As lições que aprendi com as pedras

Em algum lugar escondido das terríveis páginas do Antigo Testamento, há um versículo em que a divindade hebraica instrui seus crentes a matar a pedradas os que ousarem querer desviar seu povo para adorar outro deus. Suponho que deva haver ordem semelhante para os que não adoram deus algum, pois durante um longo período da nossa História pessoas foram executadas pelo crime de não crer em Deus.

Foi pensando nisso que intitulei de “Pedradas” a seção do blog que lista os comentários mais recentes dos leitores, sinalizando que eu já bem sabia onde estava me metendo, e com quem iria lidar. Mas eis que, depois de algum tempo, eu descobri que as pedras que os crentes jogavam contra o meu ateísmo tiveram o curioso efeito de fortalecê-lo de um jeito e a um ponto que eu jamais teria conseguido isolado na minha solidão. De repente, percebi que aquelas pedras desajeitadamente pavimentaram um caminho que acabou me conduzindo a mim mesmo, quando me tornei a pessoa que eu sempre quis ser, mesmo quando não sabia ao certo que queria ser assim: alguém conformado com seus próprios defeitos, tolerante com os defeitos dos outros; ciente da própria ignorância e vulnerabilidade; encantado com a vida, fascinado pelo mundo, e resignado com seu próprio fim.

Mas se fosse pra contar, eu diria que as pedradas que mais me doeram foram justamente as que eu arremessei contra os outros, não importando aqui se gostava deles ou não, se mereceram ou não, se acertei ou não. Também não importando se foi ou não de caso pensado, como se diz. 

Certa vez, só pra ficar num exemplo, uma moça muito querida me criticou quase que severamente por eu ter falado Charles Darwin com a pronúncia inglesa; principalmente pelo Darwin, com o w se espreguiçando em u. “É como se você quisesse se exibir”, ela disse. Mas eu não estava querendo me exibir, não, Lu. Apenas nunca tinha ouvido antes a pronúncia de sua preferência: Darvin. Além dos livros, onde o nome Darwin vem, obviamente, apenas escrito, eu havia tomado conhecimento da Teoria da Evolução e de seu ícone através de inúmeros vídeos no YouTube. Quase todos eram “palestras de Natal” que Richard Dawkins ministrava — em inglês britânico — para crianças de seu país. E eu me acostumei à pronúncia.

Recebi a crítica em silêncio, sem contar à Lu que nunca tive aulas sobre a Evolução em todos os meus anos de escola pública de subúrbio do século passado. Nem disse que ela foi a primeira pessoa que eu ouvia pronunciar Darwin com o w soando como v. Não tinha certeza se isso iria melhorar ou piorar as coisas. Então fiquei calado. 

E foi essa a primeira lição que eu aprendi com as pedras. Que a gente pode ofender as pessoas de infinitas maneiras, ainda que nossa vontade de não ofender ninguém também seja infinita.

Aqui vão outras tantas pelas quais, de um jeito ou de outro, devo ter pago um preço relativamente alto, mas que faço questão de distribuir de graça.

* Enxergar nos problemas a dimensão que eles realmente têm.

* Entender que todo problema tem uma solução. Quando se está diante de um que não tem solução, a gente deve lembrar de não perder tempo procurando uma, e tentar se conformar do melhor jeito que encontrar, e seguir vivendo o melhor que puder.

* Muitas vezes, quando não conseguimos resolver um problema, o tempo se encarrega de resolvê-lo por nós.

 Trate-se bem de uma gripe, e ela irá embora em sete dias; se você não se cuidar, ela pode durar toda uma semana.

* Grande parte dos nossos problemas são criados por nós mesmos.

* Muitas das nossas frustrações advêm do fato de não nos aceitarmos como somos e, pior ainda, por querermos fazer com que os outros nos vejam como não somos.

* Algumas vezes, não conseguir algo que queríamos muito pode ser um golpe de sorte.

* Ser desonesto consigo mesmo é seguramente uma fonte inesgotável de sofrimento.

