Pai-Nosso Ateu

Faz o possível para que, no futuro, nunca te culpes
por teres negligenciado a tua vida;
por teres esnobado as tuas manhãs
desperdiçando aquelas horas que pareciam infindáveis,
mas que já estavam contadas.

Faz o possível para que o teu medo de errar não te roube
os teus maiores acertos;
para que a tua mania de sempre fazer
o que os outros querem ou esperam que tu faças
não te prive dos teus melhores momentos.

Faz o possível para que daqui a muitos, muitos anos,
ao olhar para trás e contemplar toda a tua vida,
tu possas vê-la repleta de tentativas e de caminhos trilhados.

E para que quando os anos começarem a pesar…
tu possas ter orgulho deles.
Faz agora tudo o que estiver ao teu alcance
para que os teus olhos possam chorar de saudade dos dias de hoje.
E não de tristeza por tê-los vivido tão pouco.

Valoriza e aproveita bem cada um dos teus dias…
pois tu jamais terás nenhum deles de volta!

Deuses de mármore [Edição Completa]

produto final - deuses de mármore

Diz-se que, quando perguntado como era capaz de esculpir estátuas tão perfeitas, Michelângelo costumava responder:

   Ela já estava lá, dentro do bloco de mármore; eu só retirei os excessos.

Embora fosse um meio de expressar sua indevida modéstia, não se pode dizer que o famoso escultor estivesse errado: todo o seu trabalho se resumia a retirar os pedaços que não estavam destinados a fazer parte de sua obra. O material que compõe a estátua pronta, como ele bem observou, sempre esteve lá, escondido por trás dos excessos de pedra a que ele se referia.

Outro dia me dei conta de que a Bíblia sagrada dos cristãos é, também, um bloco de mármore, a partir do qual cada crente esculpe o seu próprio Deus, de acordo com suas preferências pessoais, assim como um escultor tira de uma pedra bruta a figura que bem quer. Não admira haver tantas denominações religiosas, tantas interpretações diferentes para um mesmo livro sagrado, tantas regras diferentes que, se descumpridas, conduzirão a diferentes infernos…

Dizer que o Deus cristão é único é uma das maiores mentiras do cristianismo, se não a maior, a começar pelo seu próprio dogma da Santíssima Trindade, que obriga o religioso a se entender com dois deuses ao mesmo tempo — Jesus e o Pai dele — , porque o Espírito Santo, a bem da verdade, nem fede nem cheira.

esboço - deuses de mármore

Um leitor do blog vez e outra costumava escrever nos comentários dos meus textos: Desse Deus em que você acredita, eu também sou ateu. Isso como forma de rebater os argumentos em que eu descrevia as incongruências entre o Deus-Papai Noel com o qual os cristãos viciam seus filhos, e o Deus esquizofrênico presente em toda a Bíblia. Para esse meu leitor, aquele Deus a que eu me referia nos posts do blog simplesmente não existia; daí ele se considerar, também, um ateu. Só que todos os meus textos sobre Deus são baseados na Bíblia, que é a única “fonte” original sobre ele. Para acreditar num Deus de amor, justo e bonzinho, o cristão precisa fazer, com o seu livro sagrado, o mesmo que o escultor faz com um bloco de mármore: retirar tudo o que não serve para compor a estátua que ele já imagina estar ali dentro. É um processo bastante ineficiente, nesse caso, porque, mantendo a comparação, os pedaços da Bíblia que ele jogou fora para moldar o seu Deus continuam sempre lá.

Eu, que moro a menos de quinhentos metros de uma boca de culto de Testemunhas de Jeová, tenho exemplos sem conta para ilustrar isso. Como se sabe, uma vez por semana elas saem batendo de porta em porta para entregar revistas, panfletos, e falar do amor que uma certa criatura que se esconde numa dimensão mágica tem por você. O engraçado é que, quando o meu pai vai atendê-las, eles costumam demorar uns dez, quinze minutos conversando. Quando sou eu, a conversa não se estende além de uns dois minutos:

 — Deus me ama? E se, por acaso, eu não resolver amar ele de volta, ele vai me jogar no Inferno?

 — Olha, Deus amou tanto o mundo que enviou seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna.

