Quando o assunto é a Bíblia…

Quando o assunto é a Bíblia, o crente sabe quando um versículo tem que ser tomado ao pé da letra e quando precisa ser reinterpretado; sabe quando uma lei  divina ainda é válida para os nossos dias ou se só serviu para a época em que foi escrita; sabe quando uma passagem contém a exata palavra de Deus e quando foi indevidamente misturada às idiossincrasias do autor terreno que a escreveu, ou às peculiaridades e influências do seu próprio tempo; sabe quando ‘a Palavra’ está mesmo escrita no texto e quando está escondida nas entrelinhas; sabe diferenciar um relato ‘real’ de um ‘alegórico’; e sabe até quando Deus mandou escrever uma coisa e quis dizer outra.

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Tema de Natal

“Confia em Deus, mas tranca a tua casa”. A família Clutter confiava muito em Deus, isso era indiscutível. Mas tinha o péssimo hábito de não trancar as portas de casa. Mesmo numa cidadezinha do interior do Kansas, mesmo nos idos de 1959, não trancar as portas de casa era algo discutível sim. Por algum motivo, Deus tem essa estranha tendência estatística de proteger mais a quem toma certas precauções em prol da própria segurança.

Li “A Sangue Frio”, de Truman Capote, e descobri por que ele levou seu autor a se tornar um dos mais famosos escritores americanos. Só depois de lido o livro é que pesquisei o assunto na internet; só depois quis ver as fotos dos assassinos e da cena do crime. Dos crimes. Isso pra não influenciar meu processo de leitura. E só então vi o filme. “Capote”. Sobre como o livro foi feito. Foi então quando entendi por que Truman Capote, depois de ter alcançado a fama que sempre quis, nunca mais publicou outro livro.

É perturbador perceber que vivemos cercados de pessoas e monstros, pois frequentemente não dá pra distinguir uns dos outros.

 

Não te ofenderás em vão

Ninguém jamais saberá o que Jesus escreveu na areia, mas, se você quiser saber qual a “Política de Conduta” do DeusILUSÃO, basta clicar na imagem:

jesus

Duas vezes Sofia

As sacolas de Sofia

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte 6

Qual o sentido da vida?

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte 6

Parte 7

Parte 8

Parte 9

Parte 10

Parte 11

Parte 12

Parte 13

 

 

A véspera do amanhã


No deserto, uma princesa persa. No oceano digital, uma sereia chamada Liz. No topo de uma montanha, um passeio de asa-delta: aproveite ao máximo o voo e a vista, porque, de um jeito ou de outro, você vai acabar pousando; e o chão você já conhece bem.

Ela não preencheu sua autodescrição no perfil do Twitter para se poupar do trabalho de ter que atualizá-la todo dia.

Suas emoções correm nos trilhos de uma montanha-russa; seus pensamentos vêm em forma de tempestade.

Seu maior defeito talvez seja a sua total inabilidade em disfarçar suas emoções; sua maior qualidade, a de saber lidar com sua própria inconstância.

Não se culpa quando magoa (magoar os outros, às vezes, é simplesmente inevitável), nem definha em autopiedade quando é magoada. E não dá pra dizer qual das duas coisas é a causa ou consequência da outra.

Ninguém pode se dar ao luxo de ter muitos amigos sem se valer da poção mágica da hipocrisia; então ela os tem em pouca quantidade, sentindo-se perfeitamente segura para escolher com quem dividir uma pizza, e com quem dividir um segredo.

Às vezes, ela paga pra ver, noutras nem se arrisca; mas não saberia dizer por que, nem quando, uma atitude consegue sobrepujar a outra.

Pode dar um sim depois de meses de ponderações e conjecturas, e um não antes do café da manhã. E vice-versa. 

Não acredita em Deus, mas acredita no amor, embora nenhum dos dois faça o menor sentido.

Detesta rotina; não usa nem o mesmo perfume por duas vezes seguidas.

Adora dormir, mas prefere sonhar acordada.

Enfada-se com qualquer nhe-nhe-nhém.

Domina a arte do silêncio nos casos em que as palavras só atrapalham; e a da indiferença, quando os custos não compensam os benefícios.

Todos os olhares que esvoaçam em volta sempre pousam no seu sorriso. E, enquanto ela não sorri, eles aguardam pacientes como borboletas a sobrevoar um jardim.

Quando ela chega, as apostas aumentam, as vaidades se exaltam, os desejos afloram, as respirações descom-passam, e vários corações disparam às escondidas — ou descaradamente. É quando todos os sonhos valem o risco, e todos os riscos valem a pena.

Quando ela vai embora, o mundo todo parece ter sido comprado numa loja de 1,99.

É assim que eu a vejo. Como o menino de rua que contempla o brinquedo inalcançável atrás do vidro da vitrine; ou como o astrofísico que analisa em êxtase a composição de uma estrela, cujo verdadeiro brilho e beleza não podem ser sequer imaginados, pois tudo o que se tem dela são esses vestígios de luz que atravessaram distâncias inconcebíveis, e que servem menos para dizer de que ela é feita, do que para lembrá-lo de que o mínimo que ela se mostra já é muito mais do que ele merece ver.

Feliz aniversário.

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Religiões também morrem

Uma Ateia Lendo a Bíblia (parte 1)

Por Shirley S. Rodrigues

Imaginemos a seguinte situação.

De um lado está Deus, o criador de tudo que existe, ou que virá a existir unicamente por sua vontade de que exista.