O Alquimista ~1~ [Republicação]

o alquimista

“Você não é derrotado quando perde.

Você é derrotado quando desiste.”

(Paulo Coelho – Manuscrito encontrado em Accra)

Responda rápido: o que você sabe sobre alquimia? Eu acho bem provável que o primeiro pensamento que lhe ocorreu tinha a ver com a transformação de chumbo em ouro. Esse não era o único objetivo da alquimia, mas sem dúvida é o que está mais fortemente associado à palavra. E Paulo Coelho não poderia ter escolhido um título mais conveniente para o livro que iria transformar em realidade o sonho que o acompanhou durante toda sua vida: tornar-se um escritor mundialmente famoso.

Eu também sempre sonhei em ser escritor. Mas como eu nasci muito muito pobre, meu primeiro contato com a literatura foi por intermédio de uma amiga da minha mãe, que me emprestou o livro Recordações de um Agente Secreto, quando eu tinha uns doze, treze anos. Lembro que, tendo me apaixonado por uma das personagens, uma garota de catorze anos chamada Léa Nécil (ou coisa assim), e como praticamente não havia cenas românticas entre ela e o garoto que se achava agente secreto, resolvi eu mesmo reescrever todas as cenas em que os dois apareciam juntos.

Pouco tempo depois, um outro livro também faria eu me apaixonar por uma personagem: Helena, de Machado de Assis, que eu achei no lixo de um vizinho, sem capa e contracapa, sujo e desbeiçado. Diferentemente do outro, desse eu não me atrevi a reescrever nenhuma linha. E foi desde esse tempo que venho sonhando em escrever uma história como aquela: apaixonante, e sem precisar de retoques para ser considerada perfeita.

Quando li uma resenha sobre a biografia de Paulo Coelho, logo percebi que, se quisesse realizar o meu sonho um dia, teria que saber o que levou o autor de O Alquimista a conseguir realizar o dele. Li O Mago duas vezes. Seu autor, Fernando Morais (o mesmo de Olga), é um escritor de primeira grandeza, e a vida que levou o seu biografado lhe deu o material necessário para criar uma obra excepcional e também irretocável. Foi a leitura e releitura dessa biografia que me fez segurar um livro de Paulo Coelho pela primeira vez: O Alquimista, que li em dois dias.

Como admitido logo nas suas primeiras páginas pelo próprio autor, O Alquimista se baseia numa fábula persa (presente em As Mil e Uma Noites) sobre um homem rico que ficou pobre e, acreditando num sonho, conseguiu encontrar um tesouro e tornar-se rico de novo. Essa fábula é, como quase todos as fábulas, uma estória envolvente e bem curtinha, com um final surpreendente e inesquecível. O que Paulo Coelho fez foi esticá-la até que ela ficasse com quase duzentas páginas.

Quando ainda fazia parte de uma seita satânica, Paulo Coelho redigiu com uma caneta esferográfica vermelha um pacto com o Diabo, pelo qual ele entregava sua alma em troca de realizar seu sonho de ser um escritor famoso no mundo todo. Lido o contrato e assinado por uma das partes, Paulo Coelho saiu para dar um passeio, mas voltou rapidinho. Como o Diabo ainda não tinha assinado, ele desistiu de vender sua alma, escrevendo por cima do documento, em letras de forma: “PACTO CANCELADO”.

Não pretendo ler mais nenhum livro de Paulo Coelho, porque se todos os outros forem tão ruins quanto O Alquimista, eu seria obrigado a chegar à inevitável conclusão de que Satanás não aceitou o cancelamento daquele contrato.

O Alquimista ~2~                                                  O Alquimista ~fim~

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Deus é uma ilusão

Are you real?

— VOCÊ É REAL?

