“Minha Deusilusão”, by Ana Júdice

Jave-Deus

 

Sou a Ana Júdice, do site Ponderável, um espaço que reflete meus pontos de vista sobre variados temas, agora por último mais voltado aos enigmas da fé religiosa, suas consequências, conforme minha visão, como também do estudo de outros autores, quando às vezes coloco minhas apreciações pessoais.

Antes de mais nada digo: sou uma aprendiz consciente das minhas proposições. Minha descrença nesse Deus gerado pelo homem se deu de forma gradativa; não foi por frustração ou revolta relacionada a súplicas ignoradas, apesar de que isso também somou pontos, mesmo porque nunca cheguei a ser fanática, eu diria moderada, tanto é que não me foi necessário sair confrontando opiniões daqui ou dali.

Como não tinha lá muita vocação religiosa, me foi  mais prático ligar o desconfiômetro e detectar sinais de ausência de conexões ou exatidões. Eu simplesmente não acho que Deus existe. Mas ele chegou a existir quando certamente meus neurônios se encontravam em estado de dormência, ainda imaturos para a racionalidade, e é neste espaço em que se detecta uma brecha, é nela que Deus passa a existir. Foi por aí, também, que o homem em transe o idealizou e é dessa mesma forma que se passa a acreditar e a amar um ser que nunca viu, nem ouviu, que permanece em silêncio há milênios, e você só sente sua aproximação quando a fé, que é a firme opinião de que algo é verdadeiro, o faz crer em histórias fantásticas e incrivelmente surreais, revelando que você está em fase de baixa autoestima, ignorante do seu próprio potencial.

Bastou-me questionar as estórias bíblicas, colocar em parâmetros com a realidade, para classificá-las como fábulas da mesma forma quando li Pinóquio com seu Grilo Falante, cujo estilo é quase o mesmo, apesar de que, na do Pinóquio, é literatura para crianças e a Bíblia é um livro de ficção ou lendas focadas no divino para passar conversa, coletar ofertas, ocupar a mente de adultos incautos, frágeis ou convergentes a transgressões éticas e morais presentes em algumas espécies que, quanto mais tendenciosas, mais místicas se tornam.

Certa vez me propus a ler a Bíblia pelo interesse histórico, na esperança de obter mais esclarecimentos sobre a origem da humanidade, visto que em seu relato há um retrocesso de para mais de 3.500 anos, a contar de Moisés. Ledo engano. Não encontrei nada proveitoso além de estórias surreais e a inocente fábula de Adão e Eva.

Adao-e-Eva- Iluminura- Manuscrito- Hunterian- séc-XII

Nasci numa família de evangélicos (Cristã Evangélica) que até hoje conserva a tradição como consolo espiritual, e as palavras com as quais aprendi a conviver foram: Deus, pecado e Diabo. Não sei em que parte física do universo Deus vive em guerra com esse seu desafeto (sim, ele possui um inimigo com o qual está em constante e ferrenha luta entre o bem e o mal), e nós somos usados como o motivo de suas disputas. E mesmo assim nunca vi qualquer ação de Deus e nem do Diabo, senão da boca dos crédulos.

Meu caminho até ao ateísmo iniciou quando minha percepção foi se ampliando com as indagações que me vinham e, então, como a lógica não oferecia respostas, a própria Bíblia foi o meu descaminho com estórias que eu julgava descabidas desde o livro de Gêneses (Origem, Princípio). O Livro de Josué foi a gota d’água. É aí que a gente nota que as razões de tantas  guerras santas não eram pela causa de um Deus e sim por disputa de territórios e riquezas, com muita matança e carnificina no extermínio de nações inteiras, incluindo saqueamento de bens dos inimigos (para serem consagrados ao Senhor e depositados em seu tesouro), comandados por Josué sob orientação verbal de  Deus — o maior paradoxo.

As contradições nem preciso enumerar porque até os crentes sabem quais são, tanto é que já possuem argumentos de defesa para todo e qualquer imprevisto.

maos-em-fé

Ao levar minha vida mais a sério, deixei de crer no inexistente para ressaltar o existente ante minha perplexidade ao assistir as tragédias, desigualdades sociais, fome, doenças mortais incuráveis, e esse ser coisa nenhuma nem ao menos demonstra a menor misericórdia. Seres inexistentes não compartilham vida, não possuem sentimentos, o nada não possui conteúdo porque ele é vazio como todos os outros deuses, sejam eles: Allah, Tupã, Olorum, Javé, Zeus, Júpiter, Mazda, Amon-Rá, Brähma, Vixnu, Shiva, o Monstro de Espaguete Voador. Com eles ou sem eles as coisas boas e más continuam acontecendo, não existem seres superiores abstratos, a não ser na  imaginação das pessoas.