 — E Deus amou tanto o mundo a ponto de afogar as pessoas num dilúvio, como quem dá descarga.

Quando a conversa é com meu pai, suponho, as Testemunhas de Jeová se detêm falando de amenidades, quando o Deus-Bipolar estava de bom humor, talvez. Quando é comigo, eu descaradamente faço com que elas contemplem os pedaços da Bíblia que não fazem parte do Deus que elas esculpiram para si mesmas.

Todo religioso com quem já conversei age como se o Deus do Antigo Testamento tivesse morrido. Isso mesmo. É como se ele tivesse existido, criado o universo, tocado o terror na Terra por um tempo e, por fim, tivesse envelhecido e batido as botas, igualzinho a todo mundo. E como “Deus morto, deus posto”, eis que a vaga veio a ser ocupada por seu filho, Jesus. E é a esse que as pessoas que conheço se referem o tempo todo, mal lembrando do outro lá, o falecido.

Quando algum crente menciona Deus, nunca é o Deus bíblico. É um Deus que ele criou em sua cabeça, a partir da ideia que faz de como um deus deveria ser.

Um escultor pode olhar para um bloco de mármore e imaginar a figura que irá tirar dele, assim que cortar fora os pedaços de pedra que a estão escondendo dos olhos do mundo. Enquanto não começa a trabalhar, só o artista vê o que ali está escondido. O cristão tenta fazer o mesmo com a sua divindade, mas, diferentemente do mármore, a Bíblia não se deixa despedaçar. Daí o crente precisar contar com a boa vontade dos outros para imaginar, junto com ele, o mesmo Deus que ele imagina ver sob o mármore. É a razão de tantas religiões cristãs: cada grupo de pessoas vê um Deus diferente.

Se você quiser fazer um teste, sempre que alguém vier “falar de Deus” pra você, esse Deus que se diz ser bondoso, paternal, perfeito, etc., aponte no Antigo Testamento um dos sem-número de trechos que descrevem um Deus malévolo, belicoso e infestado de péssimos atributos humanos. As chances são de que a pessoa sugira que você faça o que ela mesma já fez: jogar fora esses pedaços de Bíblia que não fazem parte da sua escultura.

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Qual o sentido da vida? (fim)

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Sofia não aceitou muito bem meus argumentos, mas, quando nos despedimos, eu tive a impressão de que ela ainda iria passar muito tempo considerando tudo que conversamos. Enquanto voltava sozinho para a minha dimensão no nono andar, eu observava as pessoas nas calçadas, nos bancos de praça, nas esquinas de sinal vermelho. Será que alguma vez elas já se perguntaram sobre o sentido de suas vidas? Provavelmente não. Elas estão ocupadas demais em continuar girando, como uma pequena engrenagem que não faz a menor ideia de sua função dentro de uma máquina gigantesca.

Ignorantes de si mesmas, eu as vejo como mendigos, catando ao longo de suas vidas as migalhas de prazer que dão sentido a ela. E as vejo como prisioneiras, precisando se conformar com o que têm dentro de suas próprias celas, e aprender a extrair o máximo de prazer do que está em volta. Seus corpos de animais podem facilmente ter satisfeitas suas necessidades mais básicas. Mas suas mentes são animais imateriais com um apetite insaciável. E elas se alimentam apenas de prazer, que, para quase todos nós, é consumido ao ritmo de migalhas ao longo dos dias, dos meses e dos anos.

O que fazer, então, nos intervalos entre uma e outra migalha? É preciso entrar num estado em que intencionalmente iludimos nossa consciência, colocando-a num transe de embriaguez anestésica, de suspensão forçada, em que a vida é vivida em uma marcha-lenta hipnótica à espera da próxima oportunidade de recompensa. Quando essa recompensa demora, é preciso acalmar a fera sedenta que nossos corpos carregam, e nós a sedamos com drogas saudáveis e prejudiciais, palavras-cruzadas, conversas improdutivas, informações inúteis; nós a distraímos com lembranças extremamente prazerosas, ao som de músicas que nos transportam de volta a um momento maravilhoso, ou nos levam para um futuro que jamais viveremos; nós a consolamos com romances e filmes que trazem para as nossas vidas as emoções que não conseguimos obter por conta própria, ou que sequer tivemos coragem de tentar. 

Fazemos isso tão rotineiramente e há tanto tempo, que nunca nos demos conta. Mas observe o que acontece numa longa fila de banco ou de supermercado e facilmente você identificará o processo. As pessoas estarão conversando com estranhos, ouvindo música, mexendo no celular, lendo uma revista… Poderão estar, também, totalmente absortas em seus próprios pensamentos, divertindo-se com alguma lembrança boa, ou imaginando uma situação imensamente prazerosa, por mais absurda, improvável ou impossível que seja. Repare bem em seus rostos e compare suas expressões e atitudes com as daquelas que estão apenas concentradas na sua real situação: a de ter que permanecer por vários minutos numa longa fila. Só aí você irá perceber a agonia do animal humano preso na sua cela sem nenhuma migalha de prazer para saciar seu apetite voraz.

Acredito que a quase totalidade de nós não tem noção do que é, nem do que é feito, nem de “para que serve”… As pessoas não têm para si as mesmas respostas que dariam sentido a um saca-rolhas. Para elas, a vida é completamente sem propósito; uma imposição do acaso incompreensível da existência em que se descobriram, no susto de quem desavisadamente cai num rio caudaloso e é arrastado pela correnteza. O melhor que conseguem fazer é se debater vigorosa e continuadamente para manter o rosto acima da superfície da água. Elas levantam de manhã, levam seus filhos para a escola, vão para o trabalho, enfrentam o trânsito, voltam para casa à noite, dia após dia, e nem mesmo sabem por que fazem o que fazem. Na verdade, sequer encontram tempo para refletir sobre isso, ou, pior, mentem para si mesmas ao assumirem que o sentido de suas vidas está vinculado à tola esperança de viver uma outra, para sempre, num mundo encantado repleto de prazeres.

Quando admitimos que, em última análise e em última instância, é o prazer que dá sentido às nossas vidas; quando percebemos que tudo o que fazemos — ou que deixamos de fazer — é para tornar mais frequentes as oportunidades de sentirmos prazer e reduzir as situações que possam nos privar dele, então todo o resto passa a fazer sentido. Quando descobrimos os limites de nossas próprias celas; quando identificamos o que nos dá prazer ao longo dos nossos dias, e o que fazemos entre esses momentos; somente aí é que podemos dizer que realmente estamos vivendo a nossa vida, em vez de estarmos sendo arrastados por ela.

Talvez somente essa consciência do que dá sentido à vida nos permita fazer, hoje, tudo o que estiver ao nosso alcance para vivermos da melhor maneira que pudermos, e aproveitarmos ao máximo a única vida que teremos. E também para que, no futuro, quando essa mesma consciência enfim nos alertar de que nosso tempo já está inadiável e inevitavelmente no fim, nós possamos nos conformar com nosso próprio destino, e aproveitar para chorar de saudade de todos os dias que vivemos. Em vez de chorar de tristeza por tê-los vivido tão pouco.

 Para Elizabeth

 

Eu vivo

Qual o sentido da vida? (parte 12)

garota paquistanesa

Começava a chover fino, e Sofia acompanhava com interesse os pingos que escorriam pelo vidro que nos separava da rua.

— Você tinha prometido não se demorar nesse assunto depressivo.

— Eu me empolguei, eu acho. E você ainda nem me respondeu.

— O quê? — ela perguntou voltando-se novamente para mim.

— Qual o sentido da vida?

— Segundo você, é sentir prazer.

— E segundo você mesma?

— Eu não estou certa. E ainda não sei como você pode estar tão certo disso.

— Para perceber como eu estou certo, basta abrir os olhos para o mundo à nossa volta. Nós somos animais, Sofia; mas não somente isso. Nós evoluímos como os outros bichos, com o mesmo propósito de apenas perpetuar nossos próprios genes. Acontece que um subproduto da evolução nos dotou com uma centelha de inteligência que começou a evoluir descontroladamente. Aquela centelha acabou se tornando tão poderosa que se libertou dos caprichos do processo evolutivo que a criou. Ela se transformou em nós, e nós somos essa consciência que vive apenas de instantes e se alimenta de prazer. Nossa vida é tão somente o agora. O resto é lembrança e imaginação.

— Não sei por que, mas isso ainda me parece errado.

— Mas não está errado. Tudo e qualquer coisa que você faça, em última análise, visa a obtenção de prazer. Digo “em última análise” porque há coisas que a gente faz para evitar, superar, minorar, etc., situações de “desconforto”.

— Situações de desconforto?

— Coisas que certamente impediriam você de sentir prazer, ou que fariam você aproveitar menos os prazeres disponíveis. Você estuda química pelo mesmo motivo que vai ao dentista, por exemplo: evitar situações desconfortáveis, imediatas ou futuras. Seja um emprego mal remunerado, um sorriso feio, ou uma velhice aprisionada a dentes postiços. Você se preocupa com a sua própria saúde e com a saúde e bem-estar daqueles a quem você ama? Claro que sim. E por quê? Ora, porque você os ama. Mas também porque se sua mãe estivesse muito doente, você certamente não estaria aqui comigo aproveitando sua torta alemã e filosofando sobre a vida.  

— Não mesmo.

— Prazer. É o que dá sentido às nossas vidas. Situações de desconforto te impedem de sentir prazer, ou reduzem a sua capacidade de senti-lo. Por isso você faz coisas que, à primeira vista, não estão relacionadas a ele. Quando perceber uma, tente identificar de que “desconforto” essa coisa está te livrando, e você vai ver como eu estou certo.

— Acho que descobri o que me parecia errado nesse pensamento…

— E o que é?

— Um mendigo…

— Sim?

— Um mendigo desses que vivem na rua… Extremamente miserável… Que sentido a vida dele pode ter? Se ele come do lixo, não tem casa, dorme no chão… Onde tá o sentido da vida dele? De onde ele tira prazer? Se prazer é o sentido da vida, a vida de alguém assim não teria sentido. Então por que ele não se mata, igual ao prisioneiro da sua estória?

— Um mendigo não se mata porque ele ainda pode obter prazer com sua vida miserável. Quantas vezes, Sofia, você bebeu água quando estava com muita sede? Ou fez uma refeição quando estava morrendo de fome? Ou dormiu quando estava quase desmaiando de sono? Ou descansou quando estava exausta? Quase nunca, não é? Agora imagine o prazer que um banho, um descanso, uma refeição ou um simples copo d’água podem dar a uma pessoa para quem essas coisas são um luxo. São esses prazeres que dão sentido à vida dos miseráveis. É isso que, aliado ao instinto de sobrevivência do nosso lado animal, impede alguém nessas condições de tirar a própria vida.

— Nossa!, eu morro de pena de gente assim...

— Então você deve ter pena de toda a humanidade…

— E por quê?…

— Porque quase todos nós somos um mendigo miserável dentro de uma prisão.‘f

Qual o sentido da vida? (parte 11)

Norma Jean

— Por que uma pessoa rica se mataria… — ela repetiu a pergunta pra si mesma, enquanto contemplava a rua através da enorme vidraça ao lado da nossa mesa — …se ela teria dinheiro suficiente pra pagar por todo tipo de prazer disponível? Realmente — ela concluiu voltando o olhar para mim — , sua tese desmoronou.

— Você acha?

— Eu acho. Se é mesmo prazer que dá sentido à vida, e se pessoas ricas podem pagar por todo e qualquer tipo de prazer disponível, a gente não poderia nunca ouvir falar de alguém assim cometendo suicídio.

— É um raciocínio bem coerente, Sofia. Mas me diga: por que você escolheu torta alemã com Coca-Cola e eu apenas um cappuccino?

— Ora, mas o que isso tem a ver?

— Sofia…

— Tá, já entendi. Esse seu jogo tá mais lento do que aquele das sacolas… Mas tudo bem… Vejamos… Porque eu estava com vontade de comer torta alemã com Coca-Cola. Essa serve?

— Então você acordou com essa vontade hoje…?

— Claro que não!

— Desde quando você passou a ter vontade de comer torta com refrigerante?

— Ora, desde que você me convidou pra vir aqui. Aí eu escolhi isso, e você, o cappuccino.

— Você concordaria comigo se eu afirmasse que você fez esse pedido porque, dentre as opções disponíveis, considerou que essa torta e essa marca de refrigerante iriam lhe dar mais prazer do que qualquer outra combinação possível no momento?