Dei ao meu blog o nome de Deusilusão porque “Deus é uma ilusão”. Os crentes, entretanto, não leem dessa forma. Eles entendem que eu me tornei ateu porque tive alguma “desilusão” com Deus. Algo como se eu tivesse pedido ao meu pai terreno um BMW de presente de Natal e, não sendo atendido, deixasse de falar com ele. Claro que isso é tudo o que eles podem fazer, visto que seu raciocínio envolvendo assuntos celestes é apenas uma imitação ridícula das coisas mundanas.   

A minha proposição sempre foi a de que Deus, assim como fadas, duendes e vampiros, é um produto da imaginação humana. O que eu me acostumei a colecionar como argumentos contrários a essa minha constatação só vieram a reforçá-la, uma vez que tais argumentos também são ilusórios, frutos da ignorância, superstição, comodismo, medo e, muitas vezes, doença mental mesmo, resultado de décadas de exposição sem trégua a um confronto interior entre um conjunto de alegações que um religioso precisa, obrigatoriamente, assumir como sendo verdadeiras e úteis, mas que se revelam, ao longo de sua vida, falhas, contraditórias, inúteis e sem sentido. 

O que o crente me diz quando eu lhe questiono sobre os motivos que ele tem para acreditar que Deus existe mesmo, não sendo apenas um personagem de uma coletânea de estórias inventadas? Ora, ele me diz que os motivos são a sua fé, a Bíblia, os milagres, a resposta a orações, experiências pessoais, a própria existência de tudo, a crença compartilhada — ou seja, praticamente todo mundo acredita num Criador — e por aí afora. Tudo isso serve de evidência para ele de que existe, não apenas “um deus”, mas o Deus dele! 

O problema é que isso tudo só prova que existe o crente, e que ele tem um cérebro que está se comportando de acordo com a doutrinação religiosa que recebeu, que foi exatamente o treinamento que ele teve para associar essas experiências internas a uma fonte externa real. E basta analisar uma a uma dessas alegações, como passo a fazer, para perceber o jogo de espelhos que faz o crente se encantar com a mágica da existência de um ser supremo que ele quer que exista, personificado numa criatura cósmica, mistura de Gasparzinho, Super-Homem e Papai Noel.

Amigo crente, sua fé, por si, e nada é a mesma coisa. A fé que uma pessoa tem, seja no que for, só serve pra ela mesma.

Sua Bíblia é uma coletânea de escritos fantasiosos a que você chamaria de mitos, se não fossem os mitos nos quais cresceu acreditando ser verdades incontestáveis. Eu, por exemplo, tenho a coleção completa das aventuras de Sherlock Holmes, e nem por isso saio por aí dizendo pras pessoas que Sherlock Holmes existiu.

Os milagres bíblicos não contam, porque eles estão confinados às páginas da Bíblia, assim como as fadas estão confinadas aos contos de fadas. Os milagres que a gente ouve falar são todos relacionados a “curas” de doenças, ou a “recuperação” de pessoas das drogas, do alcoolismo, da vida promíscua, de um coma, etc. Isso quando não se diz assim: Fulano sofreu um acidente terrível, ficou em coma quase um ano, passou por dezoito cirurgias, mas escapou graças a um milagre de Deus. Ou seja: além da sua fé em Deus e do pagamento do dízimo, você ainda vai precisar de um bom plano de saúde.

Os demais milagres — como imagens de santa chorando sangue, aparições de santa para crianças ou em vidraças, etc. — são tudo fraude, enganação, embuste, mitologia, quando não mentira pura e simples mesmo, que os crentes sempre estão dispostos a louvar, mesmo sem ter o trabalho de averiguar a coisa melhor.

E o atendimento às suas preces? Deus só responde suas orações se você considerar o silêncio como um tipo de resposta. E você sabe tanto disso que jamais se permitiria “checar” esse único quesito, dentre os quais eu listei, que poderia ser checado. Você vai dar uma desculpa para não fazer isso, e vai ficar extremamente satisfeito por não poder ser desmascarado.

Experiências pessoais. Eu pergunto: se eu tomar um porre, quem fica bêbado, eu ou você? Eu? Ótimo. Então guarde suas experiências pessoais para a fila dos testemunhos nos cultos de domingo, porque elas não valem nada aqui.

A própria existência de tudo. Nesse caso, você está usando como argumento em defesa da tese da existência de Deus a mesma coisa que foi usada para “inventar” Deus. Aí, já viu, né? Sem condições!

As pessoas tendem a acreditar que existe um Criador… Aqui eu concluo dizendo que, tanto isso quanto tudo o mais que eu citei acima, só serve para evidenciar que o crente existe e que tem um cérebro. Se ele chama ao próprio cérebro de Deus, aí tudo bem: Deus existe!

Pai-Nosso Ateu

Faz o possível para que, no futuro, nunca te culpes
por teres negligenciado a tua vida;
por teres esnobado as tuas manhãs
desperdiçando aquelas horas que pareciam infindáveis,
mas que já estavam contadas.

Faz o possível para que o teu medo de errar não te roube
os teus maiores acertos;
para que a tua mania de sempre fazer
o que os outros querem ou esperam que tu faças
não te prive dos teus melhores momentos.

Faz o possível para que daqui a muitos, muitos anos,
ao olhar para trás e contemplar toda a tua vida,
tu possas vê-la repleta de tentativas e de caminhos trilhados.

E para que quando os anos começarem a pesar…
tu possas ter orgulho deles.
Faz agora tudo o que estiver ao teu alcance
para que os teus olhos possam chorar de saudade dos dias de hoje.
E não de tristeza por tê-los vivido tão pouco.

Valoriza e aproveita bem cada um dos teus dias…
pois tu jamais terás nenhum deles de volta!

Deuses de mármore [Edição Completa]

produto final - deuses de mármore

Diz-se que, quando perguntado como era capaz de esculpir estátuas tão perfeitas, Michelângelo costumava responder:

   Ela já estava lá, dentro do bloco de mármore; eu só retirei os excessos.

Embora fosse um meio de expressar sua indevida modéstia, não se pode dizer que o famoso escultor estivesse errado: todo o seu trabalho se resumia a retirar os pedaços que não estavam destinados a fazer parte de sua obra. O material que compõe a estátua pronta, como ele bem observou, sempre esteve lá, escondido por trás dos excessos de pedra a que ele se referia.

Outro dia me dei conta de que a Bíblia sagrada dos cristãos é, também, um bloco de mármore, a partir do qual cada crente esculpe o seu próprio Deus, de acordo com suas preferências pessoais, assim como um escultor tira de uma pedra bruta a figura que bem quer. Não admira haver tantas denominações religiosas, tantas interpretações diferentes para um mesmo livro sagrado, tantas regras diferentes que, se descumpridas, conduzirão a diferentes infernos…

Dizer que o Deus cristão é único é uma das maiores mentiras do cristianismo, se não a maior, a começar pelo seu próprio dogma da Santíssima Trindade, que obriga o religioso a se entender com dois deuses ao mesmo tempo — Jesus e o Pai dele — , porque o Espírito Santo, a bem da verdade, nem fede nem cheira.

esboço - deuses de mármore

Um leitor do blog vez e outra costumava escrever nos comentários dos meus textos: Desse Deus em que você acredita, eu também sou ateu. Isso como forma de rebater os argumentos em que eu descrevia as incongruências entre o Deus-Papai Noel com o qual os cristãos viciam seus filhos, e o Deus esquizofrênico presente em toda a Bíblia. Para esse meu leitor, aquele Deus a que eu me referia nos posts do blog simplesmente não existia; daí ele se considerar, também, um ateu. Só que todos os meus textos sobre Deus são baseados na Bíblia, que é a única “fonte” original sobre ele. Para acreditar num Deus de amor, justo e bonzinho, o cristão precisa fazer, com o seu livro sagrado, o mesmo que o escultor faz com um bloco de mármore: retirar tudo o que não serve para compor a estátua que ele já imagina estar ali dentro. É um processo bastante ineficiente, nesse caso, porque, mantendo a comparação, os pedaços da Bíblia que ele jogou fora para moldar o seu Deus continuam sempre lá.

Eu, que moro a menos de quinhentos metros de uma boca de culto de Testemunhas de Jeová, tenho exemplos sem conta para ilustrar isso. Como se sabe, uma vez por semana elas saem batendo de porta em porta para entregar revistas, panfletos, e falar do amor que uma certa criatura que se esconde numa dimensão mágica tem por você. O engraçado é que, quando o meu pai vai atendê-las, eles costumam demorar uns dez, quinze minutos conversando. Quando sou eu, a conversa não se estende além de uns dois minutos:

 — Deus me ama? E se, por acaso, eu não resolver amar ele de volta, ele vai me jogar no Inferno?

 — Olha, Deus amou tanto o mundo que enviou seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna.

 — E Deus amou tanto o mundo a ponto de afogar as pessoas num dilúvio, como quem dá descarga.

Quando a conversa é com meu pai, suponho, as Testemunhas de Jeová se detêm falando de amenidades, quando o Deus-Bipolar estava de bom humor, talvez. Quando é comigo, eu descaradamente faço com que elas contemplem os pedaços da Bíblia que não fazem parte do Deus que elas esculpiram para si mesmas.

Todo religioso com quem já conversei age como se o Deus do Antigo Testamento tivesse morrido. Isso mesmo. É como se ele tivesse existido, criado o universo, tocado o terror na Terra por um tempo e, por fim, tivesse envelhecido e batido as botas, igualzinho a todo mundo. E como “Deus morto, deus posto”, eis que a vaga veio a ser ocupada por seu filho, Jesus. E é a esse que as pessoas que conheço se referem o tempo todo, mal lembrando do outro lá, o falecido.

Quando algum crente menciona Deus, nunca é o Deus bíblico. É um Deus que ele criou em sua cabeça, a partir da ideia que faz de como um deus deveria ser.

Um escultor pode olhar para um bloco de mármore e imaginar a figura que irá tirar dele, assim que cortar fora os pedaços de pedra que a estão escondendo dos olhos do mundo. Enquanto não começa a trabalhar, só o artista vê o que ali está escondido. O cristão tenta fazer o mesmo com a sua divindade, mas, diferentemente do mármore, a Bíblia não se deixa despedaçar. Daí o crente precisar contar com a boa vontade dos outros para imaginar, junto com ele, o mesmo Deus que ele imagina ver sob o mármore. É a razão de tantas religiões cristãs: cada grupo de pessoas vê um Deus diferente.

Se você quiser fazer um teste, sempre que alguém vier “falar de Deus” pra você, esse Deus que se diz ser bondoso, paternal, perfeito, etc., aponte no Antigo Testamento um dos sem-número de trechos que descrevem um Deus malévolo, belicoso e infestado de péssimos atributos humanos. As chances são de que a pessoa sugira que você faça o que ela mesma já fez: jogar fora esses pedaços de Bíblia que não fazem parte da sua escultura.

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Qual o sentido da vida? (fim)

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Sofia não aceitou muito bem meus argumentos, mas, quando nos despedimos, eu tive a impressão de que ela ainda iria passar muito tempo considerando tudo que conversamos. Enquanto voltava sozinho para a minha dimensão no nono andar, eu observava as pessoas nas calçadas, nos bancos de praça, nas esquinas de sinal vermelho. Será que alguma vez elas já se perguntaram sobre o sentido de suas vidas? Provavelmente não. Elas estão ocupadas demais em continuar girando, como uma pequena engrenagem que não faz a menor ideia de sua função dentro de uma máquina gigantesca.

Ignorantes de si mesmas, eu as vejo como mendigos, catando ao longo de suas vidas as migalhas de prazer que dão sentido a ela. E as vejo como prisioneiras, precisando se conformar com o que têm dentro de suas próprias celas, e aprender a extrair o máximo de prazer do que está em volta. Seus corpos de animais podem facilmente ter satisfeitas suas necessidades mais básicas. Mas suas mentes são animais imateriais com um apetite insaciável. E elas se alimentam apenas de prazer, que, para quase todos nós, é consumido ao ritmo de migalhas ao longo dos dias, dos meses e dos anos.