Do outro, o ser humano. Bem, o ser humano ainda não existe, pois Deus ainda não o criou. Esse ser humano, que ainda não foi criado e, portanto, não existe, está pedindo a Deus que o crie, para que ele, ser humano, passe a existir.

Perfeito senhor meu único Deus. Com o devido respeito e toda deferência por tua perfeita, justa, amorosa e bondosa essência, eu peço que use tua divina vontade e me crie. Olhe, prometo, juro por ti: se me criares, eu me comprometo solenemente a fazer tudo que tu ainda vai determinar que eu faça, depois de me criar, bem como te pôr em primeiro lugar acima de todas as outras coisas e de todas as minhas necessidades e prometo que nunca, jamais, em tempo algum vou te desobedecer, te faltar com o respeito. Também nunca farei mal ao meu semelhante; nunca cobiçarei a mulher do próximo; nunca me apropriarei do que não tenha ganhado com o suor do meu rosto; nunca invejarei quem tem algo que eu queira, mas não tenha; jamais comerei um grão além da justa medida de minha fome; não farei sexo pelo sexo, avidamente; nem jamais pensarei em ter sexo com o meu gênero.

Nunca ajuntarei mais que o dinheiro suficiente para o provimento imediato dos meus e de mim mesmo. Não se dará jamais que eu me ire contra o próximo ou que seja tomado de soberba. Serei um igual na multidão, já que não me envaidecerei de mim, ornando-me para ser destacado, e serei tão laborioso que esquecerei o significado da palavra preguiça. Por falar em significado, a palavra guerra sequer constará de meus dicionários. Jamais deixarei de honrar pai e mãe, mesmo considerando que lá adiante, quando enviares a ti mesmo na forma humana para me resgatar dos pecados que nunca cometerei, me ordenares que os abandone, pai e mãe (e filhos e esposa…), por amor de ti.

E Deus, comovendo-se com o pedido do ser que ele ainda não criara, criou-o.

Por sua perfeita e divina vontade, Deus criou o ser humano.

E o ser humano foi uma decepção. Mal saído das fraldas da Criação, deu largas a tudo aquilo que, ainda não criado, prometera não fazer, como forma de persuadir o inocente, até ingênuo Deus, que é onisciente, a criá-lo, o nosso ser humano.

Isso faz sentido para alguém? Não? Que bom: não deve mesmo fazer.

O que deveria fazer sentido é a narrativa que segue.

Era uma vez o Nada. E neste Nada estava o Todo.

O Todo quis criar algo do Nada. E assim surgiu tudo que existe. A Terra, por exemplo, era sem forma e era vazia. Era sem forma e vazia, mas continha abismos e águas. Mais que isso, era possível fazer a separação entre as águas da Terra vazia e sem forma, tanto que o Todo as separou, formando assim o embaixo e o em cima. Ao em cima o Todo chamou Céus. Que não se apegue ninguém ao detalhe de que aqui se está narrando a formação de um corpo, que é um elemento no espaço, como se esse corpo fosse todo o espaço. Ou como se o espaço fosse gerado a partir desse corpo.

Ah sim. O Todo ordenou que houvesse luz, e usou a luz para separar as trevas em dias e noites; depois de haver assim feito, criou luminares (Sol, Lua, estrelas) para… separar o dia da noite. Mas não nos percamos em minúcias.

O Todo semeou a Terra com toda sorte de ervas e árvores frutíferas e criou todas as espécies de que se tem conhecimento. Logo após criou Homem e Mulher.

Não se sabe o que fez com Homem e Mulher, pois em seguida tomou uma porção de barro, soprou nela e fez Adão. Apesar de anteriormente já ter criado as árvores que dão frutos, tornou a criá-las. E tomando de uma costela de Adão, o Todo fez Eva. Daí em diante, o Todo passou a ser conhecido como Deus.

Deus ordenara a Adão que não comesse dos frutos de uma determinada árvore. Foi um dia, uma serpente convenceu Eva que seria proveitoso para ela e Adão se comessem aqueles frutos. Eles comeram e depois disso sua maior preocupação não foi o fato de ter desobedecido a Deus, mas o fato de estarem nus.

Aconteceu  então que Deus, em sua Onisciência, passeando pelo jardim onde alojara Adão e Eva, não vendo Adão, chamou-o perguntando onde Adão estava. Adão respondeu que por vergonha de sua recém-descoberta nudez, escondera-se do Onisciente. O Onisciente, só então descobrindo que fora desobedecido pelo casal e desafiado por uma serpente, irou-se e puniu todos. Desconsidere-se o detalhe de que em sua Perfeição, Justiça e Onipotência deveria nunca ter posto a tal árvore no jardim, ou poderia ter impedido a serpente de tentar Eva, ou, para simplificar tudo, poderia ter criado seres que não o desobedecessem e não ter criado serpentes que o desafiassem.

Daí em diante Eva teria seus filhos sentindo dores, o que faz supor que até então o parto humano ocorria de forma diversa da atual; Adão teria que trabalhar para ganhar o sustento. Sua pregressa vida em ociosidade não entra em confronto com o pecado capital da preguiça; isto é mero detalhe. E a serpente foi condenada a perder suas pernas, além de tornar-se inimiga da mulher; sendo a serpente o que é, tornou-se inimiga também do homem, por conta própria, já que não faz distinção entre ambos na hora de dar o bote.

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