— Hummm…

— Por exemplo: por que não torta alemã com Fanta uva, ou com cappuccino? Ou kibe com suco de laranja? Ou coxinha com água?

— Você tá querendo dizer…

— Que é você, e mais ninguém, que pode decidir o que é que lhe dá ou não dá prazer; ou o que lhe dá mais ou menos prazer.

— E…?

— Uma pessoa rica pode chegar nessa loja e ficar muito frustrada com as opções, não pode?

— Pode. Mas eu acho que ninguém iria se matar porque aqui não servem pretzel com guaraná.

— Também acho. Mas a questão aqui é outra: nem sempre o que você pode comprar está disponível; ou nem sempre está à venda.

— Elabore melhor isso, que eu me perdi um pouco, eu acho.

— Muito bem. Vou me citar como exemplo. Eu jogo xadrez desde o início da minha adolescência. Aprendi sozinho todos os tipos de notação de xadrez para poder ler livros e matérias em jornais e revistas especializadas, além dos registros das partidas dos Grandes Mestres. Eu sempre sonhei em ser, pelo menos, Mestre Nacional em xadrez. Mas adivinha: eu tenho uma memória péssima, baixíssima capacidade de concentração, força de vontade insuficiente, um raciocínio lógico-abstrato capenga e uma inteligência bastante duvidosa. Mesmo se eu tivesse tanto dinheiro quanto o Bil Gates, é bem provável que jamais me tornasse um Mestre em xadrez. E não dá pra comprar um título desses numa delicatessen.

— Então você iria se matar…

— Não. Mas você entendeu que, mesmo dinheiro não sendo problema, alguém poderia não conseguir satisfazer seus próprios desejos?

— Entendi. Mas aí, no seu caso, você poderia escolher outra coisa. Hipismo, alpinismo, yoga… Ia tentando e aproveitando a vida…

marilyn-monroe

— Sim. Seria o esperado. Mas, às vezes, Sofia, a coisa desejada poderia ser… digamos… tão vital quanto o ar que se respira.

— Não consigo imaginar nada assim tão…

— Marilyn Monroe. Sabe quem foi ela?

— Mais ou menos. Uma atriz, né?

— É. Um ícone. Um símbolo sexual. Desejada por todos os homens. Invejada (ou odiada) pelas mulheres. Rica. Linda. Famosa. Infeliz.

— Também queria ser enxadrista?

— Ela casou com homens que a queriam como um troféu. E era assim que ela se sentia. Frustrada, sem parentes próximos e sem amigos íntimos, ela se entregou de corpo e alma ao trabalho, e o estresse da vida que levava a arremessou no mundo dos calmantes, dos remédios pra dormir. Como eram drogas pesadas, ela acabou se viciando nelas, e precisando de outras drogas para se manter desperta e ativa durante o dia, numa montanha-russa mortal. Na última noite de sua vida, ela ligou para vários supostos “amigos” para conversar, mas ninguém estava disponível. Ninguém queria saber dos problemas dela. Ninguém a amava de verdade. Ela foi encontrada morta na manhã seguinte ainda segurando o telefone.

— Mas… mas… isso é de uma burrice!! Por que ela não… Por que ela não foi procurar desfrutar de outras coisas que a vida tinha pra lhe oferecer? Viajar o mundo, conhecer pessoas diferentes, aprender xadrez, sei lá!

— Você não poderia ter feito essas escolhas por ela, Sofia. Ter alguém pra conversar, naquela noite, não era como o meu título de Mestre de xadrez, nem como a sua torta alemã com Coca-Cola. Era muito mais do que isso: era vital.

— Como o ar que se respira… 

Marilyn Monroe

Qual o sentido da vida? (parte 10)

— Eu acho que há uma falha bem evidente nesse seu raciocínio.

Sofia meio que suspendeu um pouco o corpo sobre a mesa em minha direção, apoiando-se nos cotovelos, enquanto me apontava ameaçadoramente seu garfo sujo de chocolate.

— E o que seria…?

— Para muitas pessoas, dinheiro não é problema. Com certeza há um monte de garotas riquíssimas por aí que também odeiam química.

Eu finalmente comecei a comer a fatia de torta que ela tinha me oferecido.