O que fazer, então, nos intervalos entre uma e outra migalha? É preciso entrar num estado em que intencionalmente iludimos nossa consciência, colocando-a num transe de embriaguez anestésica, de suspensão forçada, em que a vida é vivida em uma marcha-lenta hipnótica à espera da próxima oportunidade de recompensa. Quando essa recompensa demora, é preciso acalmar a fera sedenta que nossos corpos carregam, e nós a sedamos com drogas saudáveis e prejudiciais, palavras-cruzadas, conversas improdutivas, informações inúteis; nós a distraímos com lembranças extremamente prazerosas, ao som de músicas que nos transportam de volta a um momento maravilhoso, ou nos levam para um futuro que jamais viveremos; nós a consolamos com romances e filmes que trazem para as nossas vidas as emoções que não conseguimos obter por conta própria, ou que sequer tivemos coragem de tentar. 

Fazemos isso tão rotineiramente e há tanto tempo, que nunca nos demos conta. Mas observe o que acontece numa longa fila de banco ou de supermercado e facilmente você identificará o processo. As pessoas estarão conversando com estranhos, ouvindo música, mexendo no celular, lendo uma revista… Poderão estar, também, totalmente absortas em seus próprios pensamentos, divertindo-se com alguma lembrança boa, ou imaginando uma situação imensamente prazerosa, por mais absurda, improvável ou impossível que seja. Repare bem em seus rostos e compare suas expressões e atitudes com as daquelas que estão apenas concentradas na sua real situação: a de ter que permanecer por vários minutos numa longa fila. Só aí você irá perceber a agonia do animal humano preso na sua cela sem nenhuma migalha de prazer para saciar seu apetite voraz.

Acredito que a quase totalidade de nós não tem noção do que é, nem do que é feito, nem de “para que serve”… As pessoas não têm para si as mesmas respostas que dariam sentido a um saca-rolhas. Para elas, a vida é completamente sem propósito; uma imposição do acaso incompreensível da existência em que se descobriram, no susto de quem desavisadamente cai num rio caudaloso e é arrastado pela correnteza. O melhor que conseguem fazer é se debater vigorosa e continuadamente para manter o rosto acima da superfície da água. Elas levantam de manhã, levam seus filhos para a escola, vão para o trabalho, enfrentam o trânsito, voltam para casa à noite, dia após dia, e nem mesmo sabem por que fazem o que fazem. Na verdade, sequer encontram tempo para refletir sobre isso, ou, pior, mentem para si mesmas ao assumirem que o sentido de suas vidas está vinculado à tola esperança de viver uma outra, para sempre, num mundo encantado repleto de prazeres.

Quando admitimos que, em última análise e em última instância, é o prazer que dá sentido às nossas vidas; quando percebemos que tudo o que fazemos — ou que deixamos de fazer — é para tornar mais frequentes as oportunidades de sentirmos prazer e reduzir as situações que possam nos privar dele, então todo o resto passa a fazer sentido. Quando descobrimos os limites de nossas próprias celas; quando identificamos o que nos dá prazer ao longo dos nossos dias, e o que fazemos entre esses momentos; somente aí é que podemos dizer que realmente estamos vivendo a nossa vida, em vez de estarmos sendo arrastados por ela.

Talvez somente essa consciência do que dá sentido à vida nos permita fazer, hoje, tudo o que estiver ao nosso alcance para vivermos da melhor maneira que pudermos, e aproveitarmos ao máximo a única vida que teremos. E também para que, no futuro, quando essa mesma consciência enfim nos alertar de que nosso tempo já está inadiável e inevitavelmente no fim, nós possamos nos conformar com nosso próprio destino, e aproveitar para chorar de saudade de todos os dias que vivemos. Em vez de chorar de tristeza por tê-los vivido tão pouco.