Não busquei Deus ou deuses nem mesmo quando em 2012, após uma cirurgia, fui levada à UTI por 3 dias devido a uma complicação (pneumotórax) decorrente da anestesia, porque está intrínseco em mim: abstração é um estado de alheamento. E para mim Deus é abstrato; melhor ainda: é o NADA, o vazio total.

Pelo menos temos a ciência que trabalha para o bem da humanidade sem fazer alarde, sem arrogância, passeatas.

O que vemos por aí promovido em nome de Deus são templos de ares poluídos com o cheiro do sofrimento, repletos de pessoas carentes e charlatões da fé simulando milagres. É fácil conferir o prodígio psicológico e contagiante da fé. Basta observar dentro das igrejas neopentecostais: mais parece um estouro de boiada. E o que vem a ser isso? O contágio da fé ou histeria coletiva; um fenômeno antigo também conhecido como “doença psicogênica de massa”.

Meu desprezo maior é pelo Deus cristão/judaico que, dentre outros, é o mais discordante por transportar consigo todas as deformidades humanas e, de todos os deuses, ele é o maior em assassinatos e destruição em massa da humanidade, por prometer e não cumprir; por não ouvir os clamores de desespero; e ele, indiferente, sempre pedindo uma prova de fogo para enaltecer seu enorme e poderoso EGO. Não. Esse ser definitivamente não pode existir, ou melhor, o homem o criou mal, conveniente e adaptável à sua própria natureza, com óbvios vestígios do seu DNA cerebral,  tamanha a compatibilidade.

E ainda não falei de Jesus Cristo, filho de Deus, que veio para desequilibrar o conceito inicial do monoteísmo, por possuir três divindades. Devido a tantas contradições e imprevistos nessa trajetória, acredito que já está passando da hora dos cristãos pararem de pegar carona no Velho Testamento, deixá-lo aos Judeus, por direito, e desmembrar a Bíblia começando tudo pelo Novo Testamento, já que eles afirmam que Jesus é Deus.

________________

Ana Júdice  é leitora do blog, e resolveu compartilhar sua “deusilusão”, assim como já fizeram outros leitores:

Anúncios

Olhai esse emaranhado de espinhos…

 mari

Era uma vez um rapaz chamado Diego* que acabara de mudar-se para um prédio novo. Ele morava sozinho, tinha 28 anos na época, e apaixonou-se perdidamente pela sua vizinha de porta, Mariana**, que tinha só 13.

Diego, no louvável esforço para não ser preso (ou apedrejado) por pedofilia, fez de tudo para que ninguém percebesse que ele estava louquinho para desobedecer um Mandamento que Deus esqueceu de colocar entre os Top 10, mas que estava bem claro e não passível de interpretações no artigo 217 do Código Penal.

Só que o “ninguém”, acima, parece que não incluía a menor, visto que ela ficou sabendo das intenções ilegais de Diego na primeira semana mesmo em que ele aportou no condomínio, eu acho — digo, ele achava.

Enfim, pra resumir a ópera, Diego (que não temia a Deus, mas que temia o homem-da-capa-preta) esperou todo um ano — 365 dias, senhoras e senhores, numa demonstração rara de caráter e de força moral — pois bem, aquele imbecil esperou todo um ano para dar o primeiro beijo na boca linda e macia de Mariana… Na escada, entre o térreo e o primeiro andar…

Mariana se revelou apaixonada por Diego, mas achava que os pais (católicos) não iriam permitir tal relacionamento, afinal:

 — Você tem 23 anos e eu só tenho 14!! 

Não, ele não tinha 23. Diego mentiu pra moça, é verdade, mas 1) ele aparentava mesmo ter uns 5 anos a menos; e 2) não tinha nada no Código Penal sobre mentir a idade num caso desses.

Mas, surpresa das surpresas, os pais dela não foram contra o namoro e, 3 anos depois, (É. 1+1+1=3) Diego finalmente pôde sair com Mariana, que já estava, então, com 17. Só os dois…

Adeus, artigo 217, adeus! Não guardo de ti nenhum rancor, porque o verdadeiro culpado não foi você, e sim a minha ingenuidade de achar que o mundo não era tão traiçoeiro quanto parecia…

O casalsinho estava indo para um “cinema” luxuosíssimo — com direito a jardim de inverno e ofurô — mas, no carro, eles conversaram sobre algo que deixou Mariana furiosa.

Ele nunca tinha visto Mariana tão furiosa daquele jeito, nem mesmo quando, certa vez, ele desobedeceu suas ordens expressas para que mantivesse as mãos onde ela pudesse ver.