— Nossa! Mas tá uma delícia mesmo!

— Você não percebe? Elas não precisam do dinheiro.

— Se são riquíssimas, não devem precisar. Mas me diga: você acha que os ricos têm o direito de deixar seus filhos sem instrução só porque eles não terão necessidade de emprego no futuro?

— Bom, eu… Talvez por causa… de alguma lei…

— É mais ou menos por aí. Mas se você fosse bilionária, e se não tivesse que se preocupar com lei nenhuma, você deixaria de mandar seus filhos pra escola?

— Eu acho que não…

— E por quê?

— Eu… acho que… porque eles iriam crescer e viver no meio de um monte de gente instruída, com profissão, doutorado e tal… Eles iriam se sentir, talvez, incompletos, inferiorizados, sei lá!

— Apesar de não precisarem se preocupar com dinheiro.

— Apesar disso.

— Concordo com você. E espero que você acredite em mim quando digo que ainda vai sentir muita saudade desse seu tempo de escola. Não das aulas detestáveis de química e coisas do tipo, mas de todo esse período da sua vida.

— Você falou igualzinho à minha mãe agora.

— E você um dia vai repetir essas palavras dela para os seus próprios filhos. 

— Provável. Mas, enfim… Seu argumento está blindado contra as minhas investidas…

— Na verdade, quando você começou falando de dinheiro, eu achei que iria utilizar uma artilharia mais pesada. 

— E qual seria?

— Em vez de ter abordado crianças ricas que odeiam química, você poderia ter introduzido um tema bem mais polêmico e que, aparentemente, desbancaria a minha tese.

— Como assim? Que tema polêmico?

— Levando-se em conta que ter muito dinheiro possibilitaria que alguém passasse a vida apenas desfrutando de todos os prazeres que ela tem a oferecer; e uma vez que eu afirmei que o sentido da vida é ter prazer, o que lhe vem de imediato à cabeça?

— Por que os ricos cometeriam suicídio? 

suicídio

Qual o sentido da vida? (parte 9)

torta alemã

— Isso significa o quê? Que a vida só faz sentido se a gente tiver posses?

— Significa que a vida só faz sentido se — e enquanto — conseguimos obter prazer dela.

— Ah! Uma professora já me explicou como se chama isso: hedonismo. E ela mostrou que é um pensamento bem equivocado.

— Foi mesmo?

— Mas é claro! Tem várias coisas na vida que a gente faz sem sentir prazer.

— Por exemplo?

— Por exemplo… Assim: eu detesto química, sabe? Detesto. E tenho que estudar mesmo sem gostar. Logo, essa estória de hedonismo não cola.

— Isso porque você está vendo as coisas de uma forma superficial. Quer ver só? Se você não sente prazer estudando química, por que simplesmente não para de estudar essa matéria?

— Você tá louco? Se eu não estudar química eu sou reprovada!

— Hummm… Então você estuda química pra passar de ano?

— E não é?

— Por que você quer passar de ano?

— Ah, que tava demorando isso…

— Eu quero completar meu raciocínio. Você só vai ajudar se responder.

— Eu já sei disso. Eu quero passar de ano pra poder terminar o Ensino Médio, fazer faculdade…

— Pra quê?

— Ora, pra ter uma profissão, pra ganhar meu dinheiro…

— Pra que você quer o dinheiro?

— Ai, ai… Pra que serve o dinheiro?

— Me diga você.

— Pra comprar coisas.

— Como uma torta alemã?

— Por exemplo, sim.

— E pra que você compraria uma torta alemã?

— Pra matar a fome, me alimentar, não é óbvio?

— Será? São duas e meia da tarde. Muito provavelmente você almoçou há menos de três horas. Fome não é o caso aqui. Como não é o caso quando você come torta alemã imediatamente após ter almoçado, como sobremesa. Sem um pingo de fome. A pergunta é: por que você comeria uma fatia de torta alemã logo depois de ter almoçado fartamente?

— Me diga você.

— Pra sentir prazer, Sofia. O mesmo prazer que você pretende obter comprando coisas com seu próprio dinheiro, depois que tiver uma profissão, que é o que te faz querer passar de ano e, pra isso, estudar uma matéria que você detesta. Como química, por exemplo.

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