 Para Elizabeth

 

Eu vivo

Qual o sentido da vida? (parte 12)

garota paquistanesa

Começava a chover fino, e Sofia acompanhava com interesse os pingos que escorriam pelo vidro que nos separava da rua.

— Você tinha prometido não se demorar nesse assunto depressivo.

— Eu me empolguei, eu acho. E você ainda nem me respondeu.

— O quê? — ela perguntou voltando-se novamente para mim.

— Qual o sentido da vida?

— Segundo você, é sentir prazer.

— E segundo você mesma?

— Eu não estou certa. E ainda não sei como você pode estar tão certo disso.

— Para perceber como eu estou certo, basta abrir os olhos para o mundo à nossa volta. Nós somos animais, Sofia; mas não somente isso. Nós evoluímos como os outros bichos, com o mesmo propósito de apenas perpetuar nossos próprios genes. Acontece que um subproduto da evolução nos dotou com uma centelha de inteligência que começou a evoluir descontroladamente. Aquela centelha acabou se tornando tão poderosa que se libertou dos caprichos do processo evolutivo que a criou. Ela se transformou em nós, e nós somos essa consciência que vive apenas de instantes e se alimenta de prazer. Nossa vida é tão somente o agora. O resto é lembrança e imaginação.

— Não sei por que, mas isso ainda me parece errado.

— Mas não está errado. Tudo e qualquer coisa que você faça, em última análise, visa a obtenção de prazer. Digo “em última análise” porque há coisas que a gente faz para evitar, superar, minorar, etc., situações de “desconforto”.

— Situações de desconforto?

— Coisas que certamente impediriam você de sentir prazer, ou que fariam você aproveitar menos os prazeres disponíveis. Você estuda química pelo mesmo motivo que vai ao dentista, por exemplo: evitar situações desconfortáveis, imediatas ou futuras. Seja um emprego mal remunerado, um sorriso feio, ou uma velhice aprisionada a dentes postiços. Você se preocupa com a sua própria saúde e com a saúde e bem-estar daqueles a quem você ama? Claro que sim. E por quê? Ora, porque você os ama. Mas também porque se sua mãe estivesse muito doente, você certamente não estaria aqui comigo aproveitando sua torta alemã e filosofando sobre a vida.  

— Não mesmo.

— Prazer. É o que dá sentido às nossas vidas. Situações de desconforto te impedem de sentir prazer, ou reduzem a sua capacidade de senti-lo. Por isso você faz coisas que, à primeira vista, não estão relacionadas a ele. Quando perceber uma, tente identificar de que “desconforto” essa coisa está te livrando, e você vai ver como eu estou certo.

— Acho que descobri o que me parecia errado nesse pensamento…

— E o que é?

— Um mendigo…

— Sim?

— Um mendigo desses que vivem na rua… Extremamente miserável… Que sentido a vida dele pode ter? Se ele come do lixo, não tem casa, dorme no chão… Onde tá o sentido da vida dele? De onde ele tira prazer? Se prazer é o sentido da vida, a vida de alguém assim não teria sentido. Então por que ele não se mata, igual ao prisioneiro da sua estória?

— Um mendigo não se mata porque ele ainda pode obter prazer com sua vida miserável. Quantas vezes, Sofia, você bebeu água quando estava com muita sede? Ou fez uma refeição quando estava morrendo de fome? Ou dormiu quando estava quase desmaiando de sono? Ou descansou quando estava exausta? Quase nunca, não é? Agora imagine o prazer que um banho, um descanso, uma refeição ou um simples copo d’água podem dar a uma pessoa para quem essas coisas são um luxo. São esses prazeres que dão sentido à vida dos miseráveis. É isso que, aliado ao instinto de sobrevivência do nosso lado animal, impede alguém nessas condições de tirar a própria vida.

— Nossa!, eu morro de pena de gente assim...

— Então você deve ter pena de toda a humanidade…

— E por quê?…

— Porque quase todos nós somos um mendigo miserável dentro de uma prisão.‘f

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