Voltaram pra casa.

No outro dia, ele liga:

 — Mariana, o que foi que houve?

Ela não respondeu.

 — O que foi que eu disse que te irritou tanto?

Ela não respondeu.

 — Você não quer mais me ver?

 — Não.

 — É porque eu falei que sou ateu?

Ela não respondeu; desligou o telefone, e Deus ganhou um inimigo.

(*) e (**) – Os nomes dos envolvidos foram alterados, exceto o da Mariana.

“Minha Deusilusão”, por Silene*

 

Cresci no meio de diversas religiões. Minha família é um misto de macumbeiros, espíritas, budistas, católicos e vaginocélicos. Imaginem a situação… rss. Eu acreditava em um pouco de tudo… Mas em uma certa fase da vida comecei a preferir o catolicismo, por ser menos chato, ter menos obrigações, nada de jejum nem encheção de saco por causa da roupa. E o melhor: não precisava morar na igreja!

O engraçado era que, quando eu me ajoelhava pra rezar, eu me achava ridícula! Achava o cúmulo ter que ficar falando com alguém que eu nunca vi. Toda vez que alguém me chamava pra ir a um culto, eu ia pra ficar dando risada da cara dos crentes. Não!, porque a igreja evangélica parece mais um circo! Toda aquela gente doida “falando em línguas”, rodando e pulando com as “manifestações” e a expulsão de demônios… Tudo isso me era engraçado! Os religiosos sempre me recriminavam por esse meu péssimo hábito! Eu me sentia esquisita e acreditava ter algum defeito, tanto por achar graça das coisas “divinas” quanto por nunca ter sentido o “Espírito Santo”!  Porque na igreja eles dizem que não podemos vê-lo, mas podemos senti-lo! E todas as pessoas, crentes ou não, diziam que sentiam a presença ou o próprio Deus falando com eles.

O tiro de misericórdia foi quando resolvi estudar a Bíblia a fundo. Foi até engraçado porque eu sempre ouvi as pessoas falarem que Deus era amor, que era bom, puro… E quando eu lia a Bíblia eu não via bondade, muito pelo contrário! Eu via muitas coisas sem sentido; via um Deus psicopata. E quando eu questionava esse Deus eu ouvia que tinha que aceitar pela fé e calar a boca.

Eu nunca tive fé o suficiente para acreditar nos “milagres” que eu ouvia falar. Acho que é difícil ter fé em meio às desgraças que acontecem. É difícil você perceber que pessoas que acreditam e seguem as mesmas coisas têm opiniões diferentes e contraditórias. A partir do momento em que questionamos a religião, deixamos consequentemente de ser religiosos!

Tenho algumas perguntas que nunca foram respondidas.

Por que os milagres são tão duvidosos? Bom, eu não teria dúvida alguma se alguém que teve a perna amputada passasse a noite rezando e, no dia seguinte, aparecesse com a perna de novo. Isso sim seria um milagre! Vai ver é porque Deus não liga pros amputados! Ele prefere mesmo é aumentar o saldo da conta do pessoal da igreja do Valdemiro!

Por que um Deus bom teria mais morte nas costas do que o Diabo?

Por que um Deus que tem o poder de acabar com o sofrimento não o fez ainda? Ele está esperando o fim dos tempos chegar? Tá, e enquanto isso ele faz o quê? Joga baralho com os anjos no céu?

Eu acredito que a religião foi um meio que inventaram para controlar e amedrontar o ser humano. Eu sei que não existem verdades absolutas! Se eu estiver errada (coisa que eu duvido muito) e, um dia, o superior me aparecer pessoalmente, não terei como dizer que não acredito. Não dá para não acreditar em algo que eu vejo. Mas acreditar em algo e segui-lo são coisas completamente diferentes. Mesmo se Deus realmente existisse eu não o seguiria, e digo isso com toda a certeza do mundo!

Eu jamais idolatraria um Deus cruel e psicótico só pra salvar a minha “alma” seja lá do que for. Eu jamais seria conivente com alguém que não me agrada e que  eu desprezo só porque é conveniente. Eu não o adoraria ou faria o que dizem que é necessário fazer, mesmo que isso me  resultasse na danação eterna!

E é por isso que eu digo: Sou ateia e tenho orgulho de ser!!!

 

As pessoas que me dizem que eu vou para o inferno e que elas vão para o céu de certa forma me deixam feliz por não estarmos indo para o mesmo lugar.
                                   Martin Terman

* Silene é leitora do blog e resolveu compartilhar sua “deusilusão”, como já fizeram alguns outros leitores:

Silene

%d blogueiros gostam disto: