem trajes espaciais. Dessa forma, e isso é tido como provável por muitos, a humanidade irá, gradualmente, povoar o universo.

Só que isso não é tão fácil quanto dizer: “Assuma o comando, Sr. Spock.” Vamos considerar alguns números. Uma espaçonave a 11,1 km/s, que é a velocidade de escape da força gravitacional da Terra, levaria 14.000 anos para chegar a Alfa Centauro, o mais próximo sistema estelar. Essa mesma espaçonave levaria 3 bilhões de anos para cruzar a galáxia. A mais otimista estimativa é de que planetas assemelhados à Terra estejam separados, em média, por 500 anos-luz, dependendo de como você defina “assemelhado”. Isso seria o equivalente a uma jornada em que os tripulantes passariam por 16 gerações, e isso viajando-se a uma velocidade próxima à da luz. Aqui, vale a pena ressaltar, para encontrar um planeta apenas sendo considerado assemelhado à Terra, o que não significa que seria um em que os humanos poderiam viver sem qualquer auxílio à vida. Na verdade, não é provável que estejamos aptos a viver na grande maioria desses planetas desde que não é provável que eles sejam exatamente como a Terra em cada detalhe necessário para a sobrevivência humana.

A Teoria Especial da Relatividade de Einstein torna, em princípio, possível atingir qualquer lugar no universo no tempo de vida de um astronauta a bordo de uma espaçonave. A nave só teria que viajar rápido o bastante em relação à Terra. De acordo com o que é chamado de “dilatação do tempo”, o tempo num relógio em movimento passa mais devagar do que num outro em repouso. Em um efeito relacionado chamado “contração Fitzgerald-Lorentz”, o comprimento de um objeto se contrai na direção do seu movimento. Esse fenômeno que desafia nossa senso comum de espaço e tempo tem sido amplamente confirmado em experiências e outras observações.

O jeito que isso se aplicaria para a nossa espaçonave seria o seguinte. Dentro dela, nossos astronautas não experimentariam qualquer diminuição de ritmo dos seus relógios biológicos, que estariam de acordo com todos os outros relógios a bordo da aeronave. Só que a distância da Terra até o seu destino iria se contrair, enquanto medida a partir do seu próprio ponto de vista. Uma pessoa na Terra mediria a distância usual entre os objetos astronômicos, mas notaria que os relógios da espaçonave marcariam o tempo mais vagarosamente e os astronautas envelheceriam mais lentamente.

Digamos que fôssemos capazes de construir uma espaçonave que pudesse manter uma aceleração constante g, isto é, a aceleração da gravidade na Terra, que iria também proporcionar o conforto de uma gravidade artificial para os nossos astronautas. Essa nave chegaria em Alfa Centauro em 5 anos após o seu lançamento na contagem dos que ficaram, mas os astronautas teriam registrado uma viagem de pouco mais de 2 anos. Em 11 anos, no tempo marcado na nave, eles atingiriam o centro da nossa galáxia. Mas nesse mesmo período, quase 27.000 anos teriam se passado na Terra. Depois de 15 anos contados pelos astronautas, de acordo com os relógios a bordo, eles teriam chegado a Andrômeda, a 2,4 milhões de anos-luz de distância. Mas, então, uma vez que toda a viagem foi feita próximo da velocidade da luz, os mesmos 2,4 milhões de anos também teriam se passado na Terra. E após 23 anos de viagem os astronautas teriam cruzado as fronteiras do universo hoje conhecido, mas 13,7 bilhões de anos teriam se passado numa, já há muito extinta, Terra.

Caso os astronautas optassem por parar em qualquer um desses pontos na sua viagem para explorar planetas assemelhados à Terra, então esses tempos teriam que ser duplicados, uma vez que eles só poderiam acelerar durante metade da viagem, sendo toda a outra metade empregada na desaceleração até parar no planeta escolhido.

O fato inevitável parece ser que as pessoas que se dispusessem a explorar o universo iriam, efetivamente, se “apartar” da Terra. Mesmo que eles fossem apenas até o centro da Via Láctea e voltassem 40 anos mais velhos, eles regressariam para uma Terra no futuro, 104.000 anos após a data do lançamento. Basicamente, qualquer humano que fizesse uma “jornada nas estrelas” deixaria para sempre a sua família, a sua sociedade, e mesmo a sua espécie.

Note que eu não declarei qualquer limitação técnica para argumentar que voos espaciais para as estrelas e galáxias são impossíveis. Apesar de que um método para acelerar uma espaçonave para bem próximo da velocidade da luz esteja além de qualquer tecnologia atualmente conhecida ou imaginada, nós não podemos descartar isso das futuras gerações.

Mas suponha que tais explorações, algum dia, realmente aconteçam. Quão parecido com a Terra um planeta tem que ser para que nós possamos viver lá? A vida na Terra evoluiu sob esse bem especial conjunto de condições que existe aqui. Nós estamos adaptados para viver na Terra e não em qualquer lugar no espaço. Nós não seríamos em nada pessimistas em imaginar que viajantes do espaço teriam que enfrentar uma jornada de dezenas de milhares de anos-luz, no mínimo, antes de encontrar um planeta em que pudessem desembarcar e morar sem que fosse preciso usar uma enorme parafernália de suporte à vida.

A ideia que frequentemente se tem é que a humanidade pode, algum dia, viver no espaço exterior, dentro de estações espaciais orbitando a Terra e outros planetas. Entretanto, mesmo se essas estações reproduzirem todas as condições da Terra, elas não poderão lidar com os raios cósmicos dos quais nós, na Terra, estamos protegidos pela atmosfera. Essa mesma ameaça proíbe viagens muito longas no espaço do tipo descrito acima. Mesmo as tão sonhadas missões a Marte exporia os astronautas a doses de radiação que encurtaria o tempo de vida deles. Viagens para fora do sistema solar iriam matá-los.

Talvez uma tecnologia futura resolva também esse problema. Talvez a engenharia genética fabrique novos tipos de seres humanos, realmente espécies novas, adequadas para viagens no espaço. E, claro, sempre poderemos mandar robôs.

Quaisquer que sejam as possibilidades imaginadas, a conclusão mais forte é que humanos não foram construídos para viver em qualquer lugar que não seja essa ínfima partícula azul no vasto universo. Talvez outras partículas semelhantes existam pelo universo afora, mas é improvável que o Homo Sapiens consiga encontrá-las. Nossa espécie está abandonada no cosmos, na espaçonave Terra, e estará extinta muito antes do Sol queimar seu último átomo de Hidrogênio.


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O Mundo de Sofia

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Vi essa série adorável por duas vezes em 2009, emprestada por um colega de trabalho. Dividida em quatro capítulos com cerca de uma hora de duração cada, é absolutamente cativante desde os primeiros minutos. Como meu irmão ficou interessado em assistir, ele baixou uma cópia da internet e vi novamente com ele no fim do ano passado. Na bienal do livro que se seguiu, não resisti a um lindo volume da Cia. das Letras (abaixo) que acabei comprando para ler a história original na qual a série se baseava.

O livro tem 560 páginas e a leitura precisa ser feita sem pressa de ser concluída. O começo é bem interessante, o meio é um tanto cansativo, e o fim é arrastado e sem graça, se comparado com sua versão cinematográfica. Mas vale a pena ser lido.

Do capítulo Dois Círculos Culturais, extraí umas informações bem interessantes:

Os antigos indianos adoravam o deus celestial Dyaus. Em grego este deus se chama Zeus; em latim, Júpiter (na verdade iov-pater, ou seja, “Pai Celestial”).(p.167)

Quando os reis [israelitas] eram investidos no poder eles eram ungidos pelo povo. Por isso recebiam o título de Messias, que significava “aquele que foi ungido”. No contexto religioso, os reis eram vistos como mediadores entre Deus e o povo. Por isso é que os reis podiam ser chamados de “filhos de Deus”, e o país que governavam, de “reino de Deus”.(p.173)

Resumindo: o povo de Israel vivia feliz sob o reinado de Davi. Quando a situação ficou difícil para os israelitas, alguns profetas começaram a anunciar a vinda de um profeta da casa de Davi. Este “Messias” ou “Filho de Deus” viria para “redimir” o povo, restituir a Israel sua grandeza e fundar um “Reino de Deus”.(p.174)

E então aparece Jesus. Ele não é o único que aparece como o Messias prometido; e, como muitos outros, também ele usa as expressões “Filho de Deus”, “Reino de Deus”, “Messias” e “Redenção”.(p.174)

Os primeiros cristãos começaram então a espalhar a “boa-nova” da redenção pela fé em Jesus Cristo. Através dessa redenção, o Reino de Deus estava próximo.(p.177)

Naquela época, eram as mulheres que mais frequentemente se convertiam ao cristianismo.(p.179)

Uma questão importante dos primeiros anos depois da morte de Jesus era saber se os que não eram judeus precisavam passar pela doutrina judaica antes de se tornarem cristãos. Um grego, por exemplo, teria de observar as leis de Moisés? Para Paulo, isto não era necessário. O cristianismo era mais do que uma seita judaica. Ele se voltava para toda a humanidade através de uma mensagem universal de redenção. A “antiga aliança” entre Deus e Israel fora substituída pela “nova aliança” que Jesus estabelecera entre Deus e todos os homens.(p.179)

Uma pena Jesus, que segundo a concepção dos cristãos desceu à Terra para trazer a mensagem de Deus para a humanidade, ter se esquecido de esclarecer isso...

Sem dúvida, Paulo foi o inventor do cristianismo. Vi um documentário da BBC chamado A história de todos nós que descrevia a “boa-nova” que Paulo levou aos gregos nos seguintes termos:

E aí? Você quer aceitar Jesus e salvar sua alma, ou prefere passar a eternidade no Inferno?

Parece uma abordagem bastante imbecil, mas, vendo a coisa toda dois mil anos depois, eu posso garantir que funcionou.

 

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Leia também o meu plágio: AS  SACOLAS  DE  SOFIA.

Breviário de decomposição

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  Senhor, dá-me a faculdade de jamais rezar, poupa-me a insanidade de toda adoração, afasta de mim essa tentação de amor que me entregaria para sempre a Ti. Que o vazio se estenda entre meu coração e o céu! Não desejo ver meus desertos povoados com Tua presença, minhas noites tiranizadas por Tua luz, minhas Sibérias fundidas sob Teu sol. Mais solitário do que Tu, quero minhas mãos puras, ao contrário das Tuas que sujaram-se para sempre ao modelar a terra e ao misturar-se nos assuntos do mundo. Só peço à Tua estúpida onipotência respeito para minha solidão e meus tormentos. Não tenho nada a fazer com Tuas palavras. Concede-me o milagre recolhido antes do primeiro instante, a paz que Tu não pudeste tolerar e que Te incitou a abrir uma brecha no nada para inaugurar esta feira dos tempos, e para condenar-me assim ao universo, à humilhação e à vergonha de existir. “

 

(Breviário de decomposição – Emile M. Cioran)

Texto indicado pela leitora Sônia.

Nossos valores vêm de Deus?

Tradução que fiz de alguns trechos do capítulo 7: “Do Our Values come from God?” (p. 193), do livro God: The Failed Hypothesis (“Deus: a hipótese descartada”).

familiaAs religiões do mundo se atribuem o papel de arbitrar no que diz respeito ao comportamento humano, embora seus líderes frequentemente apresentem a mesma decadência moral que eles alegam ver na sociedade. Eles insistem em dizer que podem nos ditar o que é certo ou errado porque têm uma espécie de conexão direta com a mente de Deus.

Mesmo instituições seculares [= laicas, sem vínculos religiosos] aceitam essa alegação. Sempre que se levanta um assunto sobre moral na sociedade, tal como células-tronco ou eutanásia, os religiosos são chamados para destilar a sua sabedoria. Por outro lado, a opinião dos ateus, dos livres pensadores e dos humanistas raramente é pedida — frequentemente é insultada.

A implicação disso é que ateus e humanistas são, de alguma forma, membros indesejáveis da sociedade, pessoas que você não iria querer convidar para ir a sua casa. De acordo com o advogado Phillip Johnson, os ateus acreditam que os humanos descendem dos macacos e isso é a origem de todo o “mal” da sociedade moderna, incluindo homossexualismo, aborto, pornografia, divórcio e genocídio — como se o mundo não tivesse nada disso antes de Charles Darwin aparecer!

Não importa quão comum seja a visão de que a religião é a fonte do nosso bom comportamento moral, o que dizem os números? Nunca vi nenhuma evidência de que não crentes cometam mais crimes ou outros atos antissociais em maior proporção do que os crentes. Alguns estudos, na verdade, indicam justamente o contrário.*

Os pregadores nos dizem que os padrões de moral universais só podem vir de uma única fonte: o Deus particular deles, pois, caso assim não fosse, os padrões morais iriam depender da cultura de cada povo e seriam divergentes através das culturas e mesmo dos indivíduos. Entretanto, como bem observou o antropologista Solomon Asch:

“Nós não conhecemos nenhuma sociedade na qual a bravura seja desprezada e a covardia tida como uma honra; a generosidade considerada um vício e a ingratidão, uma virtude.”

Claro, nem eles mesmos chegam a um acordo sobre alguns assuntos morais. Por exemplo, considere as interpretações opostas sobre o mandamento de “não matar” dentro da comunidade cristã. Protestantes Conservativos interpretam esse mandamento como proibitivo para o aborto, pesquisas com células-tronco e eutanásia dentre outros, mas não veem a pena de morte como sendo proibida, invocando a prescrição bíblica do olho-por-olho. Católicos e Cristãos Liberais, por outro lado, interpretam esse mandamento como proibitivo para a pena de morte, sendo, portanto, contra. Mas os Católicos se opõem ao aborto, à eutanásia e às pesquisas com células-tronco, enquanto que os Liberais são a favor.

Então, como os Cristãos decidem sobre o que é certo ou errado? Quando eles recorrem à Bíblia, o que interpretam nas escrituras depende de ideais que eles já haviam desenvolvido antes de alguma outra fonte.

Os livros sagrados dos judeus, cristãos e islâmicos contêm muitas passagens que ensinam nobres ideais que a raça humana fez bem em adotar como norma de comportamento e, quando apropriados, codificar em leis. Mas, sem exceção, o fato de que esses princípios se desenvolveram em culturas antigas, numa história muito anterior, indica que eles foram adotados pela religião em vez de extraídos dela. Mesmo sendo bom que pregadores religiosos ensinem bons preceitos morais, eles não têm nenhum motivo para alegar que esses preceitos foram de autoria de sua divindade particular, ou qualquer outra divindade que seja.

Em nossa sociedade ocidental, as pessoas assumem que a chamada Regra de Ouro:”Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você” foi um ensinamento original de Jesus Cristo no Sermão da Montanha. Só que, assim como a frase “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, que aparece em Levítico 19:18, foi escrita mil anos antes de Jesus, a Regra de Ouro não é propriedade exclusiva de uma pequena tribo do deserto que tem a si mesma em alto conceito. Aqui estão outras fontes que mostram que essa doutrina já estava bem difundida muito antes de Jesus:

“O que você não quer que lhe façam, não faça aos outros.” (Confúcio, 500 a.C.)

“Não faça aos outros aquilo que deixaria você zangado se feito pelos outros a você.” (Isócrates, 375 a.C.)

“Aqui está a soma de toda a retidão: lide com os outros como você gostaria que eles próprios lidassem com você.” (Mahabharata Hindu, 150 a.C.)

No Sermão da Montanha, Jesus também aconselhava seus ouvintes: 

“Eu, porém, digo-vos que não resistais ao que é mau; mas, se alguém lhe ferir na tua face direita, ofereça-lhe também a esquerda” (Mateus, 5:39);

“Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: ‘Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem.” (Mateus, 5:43-44).

De novo, esses são ensinamentos geralmente creditados unicamente ao cristianismo. Mas o “ama o teu próximo” é anterior a Jesus e nem mesmo consta do Antigo Testamento:

“Eu trato aqueles que são bons com bondade. E eu também trato aqueles que não são bons com bondade. Assim a bondade é atingida. Eu sou honesto com aqueles que são honestos. E eu também sou honesto com aqueles que são desonestos. Assim a honestidade é atingida.” (Taoísmo, Tao te Ching 49)

“Vença o Ódio com o Amor. Vença o Mal com o Bem. Vença o Sovina com a Doação. Vença o Mentiroso com a Verdade.” (Budismo, Dhammapada 223)

“Um ser superior não pagaria o mal com o mal; isso é o preceito que se deveria observar; o ornamento do virtuoso é a sua conduta. Não se deve ferir o fraco, ou o bom, ou o criminoso que merece morrer. Uma alma nobre sempre exercitará sua compaixão mesmo para com aqueles que se regozijam em fazer o mal aos outros; mesmo para com aqueles que cometem atos cruéis, ainda que com o ato ainda em andamento — porque: quem está isento de falta?” (Hinduísmo, Ramayana, Yuddha Kanda 115)

De novo, esses ensinamentos bíblicos não são princípios morais originais. Tanto nas Escrituras como em outros ensinamentos do cristianismo, judaísmo ou islamismo, nós descobrimos uma repetição de ideais comuns que surgiram durante a evolução gradual das sociedades humanas, enquanto elas se tornavam mais civilizadas, desenvolviam processos de pensamentos racionais, e descobriam como viver juntos e em harmonia. As provas apontam para uma fonte que não são essas revelações das Escrituras.

Os comportamentos humanos e sociais se mostram exatamente como deveria ser esperado que eles se mostrassem se não existisse Deus algum.


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*Esse trecho, em particular, também aparece (um dos autores fez um “Ctrl C, Ctrl V” no texto do outro) no primeiro capítulo dedeus Não É GRANDE” (<clique), exceto por um grande “pequeno detalhe”: a tradução está errada! E o erro é tão infantil, que desconfio que o tradutor era religioso e achou que não iria para o Inferno — ou que iria para o Céu — se praticasse um atozinho de terrorismo literário, uma sabotagenzinha à toa: leu “more“, (=mais), no original (<clique) e traduziu como “menos“, invertendo completamente o sentido da frase em favor dos religiosos. Confira:

Em português: “(…), mas nenhuma estatística irá revelar que sem essas promessas e ameaças [Céu e Inferno] nós [ateus] cometemos menos crimes de ganância e violência que os fiéis. (Na verdade, caso pudesse ser feita uma correta pesquisa estatística, tenho certeza de que ela indicaria o contrário.)

Em inglês: “(…), yet no statistic will ever find that without these blandishments and threats we commit more crimes of greed or violence than the faithful. (In fact, if a proper statistical inquiry could ever be made, I am sure the evidence would be the other way.)”

É preciso tomar cuidado com traduções: há muito tempo, alguém leu num texto em hebraico uma palavra que tinha o sentido de “moça; adolescente” e a traduziu como “virgem”. Você já sabe no que deu…

Você está aqui

palebluedot

 Isso é aqui. Isso é a nossa casa. Isso somos nós. Nesse pálido ponto azul, todos a quem você ama, todos que você conhece, todos de quem já ouviu falar, cada ser humano que já existiu viveu sua vida. A soma de nossas alegrias e sofrimentos; milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas infalíveis; cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e plebeu, cada casal de jovens apaixonados, cada mãe e pai, cada criança sonhadora; cada inventor e explorador, cada professor de moral, cada político corrupto, cada superstar, cada “líder supremo”, cada santo e cada pecador da história da nossa espécie viveu ali — naquele grão de poeira suspenso num raio de sol.”

Se Deus tivesse um mínimo de inteligência, teria escolhido gente como Carl Sagan para escrever sua Bíblia. E ela nos teria sido infinitamente mais útil, mais clara e mais bela.

 

Você pode adquirir o livro de graça pelo 4Shared:

um pálido ponto azul

O sexo de Deus (parte 1 de 3)

Dos milhões de espécies de animais conhecidos, a vasta maioria reproduz-se sexualmente, incluindo a maioria dos insetos. Quase todos os animais maiores que alguns milímetros são reprodutores sexuais capazes de escolha sexual: todos os mamíferos, todos os pássaros e todos os répteis. A situação é similar com as plantas. Das cerca de 300 mil espécies de plantas conhecidas, mais ou menos 250 mil reproduzem-se pelas flores que atraem polinizadores.” *

* A Mente Seletiva: como a escolha sexual influenciou a evolução da natureza humana. MILLER, Geoffrey F. Editora Campus. 2000. pág. 194.

Você sabe por que você faz sexo [em termos biológicos]? Se respondeu que é para preservar a espécie pela geração de novos indivíduos… bem… digamos que você tirou um 7. O que pouca gente sabe é que o sexo também protege a espécie do aniquilamento provocado pelo acúmulo de mutações ao longo do tempo. E, se foi Deus quem criou esse negócio, estamos, então, à mercê de um Deus pra lá de macabro, nada onipotente, nada inteligente e muito menos perfeito, porque, se Deus fosse essa Coca-Cola toda, teria criado tudo perfeito desde o começo, tendo feito da Evolução uma coisa absolutamente desnecessária.

Senão, vejamos.

Os primeiros organismos que surgiram na Terra, muito, muito antes de Adão ter comido a Eva, se reproduziam fazendo cópias de si mesmos. Parecia ser a coisa mais simples e mais eficiente do mundo. Só que, apesar de extremamente precisas, essas cópias não eram 100% perfeitas, de forma que, de vez em quando, surgia um erro em algum ponto da cadeia genética das cópias-filhas. De uma geração para outra, esses erros eram desprezíveis e não causavam danos. Mas como o processo envolvia a cópia da cópia da cópia da cópia… indefinidamente, os erros se acumulavam de uma forma perigosíssima para a sobrevivência daqueles organismos. Isso, após inúmeras gerações, acabava levando a espécie à extinção.

Para criaturas como as bactérias, a reprodução sem sexo ainda está na moda, mas para seres absurdamente complexos como nós humanos esse tipo de coisa não teria dado certo. Ao longo de milhões de anos, com erros e mais erros se acumulando nas gerações-filhas, nossa espécie teria sido extinta. Em outras palavras, não teríamos chegado até aqui, mas nem fodendo! Ups! Essa expressão chula, além de desnecessária num blog tão família quanto o meu, é também incoerente: foi justamente o sexo que nos fez o que somos, e que nos permitiu chegar até esse nível de desenvolvimento físico e intelectual a que chegamos.

Caso você venha de uma família cristã e acredite em Deus, é bem provável que acredite ainda naquela história de cegonha, porque quem acredita em Deus é capaz de acreditar em qualquer outra idiotice. A verdade, entretanto, é bem outra.

Cada ser vivo tem, em cada célula, o seu próprio DNA, que é um projeto para criar um novo corpo. Só que, para criar uma nova vida, de acordo com esse método revolucionário, seria necessário um parceiro da mesma espécie, mas do sexo oposto.


No caso dos seres humanos, o DNA é composto por 46 cromossomos, que são sequências de genes. Para fazer um filhinho, porém, cada humano entra somente com metade desses cromossomos, ou seja, com apenas um filamento do seu DNA. Dentro de cada célula do seu corpo existe uma cópia de metade dos genes do seu pai e outra de metade dos genes da sua mãe. Cada espermatozoide e cada óvulo é fabricado, aleatoriamente, com um ou outro dos filamentos disponíveis do DNA original dos pais.

Se você considerar a figura abaixo, onde cada uma dessas filas de bolinhas representa exatamente o mesmo trecho do cromossomo responsável, digamos, pelo perfeito desenvolvimento das válvulas do coração, com cada pai produzindo dois tipos diferentes de células reprodutoras — “H” e “h”, para o homem; e “M” e “m” para a mulher — , vai chegar à conclusão de que um casal poderia gerar até 4 filhos com características genéticas diferenciadas, dependendo de qual filamento do pai (H ou h) “casou” com qual filamento da mãe (M ou m).


As combinações são essas: HM, Hm, hM e hm. No desenho, as bolinhas pretas representam genes com defeito: aqueles erros de cópia que se acumulavam de geração para geração nas reproduções sem sexo. Perceba que num dos filamentos do DNA original, tanto do pai (H) quanto da mãe (M), esse trecho do cromossomo não apresenta genes defeituosos. Isto é, um tipo de espermatozoide (dentre 2 possíveis) e um tipo de óvulo (dentre 2 possíveis) têm esse trecho crucial da sua cadeia genética perfeito.

Agora veja o que acontece quando um espermatozoide de cada tipo fecunda um óvulo de cada tipo. “H” fecundando “M” é a perfeição total:



“H” fecundando “m”. Alguns genes de “m”, figura abaixo, estão defeituosos nesse trecho, mas não tem problema: o projeto da nova vida segue normalmente usando-se a cópia do gene correspondente de “H”, que está perfeita.


Esse é o “pulo do gato”: os genes vêm em pares. Se um está com defeito, usa-se a cópia reserva. Mas isso é só metade do segredo.

Continuando, quando temos “h” fecundando “M”, dá-se o mesmo caso acima, só que é “h” que apresenta alguns genes com defeito:



Por último, “h” fecundando “m”:


Percebeu o problema? Nesse caso, o trecho apresenta dois genes de “m” com defeito, mas com a cópia dos correspondentes em “h” perfeita. Até aí, tudo bem. Só que mais outros dois genes desse filamento de DNA da mãe também são defeituosos e, dessa vez, não há cópia em “h”, pois os mesmos genes são defeituosos no trecho herdado do pai.

Como os casos intermediários “Hm” e “hM” só nos levaram ao ponto de partida, ou seja, à mesma “condição genética” dos pais, examinemos os casos extremos. Digamos que esses pais gerem dois filhos: um foi produto de “HM” e o outro de “hm”.


O filho gerado por “HM”, figura acima, terá genes perfeitamente “limpos” nesse trecho do cromossomo. Ele está totalmente livre dos defeitos que seus pais tinham e que foram acumulados ao longo das gerações anteriores, podendo passar seus genes perfeitos para as gerações seguintes.


Já o filho que foi fecundado por “hm”, acima, pelo exemplo dado, não vai ter as válvulas cardíacas formadas e não vai sobreviver. Mas ele não é importante. Para a Natureza, ele é apenas “lixo genético” sendo jogado fora. Na verdade, é extremamente necessário que ele morra, para não passar à frente seus genes defeituosos.

Macabro, não?

Graças à reprodução envolvendo dois indivíduos, pode-se descartar, junto com um só “produto”, os genes defeituosos que vinham se acumulando ao longo das gerações. Esse artifício engenhoso garante a sobrevivência da espécie como um todo, mantendo seu código genético praticamente inalterado.


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Uma Divina Revelação do Inferno

Mary Baxter

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No vídeo publicado no texto anterior, Mary Baxter relata o passeio que deu pelo Inferno na companhia de Jesus Cristo, e que a levou a escrever seu livro Uma Divina Revelação do Inferno.

Encontrei esse livro AQUI, em formato de audiobook, com efeitos sonoros divinamente bem produzidos, que vão aterrorizar você, e vão fazer você não querer ir para o Inferno. AQUI, você pode ler o texto em pdf.

Eu li o livro de Mary Baxter duas vezes e, agora, estou ouvindo o audiobook. Mas continuo sendo ateu. Não acredito em Deus, não aceito Jesus Cristo como meu Salvador, e quero mais que o Espírito Santo se foda!

Amém.

 

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