Protegido: sobre a grama que cresce ao sol

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Minha pequena coleção de pecados #2

Pelikan & Namiki 

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Por causa da minha caligrafia ruim e incapacidade de redigir textos à mão, eu enveredei por um caminho completamente novo que acabou revelando tantas coisas sobre mim quanto sobre ele mesmo. Descobri, por exemplo, que passei a minha vida toda segurando a caneta de uma forma errada, enquanto escrevia. Descobri o fascinante mundo das canetas-tinteiro, e toda a complexa relação que existe entre a ponta da pena, o tipo de papel, a qualidade da tinta e o estilo de escrita com a boa ou má caligrafia de cada um. E, finalmente, descobri que, se quisesse de fato alcançar a minha meta de reverter aquele quadro, eu teria que pagar um preço. E, nesse caso, meu cartão de crédito seria completamente inútil. Era preciso dedicação, esforço, perseverança, tempo e, o mais importante de tudo: motivação. Sem motivação nos tornamos escravos das nossas ações, porque acorrentamos nosso cérebro a elas, obrigando-o a trabalhar a contragosto e muito abaixo de sua capacidade, enquanto sonha estar em outro lugar, fazendo outra coisa.

Eu queria reaprender a escrever, e, para isso, eu precisaria escrever. E muito. Mas para realizar meu desejo de produzir textos sem auxílio de um teclado e com uma caligrafia bonita eu precisava também que essa prática perdurasse. Só que todo esforço, tempo e dedicação que eu empregasse nisso seriam inúteis se eu não tivesse algo que me motivasse a escrever. Uma das causas do meu fracasso inicial foi justamente a falta de motivação. Comprei uma caríssima caneta alemã e tinta alemã; comprei uma caríssima caneta japonesa e tinta japonesa; importei papéis da mais alta qualidade da Itália, França e Holanda. Mas não encontrei país nenhum no mundo que me fornecesse online a opção de comprar a mais ínfima lasca de incentivo.

Foi então que me veio a ideia de manter um diário. O compromisso de deixar registrada uma mensagem de cada um dos meus dias para o meu próprio futuro me fascinou. Talvez não fascine tanto a mais ninguém, mas não estou escrevendo para mais ninguém, além de mim mesmo, num ponto do futuro que nem sei se um dia irei alcançar.

Ainda ontem, enquanto abria aleatoriamente suas páginas para tirar uma outra foto dele para ilustrar esse texto, reli uma passagem em que eu discorria tristemente sobre a minha paixão secreta por uma certa moça que, naquela época, era tão inacessível para mim como se ela fosse a mais protegida das princesas na mais alta torre do mais inexpugnável dos castelos, e eu, o rapaz que limpa o cocô das estribarias. Quando terminei de ler minhas queixas sobre a voz dela que eu nunca tinha ouvido sendo dirigida a mim, sobre os olhos que nunca haviam se fixado nos meus, sobre como aquele sonho de me aproximar dela era a mais impossível das impossibilidades, eu apenas pulei para a página em que eu conto como foi aquela fresca e perfumada manhã de sol em que ela desceu dos céus até os porões da minha insignificância, e me pediu para lhe ensinar a andar a cavalo.

Não espero que ninguém mais se interesse pelo que eu vou deixar registrado nos meus Moleskines. Mesmo porque não tem nada que interesse a mais ninguém: é só a minha vida. Mas caso essa pessoa que, um dia, venha a ler meus diários queira me criticar pelas coisas que fiz de errado — no julgamento dela — , eu só queria deixar um recado. Se ela vai me perdoar ou não pelos meus poucos pecados, eu não dou a mínima, porque só me arrependo de uma coisa: não tê-los cometido com mais frequência, até que eles pudessem alcançar a perfeição que mereciam 

 

 

Minha pequena coleção de pecados #1

 diário

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Apesar de ter me doutrinado a nunca tratar de assuntos pessoais no meu blog, o que é um contrassenso, vez ou outra eu me permito certas impropriedades. Como agora. Há cerca de dois anos, descobri estarrecido que tinha perdido quase que completamente a habilidade de produzir textos manuscritos. Meus dedos se tornaram tão íntimos do teclado que só usava canetas para assinar meu nome. Graças à minha extrema competência em digitar com rapidez e precisão, meu cérebro meio que se acostumou a decalcar quase que instantaneamente o resplendor de suas sinapses na tela brilhante do meu MacBook. Quando, um dia, precisei redigir um texto usando uma esferográfica, o bicho travou. Meu cérebro, não o Mac.

Eu demorei muito para concluir meu trabalho, e mais ainda para entender o que tinha acontecido. Qual era o problema? Não era eu que gostava de dizer que era um “escritor”, porque escrevia textos para um blog quase todo dia? Não era eu que conseguia escrever em tempo récorde um relatório, um e-mail, ou seja lá o que fosse, justamente por ter prática de uso e domínio da linguagem escrita? Qual era a pane? O que havia de errado? E quando descobri que estava segurando todas as respostas em uma das mãos, eu me apavorei. Olhei para aquela esferográfica como se ela fosse um objeto alienígena que tivesse vindo dentro de um meteorito.

Meu primeiro pensamento foi “nunca mais pego numa esferográfica de novo”. Resultado do trauma, sem dúvida, essa decisão drástica acabou se concretizando, de certa forma. Virei fã de canetas-tinteiro, depois que decidi retreinar meu cérebro para escrever usando tinta e papel, para o caso de eu ser salvo, e descobrir que o Paraíso é tão chato que precise manter um diário pra passar o tempo, durante toda a eternidade.

A primeira providência que tomei foi adquirir o material necessário. Comprei uma das mais caras canetas-tinteiro da Sheaffer, uma Prelude Blue Shimmer; tinta japonesa de alta qualidade, da Pilot; um papel especial francês, chamado séyès, usado pelas crianças francesas para aprender caligrafia; e diversos bloquinhos da mundial-mente famosa marca italiana Moleskine. Foi quando os débitos em dólar, euros e libras esterlinas no meu cartão me revelaram duas coisas. Uma, que é um desperdício comprar uma Ferrari se o dono não sabe dirigir. A outra: a arte perdida de produzir um texto manuscrito não foi a causa dos músculos da minha mão terem esquecido seus movimentos, tornando minha caligrafia feia e penosamente lenta.

Era sua consequência.

Eu precisava praticar, e não acho que seria recomendável alguém querer aprender a dirigir numa Ferrari. Voltei pra internet e comprei algumas pontas de penas (dip pens), tinta Compactor para caligrafia, e imprimi vários copy books, aqueles livros que têm uma linha de texto que é preciso reescrever ao longo de toda a página, tentando imitar o modelo.

Foi incrível! Depois de algumas semanas me matando de tédio, lutando contra a vontade de tocar fogo naquilo tudo, e perdendo horas preciosas, eu finalmente descobri que todo meu esforço não estava adiantando absolutamente nada! Tirando um enorme calo que lentamente tomava o lugar do meu dedo médio e as manchas de tinta azul sob as minhas unhas, nada mais havia mudado.

Foi então que, depois de quase quatrocentos anos de existência, eu comecei a chorar.  

 

 

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